A Primeira Guerra Púnica foi a primeira de três guerras travadas entre Roma e Cartago, as duas principais potências do Mediterrâneo Ocidental no início do século III a.C.. As duas lutaram por supremacia por 23 anos, o mais longo conflito contínuo e a maior guerra naval da Antiguidade. A guerra foi travada principalmente na Sicília e nas águas em torno, mas também no Norte da África. Os cartagineses foram derrotados depois de perdas imensas em ambos os lados.

A guerra começou em 264 a.C. com os romanos conquistando uma posição segura na Sicília em Messana. Eles então pressionaram Siracusa, a única potência independente significativa na ilha, a entrarem em aliança com o objetivo de cercar a principal base cartaginesa em Acragas. Um grande exército cartaginês tentou quebrar o cerco em 262 a.C., porém foi completamente derrotado na resultante Batalha de Acragas. Os romanos em seguida construíram uma marinha a fim de desafiar os cartagineses, empregando táticas inovadoras que infligiram várias derrotas. Uma base cartaginese na Córsega foi tomada, mas um ataque contra a Sardenha foi rechaçado. Os romanos aproveitaram-se de suas vitórias navais e lançaram uma invasão do Norte da África, mas foram interceptados. Os cartagineses acabaram derrotados novamente na Batalha do Cabo Ecnomo. A invasão inicialmente seguiu bem para os romanos e os cartagineses pediram por paz em 255 a.C., porém os termos propostos eram muito severos e consequentemente a luta continuou, com os invasores sendo derrotados. A tentativa cartaginesa de impedir a evacuação romana terminou em uma grande derrota, porém a frota romana acabou devastada em uma tempestade durante a viagem de volta para casa.

A guerra continuou, mas nenhum lado conseguiu conquistar uma vantagem decisiva. Os cartagineses atacaram e recapturaram Acragas em 255 a.C., porém a abandonaram por acharem que não seriam capazes de mantê-la. Os romanos rapidamente reconstruíram sua marinha e capturaram Panormo em 254 a.C.. No ano seguinte perderam mais de cem navios em uma tempestade. Os cartagineses tentaram recapturar Panormo em 251 a.C., porém foram derrotados no ataque. Os romanos lentamente capturaram a maior parte da Sicília e em 249 a.C. cercaram as duas últimas bases cartaginesas no oeste. Também lançaram um ataque contra a marinha cartaginês, mas foram derrotados na Batalha de Drépano. Os cartagineses continuaram na ofensiva e afundaram a maioria dos navios romanos na Batalha de Fíntia. Seguiram-se vários anos de impasse, com os romanos reconstruindo sua frota em 243 a.C. e bloqueando guarnições romanas. Cartago reuniu uma frota e tentou quebrar o bloqueio, mas foram derrotados na Batalha das Ilhas Égadas em 241 a.C., forçando-os a pedir por paz.

Os dois lados assinaram um tratado, pelos termos do qual Cartago pagou grandes reparações de guerra e a Sicília foi anexada como uma província romana. Roma depois disso tornou-se a principal potência militar no Mediterrâneo Ocidental e cada vez mais do Mediterrâneo como um todo. O enorme esforço para construir mais de mil navios durante a guerra criou as fundações para o domínio marítimo romano pelos seiscentos anos seguintes. O fim da guerra fez estourar uma revolta fracassada dentro da própria Cartago. A competição estratégica entre as duas potências permaneceu sem resolução, o que levou ao início da Segunda Guerra Púnica em 218 a.C..

Fontes primárias thumb|esquerda|upright=0.6|Estela de Políbio, historiador grego O termo púnico vem da palavra em latim punicus (também grafada como poenicus), que significa "cartaginês" e é uma referência à ancestralidade fenícia dos cartagineses. A principal fonte para quase todos os aspectos da Primeira Guerra Púnica é o historiador Políbio, um grego enviado a Roma em como refém. Seus trabalhos incluem um agora quase perdido manual sobre táticas militares, mas é mais conhecido por Histórias, escrito em algum momento após ou aproximadamente um século depois do fim da guerra. O trabalho de Políbio é considerado pelos historiadores modernos como sendo amplamente objetivo e em sua maior parte neutro entre os pontos de vista romano e cartaginês.

Registros escritos cartagineses foram destruídos junto com sua capital em , assim o relato de Políbio é baseado em várias fontes gregas e latinas agora perdidas. Políbio era um historiador analítico e sempre que possível entrevistou participantes dos eventos que escreveu a respeito. Apenas o primeiro livro dos quarenta que compõem Histórias lida com a Primeira Guerra Púnica. A precisão do relato de Políbio já foi muito debatida nos últimos 150 anos, mas o consenso moderno é aceitá-lo como está escrito na maior parte das vezes, com os detalhes da guerra em fontes modernas sendo quase que completamente baseados em interpretações do relato de Políbio. O historiador moderno Andrew Curry considera que "Políbio acaba sendo bem confiável", enquanto Dexter Hoyos o descreve como "um historiador notavelmente bem informado, trabalhador e perspicaz". Existem outras histórias posteriores sobre a guerra, porém são fragmentárias ou resumidas. Historiadores modernos geralmente levam em conta escritos fragmentários de vários analistas romanos, especialmente Lívio (que se baseou em Políbio), o greco-siciliano Diodoro Sículo e os escritores gregos posteriores Apiano e Cássio Dio. O classicista Adrian Goldsworthy afirmou que o "relato de Políbio deve ser geralmente preferido quando difere de qualquer outro de nossos relatos". Outras fontes incluem inscritos, evidências arqueológicas e evidências empíricas de reconstruções.

