André Hercule de Fleury (Lodève, 22 de junho de 1653 — Issy-les-Moulineaux, 29 de janeiro de 1743) clérigo e estadista francês, foi primeiro-ministro de facto de Luís XV no período de 1726 a 1743.
Sua longa administração, caracterizada por um conservadorismo prudente, apoiado numa profunda reverência pelo absolutismo de Luís XIV, proporcionou à França uma prosperidade e um prestígio político desconhecidos pelo país desde o apogeu do Rei Sol, mas sua obstinada recusa a toda reforma e o apego que revelou pelo poder macularam sua imagem de forma duradoura. Governante pouco belicoso, mesmo assim, ao falecer, ele deixou a França imersa num conflito longo e ruinoso.
Biografia De Lodève a Fréjus: linhagem, formação e início da carreira Nascido em Lodève, no Languedoc, em 1653, nos primeiros anos do reinado de Luís XIV, André Hercule de Fleury era filho de Jean de Fleury, o expoente de uma modesta linhagem de financistas, e de Diane de Latreilhe, que pertencia a pequena nobreza provinciana. Seu avô, que recebera em herança um cargo de coletor de talhas, chegara a Lodève, no Languedoc, com recursos modestos. No entanto, mais tarde, ele somaria a sua coletoria de talhas os cargos de Tesoureiro da França e de recebedor dos dízimos de Lodève, que lhe proporcionaram uma importante fortuna.
Como então era comum entre as famílias aristocráticas, ao falecer, Jean de Fleury legou todo o patrimônio familiar a Gabriel, seu filho primogênito, que já era então Presidente do Tribunal das Ajudas (Cour des Aides) de Montpellier. Quanto ao filho mais jovem, André Hercule, este fora destinado à carreira eclesiástica.
Clérigo desde 1766 e padre desde 1679, o jovem André Hercule recebera uma excelente formação junto aos jesuítas na capital francesa, passando depois ao Colégio de Navarra, um dos mais renomados da Universidade de Paris, onde estudou humanidades, e ao Colégio de Harcourt, onde efetuou seus estudos de filosofia. Aluno aplicado e brilhante, ele não encontraria dificuldades em obter o doutorado em teologia pela Sorbonne.
A esta altura, o jovem Fleury já conquistara a proteção de uma das figuras mais poderosas do Languedoc, o Cardeal de Bonsy, arcebispo de Narbona e, em decorrência desta posição, Presidente dos Estados Provinciais. Foi Bonsy quem assegurou ao jovem de apenas dezessete anos um canonicato na Catedral de Montpellier, além de todo um círculo de prestigiosos protetores na Corte de Luís XIV, dentre os quais se contavam os Noailles, os Castries, os Lamoignon e os Villeroy, o Abade de Vintimille, futuro arcebispo de Paris e, sobretudo, Bossuet, clérigo eminente, orador e teórico do absolutismo, cuja influência era considerável. Foi este último quem conseguiu para o jovem Abade de Fleury o posto de Esmoleiro da Rainha.
Em 1685, Fleury fez parte do séquito do Cardeal Janson, embaixador francês junto à Santa Sé, na sua viagem a Roma. Ele soube tirar proveito da ocasião para estabelecer laços pessoais com diversos membros da Cúria, como o Cardeal Albani, futuro papa Clemente XI. esquerda|miniaturadaimagem|O poderoso Cardeal de Bonsy, alcunhado de "rei do Languedoc", foi quem lançou a carreira do jovem FleuryDe volta a Versalhes, Fleury sofreu o seu primeiro revés: vítima de maledicências ou mesmo de calúnias (embora ninguém possa dizer com segurança qual era a acusação), o abade caiu em desgraça e passou a ser vítima de um forte ressentimento por parte do Rei Sol. Exilado no seu Languedoc natal, foi o intendente da Província, Lamoignon de Bâville, quem conseguiu reabilitá-lo parcialmente junto ao soberano. Como compensação por sua breve desgraça, Fleury recebeu a Abadia de Livoure, na Champagne, cujos rendimentos alcançavam a cifra de 12 mil libras.
