O Livro de Levítico (do grego , "Leuitikon", do original hebraico "torat kohanim"; , "Vaicrá", "Chamado por Deus") é um dos livros do Tanakh e do Antigo Testamento, que integra a seção da Torá e do Pentateuco. É composto majoritariamente por diversas leis que foram dadas por Deus a Moisés no Tabernáculo, com o objetivo de santificar e purificar o povo para que pudessem coabitar com eleGorman, pp.4–5, 14–16.

Autoria A visão tradicional é que o Levítico foi escrito por Moisés — ou que o material nele remonta à sua época —, mas pistas internas sugerem que o livro foi escrito muito mais tarde na história de Israel e se completo ou no final do Reino de Judá, no fim do século VII a.C., ou no período do cativeiro na Babilônia e logo depois, nos séculos VI e V a.C.. Os estudiosos debatem se ele foi escrito primordialmente para a liturgia judaica no exílio, centrada na leitura e na pregação,Wenham, p.8 ff.Gerstenberger, p.4 ou se para instruir os fieis nos templos de Jerusalém e da Samaria.Watts (2013), pp.104–107 Seja como for, eles são praticamente unânimes ao afirmar que o livro levou um período longo de tempo para se desenvolver e, embora ele contenha material de considerável antiguidade, o Levítico atingiu seu formato atual durante o período persa (538–332 a.C.).Grabbe (1998), p.92

Sumário Os capítulos um a cinco descrevem os vários sacrifícios do ponto de vista dos ofertantes, destacando o papel dos sacerdotes na lida do sangue. Os capítulos seis e sete tratam do mesmo tema, mas do ponto de vista do sacerdote, que, como o responsável pelo sacrifício de fato e por dividi-los em pedaços, precisa saber como o procedimento deve ser realizado. Os sacrifícios devem ser divididos entre Deus, o sacerdote e os ofertantes, embora, em alguns casos, o sacrifício todo deva ser entregue a Deus em uma única parte — a porção de Deus era queimada até virar cinzas.Grabbe (2006), p.208

Os capítulos oito a dez descrevem a consagração de Aarão e seus filhos por Moisés como os primeiros sacerdotes ("kohanim"), os primeiros sacrifícios e a destruição de dois dos filhos de Aarão (Nadabe e Abiú) por Deus por ofensas rituais. O objetivo destes capítulos é sublinhar o sacerdócio no altar (os responsáveis pelo sacrifício) como um privilégio aaronita e também os perigos e responsabilidades inerentes à posição.Kugler, Hartin, p.82

Com o sacerdócio e os rituais de oferta estabelecidos, os capítulos onze a quinze instruem os leigos sobre a pureza (ou "limpeza"). Comer certos animais resulta em impureza assim como dar a luz; certas doenças de pele (não todas) são impuras, assim como são certas condições de construções e roupas (como mofo e similares); líquidos genitais, incluindo o sangue menstrual e a gonorreia masculina, são impuros. O racional por detrás das regras alimentares é obscuro, mas o princípio central inerente a todas essas condições envolve a perda de uma "força vital", geralmente (mas não sempre) através do sangue.Kugler, Hartin, pp.82–83

O capítulo dezesseis do Levítico é sobre o Dia do Perdão ("Yom Kipur"), o único dia no qual o sumo-sacerdote pode entrar na parte mais sagrada do santuário, o Santo dos Santos. Ele deve sacrificar um touro pelos pecados dos sacerdotes e um bode pelos pecados dos leigos. Um segundo bode deve ser enviado para o deserto (para "Azazel") levando os pecados de todo o povo. É possível que Azazel seja um demônio do deserto, mas sua identidade é obscura.Kugler, Hartin, p.83

Os capítulos dezessete a vinte e seis compõem o "Código da Santidade". Ele começa com a proibição de todo o abate de animais fora do Templo, mesmo para comer, e em seguida proíbe uma longa lista de contatos sexuais e, especialmente, o sacrifício de crianças. Os mandamentos de "santidade" que emprestam seu nome ao código começam na seção seguinte: penalidades são impostas para a adoração a Moloque, a consulta a médiuns e magos, o amaldiçoamento dos pais e as relações sexuais ilegais. Os sacerdotes são instruídos sobre os rituais de luto e os defeitos corporais aceitáveis. A blasfêmia deve ser punida com a morte e regras são impostas sobre o que se pode comer dos sacrifícios; o calendário e as regras para os anos de Jubileu e Sabáticos são explicados; além disso, há regras para as lâmpadas de óleo e o pão no santuário; e regras sobre a escravidão. O código termina alertando os israelitas que eles precisam escolher entre a lei e a prosperidade por um lado ou, por outro, punições horríveis, incluindo o banimento, a pior delas.Kugler, Hartin, pp.83–84

