thumb|292px|Vista noturna da cidade a partir da zona hoteleira no lado oriental da praia, com o porto e a parte antiga ao fundo
Tânger (; ; ; em e : Tingis) é uma cidade do norte de Marrocos, capital da prefeitura de Tânger-Arzila e da região de Tânger-Tetuão-Al Hoceima. Tem de área e em 2004 tinha habitantes ().
Situa-se no topo noroeste de África, na costa atlântica e na entrada ocidental do estreito de Gibraltar, que une o Atlântico ao Mediterrâneo e separa Marrocos de Espanha. Dista 14 km em linha reta da península Ibérica.
Tem uma história riquíssima — por ali onde passaram várias civilizações e culturas desde a Antiguidade — que remonta pelo menos ao , quando os fenícios ou cartagineses ali fundaram uma colónia que substituiu um assentamento berbere. Foi uma colónia romana, capital da província da Mauritânia Tingitana, tendo sido depois conquistada pelos vândalos. Ao longo da Idade Média foi disputada por vários reinos muçulmanos e cristãos de ambos os lados do estreito. No foi oferecida por Portugal à Inglaterra, que só a ocupou de facto muito brevemente. De 1923 a 1956 teve estatuto de "cidade internacional", administrada conjuntamente por várias potências coloniais, entre as quais Portugal, e tornou-se um destino para muitos diplomatas, espiões, escritores e homens de negócio europeus e norte-americanos.
Nas últimas décadas assistiu a um rápido desenvolvimento e modernização, que passou, por exemplo, pela construção de hotéis luxuosos ao longo da sua extensa baía bordejada por uma praia de areia, um bairro de negócios moderno (Tangier City Center), um novo terminal de aeroporto e um novo estádio de futebol.
História
Da lenda à época romana Segundo a tradição mitológica greco-romana, Tinjis (ou Tinge), que deu o nome original à cidade, era a esposa do gigante Anteu, rei líbio filho de Posídon e Gaia, que foi vencido e morto por Héracles (Hércules para os romanos). Héracles casou depois com Tinjis e dessa união nasceu Sufax, que fundaria a cidade, à qual deu o nome da sua mãe. Plutarco relata que Quinto Sertório descobriu o túmulo de Anteu e Tânger; o esqueleto do gigante media 60 côvados. As grutas de Hércules — situadas poucos quilómetros a sudoeste da cidade, perto do cabo Espartel, que marca a entrada do estreito de Gibraltar (Colunas de Hércules na Antiguidade) — estão entre as principais atrações turísticas de Tânger. De acordo com a lenda, Hércules teria passado a noite ali antes de realizar o penúltimo dos seus doze trabalhos, o roubo das maçãs do Jardim das Hespérides. O geógrafo romano do Pompónio Mela, que possivelmente seria natural de Tingis, relata que na cidade se conservava o enorme escudo de Anteu, em pele de elefante, que era objeto de grande veneração por parte dos habitantes.
Segundo os registos históricos e arqueológicos, há indícios de ocupação pré-histórica e, mais tarde, alguns restos de presença fenícia (nomeadamente duas necrópoles), possivelmente devido ao seu excelente porto. A cidade é mencionada por navegadores jónios no (segundo Hecateu de Mileto) com o nome de Thigge (pronúncia aproximada: tingue). Desde o aparece como feitoria comercial cartaginesa, onde era cunhada moeda com a legenda púnica TNG’. Aparece na obra helenística Périplo de Pseudo-Cílax (112) e no Périplo de Hanão (2) como Timiatéria (Thymiateria) e Timiatério (Thymiaterion), cuja corrupção pode ter dado origem à Tingentera que aparece nos escritos de Pompónio Mela como sua cidade natal, aludindo a uma migração norte-africana na época púnica para a zona ibérica do estreito, possivelmente muito próxima das atuais Tarifa ou então Algeciras. O topónimo Tingi (ou Tiggin, pronúncia aproximada: tinguim em , em Estrabão 3.1.8.) estabiliza-se na época romana.
