A Irmandade Muçulmana ou ainda Fraternidade Muçulmana,A fraternidade muçulmana, acesso em 10 de agosto de 2014. (em árabe جمعية الأخوان المسلمون, Jamiat al-Ikhwan al-Muslimun, literalmente Sociedade de Irmãos Muçulmanos, mas conhecida popularmente apenas como الإخوان, Al-Ikhwān, A Irmandade) é uma organização islâmica radical fundada em que atua em cerca de 70 paísesEgypt's Muslim Brotherhood is not to be trusted, em inglês, acesso em 24 de agosto de 2014. e que pretende "retomar" os ensinamentos do Corão, rejeitando qualquer tipo de influência ocidental.

A Irmandade Muçulmana, que luta para estabelecer a xaria (leis do islamismo) como base dos estados e das sociedades, é considerada a precursora do fundamentalismo islâmico contemporâneo, que, a partir de cisões, deu origem a grupos mais violentos como o Hamas e a al-Qaeda, e tem o objetivo de unificar os países de população muçulmana e opõe-se às tendências seculares de algumas nações islâmicas (ex: Turquia, Líbano, Egito, Marrocos) assim como rejeita as influências Sufi e o chamado "islamismo moderado".

Ela tem origem na mesma seita islâmica radical uaabita, sunita, base da sociedade da Arábia Saudita e que inspirou a milícia dos talibãs e a rede terrorista Al-Qaeda.

Foi fundada em 1928 no Egito, com o objetivo de libertar a pátria islâmica do controle dos estrangeiros e infiéis (cafir) e estabelecer um estado islâmico unificado.Origem dos movimentos islâmicos revolucionários, por Luis Milman, Revista Espaço Acadêmico, n.º 35, Abril de 2004 Duas figuras exercem uma influência poderosa sobre o pensamento da Irmandade: o seu fundador Hassan al-Banna* e o escritor Sayed Qutb.

O lema da organização é: "Alá é o nosso objetivo, Maomé é o nosso líder, o Corão é a nossa lei, a jihad é o nosso caminho. Morrer no caminho de Alá é nossa maior esperança".

O seu símbolo heráldico são duas espadas de ouro sob o Alcorão, com o slogan "Prepare-se".

Á data de 2017, os principais apoiantes da Irmandade Muçulmana eram o Qatar e a Turquia. A Irmandade é considerada uma organização terrorista pelos governos do Bahrein, Egipto, Rússia, Síria, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

Ideologia O fundador, Hassan Al-Banna, foi influenciado pelos reformadores islâmicos Muhammad Abduh e Rashid Rida, e ele insistiu que apenas o Alcorão e os hádices mais confiáveis deveriam ser fontes da Xaria. Al-Banna evitou controvérsias sobre a doutrina. Ele minimizou as diferenças doutrinais entre as escolas (embora não aceitando os muçulmanos Bahais e amadita), enfatizando a importância política da unidade mundial da nação Muçulmana (a umma).

A ideologia de Banna pode ser resumida em alguns pontos principais: o Islã é um perfeito e completo modo de vida; o Islão deve ser a base de toda a legislação; as sociedades ocidentais são decadentes e corruptas, e Alá ordenou que os muçulmanos conquistassem e governassem toda a Terra.

Banna salienta que o Islão é um sistema perfeito de organização social, que abrange todos os aspectos da vida, logo, para um muçulmano, não é possível separar a religião da política: "... não reconhecemos tais divisões".

Todas as leis deveriam ser baseadas no Islão, derivadas da Xaria, extraída do Alcorão. Segundo Banna, a Xaria e as decisões dos juristas islâmicos são totalmente suficientes, suprem todas as necessidades, cobrem todas as contingências, e "produzem os mais excelentes resultados e os frutos mais abençoados".

Já em 1936 Banna escrevera uma carta ao rei do Egito, Faruq, onde expunha com detalhe a sua ideia do que deveria ser o programa dum governo islâmico. A conduta pessoal de todos os funcionários do governo deveria ser vigiada para atingir o fim da dicotomia entre as esferas privadas e profissionais. Deveria ser preparada a restauração do Califado. Deveriam ser impostas penas severas por "ofensas morais", e proibidas a prostituição, o jogo, o álcool, a dança e a fornicação. O "problema das mulheres" deveria ser tratado de acordo com os ensinamentos islâmicos, os estudantes separados por sexos, e as reuniões privadas entre homens e mulheres ser contadas como um crime. Filmes, peças de teatro, livros, canções, tudo deveria ser censurado.