Dezenove rostros de bronze já foram encontrados por arqueólogos no mar próximos do litoral da Sicília desde 2010, uma mistura de romanos e cartagineses. Dez capacetes de bronze e centenas de ânforas também foram encontradas. Já foram recuperados os rostros, sete dos capacetes e seis ânforas intactas, mais um grande número de fragmentos. Acredita-se que os rostros estavam ligados a navios de guerra afundados quando foram depositados no fundo do mar. Os arqueólogos afirmaram que a localização dos artefatos apoia o relato de Políbio sobre onde ocorreu a Batalha das Ilhas Égadas. Os arqueólogos que encontraram os rostros, baseados em suas dimensões, acreditam que todos vieram de trirremes, contrariando o relato de Políbio de que todos os navios envolvidos eram quinquerremes. Entretanto, eles acreditam que muitas das ânforas identificadas confirmam a precisão de outros aspectos dos relatos de Políbio: "É a procurada convergência dos registros arqueológicos e históricos".

Antecedentes thumb|upright=1.1|Vista aérea dos restos da base naval da cidade de Cartago. Os restos do porto mercante estão no centro e o da base militar no canto inferior direito. A República Romana estava expandindo-se agressivamente no sul da península Itálica no século que precedeu à Primeira Guerra Púnica. Ela já tinha conquistado toda a península ao sul do rio Arno até quando cidades gregas na Magna Grécia se renderam ao final da Guerra Pírrica. Durante esse período, Cartago tinha dominado o sul da península Ibérica, boa parte das regiões litorâneas no Norte da África, Ilhas Baleares, Córsega, Sardenha e a metade ocidental da Sicília, sendo um império militar e comercial. Cartago lutou a partir de uma série de guerras inconclusivas contra as cidades-Estado gregas da Sicília, estas lideradas por Siracusa. Cartago e Roma eram por volta de as maiores potências do Mediterrâneo Ocidental. Os dois já tinham confirmado sua amizade mútua várias vezes: em 509, 348 e por volta de . As relações eram boas e tinham uma forte ligação comercial. Cartago, durante a Guerra Pírrica, contra Epiro que já tinha lutado contra os dois estados, proporcionou materiais militares aos romanos e em pelo menos uma ocasião usou sua marinha para transportar uma força romana.

Um grupo de mercenários itálicos conhecidos como mamertinos, anteriormente contratados por Siracusa, ocupou a cidade de Messana, no nordeste da Sicilia, em . Eles foram pressionados por Siracusa e recorreram em 265 a.C. a Roma e Cartago por ajuda. Os cartagineses agiram primeiro, pressionando o tirano Hierão II de Siracusa para não tomar mais ações e convencendo os mamertinos a aceitarem uma guarnição cartaginesa. Segundo Políbio, um considerável debate ocorreu então em Roma sobre se deveriam aceitar o pedido de ajuda. Como os cartagineses já tinham colocado uma guarnição em Messana, o envio de forças romanas poderia facilmente levar a uma guerra. Roma até então não tinha demonstrado interesse na Sicília e não queria prestar auxílio a um grupo de soldados que tinham tomado injustamente uma cidade de seus donos. Entretanto, muitos enxergaram as vantagens estratégicas e financeiras de conquistar uma base na Sicília. O Senado Romano, possivelmente pela instigação de Ápio Cláudio Cáudice, colocou a questão diante de uma assembleia popular em . Cáudice encorajou uma votação e divulgou que havia perspectiva de pilhagem; a assembleia decidiu aceitar o pedido dos mamertinos. Cáudice foi nomeado comandante de uma expedição militar com ordens de ir para a Sicília e colocar uma guarnição romana em Messana.

Forças Exércitos thumb|esquerda|upright=0.7|Detalhe do Altar de Domício Enobarbo mostrando dois soldados romanos do século II a.C. Cidadãos romanos homens adultos eram elegíveis para o serviço militar; a maioria servia na infantaria e uma minoria mais rica como a cavalaria. Os romanos tradicionalmente levantavam duas legiões, cada uma com uma cavalaria de trezentos e uma infantaria de 4,2 mil. Um pequeno número da infantaria serviam como escaramuçadores armados com lanças de arremesso. A infantaria pesada era equipada com armadura, escudo grande e espada curta. Eles eram divididos em três classes, com a primeira também carregando duas lanças de arremesso e as outras duas levando uma lança comum. Duas subunidades de legionários e legionários individuais lutavam em ordem relativamente aberta. Um exército era geralmente formado pela junção de uma legião romana com uma legião de tamanho e equipamentos similares enviada por um de seus aliados latinos.

Cidadãos cartagineses serviam no exército apenas se houvesse uma ameaça direta à própria cidade de Cartago. Os cartagineses na maioria das vezes recrutavam estrangeiros para formar seu exército. Muitos vinham de diferentes regiões do Norte da África, que proporcionava vários tipos de lutadores, incluindo: infantaria de ordem cerrada equipadas com escudos grandes, capacetes, espadas curtas e lanças longas; escaramuçadores de infantaria leve armados com lanças de arremesso; cavalaria de choque de ordem cerrada carregando lanças (também chamada de "cavalaria pesada"); e uma cavalaria leve de escaramuçadores que usavam lanças de arremesso à distância e evitavam combate próximo. Tanto a Ibéria quanto a Gália proporcionavam uma infantaria experiente, com tropas desprotegidas que atacavam ferozmente, mas que tinham a reputação de fugirem caso o combate se estendesse muito. A maior parte da infantaria cartaginesa lutava em uma formação cerrada conhecida como falange, geralmente formando duas ou três linhas. Fundibulários especialistas eram recrutados das Ilhas Baleares. Os cartagineses também empregavam elefantes de guerra; o Norte da África na época tinha elefantes-da-floresta nativos. As fontes não são claras se esses elefantes carregavam torres com lutadores.

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