Tingis passou para o domínio romano no , inicialmente como uma aliada independente. Cerca da década de , segundo Dião Cássio era um município, a cujos habitantes Augusto concedeu a cidadania romana por o terem apoiado na sua guerra civil contra Marco António, rebelando-se contra o seu rei Bogudes, apoiante de Marco António. Segundo Tácito, durante o reinado de Calígula , a antiga província da Mauritânia foi dividida em duas, a Mauritânia Cesariense a leste, e a Mauritânia Tingitana a oeste, ambas imperiais e governadas por um procurador da ordem equestre, passando Tingis a ser a capital da segunda, à qual deu o nome. Pouco depois o imperador Cláudio eleva Tingis à categoria de colónia romana, provavelmente com o nome de Colónia Cláudia Cesareia Tingi (). Várias cidades da Tingitana dependiam administrativamente da Bética, entre elas Tingi. A cidade fornecia Roma principalmente de peixe em conserva e púrpura.
No substitui Volubilis como capital da Mauritânia Tingitana. No mesmo século, segundo a tradição, o cristianismo implantou-se em Tingis, tendo lugar ali o martírio de São Marcelo a 28 de julho de 298. Devido ao seu passado cristão, Tânger ainda é uma sé titular da Igreja Católica. Durante a Tetrarquia, após as reformas de Diocleciano em 296, toda a Mauritânia Tingitana passou a fazer parte da Diocese da Hispânia e por conseguinte a depender da Prefeitura das Gálias.
Idade Média No , os vândalos liderados por Genserico conquistaram e ocuparam a Tingitana e de lá partiram para a conquista do Norte da África. Um século mais tarde, em 534, durante o reinado de Justiniano, a região passou a fazer parte do Império Bizantino, uma situação que se manteve até 682, quando foi invadida pelos árabes comandados pelo general omíada Muça ibne Noçáir e apoiados pelos berberes Gomaras. Em 711 foi de Tânger que partiram as tropas de Tárique que invadiram a península Ibérica.
Durante os cinco séculos seguintes, as dinastias de Marrocos, a Ifríquia e da península Ibérica disputam a soberania de Tânger. Durante mais de cem anos, os Idríssidas com capital em Volubilis e depois em Fez enfrentam-se com os Omíadas de Córdova pelo controlo da cidade. O califa andalusino (do Alandalus, a Ibéria muçulmana) teve entre os territórios sob o seu domínio Tânger, Ceuta e Melilha. Esse controlo dos califas omíadas de Córdova sobre o norte do que é hoje Marrocos e do Magrebe Central (aproximadamente a atual Argélia) manteve-se com o neto de Abderramão, , Almançor , o filho deste, Maleque e . Tânger pertenceu à taifa de Málaga a partir de 1026, pouco antes da junta de vizires declarar em 1031 a dissolução do Califado de Córdova. Por esta altura, o historiador andalusino Albacri chama à cidade Ţania Albaida ("Tânger, a Branca", um epíteto que ainda hoje seria adequado). Em meados do , os Fatímidas da Ifríquia estendem a sua autoridade a Tânger. Entre 1075 e 1148 ou 1149 a cidade esteve nas mãos dos Almorávidas, a que se seguiram os Almóadas. Tânger foi ocupada primeiro pelas tropas do califa Abde Almumine e em 1196 por Abu Iúçufe Iacube Almançor. Pertencerá depois ao Reino Haféssida da Ifríquia.
Durante o , o início da era dos Merínidas, a praça de Tânger conheceu alguns anos de independência com o emir al-Hamdani. Quando este morreu, às mãos dos seus próprios súbditos, foi sucedido pelo seu filhos. Por esses anos, já durante o reinado de Iacube ibne Abdelhalak, Tânger sofreu um tremendo assédio por terra e por mar. Em 1274 tornou-se uma possessão merínida. O explorador, escritor e geógrafo ibne Batuta nasceu na cidade em 1304. Sendo contemporâneo de Marco Polo, a sua imagem e fama nunca foi ensombrada por este. Viajante incansável, dedicou a sua vida ao estudo da geografia. Em 1359, a cidade foi conquistada por Abu Salem, irmão de Abu Inam, que vindo da península Ibérica conquistou o trono.
Domínio português e reconquista Os portugueses tentaram conquistar a cidade em 1437, durante o período henriquino. Apesar da oposição inicial do rei D. Duarte e da desaprovação do infante D. Pedro, as cortes reunidas em Évora em Abril de 1436 votaram os créditos para a empresa. Rui de Pina afirma que na armada havia apenas homens, número insuficiente para atacar a poderosa praça do Magrebe.