Dado que as leis divinas são superiores a qualquer lei feita pelos homens, o Islão deve governar o mundo; sem os perfeitos ensinamentos do Islão, a Humanidade não conseguirá atingir a felicidade. Segundo os escritos de Banna, "Alá impôs a Jihad como um dever religioso para todos os muçulmanos, o qual não pode ser ignorado nem iludido." Como base da sua ideia, ele invoca diversas suras do Alcorão, (como por exemplo a totalidade da Sura 9), assim como vários hádices, e ainda as opiniões das quatro principais "escolas de pensamento" islâmicas: hambalita, hanafita, maliquita e xafeíta. E pergunta: "Que fantasia é essa que nos reduziu a amar este mundo e detestar a morte?".

Também Sayyid Qutb considerava que a Jihad é uma característica essencial do Islão, ordenada por Alá no Alcorão. Ela é necessária para "acabar com a tirania e introduzir a verdadeira liberdade da humanidade...a Jihad deve assegurar a liberdade total para todos os homens em todo o mundo, libertando-os da servidão a outros seres humanos para que ele possa servir a Alá". Isto aplicar-se-ia também aos estados muçulmanos da época, incluindo o próprio Egipto, que se teriam afastado do verdadeiro Islão, estando portanto num estado de Jahiliyyah, isto é, a "idade da ignorância", o termo usado no Islão para designar a sociedade árabe antes do surgimento de Maomé. S.Qutb cita também em seu apoio vários versos do Alcorão, como a Sura 9 (Sura at-Tawba).

Maxime Rodinson considera que a tendência dominante dentro da Irmandade é um tipo de "fascismo arcaico" - o desejo de estabelecer um estado autoritário, totalitário, impondo brutalmente a ordem moral e social e a tradição religiosa mais conservadora.

A posição da Irmandade sobre a participação política variou de acordo com a situação interna de cada país em que se encontra. Durante muitos anos a sua posição foi "colaboracionista " no Kuwait e na Jordânia; "oposição pacífica " no Egipto; " oposição armada " na Líbia e na Síria. Quanto à sua actividade no Ocidente, a estratégia da Irmandade poderá estar ligada a um documento de 12 pontos intitulado "Rumo a uma estratégia mundial para a política islâmica", vulgarmente conhecido como "O Projecto". Foi escrito a 1 de Dezembro de 1982, por Yusuf al-Qaradawi, no culminar de uma série de duas reuniões realizadas em 1977 e 1982 em Lugano, na Suíça. O documento instrui os membros da Irmandade a mostrarem "flexibilidade" na sua actividade fora do mundo islâmico, encorajando-os a adoptar temporariamente valores ocidentais sem se desviarem dos seus "princípios islâmicos básicos." Além disso, deveriam evitar um "confronto" desproporcionado com adversários potencialmente perigosos até que a situação fosse propícia.

História no Egito

Primeiros Anos

miniatura|200px|esquerda|Hassan al-Banna, o fundador da Irmandade Muçulmanaminiatura|200px|esquerda|Sayyid Qutb, uma figura importante do movimento A organização foi fundada por Hassan al Banna, em 1928, e surge após o fim do Império Otomano com a extinção oficial do califado turco, em 1924 em consequência da I Guerra Mundial, numa altura que o mundo árabe tinha se fragmentado em movimentos nacionalistas que lutavam contra o controle imperialista franco-britânico na região e o sionismo.

O seu fundador, era um professor egípcio que, na época tinha 22 anos, denunciava "a doença que reduziu a Ummah (comunidade muçulmana) ao seu estado atual", o que o motivou, juntamente com outros cinco jovens – todos na faixa dos vinte anos – a criar a Irmandade. As primeiras reuniões ocorreram na residência do fundador na cidade egípcia de Ismailiyya.In Search Of Friends Among The Foes, em inglês, acesso em 06 de setembro de 2014.

