Bordéus ou Bordeaux (em francês Bordeaux [bɔʁdo]; em occitano Bordèu [buɾˡdɛʊ]) é a capital e a maior cidade do departamento da Gironda e da região Nova Aquitânia, no sudoeste da França. Designou-se Burdígala na Antiguidade.

A comuna de Bordéus tem cerca de 267 991 habitantes (2023) distribuídos em um território de 49 km², enquanto que a área metropolitana de Bordeaux–Arcachon–Libourne conta com cerca de 1 376 375 residentes (2020), a sexta mais populosa da França, atrás apenas de Paris, Lyon, Marselha, Lille e Toulouse. É atravessada pelo rio Garona. Os habitantes de Bordéus designam-se, em português, "bordaleses" (em francês, Bordelais).

A cidade é famosa em todo o mundo pelos vinhos, sobretudo desde o , que lhe proporcionaram uma verdadeira idade de ouro. Capital da antiga Guyenne (aproximadamente a Aquitânia actual), Bordéus faz parte da Gasconha e é situada na fronteira das chamadas Landes de Gascogne. Foi classificada em 2007 como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO que reconheceu o excepcional conjunto urbano que representa.

Desde a libertação da cidade, na Segunda Guerra Mundial, a cidade cresceu e é hoje sede de uma das maiores áreas metropolitanas europeias do litoral, sendo um destino turístico muito apreciado.

Etimologia O nome Bordeaux deriva do antigo nome latino Burdigala, conhecido desde o século I. Seu significado permanece incerto. A hipótese mais aceita entre os linguistas modernos propõe uma origem aquitana (proto-basca), composta pelas raízes burd- ("lodoso", "pantanoso") e gala ("abrigo", "enseada"), significando algo como "abrigo nos pântanos" ou "enseada pantanosa". Outras interpretações, de origem celta ou basca, foram propostas ao longo dos séculos, mas não alcançaram consenso.

História Pré-história e Antiguidade lef|thumb|230px|Anfiteatro romano local chamado "Palácio de Galiano" (Palais Gallien)

Entre e anos atrás, a zona de Bordéus era habitada por Neandertais, cujos restos foram encontrados na gruta Pair-non-Pair, perto de Bourg-sur-Gironde, a norte da cidade. Por volta de 300 a.C., a região era um assentamento da tribo celta dos Bitúriges Viviscos.

Em 107 a.C., ocorreu a Batalha de Burdígala, travada entre os romanos, que defendiam os Alóbroges, uma tribo gaulesa aliada de Roma, e os tigurinos, liderados por Divico. Os romanos foram derrotados, e seu comandante, o cônsul Lúcio Cássio Longino, morreu em combate.

A cidade passou ao domínio romano por volta de 60 a.C. e tornou-se um importante centro comercial de estanho e chumbo. Durante esse período, foram construídos o anfiteatro e o monumento conhecido como Les Piliers de Tutelle ("Os Pilares de Tutela").

Em 276 d.C., a cidade foi saqueada pelos Vândalos. Estes voltaram a atacá-la em 409, seguidos pelos Visigodos em 414 e pelos Francos em 498. Posteriormente, Bordéus entrou em um período de declínio.

Idade Média

No final do século VI, Bordéus voltou a ganhar importância ao tornar-se sede de um condado e de uma arquidiocese do Reino Merovíngio, consolidando-se como um importante centro urbano na fronteira do Ducado da Vasconia. Durante o século VIII, a cidade foi disputada entre francos, aquitanos e omíadas. Em 732, foi saqueada pelas tropas de Abderramão ibne Abdalá Algafequi, mas permaneceu sob controle aquitano. Após sucessivas campanhas francas, Bordéus foi definitivamente incorporada ao Reino Franco por Pepino, o Breve, entre 760 e 768. Pouco depois, Carlos Magno reforçou a defesa da região com a construção da fortaleza de Fronsac. Durante o período carolíngio, os condes de Bordéus (governantes locais) tinham também a missão de conter os bascos e proteger a foz do Garona contra as incursões vikings.

