Os quiuís ou quivis (do maori; kiwi, pronuncia-se)Dicionário escolar da língua portuguesa / Academia Brasileira de Letras, 2.ª edição. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 2008. P. 1 057. são um grupo de aves não voadoras endêmicas da Nova Zelândia, pertencentes ao gênero Apteryx, o único atual da família Apterygidae e ordem Apterygiformes. Os membros desse grupo são aproximadamente do tamanho de uma galinha doméstica, os quiuís são de longe as menores ratitas vivas (clado que também inclui avestruzes, emas e casuares). Possuem hábitos especialmente noturnos e olfato apurado, essas aves substituem os nichos ecológicos de mamíferos de pequeno porte na Nova Zelândia.

As comparações de sequências de DNA renderam a surpreendente conclusão de que o quiuí está muito mais relacionado as extintas aves-elefante malgaxes (epiornitiformes) do que as moas (dinornitiformes) com o qual compartilhavam a Nova Zelândia. Existem cinco espécies reconhecidas, das quais quatro estão atualmente listadas como vulneráveis, e uma que está quase ameaçada. Todas as espécies foram afetadas negativamente pelo desmatamento histórico, mas atualmente as grandes áreas remanescentes de seu habitat florestal estão bem protegidas em reservas e parques nacionais. Atualmente, a maior ameaça à sua sobrevivência é a predação por mamíferos invasores.

O ovo do quiuí é um dos maiores em proporção ao tamanho do corpo (até 20% do peso da fêmea) de qualquer espécie de ave do mundo. Outras adaptações únicas do quiuí, como suas penas semelhantes a pelos, pernas curtas e robustas, e o uso de suas narinas na extremidade de seu bico longo para detectar presas antes mesmo de vê-las, ajudaram a ave a se tornar internacionalmente conhecida.

O quiuí é reconhecido como um ícone da Nova Zelândia, e a associação é tão forte que o termo kiwi é usado internacionalmente como o gentílico coloquial para os neozelandeses.

Etimologia

A palavra maori kiwi é geralmente aceita como sendo de origem onomatopeica do chamado dessas aves. No entanto, alguns linguistas acreditam que a palavra deriva do proto-polinésio kiwi, que originalmente se referia ao maçarico-do-pacífico (Numenius tahitiensis), uma espécie de ave migratória da família dos maçaricos que passa o inverno nas ilhas tropicais do Pacífico. Com seu bico longo e curvo e corpo marrom, o maçarico lembra levemente o quiuí. Então, quando os primeiros colonos polinésios chegaram a ilha, eles podem ter aplicado o termo kiwi para a ave recém-descoberta.

Na língua portuguesa kiwi é escrito como quiuí ou quivi por questões de grafias conforme o Acordo Ortográfico de 1990, sendo as consoantes "k" e "w" substituídas por "qui" e "uí" (ou "vi").

O nome do gênero Apteryx é derivado do grego antigo 'sem asa': a- (ἀ-), 'sem' ou 'não'; ptéryx (πτέρυξ), 'asa'.

Taxonomia e sistemática Embora tenha sido por muito tempo presumido que os quiuís estavam intimamente relacionados com as outras ratitas da Nova Zelândia, como as moas, estudos recentes de DNA identificaram que os parentes mais próximos dos quiuís são as extintas aves-elefante de Madagáscar, e que entre as ratitas existentes, estão mais intimamente relacionados com os casuares (casuariiformes) do que com as moas.

Uma pesquisa publicada em 2013 sobre o gênero extinto Proapteryx, conhecido do Mioceno da Ilha Sul, descobriu que era menor do que os quiuís modernos e provavelmente era capaz de voar, apoiando a hipótese de que o ancestral comum dos apterigídeos chegou à Nova Zelândia independentemente das moas, que já eram grandes e não voavam quando o quiuí surgiu.

Espécies São reconhecidas cinco espécies de quiuís, com várias subespécies.

