O bambara ou bamana, conhecido localmente como Bamanankan (N’Ko:ߒߞߏ, literalmente "som bamana(n)"), é uma língua falada principalmente no Mali, mas também em alguns países vizinhos, como Burquina Fasso, Costa do Marfim e Gâmbia, no oeste da África, com aproximadamente 14 milhões de falantes. Entre esses, cerca de 4 milhões de pessoas, pertencentes ao grupo étnico bambara (ou bamana), têm o bambara como língua materna. Serve como língua franca no Mali, onde se estima que cerca de 80% da população o utilize como língua materna ou segundo idioma.
miniaturadaimagem|Extensão histórica dos bambaras Classificação O bambara pertence a um grupo de línguas próximas entre si localizados no ramo centro-sudoeste do grupo das línguas mandê, que por sua vez se insere dentro da família de línguas nigero-congolesas. Geralmente, os falantes nativos consideram determinadas línguas mandé como sendo mutuamente inteligíveis. É o caso do bambara, onde as diferenças entre ele e o diúla, utilizado extensivamente em Burquina Fasso, Costa do Marfim e Gâmbia, são mínimas.
História A origem do bambara está diretamente relacionada ao surgimento dos bamanas. Porém, estes não têm proveniência totalmente comum. Não existem documentos que relatam o surgimento desse povo. As informações existentes foram transmitidas pela tradição oral, por meio dos griôs (chamados "jeli" em bambara), que conheciam linhagens de todas famílias reais e a história do país. O povo aprendia sobre a história através dos griôs, que cantavam nas ruas e em cerimônias (principalmente casamentos). Assim sendo, os dados mais precisos datam o surgimento dos bambara a partir do , no Império do Gana. Durante esse Império, nas terras ao sul, viviam os grupos mandês que falavam tanto bambara quanto outras línguas (como mandingas, julas etc.).
Após o fim do Império do Gana no , com a submissão ao Império do Mali, os grupos mandês já estavam mais definidos e separados, se organizando em grandes aldeias - principalmente mandingas e bambaras - reunidas em territórios com caráter de Estado. Nesse momento, o bambara ainda não possuía escrita, sendo uma língua passada de geração em geração de forma oral.
Com a chegada do , o Império do Mali entrou em decadência, sendo dominado pelos Songais, que construíram o Império Songai nos antigos territórios Mali. A partir desse período, os bambara realizaram grandes migrações, estabelecendo-se nas terras do atual Mali, onde permanecem até hoje.
Depois de se fixarem próximo ao delta interior do rio Níger, na região de Segu (atual Mali), o povo bambara começou a crescer e assim a língua bambara passou a ser mais conhecida e falada. No , começou a sofrer muita influência do francês, devido à colonização francesa na região oeste da África. Presentemente, é uma das principais línguas mandês vigentes.
Distribuição Geográfica Falado na África Oriental, na área acima do rio Níger, em alguns países como: Mali, Costa do Marfim, Gâmbia, Mauritânia, Níger, Burquina Fasso e Senegal.
Status Oficial O Bamana, é a língua franca do Mali, terceira língua da Costa do Marfim e quinta língua do Senegal, sendo considerada como língua reconhecida (de acordo com 1982, Decreto No. 159 de 19 Julho, artigo 1) de nível 4 (EGIDS). Há instituições, além dos lares e comunidades, que usam e ensinam o idioma, de modo que a língua está em constante crescimento.
Dialetos Existem muitos dialetos locais, porém a principal divisão é entre o Bambara padrão e os dialetos rurais.Esses dialetos são falados em vários níveis de proficiência diferentes por 80% da população do Mali. Alguns dialetos rurais são: Somono (Kombye), Segou, San, Beledugu, Ganadugu, Sikasso e Wasulunkakan (Maninkakan, Wasulu, Wassulunka, Wassulunke, Wassulu, Wasuu).
Fonologia
Vogais O bambara possui sete vogais orais, /a/, /ɛ/, /ɔ/, /e/, /o/, /u/, /i/, sendo /a/ a vogal mais presente na língua. Além dessas, existem as vogais nasais, caracterizadas pela vogal oral nasalizada. Na escrita, as vogais nasais são representadas pela vogal oral seguida da letra <n> , <an>, <ɛn>, <ɔn>, <en>, <on>, <un>, <in>. São utilizadas de maneira arbitrária em certas palavras (como em bán, 'finalizar' ou kón, 'intervalo') e de maneira menos frequente que as orais. +anteriorcentralposteriorfechadaiusemifechadaeosemiabertaɛɔabertaa O quadro das vogais bambara é muito similar ao quadro das vogais do português brasileiro.
