thumb|330px|right|Mapa das migrações humanas primordiais de acordo com a genética de populações mitocondrial (números são milênios antes do presente) (a precisão deste mapa é discutida).
Hipótese da origem única (no inglês recent single-origin hypothesis, ou RSOH), também chamada de Modelo "Fora da África" (no Inglês "Out of Africa", ou OOA), Hipótese da Substituição ou Origem Recente Africana (no inglês Recent African Origin, ou RAO) é o modelo da Paleoantropologia mais amplamente aceito para a origem humana, corroborado por evidências fósseis, genéticas e linguísticas, que indicam que todos os seres humanos hoje vivos descendem de um grupo de Homo sapiens originado na África, sendo as estimativas de datas de coalescência mais atualizadas, obtidas a partir de pesquisas genéticas, de há 143 mil a 190 mil anos para as linhagens materna e paterna, respectivamente, porém com que é chamado Humano Anatomicamente Moderno (no inglês Anatomically Modern Human, ou AMH) tendo se originado há entre 100 e 300 mil anos (vide Tabela 1). Os descendentes desse grupo posteriormente se dispersaram pelo mundo em diferentes ondas migratórias, constituindo as linhagens que deram origem aos povos viventes de todos os continentes, tendo a maior e mais significativa dessas ondas migratórias se iniciado por volta de há 60 a 75 milhares de anos.
O modelo original propunha que esses Homo sapiens modernos migrantes substituiram outras espécies do gênero Homo já presentes fora do continente africano, como Homo neanderthalensis e Homo denisova, porém, hoje se tem conhecimento que ocorreu um certo grau hibridações entre Homo sapiens e as outros hominínios "não-modernos" dentro e fora da África, que faz com que os humanos viventes tenham uma pequena porcentagem de material genético advindo dessas outras espécies.
Atualmente, a hipótese mais aceita é que o homem moderno saiu da África e colonizou outras partes do mundo, em várias ondas migratórias, corroborada por evidências fósseis, moleculares, microbiológicas. Novas análises de sequências do cromossomo Y demonstraram uma grande diversidade entre as linhas paternas no sul e sudeste da Ásia. Esta evidência corrobora outro estudo feito anteriormente, em que, por meio de análises feitas usando um dente de homem moderno, o sudeste da Ásia foi identificado como um dos primeiros centros de dispersão humana. Análises feitas no DNA mitocondrial apontaram o sudoeste europeu como outro centro de dispersão secundária do homem moderno há 40.000 anos. Dados moleculares e linguísticos indicam Beringia como outro importante centro secundário de dispersão.
Humanos Modernos
Os Homo sapiens modernos compartilham algumas características esqueléticas que podem ser identificadas no registro fóssil, como neurocrânio alto e arredondado, uma face pequena acomodada abaixo dele e uma arcada supraciliar pequena e dividida em duas partes; essas delimitam o que é chamado Humano Anatomicamente Moderno (no inglês Anatomically Modern Human, ou AMH), que inclui todos os seres humanos hoje viventes. Esses traços surgiram e se estabeleceram há entre 300 e 150 milhares de anos na África (vide Tabela 1) e foram exportados para o resto do mundo por expansões migratórias de humanos que os continham, acontecendo com maior significância a partir de há aproximadamente 60 mil anos. Em contraste, pode se chamar Homo sapiens 'arcaico', ou humanos arcaicos, aqueles fósseis de hominídeos que se encaixariam na linhagem humana direta entre a divergência a partir de Homo heidelbergensis (nosso provável ancestral comum com H. neanderthalensis e H. denisova) há aproximadamente 500 mil anos e o estabelecimento dessas características diagnósticas de um humano moderno, porém é recorrente o uso desse termo para se referir a outras espécies do gênero Homo.
Além da caracterização anatômica dos seres humanos modernos, há hipóteses que propõem que a evolução de Homo sapiens se deu em duas etapas separadas, primeiramente com o estabelecimento gradual dessas características morfológicas que são vistas no registro fóssil e, posteriormente, após provavelmente 100 mil anos antes do presente, o desenvolvimento do comportamento moderno e faculdades cognitivas observadas nos humanos viventes. Essa hipótese se apoia principalmente em evidências arqueológicas que indicam um surgimento tardio de comportamentos simbólicos, em relação ao surgimento da morfologia moderna. Richard G. Klein integrou os dados arqueológicos e fósseis e usou os dados para argumentar essa emergência do comportamento moderno completo pode ser o que possibilitou a expansão humana por todo o mundo, sendo essa chamada a "hipótese neural" da paleoantropologia. Também há argumentos apontando que as evidências fósseis e arqueológicas indicam uma evolução gradual tanto da morfologia, quanto da cognição humanas, essas evidências foram sistematizadas em um artigo de alto impacto publicado por McBrearty & Brooks em 2000.
Morfologia (Fósseis) miniaturadaimagem|259x259px|Características-chave de um crânio humano modernoAs descrições operacionais usada para definir humanos modernos osteologicamente visam abranger o máximo de variação possível, porém elas sempre serão falhas e poderão não englobar exceções, portanto é necessário ressaltar que todos os seres humanos viventes estão inclusos na categoria de humanos anatomicamente modernos, mesmo suas morfologias não estejam dentro dos parâmetros diagnósticos usados na paleoantropologia.
Em linhas gerais o esqueleto de um Humano Anatomicamente Moderno pode ser descrito formalmente por algumas medidas métricas da morfologia do Crânio e Pós-crânio, propostas inicialmente por Michael Day e Christopher Stringer no Congresso Internacional de Paleontologia Humana de 1982, sediado em Nice.
