Hieróglifos egípcios eram o sistema de escrita formal usado no Antigo Egito. Os hieróglifos combinavam elementos logográficos, silábicos e alfabéticos, com um total de cerca de 1 000 caracteres distintos. Acredita-se que tiveram origem por volta de 3000 a.C.

O uso da escrita hieroglífica surgiu a partir de sistemas de símbolos proto-letrados no início da Idade do Bronze, por volta do século 32 a.C. (Naqada III), com a primeira frase decifrável escrita na língua egípcia que data da Segunda dinastia (século 28 a.C.). Os hieróglifos egípcios desenvolveram-se em um sistema de escrita usado para inscrição monumental na linguagem clássica do período do Império Médio; durante esse período, o sistema fez uso de cerca de 900 sinais distintos. O uso deste sistema de escrita continuou através do Novo Império e Período Tardio, e nos períodos persa e ptolomaico. Sobrevivências tardias do uso hieroglífico são encontradas no período romano, estendendo-se até o século IV.

História e evolução

Origem

thumb|upright=0.8|Pinturas com símbolos em cerâmica do período Naqada II (c. 3500–3200 a.C.) Os hieróglifos podem ter surgido das tradições artísticas pré-letradas do Egito. Por exemplo, argumenta-se que símbolos em cerâmica Gerzeana de se assemelham à escrita hieroglífica.

thumb|left|Desenhos em fichas de Abidos, datadas por carbono de 3400–3200 a.C.. São semelhantes a etiquetas contemporâneas de Uruk. Sistemas de protoescrita desenvolveram-se na segunda metade do 4.º milénio a.C., como as etiquetas de argila de um governante pré-dinástico chamado "Escorpião I" (período Naqada IIIA, século XXXIII a.C.) recuperadas em Abidos (moderno Umm el-Qa'ab) em 1998 ou a Paleta de Narmer (século XXXI a.C.).

A primeira frase completa escrita em hieróglifos maduros descoberta até agora foi encontrada numa impressão de selo na tumba de Seth-Peribsen em Umm el-Qa'ab, que data da Segunda Dinastia (século XXVIII ou XXVII a.C.). Cerca de 800 hieróglifos são conhecidos desde as épocas do Império Antigo, Império Médio e Império Novo. No período Greco-romano, havia mais de 5.000.In total, there were about 1,000 graphemes in use during the Old Kingdom period; this number decreased to 750–850 during the Middle Kingdom, but rose instead to around 5,000 signs during the Ptolemaic period. Antonio Loprieno, Ancient Egyptian: A Linguistic Introduction (Cambridge: Cambridge UP, 1995), p. 12.

Os estudiosos têm debatido há muito tempo se os hieróglifos foram desenvolvidos independentemente de qualquer outra escrita, ou se derivaram do cuneiforme, o mais antigo sistema de escrita da história humana, desenvolvido para escrever o sumério no sul da Mesopotâmia durante o final do 4.º milénio a.C. Estudiosos como Geoffrey Sampson argumentaram que os hieróglifos egípcios "surgiram um pouco depois da escrita suméria e, provavelmente, [foram] inventados sob a influência desta", e que é "provável que a ideia geral de expressar palavras de uma língua por escrito tenha sido trazida para o Egito a partir da Mesopotâmia suméria".Iorwerth Eiddon Stephen Edwards, et al., The Cambridge Ancient History (3.ª ed. 1970) pp. 43–44. Além disso, a escrita egípcia surgiu subitamente, enquanto a Mesopotâmia tinha uma longa história evolutiva, com sinais antecedentes usados em fichas para fins agrícolas e contabilísticos já em 8000 a.C..

Embora existam muitos exemplos de relações iniciais entre Egito e Mesopotâmia, a falta de evidências diretas da transferência da escrita significa que "nenhuma determinação definitiva foi feita quanto à origem dos hieróglifos no antigo Egito". Desde a década de 1990, as descobertas mencionadas acima de glifos em Abidos, datados entre 3400 e 3200 a.C., lançaram mais dúvidas sobre a noção clássica de que o sistema de símbolos mesopotâmico precede o egípcio. Uma data de 3400 a.C. para os primeiros glifos de Abidos desafia a hipótese de difusão da Mesopotâmia para o Egito, apontando para um desenvolvimento independente da escrita no Egito."As impressões de selo, de várias tumbas, datam ainda mais recuado, para 3400 a.C. Estas datas desafiam a crença comum de que os primeiros logogramas, símbolos pictográficos que representam um local, objeto ou quantidade específicos, evoluíram primeiro para símbolos fonéticos mais complexos na Mesopotâmia."

