The Spy Who Loved Me é um romance de espionagem escrito pelo autor britânico Ian Fleming e o décimo livro da série James Bond. Este é o único livro em toda a série contado a partir de uma perspectiva em primeira pessoa, com sua narradora sendo uma jovem canadense chamada Viv Michel. Bond só aparece no último terço da história para salvar Viv de dois criminosos.

Nesta altura em sua carreira Fleming estava tendo dificuldades para criar romances de Bond e estava contemplando matar o personagem. Ele escreveu The Spy Who Loved Me nos primeiros meses de 1961 em sua propriedade Goldeneye na Jamaica, com este tendo sido o manuscrito mais curto de todos os seus livros. Sua intenção era criar uma história que advertisse que Bond não era um herói, mas sim alguém cruel. Fleming se inspirou em suas experiências e pessoas que conhecia para desenvolver a história do livro. A obra aborda o tema recorrente de São Jorge contra o dragão, bem como poder e ambiguidade moral.

The Spy Who Loved Me foi publicado no Reino Unido em abril de 1962 pela editora Jonathan Cape. As avaliações foram em sua maior parte negativas, com muitos críticos expressando desejo de retorno para a estrutura dos romances anteriores. Fleming acabou bloqueando a publicação de uma edição britânica em brochura e vendendo apenas os direitos do título do livro para o cinema. Uma versão em quadrinhos muito adaptada foi publicada no jornal The Daily Express entre 1967 e 1968. O filme The Spy Who Loved Me de 1977, o décimo da série cinematográfica de James Bond, usa apenas o seu título e um vilão como inspiração.

Enredo Vivienne "Viv" Michel, uma jovem canadense, teve seu primeiro relacionamento amoroso com Derek Mallaby. Os dois transaram em um campo depois de serem expulsos de uma cinema em Windsor por exposição indecente. Viv foi depois rejeitada quando Mallaby lhe enviou uma carta da Universidade de Oxford, onde estudava, dizendo que seus pais o tinham forçado a ficar noivo de outra pessoa. Viv então se relacionou com o alemão Kurt Rainer, de quem engravidou. Ela contou isto para Rainer e ele pagou para que ela fosse ter um aborto na Suíça, também dizendo que o caso tinha acabado. Viv fez o aborto e voltou para o Canadá, em seguida começou uma viagem pela América do Norte. Ela parou nas Montanhas Adirondack nos Estados Unidos para trabalhar no motel Dreamy Pines, administrado pelos gerentes Jed e Mildred Phancey.

Viv é deixada cuidando do motel durante uma noite antes que o dono, Sr. Sanguinetti, chegue para avaliar o estabelecimento e fechá-lo para o inverno. Dois gângsters à serviço de Sanguinetti, "Sluggsy" Morant e Sol "Horror" Horowitz, este último tendo dentes de aço, chegam e dizem que vão cuidar do motel por questões de seguro. Eles foram contratados por Sanguinetti para incendiar o motel para a aplicação de um golpe no seguro. A culpa do incêndio ficaria com Viv, que morreria no incidente. Os dois começam assedia-la, fazendo comentários grosseiros e agressivamente pedindo que ela dance. Ela se recusa e eles a atacam com a intenção de estuprá-la, porém são interrompidos pela campainha.

O agente secreto britânico James Bond aparece no motel pedindo um quarto pois o pneu de seu carro furou. Bond logo percebe que Sluggsy e Horror são criminosos e que Viv está em perigo. Ele pressiona para que os dois lhe deem um quarto. Bond conta a Viv que está nos Estados Unidos depois de se envolver na Operação Relâmpago e que fora enviado para proteger um perito nuclear soviético que deserdou. Sluggsy e Horror incendeiam o motel naquela noite e tentam matar Bond e Viv. Um tiroteio ocorre e o carro dos dois criminosos cai em um lago enquanto tentam escapar. Bond e Viv vão dormir juntos, mas Sluggsy sobreviveu e tenta matá-los de novo antes de ser alvejado por Bond.

