A Septuaginta é uma tradução do Tanakh para o grego koiné, feita entre os séculos III e I a.C em AlexandriaJennifer M. Dines, The Septuagint, Michael A. Knibb, Ed., London: T&T Clark, 2004.. Apresenta todos os livros do cânone hebraico, com a adição de outros sete, chamados deuterocanônicos (a saber, Tobias, Judite, I Macabeus, II Macabeus, Sabedoria, Sirácida [também conhecido como Eclesiástico ou Eclesiástico de Sirá] e Baruque), e identifica-se com o Antigo Testamento das bíblias católicas.
É composta por 53 livros, divididos em cinco seções: Pentateuco, livros históricos, livros poéticos, profetas maiores e profetas menores. O Pentateuco se assemelha à Torá, com os livros de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, que segundo a tradição foram escritos por Moisés, narram as origens da humanidade e do povo hebreu e apresentam a lei mosaica. Os livros históricos incluem os livros de Josué, Juízes, Rute, I Samuel, II Samuel, I Reis, II Reis, I Crônicas, II Crônicas, Esdras, Neemias, Tobias, Judite, Ester, I Macabeus e II Macabeus, que narram a história do povo hebreu e judeu entre os séculos XIII e II a.C, desde a conquista da Terra Prometida com Josué até a revolta dos macabeus. Os livros poéticos incluem os livros de Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cantares, Sabedoria e Sirácida, e concentram diversos poemas, provérbios e textos de sabedoria. Os profetas maiores incluem os livros de Isaías, Jeremias, Lamentações, Baruque, Ezequiel e Daniel. E os profetas menores incluem os livros de Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.
Uso da LXX no Novo Testamento Vários estudos atestam que os Apóstolos e Evangelistas usaram a Septuaginta, a Sociedade Bíblica do Brasil afirma que "pois, como se sabe muitas citações (e alusões) do Antigo Testamento no Novo Testamento procedem diretamente da clássica versão grega". E que das 350 citações que o Novo Testamento faz do Antigo Testamento, pelo menos 300 provêm da versão grega.
Exemplos de trechos referentes a Septuaginta podem ser encontrados no Evangelho segundo Mateus, por exemplo, onde Jesus Cristo em resposta ao diabo diz:
"Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus." .
Jesus referiu-se a Deuteronômios (), onde é usada "da boca do Senhor" enquanto a Septuaginta traz "da boca de Deus".
Lista de livros da Septuaginta (segundo a edição de A. Rahlfs) Nome grego Nome em português Livros da Lei (Pentateuco) Gênesis Êxodo Levítico Números Deuteronômio Livros Históricos Josué Juízes Rute 1 Reinos (1 Samuel) 2 Reinos (2 Samuel) 3 Reinos (1 Reis) 4 Reinos (2 Reis) 1 Crónicas 2 Crónicas 1 Esdras (Esdras Grego ou 3 Esdras na Vulgata) Esdras e Neemias Ester (com adições) Judite Tobias 1 Macabeus 2 Macabeus 3 Macabeus 4 Macabeus (Apêndice na tradição grega) Livros Sapienciais (Poéticos) Salmos Salmo 151 Odes (inclui a Oração de Manassés) Provérbios Eclesiastes Cântico dos Cânticos Jó Sabedoria de Salomão Sirácida (Eclesiástico) Salmos de Salomão (Pseudo-epígrafo) Livros Proféticos Os Doze Profetas Menores Oseias Amós Miqueias Joel Obadias Jonas Naum Habacuque Sofonias Ageu Zacarias Malaquias Isaías Jeremias Baruque Lamentações Epístola de Jeremias Ezequiel Susana (Daniel 13) Daniel Bel e o Dragão (Daniel 14)
Criação do texto thumb|esquerda|Fragmento da Septuaginta, do século I Como mencionado, as evidências apontam para uma tradução progressiva iniciada com o Pentateuco nos meados do século III a.C. em Alexandria e desenvolvida aos poucos pelo Mediterrâneo Oriental. Outros livros foram traduzidos ao longo dos dois séculos seguintes. Não é claro quando ou onde cada tradução foi realizada. Alguns livros podem inclusive ter sido traduzidos mais de uma vez, configurando diferentes versões e posteriormente revisados.Joel Kalvesmaki, The Septuagint A qualidade e o estilo dos diferentes tradutores também variavam consideravelmente de livro a livro, indo da tradução literal, à de paráfrase e à interpretativa. De acordo com a avaliação de um estudioso "o Pentateuco foi razoavelmente bem traduzido, mas o resto dos livros, especialmente os poéticos, foram em geral mal feitos e contém mesmo alguns absurdos".Sir Godfrey Driver, Introduction to the Old Testament of the New English Bible (1970)