{| class="wikitable" |- ! Imagem !! Nome científico !! Nome comum !! Distribuição !! Descrição |- |120x120px||Apteryx haastii||Quiuí-malhado-grande|| Nova Zelândia || A maior espécie, com cerca de 45 cm de altura, com fêmeas pesando cerca de 3,3 kg e machos cerca de 2,4 kg. Possui plumagem marrom-acinzentada com faixas mais claras. A fêmea põe um ovo por ano, que ambos os pais incubam. A população é estimada em mais de 20.000, distribuídos pelas partes mais montanhosas do noroeste de Nelson, o norte da costa oeste e os Alpes do Sul/Kā Tiritiri o te Moana da Ilha Sul. |- |alt=Apteryx owenii|120x120px||Apteryx owenii||Quiuí-malhado-pequeno|| Ilha Kapiti|| Um pequeno quiuí, com 25 cm de altura, com a fêmea pesando 1,3 kg. Ela põe um ovo, que é incubado pelo macho. Este pequeno e dócil quiuí é incapaz de resistir à predação por porcos, arminhos e gatos introduzidos, levando à sua extinção no continente. Existem cerca de 1350 indivíduos na Ilha Kapiti e foi introduzido em outras ilhas livres de predadores, onde parece estar se estabelecendo com cerca de 50 em cada ilha. |- |120px || Apteryx rowi||Quiuí-castanho-de-okarito|| Ilha Sul|| Identificado pela primeira vez como uma nova espécie em 1994, é um pouco menor que o quiuí-castanho-do-norte, com um tom acinzentado na plumagem e, às vezes, penas faciais brancas. As fêmeas colocam até três ovos em uma temporada, cada um em um ninho diferente. Macho e fêmea ambos incubam. A distribuição está agora limitada a uma pequena área na Costa Oeste, mas estudos de DNA mostraram que, em tempos pré-humanos, era muito mais difundido no lado ocidental da Ilha Sul e vivia na metade inferior da Ilha Norte, onde foi a única espécie de quiuí detectada.Shepherd, L.D. & Lambert, D.M. (2008) Ancient DNA and conservation: lessons from the endangered kiwi of New Zealand Molecular Ecology 17, 2174–84 |- |120px || Apteryx australis||Quiuí-castanho-do-sul|| Ilha Sul||Quase tão grande quanto o quiuí-malhado-grande e de aparência semelhante ao quiuí-castanho, embora sua plumagem seja de cor mais clara. É relativamente numeroso. Estudos antigos de DNA mostraram que, em tempos pré-humanos, a distribuição dessa espécie incluía a costa leste da Ilha Sul. Algumas subespécies são reconhecidas:

O Apteryx australis lawryi, é restrito a Ilha Stewart/Rakiura. O ''Apteryx australis 'haast, é o táxon mais raro com apenas cerca de 300 indivíduos. Foi identificado como uma forma distinta em 1993. Ocorre apenas em uma área restrita na Cordilheira Haast dos Alpes do Sul a uma altitude de 1.500 m. Esta forma é distinguida por um bico mais fortemente curvado para baixo e uma plumagem mais ruiva. |- |120px || Apteryx mantelli ou Apteryx australis||Quiuí-castanho-do-norte|| Ilha Norte|| As fêmeas de A. mantelli (ou A. australis antes de 2000 e ainda em algumas fontes) têm cerca de 40 cm de altura e pesam cerca de 2,8 kg, enquanto os machos pesam cerca de 2,2 kg. A plumagem é marrom-avermelhada e espetada. A fêmea geralmente põe dois ovos, que são incubados pelo macho. O quiuí-castanho-do-norte demonstrou uma notável resiliência: adapta-se a uma vasta gama de habitats, incluindo florestas não nativas e algumas terras agrícolas. É difundido nos dois terços do norte da Ilha Norte e é o quiuí mais numeroso, com cerca de 35.000 restantes.