Embora o porto de Bordéus fosse um movimentado centro comercial, a estabilidade e a prosperidade da cidade eram ameaçadas pelas incursões dos vikings e normandos, além da instabilidade política. A restauração dos duques ramnulfitas da Aquitânia, sob Guilherme IV da Aquitânia e seus sucessores da Casa de Poitiers, trouxe maior continuidade ao governo.

thumb|Mapa de Bordéus durante o século XIV

200px|thumb|Catedral de Santo André

Do século XII ao século XV, Bordéus voltou a prosperar novamente após o casamento de Leonor da Aquitânia e a última da Casa de Poitiers, com Henrique II de Inglaterra, conde de Anjou e neto de Henrique I da Inglaterra, que sucedeu ao trono inglês meses após o casamento, dando origem ao vasto Império Angevino, que se estendia dos Pireneus à Irlanda.Le duché de Bretagne et la politique Plantagenêt aux XII et XIII siecles, Judith Everard. ", in Marin Aurell and Noël-Yves Tonnerre éditeurs. Plantagenêts et Capétiens, confrontations et héritages, Poitiers. Brepols, 2006, Turnhout. Collection Histoires de famille. La parenté au Moyen Âge, pg. 202 Após conceder um estatuto de comércio livre de impostos com a Inglaterra, Henrique foi adorado pelos habitantes locais, pois eles poderiam ser ainda mais lucrativos no comércio de vinho, sua principal fonte de renda, e a cidade se beneficiou das importações de tecidos e trigo. O campanário (Grosse Cloche) e a Catedral de Santo André (Cathédrale Saint-André de Bordeaux) em sua forma mais conhecida atualmente, símbolos da cidade, foram construídos na época do domínio inglês. Nos termos do Tratado de Brétigny, tornou-se brevemente a capital de um Estado independente (1362-1372) sob Eduardo, o Príncipe Negro, mas, após a Batalha de Castillon (1453), foi anexada pela França.

Idade Moderna thumb|Porto da Lua em 1759 Bordéus aderiu à Fronda, sendo efetivamente anexada ao Reino da França apenas em 1653, quando o exército de Luís XIV entrou na cidade.

O século XVIII marcou uma nova era de ouro para Bordéus. O Porto da Lua abastecia grande parte da Europa com café, cacau, açúcar, algodão e índigo, tornando-se o porto mais movimentado da França e o segundo mais movimentado do mundo, atrás apenas de Londres. Muitos dos edifícios do centro de Bordéus (cerca de 5 000), incluindo os situados nos cais, datam desse período.

Bordéus também foi um centro do comércio de escravos. No total, os mercadores trouxeram forçosamente 150 000 africanos em cerca de 500 expedições.

Revolução Francesa No início da Revolução Francesa (1789), Bordéus era um importante centro do movimento girondino, ligado à burguesia provincial que defendia o fim dos privilégios aristocráticos, mas se opunha às medidas sociais mais radicais da Revolução. Apesar da prosperidade gerada pelo comércio, incluindo o comércio colonial e o tráfico de escravizados, grande parte da população enfrentava pobreza e escassez de recursos, contribuindo para o descontentamento social. Em 1793, com a ascensão dos montanheses liderados por Maximilien de Robespierre e Jean-Paul Marat, muitos girondinos foram executados, e a cidade chegou a ser renomeada como "Commune-Franklin". A abolição da escravidão pelas autoridades revolucionárias em 1794 e, posteriormente, sua restauração por Napoleão Bonaparte em 1802, seguida pela independência do Haiti em 1804, afetaram profundamente o comércio colonial de Bordéus. Em 1814, durante o fim das Guerras Napoleônicas, a cidade apoiou a restauração dos Bourbons e foi ocupada pelas tropas britânicas de Arthur Wellesley, 1.º Duque de Wellington, recebidas com pouca resistência.

Idade Contemporânea thumb|O Porto da Lua em 1889 Durante a Restauração Francesa, a economia de Bordéus foi reconstruída por comerciantes e armadores, que impulsionaram a construção da primeira ponte da cidade e de novos armazéns. O tráfego marítimo cresceu com a expansão das novas colônias africanas. Em 1870, durante a Guerra Franco-Prussiana, o governo francês transferiu temporariamente sua sede para Bordéus.