A medida que o trabalho de tradução gradualmente progredia e novos livros eram adicionados à coleção, a abrangência da Bíblia grega passou a ficar um tanto indefinida. O Pentateuco sempre manteve a sua preeminência como a base do Cânon, mas a coleção de livros proféticos (a partir dos quais os Neviim foram selecionados) teve sua composição alterada por ter vários escritos hagiográficos nele incorporados. Alguns dos escritos mais recentes, os chamados anagignoskomena, em grego, não estão incluídos no Cânon judaico. Dentre estes livros estão os Livros dos Macabeus e Sirácida. Além disso, a versão da LXX de algumas obras, como o Livro de Daniel e o Livro de Ester, são mais longos do que aqueles encontrados no texto massorético.Rick Grant Jones, Various Religious Topics, "Books of the Septuagint ," (Accessed 2006.9.5). Alguns livros posteriores, como o Livro da Sabedoria, II Macabeus, entre outros, aparentemente já foram compostos em grego e não em hebraico.Ver Livros da Bíblia
A autoridade do grupo mais extenso de "escritos", a partir dos quais se formou o ketuvim, ainda não havia sido determinada, apesar de que algum tipo de processo seletivo deve ter sido empregado, uma vez que a LXX não inclui outros documentos judaicos bem conhecidos como o Livro de Enoque, o Livro dos Jubileus e outros escritos que atualmente são parte da Pseudepigrafia. Não é sabido quais foram os critérios usados para determinar o conteúdo da LXX além da "Lei e dos Profetas", expressão usada muitas vezes no Novo Testamento.
Análise documental Em sentido estrito, a Septuaginta se refere a uma família de manuscritos em versões gregas. Essa coleção de livros bíblicos foi baseada tanto em uma família de manuscritos hebraicos por tempos perdidos e alguns livros compostos originalmente em grego. O texto base hebraico subjacente (ou Vorlage) à Septuaginta pode ser atestado com a descoberta dos manuscritos do Mar Morto, quando várias leituras de diversos versos concordam entre si e divergem do Texto Massorético, a versão da Bíblia hebraica padronizada no século IX d.C. Além dessas concordâncias isoladas de versos, entre os manuscritos do Mar Morto foram encontrados quatro livros 4QDeut-q, 4QSam-a, 4QJer-b e 4QJer-d que coincidem com a família Vorlage.
A análise linguística e textual demonstrou que o Pentateuco (os cinco primeiros livros) foram produzidos nos meados do século III a.C. e os outros livros nos quatro séculos seguintes. Por essa razão, em sentido técnico estrito, atualmente a sigla LXX refere-se ao Pentateuco e a sigla LXX* ao conjunto não revisado de textos da Septuaginta.Invitation to Septuagint, 2000, Dr. Jones and Dr. Silva Em sentido estrito, outros livros da Septuaginta são chamados de Old Greek (OG), por suas recensões e revisões posteriores, como a de Teodotion (kaige-Th), de Luciano de Antioquia (GL), Hesíquio de Alexandria e a Héxapla de Orígenes. Mais tarde, outras versões gregas apareceram competindo com a Septuaginta, como a de Áquila de Sinope (Aq) e a de Símaco, o Ebionita (Symm), mas mesmo assim reproduz muito da fraseologia e das leituras da Seputaginta.
Estudiosos como Jones e Silva, defensores da Septuaginta e escritores do proeminente livro Invitation to Septuagint (Convite à Septuaginta), expressam, em duas ocasiões, a necessidade de precisar quais versões da Septuaginta a que se refere, alertando ao leitor que na verdade não existe uma só Septuaginta, pois estritamente falando, não existe um único livro ou versão chamados de Septuaginta, mas sim o conjunto de versões de livros diversos que compõem a coleção dessa família textual.