Consoantes São 19 consoantes existentes. O <p> bilabial oclusivo surdo é raro, usado geralmente como inicial e para expressar uma noção semântica de intensidade (ex: pélepele, 'completamente'). +Fones consonantaisbilabiallabiodentaldentalpalatalvelaroclusivapbt̪d̪cɟkgfricativafðʝɣnasalmnɲŋaproximante laterall̪aproximantewy
Tons O bambara é uma língua tonal, usando as diferenças de altura de maneira distintiva. Os dois tons existentes são o tom alto (h), representado por um acento agudo (‘), e o tom baixo (b), representado por um acento grave (`). Todos os tons verificados são a combinação desses dois tons. A atribuição tonal é arbitrária, exceto no caso dos verbos emprestados do francês, que são sempre altos.
Para entender os tons do bambara, é preciso analisar seus esquemas tonais, ou seja, as configurações de tons que formam um padrão para um conjunto de palavras da língua (Dumestre, 2003). Em mais de 90% das palavras, somando todas as classes, são usados dois esquemas: um alto (h) e um ascendente (a). Nas demais são usados esquemas menores, que são muito mais variáveis.
Escritas
Alfabeto Ma-Sa-Ba
Foi desenvolvida por Woyo Couloubayi (1910-1982), habitante da aldeia Assatiémala, do povo Masasi, na região de Kaarta, em 1930. O sistema de escrita tinha um total de 123 caracteres e, segundo Woyo, foi-lhe revelado durante uma noite de reflexão. Essa escrita foi progressivamente abandonada com o passar dos anos. Alfabeto N’Ko Alfabeto criado especialmente para as línguas mandê por Soloma Kante em 1949, após ter ouvido um jornalista europeu comparando as línguas indígenas africanas com o barulho dos pássaros, por serem ambos “incompreensíveis”. Em N’Ko existem 26 consoantes e 7 vogais, juntamente com uma escrita feita da direita para a esquerda. Apesar de não ser o mais utilizado pelo bambara nos dias de hoje, ainda é ensinado e possui uma data de comemoração, dia 14 de abril. N'Ko significa 'Eu disse' em todas as línguas mandê. +Consoantes N'KoN'Koalfabeto latinoߙrߘdߗchߖjߕtߔpߓbߡmߟlߞkߝfߜgbߛsߚrrߒn'ߦyߥwߤhߣnߢny
+Vogais N'KoN'Koalfabeto latinoߐɔߏoߎuߍɛߌiߋeߊa
Tons A escrita N’Ko contém 7 diacríticos que marcam os 2 tons existentes, inseridos acima de vogais (curtas ou longas), que podem admitir esquemas tonais distintos (alto, baixo, ascendente e descendente). +altobaixoascendentedescendentecurtalonga Existe uma versão N'Ko da Wikipédia desde 2019, com 435 usuários e 468 artigos.
Exemplo de escrita em N’Ko:
Alfabeto Latino Devido à colonização francesa no Mali, o alfabeto latino se tornou o alfabeto mais usado em bambara, onde sofreu alguns ajustes ao seu sistema fonológico. O alfabeto latino prevê mais consoantes do que a língua bambara (como o <v>). Em contrapartida, esse alfabeto tem cinco vogais, enquanto a língua bambara tem sete, adicionando dois símbolos novos (<ɛ> e <ɔ>). De modo geral, o <ɛ> equivale a <é> em português, enquanto o <ɔ> equivale ao <ó> em português.
São poucos os que sabem ler e escrever em bambara, mesmo 80% da população falando a língua, uma vez que os alunos do Mali aprendiam a ler e escrever apenas em francês até o final do . Após esse período, o Ministério da Educação do país modificou o currículo para começar a educação das crianças em bambara e introduzir o francês aos poucos. Existe um pouco de resistência com relação a este currículo, mas as escolas que estão, de fato, implementando tais mudanças mostram resultados promissores na valorização da língua. +Grafemas consonantaisbilabiallabiodentaldentalpalatalvelaroclusivopbtdcjkgfricativofrshnasalmnɲŋaproximante laterallaproximantewy A maioria das letras é pronunciada como no francês, exceto em dois casos específicos:
1- d e t, que são pronunciadas em francês como [d͡ʒ] e [t͡ʃ] em ‘diamant’ e ‘tien’.
