thumb|Fachada da igreja atual. A Igreja do Divino Espírito Santo é um templo Católico e um prédio histórico localizado na cidade brasileira de Porto Alegre. Foi projetada em estilo eclético e inaugurada em 1935, para sediar as atividades da Irmandade do Divino, a mais antiga do estado. As capelas primitivas da Irmandade eram vizinhas da Igreja Matriz, no Centro Histórico, e até o início do século XX foram o centro da mais concorrida festa religiosa da cidade, até a última ser demolida em 1929 para abrir espaço para a nova Catedral Metropolitana.

A igreja atual se situa na Avenida José Bonifácio 753, junto ao Parque da Redenção, no bairro Farroupilha, fazendo frente para o bairro Bom Fim, sendo um dos principais marcos arquitetônicos da área. Foi incluída no Inventário do Patrimônio Histórico da Prefeitura, e sua Irmandade preserva um acervo documental. A Festa do Divino não desapareceu e ainda atrai muitos devotos.

História

As primeiras capelas

A devoção ao Divino Espírito Santo foi trazida para o Brasil pelos portugueses e gozou de imensa popularidade até o fim do século XIX.Braga, Reginaldo Gil. "Folias do Divino, bandas e foguetórios em antigos povoamentos açorianos do Rio Grande do Sul (Brasil): transformando e reorganizando antigas tradições ou (re)inventando raízes baseadas em rotas atlânticas recentes". In: Performa ’11 – Encontros de Investigação em Performance. Universidade de Aveiro, 2011 Em Porto Alegre chegou através dos povoadores açorianos, fazendo parte da sua identidade cultural,Graebin, Cleusa Maria Gomes & Januário, Ilda. "Mapeando festas do Espírito Santo no Rio Grande do Sul (Brasil) e no Quebec (Canadá)". In: Interfaces Brasil/Canadá, 2019; 19 (3): 125-148 mas não há documentação indicando com precisão a data em que começaram as Festas do Divino. thumb|Festa de recepção a D. Pedro II na Praça da Matriz em 1865. No fundo, à esquerda, a Capela do Divino, e à direita, a antiga Matriz da Mãe de Deus.

Um grupo de devotos provavelmente existiu desde os primórdios da povoação, que pode ter mantido sua adoração em um altar na Matriz primitiva. Em 1818 o arcediago Vicente Zeferino Dias Lopes escrevia dizendo que a Festa do Divino estava sendo celebrada na Matriz há muitos anos, e em 7 de outubro Amadeu Antônio de Faria, Antônio Fernandes Teixeira, Lourenço Júnior de Castro e João Coelho das Neves se reuniram, sob a presidência do vigário Antônio Vieira da Soledade, a fim de organizar uma Devoção formal, que em 10 de maio de 1821 abriu o seu primeiro livro de atas. Nesta data a Devoção já tinha um Império, descrito em ata de 5 de julho como uma edícula "com paredes de tijolo, coberto de telhas, com vinte e três palmos de largo, livres de parede, e trinta e seis e meio de fundos, livres de paredes, com duas janelas, e uma porta na frente", mas não é claro se era uma capela ou um depósito/sala de reunião. A fundação oficial da Devoção ocorreu em 25 de agosto de 1822, quando os Estatutos foram aprovados, sendo a primeira de que se tem notícia na província.

Assim que foi fundada, a Devoção comprou antigo consistório da Irmandade de Nossa Senhora das Dores para sediar suas atividades, localizado ao lado da nova Matriz, e em 9 de outubro de 1822 decidiu erigir um novo Império, que em 1835 é descrito como um sobrado "com 70 palmos de fundos e 24 de frente, assobradado para os fundos e envidraçado". A primeira menção à existência de uma capela propriamente dita data de 22 de outubro de 1838, e um inventário compilado dez anos depois indica um acervo de relíquias e ex-votos, incluindo "uma mão grande de prata; uma mão grande de pau; uma perninha de prata; um pé de prata, uma orelha de prata". Documentação visual só existe a partir de 1852, onde aparece apenas em parte em uma aquarela de Herrmann Wendroth. A primeira fotografia é Luiz Terragno, de 1865, em que são visíveis seu tamanho diminuto e sua feição neoclássica.Meirelles, Pedro von Mengden. "O Império da Praça da Matriz: as construções da Irmandade do. Divino Espírito Santo em Porto Alegre/RS". In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, 2025 (169) — Dossiê Infâncias e juventudes na América Latina thumb|left|À esquerda, a terceira capela.