Bordéus também foi a capital francesa por alguns meses durante a Primeira Guerra Mundial. Em 3 de setembro de 1914, após ataque aéreo alemão na cidade de Paris, o governo e o parlamento transferiram sua sede para a cidade, retornando para Paris somente no dia 22 de dezembro de 1914.O dia em que Paris deixou de ser a capital francesa Acervo Jornal Estadão

thumb|Base sous-marine de Bordeaux, base de submarinos convertida em centro de exposições

Durante a Segunda Guerra Mundial, Bordéus esteve sob ocupação alemã. Entre 1941 e 1943, a Marinha Real Italiana construiu em Bordéus a base de submarinos BETASOM (Bordeaux Sommergibile). Submarinos italianos participaram da Batalha do Atlântico a partir dessa base, que também serviu como importante instalação para os submarinos alemães U-Boot, como sede da 12.ª Flotilha de U-Boot. Os enormes abrigos de submarinos de concreto armado, construídos durante o período, mostraram-se difíceis de demolir e atualmente são utilizados como pavilhões de eventos e exposições.

Em 2007, 40% da área da cidade, localizada ao redor do Porto da Lua, foi considerada como Patrimônio Mundial pela UNESCO. A organização classificou Bordéus como "uma cidade histórica habitada, um conjunto urbano e arquitetônico excepcional, criado na Era do Iluminismo, cujos valores se estenderam até a primeira metade do século XX, com mais edifícios protegidos do que qualquer outra cidade francesa, depois de Paris".

Geografia thumb|253x253px|O rio Garona na passagem por Bordéus Bordéus está situada perto da costa Atlântica, no sudoeste da França. Em linha reta, dista 500 km de Paris, 172 km de Pau, 220 km de Toulouse, 170 km de Biarritz e 200 km de San Sebastian. É atravessada pelo rio Garona. Tem um porto acessível a grandes navios, embora presentemente a maior parte fique pela foz. Em Bordéus, fica a última ponte sobre o Garona, a ponte de Aquitânia. Para oeste, o rio alarga-se no estuário do Garona e só se pode atravessar de barco.

A aglomeração urbana tem crescido a um ritmo rápido, o que se reflete numa forte expansão especialmente para oeste. Esta expansão está relacionada com o facto de os edifícios em Bordéus poucas vezes terem mais de dois ou três pisos, mesmo perto do centro da cidade.

Clima O clima de Bordéus é classificado como clima oceânico (Cfb), segundo a classificação climática de Köppen-Geiger, fazendo transição para o clima subtropical úmido (Cfa). Entretanto, segundo a classificação climática de Trewartha, a cidade é classificada apenas como subtropical úmida, em razão do aumento recente das temperaturas, associado, em alguma medida, às mudanças climáticas e ao efeito de ilha de calor urbana.

A cidade apresenta invernos amenos e chuvosos, em razão de sua latitude relativamente meridional e da predominância de ventos de oeste, amenizados pelo Oceano Atlântico. Os verões são quentes e relativamente mais secos, embora ainda suficientemente úmidos para impedir sua classificação como clima mediterrânico. Geadas ocorrem anualmente, mas a neve é pouco frequente, registrando-se em apenas três ou quatro dias por ano. Durante a onda de calor na Europa em 2003, Bordéus registrou recorde de temperatura média, com 23,3 °C, enquanto fevereiro de 1956 foi o mês mais frio já registrado na medição do Aeroporto de Bordéus-Mérignac, com temperatura média de −2,0 °C.

Demografia Bordéus possui 267 991 habitantes (2023) e é a nona comuna mais populosa da França. Sua área urbana reúne mais de 1,3 milhão de habitantes. Após um período de despovoamento (de 284 494 habitantes em 1954 para 208 159 em 1982), a cidade voltou a crescer graças à renovação dos bairros históricos e à requalificação urbana do centro. Integra a Métropole de Bordéus, formada por 28 comunas. Na cidade há comunidades significativas de origem italiana, espanhola, portuguesa, turca e alemã. A maior parte dos imigrantes de Bordéus é de origem portuguesa (15 551 em 2019) e marroquina (15 507 em 2019).

Governo e Política thumb|Sede da prefeitura de Bordéus