A história da medicina atual ou cosmopolita é a história das grandes contribuições de todos os povos a esta arte e prática universal que constitui a medicina. Confunde-se portanto com a história da civilização ocidental. Nesta perspectiva pode ser dividida em: pré história; história antiga que praticamente corresponde à antiguidade oriental e distinguindo-se a medicina na Grécia antiga e Roma e os clássicos períodos de divisão da história ocidental: Idade Média, Moderna e Contemporânea.
thumb|200px|Confunde-se, na cultura popular, o caduceu (duas serpentes) e o bastão de Esculápio (uma única).
Antiguidade oriental Oriente é um modo de ver como oriental um conjunto de povos da Ásia e Norte da África. Os textos sobre esse tema incluem as civilizações Egípcia, Chinesa, Norte-Indiana (Indo-Européia), Persa (Indo-Européia),C. Elgood, A medical history of Persia, Cambridge Univ. Press. p.173 Norte-Paquistanesa (Indo-Européia) e dos povos semitas (Árabes e Judeus). Naturalmente que estes povos poderiam ser subdivididos em centenas de etnias e sistemas etnomédicos, contudo a relativa uniformidade lingüística, presença escrita de textos especializados e acontecimentos históricos marcantes, com especial significado para desenvolvimento da medicina cosmopolita, permitem manter tal divisão.
Medicina Ayurveda Ayurveda, o conhecimento Védico de medicina data de há cerca de 6000 anos. Neste conhecimento, a saúde é entendida como a harmonia entre o corpo, mente e espírito. Os seus dois textos mais famosos pertencem às escolas de Charaka e Sushruta. De acordo com Charaka, a saúde e a doença não são predeterminadas e a vida pode ser prolongada pelo esforço humano. Sushruta define como finalidade da medicina curar as doenças do doente, proteger o saudável e prolongar a vida.
Entre os Vedas, o Yajur Veda refere-se especialmente às questões médicas, daí decorrendo o nome até hoje utilizado de medicina Ayurvédica. O Ayurveda descreve oito ramos:(chikits) (medicina interna), shalyachikits (cirurgia incluindo anatomia), kyachikits (doenças do olho, ouvido, nariz, e garganta), kaum; rabhritya (pediatria), bhtavidy; (psiquiatria, ou demonologia), agada tantra (toxicologia); rasyana (ciência do rejuvenescimento), e karana (a ciência da fertilidade).
Esperava-se que um estudante do ayurveda viesse a saber as dez artes indispensáveis à aplicação de sua medicina: destilação, habilidades cirúrgicas, cozinha, horticultura, metalurgia, manufatura de açúcar, farmácia, análise e separação dos minerais, combinar metais, e preparação dos alcalóides. O ensino de vários assuntos era realizado durante a instrução de assuntos clínicos relevantes. Por exemplo, o ensino de anatomia era uma parte do ensino da cirurgia, embriologia era uma parte do ensino da pediatria e obstetrícia e o conhecimento de fisiologia e patologia estavam presentes no ensino de todas as disciplinas clínicas.
Na conclusão da iniciação, o guru dava um endereço solene aos estudantes onde o guru dirigia os estudantes a uma vida de castidade, honestidade, e vegetarianismo. O estudante devia esforçar-se com todo o seu ser para curar as doenças. Não devia enganar os pacientes para obter vantagens. Deveria vestir-se modestamente e evitar bebidas fortes. Deveria ser recatado e possuir auto-controle, medir sempre as suas palavras. Deveria aperfeiçoar constantemente os seus conhecimentos e habilidades técnicas. No repouso do paciente devia ser cortês e modesto, dirigindo toda a atenção ao bem-estar do mesmo. Não devia divulgar nenhum conhecimento sobre o paciente e sua família. Se o paciente fosse incurável, devia guardar isto consigo mesmo, caso pudesse prejudicar o paciente ou outros afins.
A duração normal da formação do estudante aparenta rondar à volta de sete anos. Antes da graduação, o estudante devia obter aprovação num teste. Mas o médico (vaidya) devia continuar a aprender através dos textos, da observação direta (pratyaksha), e através da inferência (anum), além de participar de encontros de médicos (vaidyas) onde o conhecimento era trocado. Os doutores também deviam obter conhecimento de remédios incomuns dos habitantes das montanhas, florestas e pastores.