Em outubro de 1862 a Devoção solicitou à Câmara a doação de um terreno na Praça da Matriz, localizado "entre a casa do baile e o paredão fronteiro à Assembleia Provincial", que foi indeferido. A razão do pedido não é informada, mas provavelmente fosse para construir uma capela maior. Em 1875 a Devoção apresentou seu Compromisso para aprovação eclesiástica, sendo erigida em Irmandade. Os planos para uma capela maior começaram a ser desenvolvidos, foi solicitada ao bispo a doação do terreno anexo à Matriz, aprovada em 7 de junho de 1877, mas a construção só iniciou em 5 de março de 1882, sob a supervisão do mestre construtor Antônio do Canto, resultando um edifício em estilo neogótico com 6,6 metros de largura e 15,40 de profundidade, contendo um altar entalhado, no mesmo estilo. Athos Damasceno elogiou a obra, dizendo que Antônio do Canto "muito se esmerou para não desmerecer do conceito que gozava. E incumbiu-se da decoração o insigne cenógrafo Orestes Coliva que fez obra à altura de seus indiscutíveis talentos". Este edifício passou por reformas em 1884, 1902 e 1911, que modificaram principalmente o aspecto original da fachada e do campanário. As obras de 1911 modificaram também o interior. Na sua reinauguração em 22 de dezembro, a impressa dizia:

"A impressão que se recebe, logo de entrada, é a melhor possível. Tudo foi atendido com solicitude, sendo a decoração belíssima, muito recomendando ao artista que a executou. A iluminação da capela é presentemente magnífica e de muito efeito, fornecida por mais de 150 lâmpadas elétricas. As pinturas são finíssimas, a óleo. O teto apresenta bonito efeito, vendo-se nele, no centro, a Pombinha do Divino, além de outras imagens. Acima do altar-mor aparece a imagem do Pai Eterno, circundado pelo arco-íris. As pinturas todas, magistralmente executadas, impressionam bem, pelo acerto das cores e combinações. O altar da capela foi todo reformado. Na frente, ao lado, foram colocadas duas elegantes mesinhas de cedro para salvas. Encarregou-se dos trabalhos de reconstrução o Sr. Boni Ferlini".

Esta capela também desapareceu, em 1929, para abrir espaço à nova Catedral Metropolitana.Custódio, Luiz Antonio & Klein, Liane (orgs.). "Viva o Centro a Pé". In: Memória Cultural — 5. Secretaria Municipal da Cultura, 2014, p. 122 Expulsa da Praça da Matriz, a Irmandade decidiu construir seu novo sacrário no campo da Redenção, então no bairro Bom Fim, o que ocorreu entre 1929 e 1935.

A Festa

A Festa do Divino se tornaria a mais popular festividade religiosa local, atraindo uma multidão de devotos.Laytano, Dante de. "Colonização Açoriana no Rio Grande do Sul". In: Revista de História, 1969; XXXI: 414 — Anais do IV Simpósio Nacional dos Professores Universitários de História: Colonização e Migração. Paula, Eurípedes Simões de (org.). Costumava acontecer entre maio e junho, iniciando com uma novena na Matriz, complementada por missas, procissão, visitas domiciliares da bandeira do Divino para recolher esmolas, visita a presidiários e outros atos de caridade, sempre concomitantes a variados entretenimentos populares que podiam se estender por mais de duas semanas. A cidade se engalanava para a passagem da solene procissão. Arsène Isabelle disse em 1834 que "as sacadas são guarnecidas de ricos tapetes de seda bordada com franjas de ouro; as confrarias azuis sucedem-se às vermelhas, estas às brancas, e estas às cinzas, etc. Cada uma leva relicários de santos, suntuosamente ornados, e depois, durante três dias, vendem-se publicamente, ao lado da igreja, rosários, escapulários, galinhas assadas, pastéis, licores, etc". Mais tarde Aquiles Porto Alegre deixou outro testemunho:

"Construíam o extenso barracão, os coretos e várias tendas para a venda do café, a três vinténs a xícara, pães, doces, gengibirra, maduro e outros refrescos. Além disso, a praça enchia-se à noite, de tabuleiros de frutas, de caixas envidraçadas de doces, de balaios e cestos de pinhões e amendoim torrado, de travessas de peixe frito, com rodelas de cebolas, de bandejas de balas, e de uma infinidade de outras quitandas. [...] E tudo na Praça era animação, música, alegria. De espaço a espaço subiam aos ares balões, espocava um foguete ou estrondava um morteiro. Às vezes trilavam os apitos policiais e haviam correrias: era um rolo. Logo, porém, tudo voltava à festa. [...] Ali mesmo na Praça, os chefes, verdadeiras figuras patriarcais, estendiam esteiras, e passavam, com os seus, os três dias e as três noites de fogos, ao ar livre, sob o doce azul do firmamento, comendo o seu churrasco de espeto com farinha seca e chupando o seu adorado mate".Apud Monteiro, Charles. Porto Alegre e suas Escritas: história e memória da cidade. Edipucrs, 2006, pp. 239-240

A partir da década de 1860 Dom Sebastião Dias Laranjeira tentou disciplinar a extravagante exuberância da festa, e depois da proclamação da República os festejos começaram a perder um pouco do seu caráter popular, num período em que as formas de socialização e devoção se modificavam e era imposto um novo Código de Posturas municipal. Mesmo assim, em 1904 a imprensa ainda noticiava a "extraordinária concorrência" de público nas novenas e o "avultadíssimo" número de pessoas na Praça da Matriz a participar dos festejos. Trusz, Alice Dubina. Entre Lanternas Mágicas e Cinematógrafos: as origens do espetáculo cinematográfico em Porto Alegre: 1861-1908. Doutorado. UFRGS, 2008, pp. 198-207

Quando foi construída a igreja moderna, os festejos passaram a acontecer no Parque da Redenção, que fica em frente, mas segundo Pedro von Mengden Meirelles, "o ajardinamento daquele espaço para as celebrações do Centenário Farroupilha [em 1935] interromperia o uso da Irmandade, fazendo com que a festa pouco a pouco enfocasse mais nos aspectos religiosos, como a procissão, e menos nas diversões públicas". A tradicional Festa do Divino começava a entrar em decadência. Diz Reginaldo Braga que "a Festa do Divino Espírito Santo da cidade de Porto Alegre passou por muitas transformações e reorganizações, assim como perdeu muito do seu prestígio e apelo popular. Notícias de proibições e reformas, principalmente às partes profanas da festa, ao longo do tempo fizeram com que desaparecessem, entre outras coisas o grupo da folia, a coroação do Imperador (ou festeiro), a distribuição do bodo e os chamados fogos do Espírito Santo".

Em tempos recentes a festa ainda é realizada, mas em dimensões muito mais modestas do que foi antigamente. Realiza-se na semana de Pentecostes, com novena dentro da igreja e uma procissão no domingo, saindo da Catedral e indo até a igreja. Integram a procissão o Imperador do Divino (o principal festeiro), o Alferes da Bandeira, o arcebispo metropolitano, os membros da Irmandade, clérigos convidados, o pároco, os provedores, os festeiros e os grupos de oração que atuam na igreja com suas bandeiras e estandartes, além de outros devotos. A festa encerra com uma missa solene na igreja, quando o arcebispo coroa o novo Imperador do Divino, o qual, junto com o novo Alferes da Bandeira, organizarão a festa do ano seguinte.

A igreja moderna