Mas como o rei continuasse a alimentar uma obstinada desconfiança em relação a sua pessoa, Fleury teve de esperar longos anos até ser elevado ao episcopado. Nesta época, por força da Concordata de Bolonha – que regia desde 1516 as relações entre a monarquia francesa e a Santa Sé – era o próprio “rei cristianíssimo” quem detinha o poder de prover os benefícios eclesiásticos de seu Estado, cabendo ao papa apenas aceitar ou recusar a sua escolha. Assim, para ser elevado a bispo, todo clérigo deveria, antes de tudo, gozar das boas graças da Corte ou de um bom círculo de pessoas próximas do soberano. Embora não faltassem a Fleury importantes apoios na Corte do Rei Sol, este se recusava obstinadamente a promovê-lo. Foi somente em 1697, quando vagou a modesta sede episcopal de Fréjus, que, cansado dos constantes pedidos em favor do esmoleiro da rainha, Luís XIV finalmente cedeu. Fleury foi consagrado Bispo de Fréjus em Paris, a 22 de novembro de 1699.
O controverso episcopado em Fréjus Em Fréjus, Fleury não era apenas o bispo, isto é, o detentor da autoridade espiritual, mas também o titular da senhoria local e, como tal, uma figura investida também do poder temporal, vale dizer, de certas prerrogativas feudais, inclusive, do poder de “baixa justiça”. Embora não tenha negligenciado os assuntos espirituais, exercendo com rigor o seu poder de supervisão sobre o clero local, Fleury parece ter se concentrado, sobretudo, nos negócios temporais.
Em 1701, tivera início a longa e custosa Guerra da Sucessão Espanhola, durante a qual a França de Luís XIV teve que fazer frente a quase toda Europa. Antes aliado do Rei Sol, em 1703, o duque da Saboia e Príncipe do Piemonte, Vítor Amadeu II, decidiu passar para o lado do Imperador. Em 1707, com apoio da frota anglo-holandesa, que havia bloqueado o porto de Toulon, o exército savoiardo penetrou no território francês e assediou a cidade. Fréjus, que estava no caminho do invasor, foi ocupada pelas forças de Vítor Amadeu. Ao invés de partir ou de resistir ao inimigo, o Bispo de Fréjus preferiu oferecer-lhe uma acolhida que, para alguns, foi calorosa a ponto de se aproximar da traição. Embora sua conduta fosse mais tarde justificada como a deferência devida ao “ocupante de um trono”, nem todos se deixaram enganar por este argumento e continuaram a reprovar ao Bispo de Fréjus o fato deste ter se permitido “complacências” em relação ao inimigo. miniaturadaimagem|Luís XIV nunca conseguiu vencer sua desconfiança em relação ao Bispo de Fréjus. Mesmo assim, terminou por designá-lo preceptor de seu herdeiroSegundo o testemunho de Saint-Simon, o seu comportamento diante de Vítor Amadeu esteve longe de melhorar a imagem de Fleury aos olhos do rei. Na verdade, este teria ficado furioso, como se todas as suas suspeitas a respeito do prelado tivessem sido confirmadas pelos fatos. Mas as prevenções de Luís XIV contra o Fleury não impediram os muitos amigos deste na Corte de apontá-lo como um candidato adequado ao cobiçado posto de preceptor do Delfim, o futuro Luís XV. A princípio, fiel a seus sentimentos, Luís XIV resistiu com firmeza ao assédio dos cortesãos, mas como Fleury houvesse obtido o apoio da facção de Madame de Maintenon, sua esposa morganática, já no seu leito de morte, o rei, enfim, cedeu.
Obtida com não poucos esforços, a modesta preceptoria do Delfim seria para Fleury um primeiro passo no caminho do poder.
De preceptor do Rei a Primeiro-Ministro Quando Luís XIV faleceu, a 1º de setembro de 1715, ele já fora precedido no túmulo pelo seu filho, o Grande Delfim, e por seu neto primogênito, o Duque de Borgonha. Seu segundo neto, o primeiro Duque de Anjou, reinava desde 1701 na Espanha, sob o nome de Filipe V, e seu único bisneto sobrevivente, o segundo Duque de Anjou, tinha então cinco anos. Era exatamente esta criança quem deveria suceder ao Rei Sol, sob o nome de Luís XV.
