QuaraciQUARACI. In: Michaelis: Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. São Paulo: Melhoramentos, [s.d.]. (do tupi KûarasyNAVARRO, 2013, p. 236.) ou QuaraíKERN, Arno Alvarez. Antecedentes indígenas. 2. ed. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1998. p. 107. (do guarani KuarayCADOGAN, 1992, p. 86.) é o deus Sol na religião e mitologia tupi-guarani, o principal regulador da vida na Terra.AFONSO, Germano Bruno. Mitos e estações no céu tupi-guarani. ’Ciência e Cultura,’ [s. l.], v. 58, n. 4, out./dez. 2006. Ele é o irmão gêmeo mais velho de Jaci, o deus Lua.
Etimologia “Kuarasy” é possivelmente herdado do proto-tupi-guarani *kʷarat͡ʃɨ (derivando *kʷaT, donde Kwat, e *kʷar-atsy, donde Kûarasy), formado pela junção dos termos *kʷar (“sol”) e *t͡ʃɨ (“mãe”), “mãe/origem do sol”. Sy, de fato, tanto pode significar “mãe” como também “origem, início” (Kó pytuna ri sy-ari. — “Nesta noite tomou início.”),NAVARRO, 2013, p. 450. indicando que a sua ocorrência num nome ou palavra não necessariamente signifique se tratar de um ente feminino.
O nome do Sol tupi-guarani comporta uma grande variação de grafias, de acordo com a língua de cada povo do tronco tupi.
O militar, etnólogo e folclorista brasileiro Couto de Magalhães foi o primeiro a propor uma etimologia do nome Guaracy dos tupis do norte ou Cuaracy dos tupis do sul (guaranis), como ele diz em sua obra O Selvagem (1876), dizendo ser "mãe (cy) dos viventes (guara)" em tupi.MAGALHÃES, 1935, p. 158-159. É possível que ele preferisse a forma “Guaracy”, e ele foi o primeiro a grafar o nome do deus com a inicial “G”, porque se encaixava melhor na etimologia por ele proposta, embora a forma “Cuaracy”, que ele também reconhece, fosse mais próxima do nome tupi original, Kûarasy.
O pesquisador paraguaio León Cadogan (1959) sugere que o nome Kuarahy ou Kuaray (“Sol” em guarani) significaria “a manifestação da sabedoria e do poder criativo (do Ser Supremo)”, de kuaá = “saber”, ra = “criar”, 'y = “coluna, mastro, manifestação”.CADOGAN, 1959, p. 26.
Luís da Câmara Cascudo registra em seu Dicionário do Folclore Brasileiro (1988) o nome “Coaraci”, embora mencione também as variações Coraci no Pará e Guaraci no baixo Amazonas, mas apresenta uma etimologia diferente da proposta por Magalhães: viria de coá (“este”) ara (“dia”) ci (“mãe”), “mãe deste dia”, “mãe do dia”, a explicação da origem da luz diurna.CASCUDO, 1988, p. 233. Eduardo Navarro repete a etimologia dada por Cascudo em seu Dicionário de tupi antigo (2013), mas evita usar a palavra “mãe”, preferindo o sentido de “origem” para a palavra sy, “origem deste dia”.
O pesquisador argentino Héctor A. Keller (2013) sugere que Kuara'y (“Sol” em mbyá-guarani moderno) viria de kuaa ra'y, "filho sábio" ou "filho da sabedoria".KELLER, H. A. (2013). Árboles y arbustos en mitos guaraníes sobre el origen y el fin del mundo: elucidación de algunas expresiones fitonímicas. Bonplandia, 22(2), 149–158.
Descrição A provável menção mais antiga registrada de Quaraci é do frade franciscano e cosmógrafo francês André Thevet, que viajou ao Brasil em 1550 e 1554. Caroubsoux (pronúncia aproximada: Karru[b]sú) é o termo usado por ele para se referir ao Sol segundo a mitologia dos tupinambás, em sua transcrição fonética do francês.THEVET, 1575, p. 917v.MÉTRAUX, 1950, p. 54.
Na publicação de 1557 de Duas Viagens ao Brasil, o mercenário alemão Hans Staden registrou, tentando adaptar a fala tupi à escrita alemã, o nome Quora Oss (pronúncia aproximada: [K]vorra-óss) para o Sol, mas sem se referir a seu caráter divino.STADEN, Hans. Warhaftige Historia und beschreibung eyner Landtschafft der Wilden Nacketen, Grimmigen Menschfresser-Leuthen in der Newenwelt America gelegen. Cap. 24, caput XXVI. Marpurg: Andreas Kolbe, 1557.