O capítulo vinte e sete é muito diferente dos demais e provavelmente é uma adição posterior. Ele trata de pessoas e coisas dedicadas a Deus e como juramentos podem ser redimidos se não puderem ser cumpridos.Kugler, Hartin, p.84

Estrutura thumb|direita|Morte de Nadabe e Abiú, narrada em . A estrutura apresentada pelos comentários de diversos autores são similares, mas não idênticas. Compare as de Wenham, Hartley, Milgrom e Watts.Wenham, pp.3–4Hartley, pp.vii-viiiMilgrom (1991), pp.v-xWatts (2013), pp.12-20

I. Leis sobre sacríficio (1:1–7:38): A. Instruções para os leigos e suas oferendas (1:1–6:7); 1–5. Os tipos de oferta: imoladas, cereal, paz, purificação, ofertas de reparação (caps. 1–5); B. Instruções aos sacerdotes (6:1–7:38): 1–6. As várias oferendas incluindo a oferta de cereais dos sacerdotes (6:1–7:36); 7. Sumário (7:37–38);

II. Instituição do sacerdócio (8:1–10:20): A. Ordenação de Aarão e seus filhos (cap. 8); B. Aarão realiza os primeiros sacrifícios (cap. 9); C. Julgamento de Nadabe e Abiú (cap. 10);

III. Impurezas e seu tratamento (11:1–15:33): A. Animais impuros (cap. 11); B. Impurezas provocadas pelo parto (cap. 12); C. Doenças impuras (cap. 13); D. Purificação das doenças (cap. 14); E. Líquidos corporais impuros (cap. 15);

IV. Dia do Perdão: purificação do Tabernáculo dos efeitos do pecado e das impurezas (cap. 16);

V. Prescrições para a santidade prática (o Código da Santidade), caps. 17–26): A. Sacrifícios e comida (cap. 17); B. Comportamento sexual (cap. 18); C. Boa vizinhança (cap. 19); D. Crimes graves (cap. 20); E. Regras para sacerdotes (cap. 21); F. Regras para refeições sacrificadas (cap. 22); G. Festivais (cap. 23); H. Regras para o Tabernáculo (cap. 24:1–9); I. Blasfêmia (cap. 24:10–23); J. Anos de Júbilo e Sabáticos (cap. 25); K. Exortação à obediência da lei: benção e maldição (cap. 26).

V. Redenção de juramentos (cap. 27).

Composição thumb|direita|Fragmento queimado de Ein Gedi, identificado como sendo parte de , o mais antigo fragmento da Torá fora dos manuscritos do Mar Morto. A maioria dos estudiosos aceita que o Pentateuco recebeu sua forma final durante o período persa (538–332 a.C.),Newsom, p.26 depois de um longo período de desenvolvimento.

O livro inteiro é composto de literatura sacerdotal.Levine (2006), p.11 Os estudiosos avaliam os capítulos 1 a 16 (o "Código Sacerdotal") e os capítulos 17 a 26 (o "Código da Santidade") como sendo obra de duas escolas relacionadas, mas, apesar de empregar os mesmos termos técnicos do Código Sacerdotal, o Código da Santidade amplia seu significado de puramente ritual para um material teológico e moral, transformando-o num modelo para a relação de Israel com Deus. O Tabernáculo é santificado pela presença de Deus e é mantido longe das impurezas e do pecado para que Deus possa viver no meio de Israel enquanto Israel estiver purificado (santificado) e se mantiver separado de outros povos.Houston, p.102 As instruções rituais do Código Sacerdotal aparentemente tiveram origem nas instruções e respostas práticas sobre assuntos rituais. O Código da Santidade era considerado um documento separado posteriormente incorporado no Levítico, mas aparentemente seus autores foram editores que trabalharam com base no Código Sacerdotal e produziram o Levítico como conhecemos hoje.Houston, pp.102–103

Um texto queimado foi escavado numa antiga sinagoga em Ein Gedi em 1970 e foi datado por radiocarbono no final do século V. Estudos recentes identificaram versículos do segundo capítulo do Levítico, o que o torna o mais antigo trecho da Torá já descoberto além dos manuscritos do Mar Morto. O texto estava ilegível até ser analisado com um micro tomógrafo computadorizado, que produziu imagens em 3D do rolo. Foi também a primeira vez que um rolo da Torá foi encontrado numa antiga sinagoga.