Etimologia Septuaginta é uma palavra latina que significa "setenta", sendo a junção de septem ("sete") e -ginta ("dezenas").Online Etymology Dictionary (Septuagint)
O nome completo em latim era interpretatio septuaginta virorum ("tradução dos setenta intérpretes"), uma tradução do nome grego original ἡ μετάφρασις τῶν ἑβδομήκοντα (transliterado para o alfabeto latino como hē metáphrasis tōn hebdomēkonta), de mesmo significado.
Em latim, septuaginta se pronuncia septuaguinta, com o som oclusivo da letra G, já que na língua latina não existia o som que no português é representado pela letra J (e que se repete na letra G quando seguida por E ou I). Sobre isso, é válido ressaltar que a letra J existia no latim, mas tinha o mesmo som que a vogal I, sendo ambos apenas grafias variantes do mesmo som (a título de exemplo, Julius era pronunciado Iulius).
Lenda A tradução ficou conhecida como a Versão dos Setenta (ou Septuaginta, palavra latina que significa setenta, ou ainda LXX), devido a uma antiga lenda sobre sua origem. A lenda aparece na Carta de Aristeias, obra pseudoepígrafe do século II a.C.,Jellicoe, Sidney.The Septuagint and Modern Study, 1993, p.31. cujo narrador seria um membro da corte de Ptolomeu II Filadelfo no século anterior e a teria escrito a um tal Filócrates como um prólogo à Septuaginta. Nessa lenda, setenta e dois eruditos judeus (seis de cada uma das doze tribos) trabalharam nela e, segundo a tradição, teriam completado a tradução em setenta e dois dias. Apesar de trabalharem individualmente, o produto final teria concordado entre si. Embora o relato tenha sido considerado fictício,TCHERIKOVER, Victor. The ideology of the letter of Aristeas. Harvard Theological Review, v. 51, n. 2, p. 59-85, 1958. o nome Septuaginta popularizou.
A lenda é repetida pelo historiador judeu Flávio Josefo para quem um grupo de sábios judeus traduziram a Torah para o grego koiné no século III a.C..Josephus, Flavius, Antiquities of the Jews, 12.2.11-15; Whiston, William; The Complete Works of Josephus; Hendrickson Publishers, (Nashville, Tennessee, 1987); ISBN 0-913573-86-8 Uma versão posterior da lenda, narrada por Fílon de Alexandria, afirma que apesar de os tradutores terem sido mantidos em salas separadas, todos eles produziram versões idênticas do texto em setenta e dois dias. Apesar desse relato ser historicamente implausível, sua redação traz à tona o desejo dos sábios judeus da época de apresentar a tradução como divinamente inspirada. Uma versão desta lenda é encontrada no Tratado Megillah do Talmude Babilônico (páginas 9a-9b), que identifica especificamente quinze traduções pouco usuais feitas por eruditos. Somente duas dessas traduções são encontradas no texto da LXX que chegou até nós.
O título latino se refere ao relato legendário contido na pseudepigráfica Carta de Aristeias em que o rei do Egito Ptolomeu II Filadelfo pede a setenta e dois sábios judeus que traduzam a Torá para o grego, com o fim de incluí-la na Biblioteca de Alexandria. A palavra septuaginta,The Canon Debate, McDonald & Sanders editors, chapter by Sundberg, page 72 acrescenta mais detalhes: "No entanto, não foi até o tempo de Agostinho de Hipona (354-430 dC) que a tradução grega das escrituras judaicas veio a ser chamado pela septuaginta termo latino [70 ao invés de 72]. Em sua Cidade de Deus 18,42, enquanto repetindo a história de Aristeu com enfeites típicos, Agostinho acrescenta o comentário: "É a tradução que agora se tornou tradicional para chamar a Septuaginta" ... [Latim omitido] ... Agostinho, portanto, indica que este nome para a tradução grega das escrituras foi um desenvolvimento recente. Mas ele não oferece nenhuma pista sobre quais os possíveis antecedentes levou a este desenvolvimento: Predefinição: Bibleverse, [Antiguidades 12,57, 12,86] Josefo, ou de uma elisão. ... Este nome Septuaginta parece ter sido desenvolvido do quarto para o quinto século.".significa "setenta" em latim (daí a abreviação LXX)
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