Viv acorda na manhã seguinte e descobre que Bond foi embora, mas deixou um bilhete prometendo chamar a polícia e aconselhando que ela não remoesse muito os eventos terríveis que tinha acabado de passar. Um grande destacamento policial aparece pouco depois e Viv presta seu depoimento, com o oficial encarregado reiterando o conselho de Bond, mas ele também avisa que todos os homens envolvidos em crimes violentos e espionagem, independente do lado em que estão e incluindo Bond, são perigosos e devem ser evitados. Viv reflete sobre isso enquanto vai embora para continuar sua viagem pela América do Norte; apesar do aviso do policial, ela pensa em Bond.

Antecedentes e escrita thumb|240px|esquerda|Goldeneye, onde Fleming escreveu todos os romances de James Bond O autor britânico Ian Fleming já tinha em janeiro de 1961 publicado oito livros protagonizados por sua criação James Bond anualmente desde 1953, sete romances e uma coleção de contos. Um nono livro, Thunderball estava sendo editado e preparado para publicação, que aconteceu no final de março. Ele viajou para sua propriedade Goldeneye na Jamaica em janeiro para escrever uma nova obra, que se tornaria The Spy Who Loved Me. Ele seguiu sua prática de escrita usual, que ele posteriormente detalhou em um artigo para a revista Books and Bookmen: "Eu escrevo por cerca de três horas pela manhã ... e faço outra hora de trabalho entre seis e sete da noite. Nunca corrijo nada ou volto atrás para ver o que escrevi ... Pela minha fórmula, você escreve duas palavras por dia". Fleming achou que foi mais fácil escrever The Spy Who Loved Me do que qualquer um de seus livros anteriores.

O autor voltou para Londres em março com um manuscrito datilografado de 113 páginas, o mais curto de todos os seus romances de Bond. Poucas alterações foram feitas na história até sua publicação. Fleming escreveu para Michael Howard, o editor da Jonathan Cape, após a publicação de The Spy Who Loved Me para explicar porque tinha mudado sua abordagem:

Fleming nesta altura estava achando cada vez mais difícil escrever os romances de Bond e até mesmo pensou em terminar a série matando Bond em The Spy Who Loved Me, porém mudou de ideia enquanto escrevia. Este romance foi descrito pelo biógrafo Andrew Lycett como a "história mais vulgar e violenta" de Fleming. Segundo Lycett, isto pode ter sido um reflexo do estado de espírito do autor na época, especialmente suas dificuldades matrimoniais: ele estava tendo um caso com Blanche Blackwell, sua vizinha na Jamaica, enquanto sua esposa Ann estava em um relacionamento com Hugh Gaitskell, o líder do Partido Trabalhista. Fleming também estava tendo um relacionamento profissional conturbado com o roteirista e diretor Kevin McClory, com quem tinha trabalhando em um roteiro de cinema que ele transformou no romance Thunderball.

Fleming deu poucas informações sobre datas dentro de suas obras, mas dois escritores identificaram linhas do tempo diferentes a partir de eventos e situações relatados dentro da série James Bond como um todo: John Griswold e Henry Chancellor, ambos os quais escreveram livros analisando as obras à pedido da Ian Fleming Publications. Chancellor colocou os eventos de The Spy Who Loved Me em 1960, já Griswold foi mais preciso considerou que a história se passa em outubro de 1961.

Desenvolvimento Inspirações Fleming usou suas experiências e conhecimentos pessoais para criar elementos de The Spy Who Loved Me. O Dreamy Pines Motel nas Adirondacks foi baseado em um motel que ele costumava passar em frente toda vez que ia visitar a fazenda de um amigo em Vermont. Viv é seduzida por Derek Mallaby, um estudante de escola pública, no Royalty Kinema em Windsor, do mesmo modo que o autor seduziu uma mulher e perdeu a virgindade no mesmo estabelecimento quando era estudante do Colégio Eton. O tempo que Viv e Mallaby passam perto da área de Cookham é similar às atividades e experiências de Fleming enquanto estudava no Real Colégio Militar de Sandhurst.