Em 2001, os arqueólogos que estudam os corpos mumificados de dois homens de Mergar, Paquistão, fizeram a surpreendente descoberta de que os povos civilização do vale Indo , originados do adiantado período da Civilização de Harapa (cerca ), tiveram o conhecimento de medicina ' ' e de odontologia. O antropólogo físico que realizou os exames, professor Andrea Cucina da universidade de Missouri-Colômbia, fez a descoberta quando limpava os dentes de um dos homens.
Ayurveda, visa a saúde no equilíbrio do corpo, mente e espírito até hoje sobrevive como prática distinta da Alopatia mesmo na própria Índia. Diferencia-se da Medicina tradicional chinesa e da Medicina tibetana embora apresentem elementos e conceitos comuns.
Medicina chinesa
A China também desenvolveu sólidos conhecimentos em sua medicina tradicional. Muito da filosofia Medicina tradicional chinesa derivado da filosofia do Taoísmo reflete a clássica crença chinesa que as experiências humanas individuais refletem os princípios da causalidade que regem o ambiente em todas as escalas. Estes princípios causais, seja essência material ou espiritual, correspondem à expressão dos destinos decretados pelo céu (Tao).
Durante a idade de ouro de seu reino entre 2696 a 2598 a.C, em forma de um diálogo com seu ministro Ch'i Pai, o Imperador Amarelo registrou seu conhecimento médico, segundo a tradição chinesa que o tem como autor Neijing(g.) Suwen(O) ou perguntas básicas da medicina interna. A opinião acadêmica moderna sustenta que o referido texto com esse título foi compilado por um erudito da época entre os dinastias Chou e Han da tradição de mais de dois mil anos antes, embora algumas partes do trabalho existentes possam ter originado por volta de 1000 A.C.
Durante a dinastia Han, Chang Chung-Ching, que era o prefeito de Chang-sha perto do fim do segundo século A.D., escreveu um tratado da febre tifóide, de que contém a mais antiga referência conhecida ao Neijing Suwen. Na dinastia Chin, o médico generalista e defensor da acupuntura e moxabustão, Huang-fu Mi (215-282 A.D), cita também Imperador Amarelo em seu Chia I Ching, em. 265 A.D. Durante a dinastia Tang, Wang Ping reivindicou ter encontrado uma cópia dos originais do Neijing Suwen, que editou e expandiu substancialmente. Este trabalho foi revisitado por uma comissão imperial durante o décimo primeiro século A.D., e o resultado é o nosso melhor exemplar existente das raízes fundamentais da medicina chinesa tradicional.
Medicina egípcia
O Papiro de Edwin Smith (1600 a.C.), um antigo livro-texto de cirurgia, descreve em extraordinários detalhes o ' ' exame, diagnóstico, tratamento, e ' 'o prognóstico' ' de numerosas doenças. (Encyclopædia Britannica ). Soma-se a esse o Papiro de Ebers (ca 10° século a.C.|1550 a.C.) , embora cheio dos encantamentos, rezas escatológicas de afastar e manter demônios causadores doença em seu lugar de origem e outras superstições, nele há também as evidências ' ' de uma longa tradição empírica da prática e da observação.
Além das diversas técnicas de embalsamamento, que até hoje assombram a humanidade e de possuírem, segundo Heródoto um medicina praticada por diversos especialistas os médicos egípcios dominavam uma vasta farmacopéia que incluía desde as esquisitas medicinas de bolores e excrementos (a farmácia da sujeira precursora das substancias antibióticas (?)) até as plantas medicinais até hoje utilizadas em todo o mundo como mirra, romã, linhaça, erva – doce, alho, sene, rícino, alface, heléboro, papoula entre outras.
Medicina semítica Ao se estudar a medicina dos povos de língua semítica, o maior dos grupos de línguas da família camito-semítica, presente do N./NE da África até o S.O. da Ásia e especialmente dos povos árabes (semitóides do Sul), nos deparamos com o desafio de identificar sua origem pré - islâmica ou anterior a sua unificação pelo profeta Maomé (570 – 632 d.C.) e revelações do Alcorão que ocorreram por volta do ano 600.