Outra das mais antigas menções a Quaraci e Jaci é nos poemas líricos religiosos do padre jesuíta espanhol José de Anchieta, chegado ao Brasil em 1553, como o “Da Conceição de Nossa Senhora” (década de 1560), onde ele usa os nomes kûarasy e îasy para o sol e a lua, mas sem apresentar os astros celestes como deuses (no mesmo poema ele usa “Tupan” como nome do deus cristão e “Anhanga” como o diabo, ignorando a mitologia nativa).ANCHIETA, José de (Autor) e NAVARRO, Eduardo de Almeida (Compilador). Poemas: lírica portuguesa e tupi. Martins Fontes, São Paulo, 1997.
Ainda no mesmo século, em Histoire d'un voyage fait en la terre du Brésil, autrement dite Amérique (História de uma Viagem Feita à Terra do Brasil, Também Chamada América) publicado em 1578, o pastor, missionário e escritor francês Jean de Léry registra os nomes Couarassi para o Sol e Jasce ou Iasce para a Lua, mas, igual a seus predecessores, também não lhes atribui personalidade.LÉRY, 1880, p. 133.
No livro Histoire de la mission des pères Capucins en l'isle de Maragnan et terres circonvoisins (História da missão dos padres capuchinhos na ilha do Maranhão e suas circunvizinhanças, 1614), o religioso e entomólogo francês Claude d'Abbeville grafou Koarassuh e Yasseuh/Yaseuh para o Sol e a Lua dos tupinambás, respectivamente. Contudo, d'Abbeville considerava que os mesmos não tinham religião por não ter encontrado templos ou ídolos de seus deuses.D'ABBEVILLE, 1874 (1614), p. 371-372. Para ele, os tupinambás não consideravam o Sol e a Lua como divindades e, portanto, à mesma maneira dos cronistas cristãos antecessores, ele não lhes atribuiu agência.
Apesar de não reconhecer uma religião para os indígenas, d’Abbeville também registrou a importância do Sol para o calendário tupi: "Marcam ainda, e muito bem, o giro do Sol e o seu caminho entre os dois trópicos como limites, que não deve ultrapassar. Dizem que traz ventos e brisas quando vem do nosso polo Ártico, e chuvas quando volta-se do outro lado, em sua ascensão para nós. Contam muito bem os seus anos por doze meses pelo giro do Sol indo e vindo de um trópico a outro. Também conhecem esses meses pela estação das chuvas, das brisas e dos ventos, e da época dos cajus."D'ABBEVILLE, 1874 (1614), p. 368.
Em O Selvagem (1876), Couto de Magalhães denomina Guaracy e Jácy (como ele grafa seus nomes) como "mãe dos seres viventes" e "mãe dos vegetais", respectivamente, como etimologias propostas de seus nomes, então geralmente se referindo a ambos os deuses como "mães", embora em uma passagem ele se refira a Guaracy como “Deus” (com “D” maiúsculo),MAGALHÃES, 1935, p. 168. mas não chama Jácy nem de deus e nem de deusa.
Para Magalhães, os chamados deuses superiores dos tupis são três: Guaracy, Jácy e Rudá ou Perudá, o deus do amor e da reprodução, tendo cada um deles outros deuses menores que lhe são subordinados. Os deuses submetidos a Guaracy, associados à vida animal, seriam: Uirapuru, protetor das aves; Anhanga, que cuida do destino da caça no campo; Caapora, a quem foi confiado o destino da caça no mato; e Uauiará, o boto, guardião dos peixes.MAGALHÃES, 1935, p. 168-170.
Câmara Cascudo (1988), referenciando Couto de Magalhães, informa no verbete “Coaraci” que, na teogonia indígena, Coaraci é irmão e casado com a Lua, Jaci (para ele uma deusa em vez de deus [mas, em outra obra, ele se contradiz e afirma que “Goaraci, o Sol, e Jaci, a Lua, deuses superiores, são ambos femininos“CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. 1. ed. digital. São Paulo: Global Editora, 2012. E-book. p. 147.]), e é o criador de todos os viventes, encarregado de dirigir o reino animal, e repete os quatro deuses submetidos à deidade. Contudo, discordando de Magalhães, Cascudo diz que não há vestígios que fundamentem a existência de um culto astrolátrico entre os indígenas do Brasil, não tendo os mesmos nenhuma devoção para os astros celestes. Sobre a menção de Jaci ser esposa de Coaraci, algo que Magalhães não menciona, Cascudo não apresenta qualquer fonte (o dicionário Michaelis usa as palavras de Cascudo na definição do verbete "Quaraci").