Hipótese documental A maioria dos estudiosos bíblicos modernos acreditam que a Torá (os cinco primeiros livros do Antigo Testamento) chegaram à sua forma presente no período pós-exílio (depois de 520 a.C.), quando tradições mais antigas, orais e escritas, "detalhes geográficos e demográficos contemporâneos, mas, ainda mais importante, as realidades políticas da época" foram levados em consideração.Finkelstein, I., Silberman, NA., The Bible Unearthed: Archaeology's New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts, p.68-69 Os cinco livros são geralmente descritos na hipótese documental como se baseando em quatro "fontes" (entendidas como escolas literárias e não indivíduos): a javista e a eloista (frequentemente entendidas como uma única fonte), a fonte sacerdotal e a deuteronomista. Ainda há discussões sobre a origem das fontes não-sacerdotais, mas há consenso que esta é pós-exílio; Gênesis: composto principalmente de material sacerdotal e não-sacerdotal; Êxodo: uma antologia baseada em fontes de quase todos os períodos da história de Israel; Levítico: inteiramente sacerdotal e do período do exílio ou posterior;* Números: uma edição sacerdotal de um original não-sacerdotal</ref>; Deuteronômio: originalmente um conjunto de leis religiosas, foi ampliado no início do século VI para servir de introdução para a história deuteromística (os livros de Josué e Reis) e, posteriormente, foi separado desta história, ampliado e editado novamente e anexado à Torá.

Seções segundo as porções semanais da Torá no judaísmo

As subdivisões são as seguintes: Vayikra, sobre Levítico 1–5: Leis dos sacrifícios; Tzav, sobre Levítico 6–8: sacrifícios, ordenação dos sacerdotes; Shemini, sobre Levítico 9–11: Tabernáculo consagrado, fogo estrangeiro, leis alimentícias; Tazria, sobre Levítico 12–13: parto, doenças de pele, roupas; Metzora, sobre Levítico 14–15: doenças de pele, casas infectadas, líquidos genitais; Acharei Mot, sobre Levítico 16–18: Yom Kipur, ofertas centralizadas, práticas sexuais; Kedoshim, sobre Levítico 19–20: santidade, penalidades pelas transgressões; Emor, sobre Levítico 21–24: regras para sacerdotes, dias santos, iluminação e pão, o blasfemo; Behar, sobre Levítico 25–25: ano sabático, limites à escravidão por dívida Bechukotai, sobre Levítico 26–27: bençãos e maldições, remissão de juramentos

Temas thumb|direita|Bode expiatório, o animal libertado anualmente pelos judeus no Dia do Perdão segundo . Sacrifício e ritual Muitos estudiosos defendem que os rituais do Levítico tem um significado teológico sobre a relação de Israel com Deus, especialmente Jacob Milgrom. Ele defende que as regras sacerdotais no Levítico expressam um sistema racional de pensamento teológico. Seus autores esperavam que estas regras fossem postas em prática no Templo de Israel, o que implicaria que os rituais também expressariam essa teologia além de expressarem uma preocupação ética com relação aos pobres.Milgrom (2004), pp.8-16. Ele também argumenta que as regras de pureza no Levítico (caps. 11-15) foram baseadas num racional ético.Milgrom (1991), pp.704-41. Muitos estudiosos seguiram esta tese(como Balentine e MarxMarx (2006)), apesar de alguns, como Watts,Watts (2013), pp.40-54. terem levantado dúvidas sobre o quão sistemáticas essas regras de fato são. A conclusão é que os rituais não eram entendidos como uma sequência de ações realizadas sem sentido, mas meios pelos quais era mantida a relação entre Deus, o mundo e a humanidade.Balentine (1999) p.150

Kehuna (sacerdócio judaico)