As contribuições mais evidentes são relativas aos Semitas: Assírios (Iraque); Fenícios (Líbano) e de alguns do demais povos da região da mesopotâmia associados aos "Persas" (povos indo-europeus e portanto não-semiticos), "Sumérios" (também não-semítico) e Acádios. É incontestável sua inter-relação com as crenças dos hebreus e práticas da medicina do Egito e Babilônia registradas em hieróglifos e signos da escrita cuneiforme (invenção suméria e portanto não-semítica).
Entre estas podemos citar a interferência do estado no código do imperador Semita, Hamurabi (1728-1686 a.C.), o grande legislador da Babilônia. Lê-se:
Parágrafo 215: Caso um médico (Asu) tenha curado alguém de uma ferida grave, por meio de um instrumento de bronze, ou tenha aberto, a mancha do olho (Na-gab-ti) de alguém também com instrumento de bronze, restabelecendo-lhe a saúde da vista, devem ser pagos a ele dez chequéis de prata como retribuição...
Parágrafo 216: Caso se trate de um nobre, o médico receberá cinco chequéis de prata. Parágrafo 217: Caso se trate de um escravo de um homem livre, então o senhor do escravo pagará ao médico dois chequéis de prata.
Parágrafo 218 Caso um médico tenha tratado o ferimento grave de um homem livre com instrumento de bronze e este venha a falecer, ou se tiver aberto, a mancha no olho de alguém também com instrumento de bronze, provocando-lhe a inutilização da vista, ser-lhe-ão cortadas ambas as mãos.
Parágrafo 221: Caso um médico tenha curado o membro quebrado de um homem livre, ou recuperado as entranhas afetadas, o doente deverá pagar ao médico cinco chequeis de prata. Parágrafo 224: se um veterinário tratar do ferimento grave de um boi ou de um jumento salvando-lhe a vida, o dono do boi ou do jumento deverá recompensar o médico com a sexta parte de um chequel de prata como honorário.
Entre os instrumentos cirúrgicos encontravam-se agulha de bronze para cirurgia (picada) da catarata (reclinação do cristalino); cateter curvo para tratamento da blenorragia (upu) e um bisturi de dois gumes. Há registros de sangrias, trepanação com serras, e ajuste de fraturas com recuperação. (Jürgen Thorwald)
Identificavam vários “demônios” causadores de doenças para exorcismos e registros escritos do tratamento específicos de doenças identificadas como: Gastrite; Oclusão intestinal; Distúrbios biliares, Apoplexia; Otite; Blenorragia; Afecções renais e da bexiga. Nergal o deus mesopotâmico das epidemias ou Baal-Seub o deus mosca filisteu/fenício eram representados por um inseto semelhante à mosca, já reconhecida como praga junto com os mosquitos. Há registro da associação entre epidemias de peste bubônica e a mortandade de ratos. (Thorwald)
Da farmacopéia, comum ao Egito cita-se mirra, papoula, mandrágora, meimendro, salgueiro, amoreira, louro, incenso, açafrão, cominho, zimbro, colcíntida, alho e cebola, além de substâncias de origem mineral (alume, enxofre, betume, argila) e animal (excrementos, órgãos). Entre as não registradas no Egito destacam-se os primeiros registros da beladona (Solanum), para controle da cãibra, secreção de líquidos, espasmos, cólicas, reconhecendo inclusive seu efeito em grandes doses de provocar delírios e perda de consciência, e o conhecido cânhamo indiano (quunabu). (Thorwald; Ronan)
Um detalhe interessante das composições farmacológicas e prescrições da Mesopotâmia, até hoje observada nos sistemas etnomédicos, é a preferência por números mágicos (o 3 e o 7 e seus múltiplos eram os favoritos), para prescrição ou adição de constituintes em suas formulações. (Ronan)
A medicina dos povos Árabes incorporou e manteve vivo para o ocidente o conhecimento greco–romano, havendo registros e traduções de Hipocrates, Aristóteles e Galeno.