A título de curiosidade, apesar de os deuses tupis-guaranis comumente não serem representados por imagens religiosas, certa vez foi registrado, na casa de dança dos apapocuvas na aldeia Araribá em Avaí (São Paulo), um par de estátuas em tamanho natural dos heróis gêmeos Ñanderyqueý e Tyvýry (identificados como Quaraí e Jaci pelos guaranis), provavelmente inspiradas no culto cristão de imagens de santos. Durante a cerimônia do culto guarani, entretanto, as estátuas não são objetos de devoção, agitando os pajés seus maracás em direção ao zênite, local de assento de Ñanderyqueý/Quaraí.NIMUENDAJÚ, 1987, p. 78-79 e 132j (foto).
Quaraci e os pontos cardeais
Para os tupis-guaranis o Sol é o principal regulador da vida na Terra e tem grande significado religioso. Todo o cotidiano deles está voltado para a busca da força espiritual do Sol. Os guaranis, por exemplo, nomeiam o Sol de Kuaray, na linguagem do cotidiano e de Nhamandu, na espiritual.
Os tupis-guaranis determinam o meio-dia solar, os pontos cardeais e as estações do ano utilizando o relógio solar vertical, ou gnômon, que na língua tupi antiga chamava-se cuaracyraangaba ou cuaracy ra’angaba (quaraciraangaba, “representação do sol”).CUARACY Ra’Angaba – O céu Tupi Guarani. Direção: Fernando C. de Mello. [S. l.]: Iphan, 26 jan. 2015. 1 vídeo (28 min 02 s). Publicado pelo canal Iphan. Ele é constituído de uma haste cravada verticalmente em um terreno horizontal, da qual se observa a sombra projetada pelo Sol. Essa haste vertical aponta para o ponto mais alto do céu, chamado zênite. O relógio solar vertical foi utilizado também no Egito, China, Grécia e em diversas outras partes do mundo.
Na cosmogênese guarani, Nhanderu (Nosso Pai) criou quatro deuses principais que o ajudaram na criação da Terra e de seus habitantes. O zênite representa Nhanderu (de quem Quaraí herda o assento) e os quatro pontos cardeais representam esses deuses: Jacairá no Norte, Caraí no Leste, Nhamandu no Sul e Tupã no Oeste. Enquanto os tupis baseiam seu calendário no nascer helíaco das Plêiades, por eles chamadas Seîxu, o calendário guarani está ligado à trajetória aparente anual do Sol e é dividido em “tempo novo” (ara pyau, primavera e verão) e “tempo velho” (ara ymã, outono e inverno).
O dia do início de cada estação do ano guarani é obtido através da observação do nascer ou do pôr-do-sol, sempre de um mesmo lugar, por exemplo, da haste vertical do quaraciraangaba. O Sol sempre nasce do lado leste e se põe do lado oeste; no entanto, somente nos dias do início da primavera e do outono, o Sol nasce exatamente no ponto cardeal Leste e se põe exatamente no ponto cardeal Oeste. Para um observador no Hemisfério Sul, em relação à linha leste-oeste, o nascer e o pôr-do-sol ocorrem um pouco mais para o norte no inverno e um pouco mais para o sul no verão. Utilizando rochas, por exemplo, para marcar essas direções, os tupis-guaranis materializavam os quatro pontos cardeais e as direções do nascer e do pôr-do-sol no início das estações do ano.
Mitologia Ao contrário das fontes informadas mais acima, que se tratam mais de interpretações dos mitos indígenas filtradas por vieses do homem branco do que de narrações colhidas diretamente de nativos e apresentadas com o mínimo de alterações possível, em tempos mais recentes tem-se havido um maior cuidado em contar as histórias dos povos indígenas com mais fidelidade. No que se refere a Quaraci e Jaci, elas revelam que o Sol e a Lua para os povos tupis-guaranis são sempre do sexo masculino, irmãos gêmeos ou Lua é irmão mais novo de Sol, a depender da versão. O mito dos gêmeos divinos é um dos mais contados e difundidos pela América do Sul.