2- in no final de palavras, que é pronunciado mantendo o valor do i. Opostamente em francês, o n é pronunciado em detrimento do i, como em ‘moulin’ .
Já em comparação ao português brasileiro, as letras bambara são pronunciadas majoritariamente de forma diferente, tendo pronúncias comuns apenas:
1- p e b, oclusivas bilabiais
2- f, fricativa labiodental
3- m, nasal bilabial
Na escrita latina, os tons bambara são representados por dois diacríticos, um acento agudo e um acento grave, representando tom alto e baixo, respectivamente. +Tonsalto´baixo`
Morfossintaxe O bambara pertence à família das línguas analíticas, em que cada palavra normalmente corresponde a um conceito. Essa língua consiste em muitas palavras monossilábicas de pronúncia fácil para falantes de francês e português e algumas polissilábicas (quase todas com terminação vocálica). Se existir uma palavra com pronúncia difícil, ela deve ser estrangeira, provavelmente árabe.
Além disso, bambara é uma língua aglutinativa, tendo o radical (seja substantivo, adjetivo ou verbo) sempre intacto. Sua morfologia, portanto, se resume à justaposição do radical com um elemento auxiliar, sufixo ou prefixo.
A justaposição é imediata quando a relação entre os termos é íntima e logicamente necessária ou quando um dos termos é um nome deverbal. Abaixo estão exemplos da justaposição imediata com relação de posse, nos quais as palavras destacadas são os elementos auxiliares:
samba-fa, ‘pai do samba’ (lit. samba pai)
dyougoû-boli, ‘a fuga dos inimigos’(lit. inimigos fuga)
Quando um termo for um nome de ação ou um particípio passado, a justaposição é feita pela intercalação da partícula ka entre os dois termos.
Exemplo:
demba ka bougolé, ‘aquele que Demba bateu’ (lit. Demba aquele bateu)
Ordem das palavras A língua bambara tem a estrutura sujeito-objeto-verbo (SOV), onde o sujeito consiste em um grupo nominal (substantivo simples ou pronome). Exemplo:
Birama ye liburu kalan
Sujeito marca objeto verbo
Birama passado livro ler (Birama leu o livro)
Nomes O gênero dos substantivos não é marcado para objetos inanimados. Para seres vivos, quando quer se deixar o sexo explícito, adiciona-se ao final do nome a marca kè, ‘homem’ ou mouso, ‘mulher’, destacada nos exemplos abaixo. neutromasculinofemininoden, 'criança'den-kè, 'menino'den-mouso, 'menina'Sô, 'cavalo'Sô-kè, 'cavalo macho'Sô-mouso, 'égua'Oulou, 'cão'Oulou-kè, 'cão macho'Oulou-mouso, 'cadela' Já o plural dos nomes é formado pela adição da desinência ou (destacada abaixo). singularpluralMa, 'um homem'Mâou, 'homens'Misi, 'bovino'Misiou, 'bovinos'Dén, 'criança'Denou, 'crianças' Nas palavras terminadas em ou no singular, o plural é indicado pela inserção de um acento circunflexo sobre a vogal u. Exemplo:
Dousou, 'alma'
Dousoû, 'almas'
Os pronomes pessoais possuem a mesma forma dos pronomes possessivos e sempre permanecem inalterados, independentemente de sua função. Nos casos de reflexividade, os pronomes da segunda pessoa do singular, primeira do plural e terceira do plural sofrem alteração, ficando i, anou e olou. bambaraportuguêsprimeira pessoa singularNéeu, meu/minhasegunda pessoa singularE, Ivocê, seu/suaterceira pessoa singularAele/ela, dele/delaprimeira pessoa do pluralAn, anounós, nosso/nossasegunda pessoa do pluralAouvocês, de vocêsterceira pessoa do pluralOu, oloueles/elas, deles/delas É comum a forma né de primeira pessoa do singular sofrer transformação para m em contexto de fronteira de palavra iniciada por b, m ou p. Em negrito abaixo, está demonstrada a transformação da primeira pessoa. Exemplos:
M’ba, ‘minha mãe’
M’m’a mé, 'eu não entendo'
M’bé kénéa san kosobé, 'estou me recuperando bem agora'
Verbos