Em setembro de 1437, após partir de Ceuta, chega a Tânger. Uma parte das forças seguiram caminho por terra, comandadas pelo infante D. Henrique, e a outra por mar, comandadas pelo infante D. Fernando. A cidade norte africana era defendida por Çala-ibn-Çala, o antigo capitão de Ceuta aquando da conquista de 1415.
esquerda|thumb|Tingis (Braun e Hogenberg. "Civitates Orbis Terrarum", 1572) esquerda|thumb|Dia de mercado no exterior das muralhas de Tânger (1873)
Os portugueses, sob a chefia do infante D. Henrique, foram derrotados e deixaram ficar o infante D. Fernando como prisioneiro. Uma vez que o seu resgate passava pela devolução da praça de Ceuta aos marroquinos, o que não foi aceite pelas Cortes portuguesas, D. Fernando viria a falecer cativo em Fez, em 1443, às mãos dos mouros; o seu cativeiro é tradicionalmente visto como motivo de santidade, que está na origem do seu cognome de Infante Santo e este momento histórico passa a ser conhecido por Desastre de Tânger. (Estudos recentes como o do padre Domingos Maurício dos Santos, autor do livro D. Duarte e as responsabilidades de Tânger (1433-1438), revelam as responsabilidades do infante D. Henrique no desastre militar, bem como o de Peter Russell, biógrafo do infante D. Henrique, e o de Luís Miguel Duarte, biógrafo do rei D. Duarte, onde esta questão é amplamente abordada.)
Em 1458, antes de atacar Alcácer-Ceguer, a armada de D. Afonso V esteve dois dias ancorada na baía de Tânger, tendo o rei planeado a sua conquista, no que foi contrariado pelo Conselho. Três vezes tentou atacar a cidade, sempre sem êxito. A 24 de Agosto de 1471, com a tomada de Arzila, os habitantes de Tânger, compreendendo que o objetivo final era a tomada da sua cidade, abandonaram-na. Foi então ocupada por D. João, filho do duque de Bragança no mesmo ano por ordem de D. Afonso V. As relíquias de D. Fernando só então foram recuperadas e solenemente transladadas para o Panteão Régio na Batalha, onde ainda hoje repousam, na Capela dos Fundadores.
No domínio eclesiástico, Tânger pertenceu ao bispado unido de Ceuta e Tânger. No início do , Tânger permaneceria sempre em pé de guerra, com raros e breves períodos de tréguas. Surgiu então o plano de abandono de algumas praças portuguesas de Marrocos exposto por , em 1532, ao papa. No entanto, em 1534, num pedido de consulta aos principais conselheiros do Reino, o monarca demonstrou a sua vontade de conservar Tânger como base de ataque ao Reino de Fez. As Cortes de 1562-63, reunidas depois do cerco de Mazagão, insistiram na sua defesa e pediram o reforço da guarnição. Em 1578, por alturas da expedição que viria a partir de Arzila para Alcácer-Quibir, o rei encontrou em Tânger Mulei Moamede Almotoaquil, o xerife deposto por Mulei Abde Almélique.
Tânger permaneceu em mãos portuguesas até 1661, altura em que, ao abrigo do tratado de paz e amizade firmado com a Grã-Bretanha, a mão da princesa Catarina de Bragança, filha de , foi dada em casamento ao rei , levando no seu dote as cidades de Tânger e de Bombaim (na Índia). Uma esquadra desembarcou ali nesse mesmo ano e a guarnição e quase toda a população portuguesa regressaram ao Reino. No entanto o domínio inglês sobre a cidade durou pouco tempo. Em 1679, o sultão alauita Mulei Ismail de Marrocos falha na primeira tentativa de conquistar a cidade, mas mantém um grande bloqueio que finalmente leva à retirada inglesa no dia 6 de fevereiro de 1684 — Carlos II considerou que a posse da cidade era inútil e muito onerosa. Antes de retirarem, os ingleses destruíram a cidade e o seu porto. O sultão levou a cabo obras de reconstrução, que no entanto não impedem um lento declínio, a ponto de, no início do , a população não ultrapassar os habitantes. Isso apesar de em 1786 se ter tornado a capital diplomática de Marrocos, onde se instalaram os consulados estrangeiros no sultanato, nomeadamente o espanhol e a primeira legação diplomática dos Estados Unidos (em 1797).
Séculos XIX e XX thumb|Bombardeamento de Tânger em agosto de 1844 pelos franceses