Rosalie David argumentou que o debate é irrelevante, pois "Se o Egito adotou a ideia da escrita de outro lugar, foi presumivelmente apenas o conceito que foi adotado, uma vez que as formas dos hieróglifos são inteiramente egípcias na sua origem e refletem a flora, fauna e imagens distintas da própria paisagem do Egito." O estudioso egípcio Gamal Mokhtar argumentou ainda que o inventário de símbolos hieroglíficos derivado de "fauna e flora usadas nos signos [que] são essencialmente africanas" e "em relação à escrita, vimos que uma origem puramente nilótica, portanto africana, não só não está excluída, como provavelmente reflete a realidade."

Sistema de escrita maduro

thumb|right|Impressão de selo da tumba de Peribsen com a primeira frase completa conhecida na história egípcia (ca. 2660–2650 a.C.): "Selo de tudo de Ombos (i.e., Naqada): Ele de Ombos uniu as Duas Terras para seu filho, o Rei Dual Peribsen." thumb|Desenho em escala de um artista de hieróglifos 1479–1458 a.C., significando 'vida', 'estabilidade' e 'domínio'. As linhas de grade permitiam ao artista desenhar os hieróglifos na escala que fosse necessária. Os hieróglifos consistem em três tipos de glifos: glifos fonéticos, incluindo caracteres de consoante única que funcionam como um alfabeto; logogramas, representando morfemas; e determinativos, que restringem o significado de palavras logográficas ou fonéticas.

Período tardio

À medida que a escrita se desenvolveu e se tornou mais difundida entre o povo egípcio, formas de glifos simplificadas desenvolveram-se, resultando nas escritas hierática (sacerdotal) e demótica (popular). Estas variantes também eram mais adequadas do que os hieróglifos para uso em papiro. A escrita hieroglífica não foi, no entanto, eclipsada, mas existiu juntamente com as outras formas, especialmente na escrita monumental e noutra escrita formal. A Pedra de Roseta contém três escritas paralelashieróglifos, demótico e o alfabeto grego.

Sobrevivência tardia Os hieróglifos continuaram a ser usados intermitentemente sob o domínio persa nos séculos VI e V a.C., bem como durante os períodos ptolomaico e romano que se seguiram após a conquista do Egito por Alexandre, o Grande. Parece que a qualidade enganosa dos comentários de escritores gregos e romanos sobre os hieróglifos surgiu, pelo menos em parte, como resposta à situação política alterada. Alguns acreditavam que os hieróglifos podiam ter funcionado como uma forma de distinguir os 'verdadeiros Egípcios' de alguns dos conquistadores estrangeiros. Outra razão pode ser a recusa em abordar uma cultura estrangeira nos seus próprios termos, o que caracterizou as abordagens greco-romanas à cultura egípcia em geral. Tendo aprendido que os hieróglifos eram uma escrita sagrada, os autores greco-romanos imaginaram o sistema complexo, mas racional, como um sistema alegórico, até mágico, que transmitia conhecimento secreto e místico.

No século IV d.C., poucos egípcios eram capazes de ler hieróglifos, e o "mito dos hieróglifos alegóricos" estava em ascensão. O uso monumental de hieróglifos cessou após o encerramento de todos os templos não-cristãos em 391 pelo imperador romano Teodósio I; a última inscrição conhecida é de Filas, conhecida como o Graffito de Esmet-Akhom, de 394.A data da inscrição hieroglífica conhecida mais recente: Aniversário de Osíris, ano 110 [de Diocleciano], datado de 24 de agosto de 394

A de Horapolo (c. século V) parece reter algum conhecimento genuíno sobre o sistema de escrita. Oferece uma explicação de perto de 200 sinais. Alguns são identificados corretamente, como o hieróglifo do 'ganso' () que representa a palavra para 'filho'.

Meia dúzia de glifos demóticos ainda são usados, adicionados ao alfabeto grego ao escrever copta.

