Gonorreia, blenorragia, blenorreia, uretrite gonocócica ou popularmente esquentamento, purgação ou pingadeira, é uma infecção sexualmente transmissível (IST) causada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae, também chamada de gonococo. A infecção pode envolver os genitais, a boca ou o reto. É a infecção sexualmente transmissível mais comum e parece ser a mais antiga também.
A gonorreia é transmitida através do contato sexual com uma pessoa infectada, ou por transmissão de mãe para filho durante o parto. Homens infectados podem apresentar dor ou ardor ao urinar, secreção do pênis ou dor testicular. Mulheres infectadas podem apresentar ardor ao urinar, corrimento vaginal, sangramento vaginal entre os períodos ou dor pélvica. Complicações em mulheres incluem doença inflamatória pélvica e, em homens, incluem inflamação do epidídimo. Muitos dos infectados, entretanto, não apresentam sintomas. Se não tratada, a gonorreia pode se espalhar para as articulações ou para as válvulas do coração. A gonorreia afeta cerca de 0,8% das mulheres e 0,6% dos homens. Estima-se que ocorram entre 33 e 106 milhões de novos casos a cada ano. Em 2015, a gonorreia causou cerca de 700 mortes.
A gonorreia, assim como outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), é cercada por estigmas sociais, associada a comportamentos considerados promíscuos. No entanto, a verdade é que qualquer pessoa pode contrair a doença, caso tenha relação sexual sem preservativo.
Nomes A gonorreia também é conhecida como blenorragia, blenorreia, gonococia e uretrite gonocócica. Popularmente, é chamada de esquentamento, purgação e pingadeira. Os termos "esquentamento" e "pingadeira" devem-se ao fato da bactéria da doença, Neisseria gonorrhoeae, causar inflamação e infecção no canal urinário, e secreção purulenta constante pela uretra. Em inglês, a gonorreia é conhecida informalmente como "clap", e uma teoria sobre a origem do termo está relacionada à expressão popular francesa "les clapiers", que significa "aqueles que escondem-se em tocas", usada para descrever os frequentadores de bordéis da França.
Etimologia O termo "gonorreia" tem origem no grego "gonorrhoía", que significa "corrimento nos órgãos genitais". Foi incorporado ao latim "gonorrhoea".
História
Alguns estudiosos traduzem os termos bíblicos (para um homem, ) e (para uma mulher, ) como gonorreia.
Foi sugerido que o mercúrio foi utilizado como tratamento para a gonorreia. Instrumentos cirúrgicos a bordo do navio de guerra inglês recuperado, a Mary Rose, incluíam uma seringa que, segundo alguns, era utilizada para injetar o mercúrio através do meato urinário em tripulantes com gonorreia. O nome "the clap", em referência à doença, é registrado já no século XVI, referindo-se a um distrito de luz vermelha medieval em Paris, Les Clapiers. Traduzido como "As tocas de coelho", foi assim denominado devido às pequenas cabanas onde trabalhavam as prostitutas. conforme citado na entrada do Oxford English Dictionary para "clap".
Nitrato de prata foi um dos medicamentos amplamente utilizados no século XIX. Contudo, foi substituído pelo Protargol. Arthur Eichengrün inventou esse tipo de prata coloidal, que foi comercializado pela Bayer a partir de 1897. O tratamento à base de prata foi utilizado até que os primeiros antibióticos entrassem em uso na década de 1940.
Não é possível determinar com exatidão a época do surgimento da gonorreia como doença prevalente ou epidêmica a partir dos registros históricos. Uma das primeiras anotações confiáveis ocorre nos Atos do Parlamento Inglês, que, em 1161, aprovou uma lei para reduzir a disseminação da "perigosa enfermidade da queimação". Os sintomas descritos são consistentes com, mas não são diagnósticos de, gonorreia. Um decreto semelhante foi emitido por Luís IX na França em 1256, substituindo a regulação pelo banimento. Sintomas semelhantes foram notados durante o cerco de Acre pelos Cruzados.
Coincidente ou dependente do surgimento de uma epidemia de gonorreia, diversas mudanças ocorreram na sociedade medieval europeia. Cidades contrataram médicos de saúde pública para tratar os pacientes afetados sem direito de recusa. Papa Bonifácio VIII revogou a exigência de que os médicos completassem estudos para as ordens inferiores do sacerdócio católico.
Médicos de saúde pública medievais, contratados por suas cidades, eram obrigados a tratar prostitutas infectadas com a "queimação", bem como leprosos e outros pacientes afetados por epidemias. Após o Papa Bonifácio secularizar completamente a prática da medicina, os profissionais passaram a estar mais dispostos a tratar infecções sexualmente transmissíveis.
Sinais e sintomas Infecções por gonorreia nas membranas mucosas podem causar inchaço, coceira, dor e formação de pus. O tempo entre a exposição e o aparecimento dos sintomas geralmente varia entre dois e 14 dias, com a maioria dos sintomas surgindo entre quatro e seis dias após a infecção, caso se manifestem. Tanto homens quanto mulheres com infecções na garganta podem apresentar dor de garganta, embora essa infecção não produza sintomas em 90% dos casos. Outros sintomas podem incluir gânglios linfáticos inchados ao redor do pescoço. Ambos os sexos podem ser infectados nos olhos ou no reto se esses tecidos forem expostos à bactéria, o que pode levar a dor ao evacuar, secreção retal ou constipação.