Limitada inicialmente à reforma moral e espiritual, a Irmandade cresceu de modo impressionante e tornou-se a mais importante organização político-integrista do mundo. Entre os anos 30 e 40, contava com cerca de 500 mil membros no Egipto, além de afiliados em todo Oriente Médio. Quando a II Guerra Mundial terminou, a Irmandade era uma força política expressiva no Egito e jogou papel fundamental na luta contra a antiga ordem colonial dos britânicos e franceses.

O movimento, inspirado nas "camisas negras" de Mussolini e semelhantes, organizou um braço paramilitar (cujo slogan era "acção, obediência, silêncio, fé e luta") o chamado "Aparato Secreto" (al-jihaz al-sirri) que realizou ataques terroristas e assassinatos de governantes coloniais britânicos e de autoridades egípcias.

Entre 1937 e o final da Segunda Guerra Mundial, a Irmandade recebeu financiamento do regime nazista. Amin al-Husayni, fez também chegar, por intermediários, dinheiro alemão a Banna.

Hassan al Banna era admirador de Hitler, e a Irmandade fez circular edições, traduzidas para o árabe, de Mein Kampf. A partir de 1933, o livro de Hitler foi um best-seller. Os nazis estabeleceram "relações especiais" com a Irmandade Muçulmana, o Partido Baath, o Partido do Jovem Egipto e facções radicais da Síria, Iraque e Palestina, e esperava também construir laços com os reis do Egipto e da Arábia Saudita.

Em 1948, depois de desempenhar papel central na mobilização de voluntários para lutar na guerra contra os sionistas na Palestina, para impedir a criação de um estado judeu, a Irmandade se lança numa tentativa de golpe de estado contra a monarquia egípcia. Em 18 de dezembro desse ano, o primeiro-ministro do rei Faruque, Nuqrashi Pasha estancou-a. Menos de três semanas depois, a Irmandade retaliou e o assassinou. O governo desencadeou, então, uma perseguição à Irmandade, assassinando Al Banna e muitos de seus agentes em 12 de fevereiro de 1949.

Mesmo assim estava a Irmandade longe de ser destruída. Sob a liderança do ainda mais radical Sayyid Qutb, ela continuou a lutar pela tomada do poder e reorganizou-se. Em 1952, aliados com a agência americana CIA, ela apoiou os "Oficiais Livres" liderados por Gamal Abdel Nasser, Mohamed Naguid e Anwar Al Sadat, na destituição da monarquia do Rei Faruque, que abandonou o Egito em benefício do seu filho Ahmad Fouad, cuja posição de monarca era meramente decorativa, porque o país passou a ser controlado pelos militares nacionalistas. Em 1953, Fouad foi finalmente deposto, a monarquia extinta e criada a actual república, com Mohamed Naguid colocado na presidência.

Na Era Nasser

A Irmandade Muçulmana, foi afastada pelo então presidente Gamal Abdel-Nasser de qualquer influência no novo regime que ajudaram a implantar, aderiram à luta armada para derrubá-lo. Em fevereiro de 1954, a Irmandade foi tornada ilegal e em outubro do mesmo ano seus membros tentaram assassinar Nasser.

Em 1954, o presidente Gamal Abdel-Nasser proibiu a Irmandade após culpá-la por uma fracassada tentativa de assassinato contra ele. Líderes foram executados e milhares de seus membros presos, muitas vezes submetidos a tortura. Qutb, seu principal líder, foi sentenciado a dez anos de prisão. Milhares de integrantes do movimento fugiram para outros países árabes como Síria, Arábia Saudita, Jordânia e Líbano e isso ajudou a internacionalizar o movimento.

Na Era Sadat

Qutb foi sucedido por Muhammad al-Mahmud al-Hudeibi, que adotou uma postura mais moderada e, em 1973, estabeleceu um acordo com Anwar Sadat, o novo presidente da república do Egipto, que incluiu a renúncia formal ao uso da violência. Isso permitiu uma redução das atividades repressivas, embora muitos integrantes tenham sido presos no período.

Na Era Mubarak

Após o assassinato de Sadat, em 1981, muitos integrantes foram libertados por Hosni Mubarak, que assumiu o poder.