O autor, como havia feito em seus romances anteriores, pegou o nome de amigos e conhecidos para usar no livro: Robert Harling, um colega de trabalho no jornal The Sunday Times, teve seu nome usado na história para um tipógrafo, enquanto o personagem menor Frank Donaldson foi nomeado por conta de Jack Donaldson, um amigo de Ann Fleming. Vivienne Stuart, uma das vizinhas de Fleming na Jamaica, teve seu primeiro nome usado para a protagonista Vivenne Michel.

Personagens O autor Raymond Benson, que depois escreveu vários romances de Bond, considerou que Viv como a melhor caracterização feminina realizada por Fleming, parcialmente porque a história foi contada em uma narrativa em primeira pessoa com o primeiro terço do romance sendo dedicado para sua biografia. Benson comentou que apesar de Viv ter sido uma vítima no passado, ela também é obstinada e durona. A personagem não é uma mulher estilosa e elegante da década de 1950, mas sim uma que gosta de acampar, pescar e fazer outras atividades ao ar livre; o escritor Henry Chancellor afirmou que nesses aspectos ela era, assim como Bond, um ideal da imaginação de Fleming.

A acadêmica Christine Bold achou que Viv demonstrava uma visão de mundo ingênua e que a personagem reforçava a opinião misógina de Fleming sobre mulheres assim como tinham sido retratadas nos romances anteriores. Bold considerou que Viv "subscreve o domínio sexual de Bond sobre as mulheres" ao transar com ele depois dele salvá-la. Neste ponto do romance Fleming (como Viv) escreve que "Todas as mulheres gostam de semi-estupro. Elas amam serem tomadas". O autor foi muito criticado por essa afirmação. Para o jornalista Ben Macintyre, "Fleming não estava seriamente defendendo estupro, ou mesmo semi-estupro, mas tentando chocar ao reforçar a ideia da essencial crueldade de Bond. Se foi isto, ele chocou muito mais do que tinha a intenção, e ainda choca". O autor Nick Stone achou que apesar de seu resgate de um quase estupro e morte:

Fleming deu pouca atenção para os outros personagens. O historiador Jeremy Black descreveu Kurt Rainer, o segundo amante de Viv, como a caricatura de um alemão – um racista cruel com pouca capacidade para amor ou afeto – que força um aborto antes do término. Segundo Black, Sluggsy e Horror são "vilões de histórias em quadrinho com nomes de histórias em quadrinho". Eles não receberam a mesma posição de outros vilões, sendo na verdade matadores profissionais de segunda que, segundo o autor Matthew Parker, deixa-os mais críveis na história. Chancellor achou que a ausência de um supervilão fez de The Spy Who Loved Me uma das histórias mais fracas de Fleming.

Estilo The Spy Who Loved Me é único entre os romances de Bond por não ser uma história de espionagem, com Black comentando que sem esse aspecto "a panóplia completa de um romance de Bond, animado por sua presença, está ausente". Black considerou que seu equivalente mais próximo é "Quantum of Solace", um conto sobre relacionamentos matrimoniais que Fleming escreveu no estilo de W. Somerset Maugham. A ausência do elemento de espionagem e o foco na vida pregressa de Viv fazem com que este romance seja o mais próximo que Fleming chegou de "realismo da classe operária" no cânone de Bond, também sendo o mais sexualmente explícito.

Benson analisou o estilo de escrita de Fleming e identificou o que descreveu como a "Varredura Fleming": o uso de "ganchos" ao final dos capítulos para aumentar a tensão e empurrar o leitor para o próximo. Ele considerou que a varredura estava presente em The Spy Who Loved Me, apesar da história ser ostensivamente escrita por Viv.

O analista literário LeRoy L. Panek destacou que The Spy Who Loved Me era uma história de amor; nisto, o romance "simplesmente codifica várias tendências presentes em todas ... as obras [de Fleming]". Panek argumentou que também há fortes elementos de romance em Casino Royale, Diamonds Are Forever, Dr. No, Goldfinger e Thuderball. A ameaça de estupro de Viv diante dos dois criminosos, quando analisada de um ponto de vista romântico, é um contraponto com o sexo consensual com Bond.

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