Mulheres Metade das mulheres com gonorreia são assintomáticas mas a outra metade apresenta corrimento vaginal, dor na parte inferior do abdômen ou dor durante o ato sexual associada à inflamação do colo uterino. Complicações médicas comuns da gonorreia não tratada em mulheres incluem a doença inflamatória pélvica, que pode causar cicatrizes nas trompas de Falópio e resultar em gravidez ectópica entre aquelas que engravidam. O órgão mais atingido é o colo do útero.
Homens A maioria dos homens infectados que apresenta sintomas tem inflamação da uretra peniana associada a uma sensação de queimação ao urinar e secreção do pênis. Em homens, a secreção, com ou sem queimação, ocorre em metade dos casos e é o sintoma mais comum da infecção. Essa dor é causada por um estreitamento e enrijecimento do lúmen da uretra. A complicação médica mais comum da gonorreia em homens é a inflamação do epidídimo. A gonorreia também está associada a um aumento do risco de câncer de próstata.
Recém-nascidos thumb|right|Um recém-nascido com gonorreia ocular Se não tratada, a conjuntivite neonatal gonocócica se desenvolverá em 28% dos bebês nascidos de mulheres com gonorreia.
Transmissão Se não tratada, a gonorreia pode se espalhar do sítio original de infecção e infectar, danificando, as articulações, a pele e outros órgãos. Indícios disso podem incluir febre, erupções cutâneas, feridas e dor e inchaço nas articulações. Em casos avançados, a gonorreia pode causar uma sensação geral de cansaço, similar a outras infecções. Também é possível que um indivíduo desenvolva uma alergia à bactéria, caso em que os sintomas se intensificarão significativamente. Muito raramente, a infecção pode se estabelecer no coração, causando endocardite, ou na coluna vertebral, causando meningite. Ambas as complicações são mais prováveis em indivíduos com o sistema imunológico comprometido.
Causa
thumb|Pus corado por Gram de uma descarga uretral, mostrando diplococos Gram-negativos intracelulares A gonorreia é causada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae. Infecções anteriores não conferem imunidade – uma pessoa que já foi infectada pode ser reinfectada pela exposição a alguém infectado. Indivíduos infectados podem transmitir a doença repetidamente sem apresentarem sinais ou sintomas próprios.
Transmissão A infecção geralmente é transmitida de uma pessoa para outra através de sexo vaginal, sexo oral ou sexo anal. Homens têm um risco de 20% de contrair a infecção em um único ato de sexo vaginal com uma mulher infectada. O risco para homens que fazem sexo com homens (HSH) é maior.Howard Brown Health Center: STI Annual Report, 2009 Homens inserentes em relações sexuais com outros homens podem contrair infecção peniana a partir do sexo anal, enquanto homens receptivos podem contrair gonorreia anorretal. Mulheres têm um risco de 60–80% de contrair a infecção em um único ato de sexo vaginal com um homem infectado.National Institute of Allergy and Infectious Diseases; National Institutes of Health, Department of Health and Human Services (20 July 2001). "Workshop Summary: Scientific Evidence on Condom Effectiveness for Sexually Transmitted Disease (STD) Prevention". Hyatt Dulles Airport, Herndon, Virginia. pp14
Uma mãe pode transmitir a gonorreia para seu recém-nascido durante o parto; quando afeta os olhos do bebê, é denominada oftalmia neonatorum. A transmissão também pode ocorrer por meio de objetos contaminados com fluidos corporais de uma pessoa infectada. A bactéria normalmente não sobrevive por muito tempo fora do corpo, geralmente morrendo em minutos a horas.
Fatores de risco Verificou-se que mulheres sexualmente ativas com menos de 25 anos e homens que fazem sexo com homens estão com risco aumentado de contrair gonorreia.
Outros fatores de risco incluem:
Ter um novo parceiro sexual Ter um parceiro sexual que possui outros parceiros Ter mais de um parceiro sexual Ter tido gonorreia ou outra infecção sexualmente transmissível
Complicações A gonorreia não tratada pode levar a complicações graves, tais como:
Infertilidade em mulheres. A gonorreia pode se espalhar para o útero e as trompas de Falópio, causando doença inflamatória pélvica (DIP). DIP pode resultar em cicatrizes nas trompas, maior risco de complicações na gravidez e infertilidade, podendo ser fatal, principalmente em indivíduos imunocomprometidos. DIP requer tratamento imediato. Infertilidade em homens. A gonorreia pode causar inflamação de um pequeno tubo em forma de espiral na parte posterior dos testículos, onde estão localizados os ductos deferentes, levando à epididimite. A epididimite não tratada pode ocasionar infertilidade. Infecção que se espalha para as articulações e outras áreas do corpo. A bactéria causadora da gonorreia pode disseminar-se pela corrente sanguínea e infectar outras partes do corpo, inclusive as articulações. Febre, erupções cutâneas, feridas na pele, dor, inchaço e rigidez nas articulações são possíveis. Risco aumentado de HIV/AIDS. Ter gonorreia aumenta a suscetibilidade à infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), o vírus que leva à AIDS. Pessoas que apresentam tanto gonorreia quanto HIV (não tratadas com terapia antirretroviral) podem transmitir ambas as doenças com maior facilidade a seus parceiros. Complicações em bebês. Bebês que contraem gonorreia de suas mães durante o parto podem desenvolver cegueira, feridas no couro cabeludo e infecções.
Diagnóstico Tradicionalmente, a gonorreia era diagnosticada com a coloração de Gram e cultura; entretanto, métodos de teste mais recentes baseados na reação em cadeia da polimerase (PCR) estão se tornando mais comuns. Se o tratamento inicial falhar, deve ser realizada uma cultura para determinar a sensibilidade da bactéria aos antibióticos.