Descrição direita|miniaturadaimagem|No sentido horário a partir da esquerda: Apteryx australis, Apteryx owenii e Apteryx haastii no Auckland War Memorial Museum. miniaturadaimagem|Desenho de um Apteryx dos anos 1860, ilustrando suas características distintivas, incluindo bico longo, pernas e garras curtas e penas escuras parecidas com pelos. As suas adaptações à vida terrestre são extensas: assim como todas as outras ratitas, não possuem quilha no esterno para ancorar os músculos das asas. As asas vestigiais são tão pequenas que são invisíveis sob as penas eriçadas, parecidas com pelos. Enquanto a maioria das aves tem ossos com interior oco para minimizar o peso e tornar o voo possível, o quiuí tem medula, assim como os mamíferos. Sem restrições de peso devido aos requisitos de voo, as fêmeas de quiuí carregam e põem um único ovo que pode pesar até 450 g. E como a maioria das outras ratitas, elas não têm glândula uropigial. Seu bico é longo, flexível e sensível ao toque, e seus olhos têm um pécten reduzido. Suas penas não possuem bárbulas, e possuem grandes vibrissas ao redor da bico. Portam de treze penas de voo, sem cauda e um pequeno pigóstilo. Sua moela é fraca e seu ceco é longo e estreito.

O olho do quiuí é o menor em relação à massa corporal dentre todas as espécies de aves, resultando em um campo de visão igualmente menor. O olho tem pequenas especializações para um estilo de vida noturno, mas o quiuí depende mais de seus outros sentidos (sistema auditivo, olfativo e somatossensorial) do que de sua vista. A visão do quiuí é tão subdesenvolvida que espécimes completamente cegos foram observados na natureza, mostrando o quão pouco eles dependem da visão para sobreviver e forragear. Em um estudo, observou-se que um terço de uma população de A. rowi, sem estresse ambiental, apresentavam lesões oculares em um ou ambos os olhos. O mesmo estudo examinou três indivíduos específicos que apresentavam cegueira completa e descobriu que estavam em boas condições físicas fora das anormalidades oculares. Uma pesquisa de 2018 revelou que os parentes mais próximos do quiuís, as extintas aves-elefantes, também compartilhavam essa característica, apesar de seu grande tamanho.

Ao contrário de praticamente todos os outros paleognatos, que geralmente são de cérebro pequeno para os padrões das aves, o quiuí tem quocientes de encefalização proporcionalmente grandes. As proporções do hemisfério cerebral são ainda semelhantes às de papagaios e pássaros canoros, embora não haja evidência de comportamento similarmente complexo. Comportamento e ecologia Antes da chegada dos humanos no século XIII, os únicos mamíferos endêmicos da Nova Zelândia eram três espécies de morcegos, e os nichos ecológicos que em outras partes do mundo eram preenchidos por criaturas tão diversas quanto cavalos, lobos e camundongos eram ocupados por aves (e, em menor grau, répteis, insetos e gastrópodes).

Os hábitos especialmente noturnos do quiuí podem ser resultado da invasão de seus habitats por predadores, incluindo humanos. Em áreas da Nova Zelândia onde os predadores introduzidos foram removidos, como santuários, o quiuí é frequentemente visto à luz do dia. Eles preferem podocarpos subtropicais e temperados e florestas de faias, mas estão sendo forçados a se adaptar a diferentes habitats, como bosques subalpinos, pastagens e montanhas. Possuem um olfato altamente desenvolvido, incomum para as aves, e são as únicas aves com narinas no final de seus longos bicos. Comem pequenos invertebrados, sementes, larvas e muitas variedades de vermes. Também podem comer frutas, pequenos lagostins, enguias e anfíbios. Como suas narinas estão localizadas no final de seus bicos, os quiuís podem localizar insetos e vermes no subsolo usando seu olfato apurado, sem realmente vê-los ou senti-los. Este sentido do olfato é devido a uma câmara olfativa altamente desenvolvida. É uma crença comum que o quiuí depende apenas de seu olfato para capturar presas, mas isso não foi cientificamente observado. Experimentos de laboratório sugeriram que A. australis pode usar apenas o olfato, mas essa tese não é consistente em condições naturais. Em vez disso, o quiuí pode contar também com sensores auditivos e vibrotáteis. esquerda|miniaturadaimagem|Tamanho relativo do ovo em comparação com um quiuí adulto. esquerda|miniaturadaimagem|Um quiuí taxidermizado com ovo no Museu Kauri, Nova Zelândia.