Como o novo soberano era ainda menor de idade, a regência foi confiada ao Duque de Orleães, seu parente mais próximo depois do rei da Espanha. A regência do Duque de Orleães suscitou viva oposição entre outros parentes do rei, como era o caso do Duque do Maine, filho legitimado do Rei Sol, ou então, do Duque de Bourbon, que pertencia à prestigiosa linhagem dos Bourbon-Condé. E, como não fosse o bastante, apesar de ter renunciado aos seus direitos dinásticos sobre a França, o rei Filipe V da Espanha não se privava de intrigar contra o Regente, na expectativa de um dia vir a substituí-lo e, assim, reunir em suas mãos o governo de ambos os Estados.
Enquanto as facções lutavam entre si, o antigo Bispo de Fréjus, preceptor do monarca, manobrava sutil e habilmente, empenhado, sobretudo, em conquistar a estima de seu pupilo.
A educação proporcionada por Fleury a Luís XV não deixou de suscitar controvérsias. Para alguns, o preceptor não teria feito mais do que “captar a confiança do pequeno príncipe”, de relegar seu pupilo à ignorância para se fazer indispensável e de afastá-lo de qualquer trabalho sério, acentuando com isto sua “indolência natural” e os aspectos mais negativos da sua natureza: timidez, desconfiança e dissimulação. Chaussinand-Nogaret, pelo contrário, julga que“Bem longe de fazer de seu aluno uma nulidade, ele (Fleury) lhe daria uma formação humanista bastante sólida e empregaria os melhores mestres para ensinar-lhe as matemáticas, as ciências e a dança, reservando a si mesmo essencialmente as lições de latim e o ensino religioso”. (tradução livre)Bluche, por seu turno, observa que o preceptor, que “amava seu aluno e se fez amar por ele”, cumpria sua tarefa “com tato e sutileza”. “Os colaboradores do Senhor de Fréjus (Fleury) ensinavam ao Rei o italiano, muita história e geografia, mas também as matemáticas, a castrametação, um pouco de hidrografia (o que despertaria nele mais tarde bastante interesse pela Marinha!), ótica e desenho. Isto porque o pequeno Luís XV mostrava mais interesse pelas ciências – abstratas ou aplicadas – do que pela cultura humanista. No final, ele seria melhor formado do que Henrique IV, Luís XIII ou Luís XIV. É o lado positivo da influência de Fleury sobre seu discípulo”. (tradução livre)Um dos professores recrutados pelo preceptor para o rei foi o matemático François Chevallier, cujos cursos no Colégio da França tratavam de matérias tão distintas quanto a geometria, a aritmética, as artes da navegação e das fortificações, a ótica e a perspectiva. Michel Antoine também menciona as aulas práticas de tipografia e as traduções de textos sobre São Luís (rei Luís IX da França), idealizado como monarca modelo. centro|miniaturadaimagem|250px|Luís XV, aos cincos anos. Tendo logrado conquistar a estima e confiança de seu pequeno pupilo, que se tornara órfão muito cedo, Fleury asseguraria a si mesmo um prodigioso futuro políticoChaussinad-Nogaret nota, contudo, que se Fleury deu a seu aluno uma educação satisfatória, fazendo dele um bom latinista e um cristão, ele esteve longe de introduzi-lo nos negócios de estado; tratou-se de uma “educação de particular e não formação de rei” (tradução livre). Segundo o historiador, a incapacidade de iniciar seu aluno nos arcanos do poder, decorria do fato de ser o próprio Fleury um ignorante nesta matéria; afinal, até então, ele nunca tivera a oportunidade de se ocupar dos negócios de estado.
De qualquer modo, a confiança e a estima que Fleury soube adquirir junto ao seu pupilo não tardaram em torná-lo um alvo para os detentores do poder. Os primeiros a tentar separá-lo do Rei foram o Regente e o seu primeiro-ministro, o Cardeal Dubois. Muito habilmente, a fim de afastá-lo da Corte, eles ofereceram ao velho prelado a arquidiocese de Reims, a mais prestigiosa da França. O preceptor, porém não caiu na armadilha e, usando como pretexto a idade avançada, recusou o posto.