Além disso, é possível se distinguir os fósseis de Homo sapiens dos de outros hominínios a partir do padrão de crescimento dos dentes, o qual está relacionado ao padrão de desenvolvimento ontogenético retardado em H. sapiens, que, por sua vez, está relacionado ao desenvolvimento das faculdades cognitivas características dessa espécie. Porém, esse padrão já é observado mesmo em fósseis que ainda apresentam um mosaico de características modernas e arcaicas, como os de 300 mil anos de Djebel Irhoud, no Marrocos.
Comportamento (Artefatos) Como comportamentos não se fossilizam, as melhores evidências que temos de sua evolução são os artefatos gerados por eles, no caso de um comportamento humano considerado moderno e associado à uma capacidade cognitiva equivalente à dos seres humanos viventes, podendo esses artefatos estarem associados a características como exibição social, trocas de longa distância, notações digitais (engraves) ou capacidades artísticas.
Achados arqueológicos da Caverna Blombos datados em aproximadamente 77 mil anos antes do presente, na África do Sul, se destacam entre os artefatos que podem indicar um comportamento complexo, entre eles estão conchas perfuradas, provavelmente usadas para confecção de colares e outras ornamentações corporais, e um pedaço de ocre vermelho com entalhes geométricos. Pontas ósseas farpadas encontradas em Catanda, Congo, e datadas em 90 mil anos também são uma evidência do possível surgimento de um comportamento moderno.
Histórico da Hipótese Até a década de 50 a paleoantropologia enfrentava o problema da ausência de métodos precisos e confiáveis para se datar os restos fósseis e até a década de 60 os registros fósseis de H. sapiens mais antigos pertenciam a sítios na Europa ou na Ásia. Além disso, a paleoantropologia possuía fortes vieses raciais, com uma visão de atraso da África em relação à Europa.
Em 1967, foram descobertos, por Richard Leakey e sua equipe, restos fósseis humanos no que hoje é chamado de sítio Omo-Kibish, no Rio Omo, Etiópia. O crânio fóssil conhecido como Omo-Kibish I foi datado por Karl Butzer em cerca de 130 mil anos, até então mais antigo que qualquer evidência prévia de humanos presentes em qualquer outra região do mundo. Já durante os anos 70 e 80 mais restos humanos foram encontrados e/ou datados, no leste e sul da África, em faixas temporais que antecedem a presença de seres humanos modernos no resto do mundo, incluindo os de Border Cave (África do Sul), Florisbad (África do Sul), Eliye Springs (Quénia) e Cavernas Rio Klassies (África do Sul), vide Tabela 1.
A hipótese da Origem Recente Africana só tomou corpo em meados dos anos 80, principalmente pelo trabalho dos paleoantropólogos Günter Bräuer, na Alemanha, e Chris Stringer e Michael Day, no Reino Unido; os quais, no Congresso Internacional de Paleontologia Humana de 1982, oficialmente apresentaram o modelo e argumentos para que os fósseis encontrados no sul e no leste africano poderiam caracterizar membros de Homo sapiens, na qual tembém proporam uma maneira sistemática de diagnosticar um humano moderno através de traços anatômicos esqueléticos. A noção de uma origem única na África surgiu como um contraste principalmente à hipótese de Evolução Multirregional, que constituía o modelo dominante para explicar o surgimento humano por todo o planeta.
A partir de 1987 o debate das origens humanas entrou em uma nova instância, com a publicação de um trabalho por Rebecca Cann, Mark Stoneking e Alan Wilson, o qual analisou sequências de DNA mitocondrial (mtDNA) de 147 mulheres ao redor do mundo, representando diferentes linhagens. O trabalho apontou que todas a linhagens de fêmeas humana hoje viventes derivaram de uma ancestral comum há aproximadamente 200 mil anos. A partir desse estudo se popularizaram termos como "Eva Mitocondrial" ou "Eva Africana" para se referir a essa ancestral comum de todas as mulheres humana viventes. miniaturadaimagem|567x567px|Modelos existentes para se explicar a origem humana. Sendo a "Origem Recente Africana+Hibridação" o mais corroborado atualmente. Desde a publicação dessa primeira análise de mtDNA as análises genéticas passaram a dominar as pesquisas na área, em sua maior parte corroborando o modelo ou fazendo adições a ele, com a realização subsequente de análises de cromossomo Y, DNA ancestral (aDNA), e mais recentemente análises genômicas de populações e de material genético de microorganismos comensais ou patogênicos que sofreram coevolução com os humanos.
Até 2010, a discussão sobre hibridação entre humanos modernos e Neandertais se baseava em traços anatômicos observados no registro fóssil e carecia de bases sólidas, com o trabalho publicado em 2003 por Erik Trinkaus e pares, que aprontava características Neandertais em um fóssil humano encontrado em Oase, Romênia. Porém, em 2010 foram publicados dois trabalhos independentes que, através de análises genéticas genômicas possibilitadas pelo método de "Sequenciamento de Nova Geração", apontavam a presença de cerca de 2,5% de DNA Neandertal nas populações Humana não Africanas e aproximadamente 5% de DNA Denisovano em populações nativas da Austrália e Nova Guiné. Essas publicações abriram uma nova epoca no debate sobre as origens humanas, tirando a dominânancia da hipótese de uma origem exclusivamente africana e deslocando o consenso para o que pode se considerar o modelo "Origem Recente Africana + Hibridação".
Evidências
A Origem Recente Africana, ou RAO, do inglês Recent African Origin, e, posteriormente, a dispersão global dos humanos modernos tem três pilares de evidências: a) dados fósseis de humanos modernos e não-modernos, b) análise genética, estudo do genoma de pessoas viventes atualmente, bem como dos fósseis previamente mencionados, e c) dados arqueológicos - artefatos, por exemplo, coletados em diferentes épocas e partes do mundo.
Evidências fósseis