Decifração dos hieróglifos egípcios A decifração do sistema de escrita dos hieróglifos egípcios é geralmente atribuída a Jean François Champollion, o chamado "Pai da Egiptologia". Nascido na França em 1790, desde muito jovem Champollion mostrou um grande interesse pelo estudo das línguas orientais, e aos 16 anos já conhecia hebraico, árabe, persa, chinês e várias outras línguas asiáticas.

Concluiu que o cóptico, a língua falada pelos cristãos egípcios ainda existentes, correspondia ao último estágio da antiga língua egípcia. Esta foi a sua grande vantagem sobre o médico inglês Thomas Young, que também investigou o significado dos hieróglifos, embora com menos sucesso.

Inicialmente, Champollion estava convencido, tal como Young, de que os hieróglifos eram puramente simbólicos, sem qualquer valor fonético. No entanto, após estudar várias inscrições hieroglíficas contendo nomes reais, tais como o obelisco de Bankes e a Pedra de Roseta, Champollion descobriu que afinal muitos hieróglifos possuíam o efeito fonético comum aos ideogramas.

O estudo da antiga língua egípcia - vinculada nos hieróglifos egípcios - avançou bastante durante o século XX, com o trabalho de linguistas como Sir Alan Gardiner e Hans Jakob Polotski, que permitiram uma melhor compreensão da gramática e do sistema verbal.

Princípios gerais da escrita hieroglífica egípcia Direção de leitura Alfabeto hieroglífico (unilíteros) Sinal Transliterção Pron. DescriçãoA3a Oclusiva-glotal-surda Aleph semítico Abutre egipcioiỉi Constritiva-palatal-sonora yod semítico. Junco florescentei-i ou yyyConstritiva-palatal-sonora Como no inglês Yes Dupla de juncosaˁa Fricativa-faringal-sonora ayin semítico Braçow ou Wwu Constritiva-bilabial-sonora Como no inglês war Filhote de codornabbb Oclusiva-labial-sonora "B", como em português Parte inferior da pernappp Oclusiva-labial-surda "P", como em português Esteirafff Fricativa-labiodental-surda "F", como em português Cobra com chifresmmm Oclusiva-sonora-labial-nasal "M", como em português Corujannn Oclusiva-sonora-dental-nasal "N", como em português Águarrr Líquida-vibrante-dental "R", como em português Bocahhh Aspirada-laringal-surda H aspirado, como no inglês how Planta de uma casaHh Aspirada-faringal-surda Som surdo, da faringe. ﺡ árabe Corda retorcidaXj Fricativa-palatal-surda Som de ch como no gaélico escocês loch Placenta (?)xj Fricativa-velar-surda Som de ch como no alemão ich خ árabe Úberes ou zss Fricativa-sibilante-dental-sonora "S", como em português Roupa dobrada ou Fecho de portaSšsh Sibilante-pré-palatal-surda Som de Sh Piscinaqq Uvular-oclusiva-surda "Q" semítico Colinakkk Oclusiva-velar-surda-aspirada "k" como em "casa" Cesto com asaggg Oclusiva-palatal-fraca "G", como em gato Base para vasottt Oclusiva-dental-surda "T", como em português PãoTch Oclusiva-dental-surda Som de tch Amarrasddd Oclusiva-dental-fraca "D" menos sonoro que em português MãoDdy Africada-pré-palatal-fraca Som intermediário entre o G (de gelo) e o D Cobra A escrita hieroglífica podia ser escrita em linhas ou colunas, tanto da esquerda para a direita, como da direita para a esquerda. Para identificar a direção de leitura de um determinado texto, deve-se analisar a direção para onde os sinais estão voltados. Os sinais hieroglíficos estão sempre voltados para o início do texto.FONTOURA JR., Antonio. Hieróglifos Egípcios: um curso de introdução à leitura e decifração de textos do Antigo Egito. Curitiba: PatolaLivros, 2010.

Desta forma, o texto

nTr-nfr-nb:Z1-tA:tA-nb:ir:x*t-←ra-mn-xpr→-G38-ra:Z1-←G26-ms:z-nfr-xpr→-

deve ser lido da esquerda para a direita, pois os sinais (como o do machado sagrado, do olho, e dos pássaros) estão voltados para a esquerda.GARDINER, A. Egyptian Grammar: being an introduction to the study of hieroglyphs.Oxford: Griffith Institute, 1988.