A Batalha de Midway foi uma batalha aeronaval travada em junho de 1942 no Oceano Pacífico entre as forças dos Estados Unidos e do Império do Japão durante a Segunda Guerra Mundial, seis meses depois do ataque japonês a Pearl Harbor, que marcou o início da Guerra do Pacífico.
Antes de batalha, o Japão pretendia estender o seu perímetro de defesa no pacífico, especialmente depois do ataque Doolittle por aeronaves baseadas em porta-aviões em Tóquio em abril de 1942, e para garantir a segurança dos mares para ataques futuros na Midway, Fiji, Samoa, e Havai. Um ataque relacionado japonês nas ilhas Aleutas começou um dia antes, no dia 3 de junho. A força tarefa japonesa na Midway, conhecida como Kidō Butai, foi comandada por Chuichi Nagumo. O plano de Yamamoto para a operação, que dependia de uma sincronização precisa, foi prejudicado pela dispersão demasiado ampla das forças, o que deixou o resto da frota incapaz de poder apoiar o Kidō Butai eficazmente.
O resultado da batalha foi uma decisiva e crucial vitória para os norte-americanos, lembrada como o mais importante confronto naval da Segunda Guerra, marcando o ponto de virada no conflito e causando aos japoneses a perda de quatro porta-aviões e dois cruzadores de sua frota, além de duzentos pilotos navais,Dull, The Imperial Japanese Navy: A Battle History, p. 166; Willmott, The Barrier and the Javelin, pp. 519–523; Prange, Miracle at Midway p. 395; Parshall & Tully, Shattered Sword, pp. 416–430. na frustrada tentativa de invadir e ocupar o atol de Midway, enfraquecendo permanentemente sua capacidade de combate no mar e no ar e lhes retirando a iniciativa militar pelo resto da guerra.
O Plano de Yamamoto O plano japonês era atrair os porta-aviões remanescentes dos Estados Unidos para uma armadilha e afundá-los,H.P. Willmott, Barrier and the Javelin; Lundstrom, First South Pacific Campaign; Parshall & Tully, Shattered Sword, pp. 19–38. ocupando Midway em seguida para ampliar o perímetro defensivo do Japão no Pacífico, afastando-o das ilhas metropolitanas japonesas. Esta operação era considerada como um preparativo para a invasão das ilhas Fiji e Samoa, assim como para uma possível invasão do Havaí.Parshall & Tully, pp. 43–45, & Stephan, Hawaii under the Rising Sun.
A ocupação do atol, assim como havia sido o ataque a Pearl Harbor, não era parte de uma campanha para a conquista dos Estados Unidos, mas visava a eliminar o poder estratégico dos norte-americanos no Pacífico, deixando o Japão com as mãos livres para estabelecer uma grande esfera de influência política e econômica no sudeste da Ásia. Os japoneses também esperavam que, com uma nova derrota, os Estados Unidos fossem forçados a negociar a paz em condições favoráveis ao Japão.Parshall & Tully, Shattered Sword, p. 33; Peattie & Evans, Kaigun.
A primeira preocupação estratégica do almirante Isoroku Yamamoto, comandante-em-chefe da frota combinada da Marinha Imperial, era com relação aos porta-aviões norte-americanos, aumentada depois do ataque Doolittle, em 18 de abril de 1942, quando bombardeiros B-25 Mitchell lançados do USS Hornet atacaram Tóquio e outras cidades japonesas. Apesar de militarmente insignificante, a ousada ação foi um grande choque psicológico para a nação, provando a existência de um buraco nas defesas ao redor do território nacional.Prange, Miracle at Midway, pp. 22–26. Afundar os porta-aviões e ocupar Midway, a única posição estratégica aliada remanescente, localizada a km do Japão, no meio do Oceano Pacífico, parecia ser o único meio de eliminar esta ameaça.
O plano de batalha do almirante era complexo, como era típico dos planos navais japoneses durante a Segunda Guerra Mundial.Prange, Miracle at Midway, pp. 375–379, Willmott, Barrier and the Javelin, pp. 110–117; Parshall & Tully, Shattered Sword, p. 52. Adicionalmente, partia do pressuposto do acerto das informações fornecidas pelos serviços de inteligência, de que os porta-aviões USS Enterprise e USS Hornet eram os únicos disponíveis no momento na frota norte-americana do Pacífico. O USS Lexington tinha sido afundado e o USS Yorktown seriamente danificado (e se acreditava ter sido afundado) na Batalha do Mar de Coral, um mês antes.
Mais importante ainda era a crença japonesa de que os norte-americanos se encontravam desmoralizados e desmotivados por suas frequentes derrotas nos seis meses anteriores.Parshall & Tully, Shattered Sword, p. 53, retirada de War History Series (Senshi Sōshō), Volume 43 ('Midowei Kaisen'), p. 118. Yamamoto sentia que a frustração poderia ser fundamental para levar os americanos a cair numa armadilha, motivados por uma desforra a qualquer preço, e comprometessem definitivamente seu poder naval e aéreo no Pacífico. Para que isso acontecesse, ele dispersaria suas forças de maneira que a que não pudessem ser descobertas antes da batalha e caíssem de surpresa em cima do inimigo, de maneira concentrada, quando o confronto tivesse início.
esquerda|thumb|200px|O atol de Midway em 1941.
Entretanto, esta grande dispersão faria com que suas unidades se vissem impedidas de protegerem-se mutuamente e, ponto crucial e desconhecido para Yamamoto, qualquer benefício que os japoneses pudessem tirar disto havia sido neutralizado pela quebra dos códigos navais japoneses, conseguida secretamente pelos peritos em criptografia dos serviços de inteligência dos Aliados.
O ponto crítico de toda a operação era que os encouraçados e cruzadores de apoio à força tarefa de porta-aviões do Vice-almirante Chūichi Nagumo, comandante do ataque, deveriam seguir a força principal a centenas de quilômetros de distância. Sua missão era a de afundar qualquer esquadra americana que viesse em socorro de Midway após as defesas do atol serem destruídas ou enfraquecidas pelo ataque dos aviões de Nagumo, o que era típico da doutrina de batalha da maioria das marinhas da época.Parshall & Tully, Shattered Sword, pp. 51, 55.
Porém, a distância desta esquadra de superfície da força principal de ataque teria grandes implicações durante o confronto, pois eram os grandes navios que transportavam os necessários aviões de reconhecimento de longo alcance, fundamentais para a descoberta da posição da frota inimiga, e que não teriam utilidade para a esquadra de Nagumo.Willmott, Barrier and the Javelin.
Nota: ficou conhecida e famosa depois da guerra, uma armadilha criada pelos norte-americanos para descobrir as intenções do inimigo naqueles dias cruciais da guerra. A grande interrogação entre o alto comando Aliado era saber onde seria o próximo ataque dos japoneses, de modo a poderem se preparar com antecedência. Os criptógrafos da marinha encontraram em diversas mensagens trocadas entre os comandantes inimigos a referência a um tal ponto AF, que parecia ser o alvo do próximo ataque pela constante repetição, que até então, apesar de interceptarem suas comunicações, eles desconheciam. Um oficial britânico trabalhando com a inteligência norte-americana em Pearl Harbor, acreditando que o ponto AF se referisse ao atol de Midway, lançou uma falsa mensagem codificada nas ondas de comunicação aliada avisando que “a ilha de Midway precisa de água potável”. Horas depois, os serviços de escuta de todo o Pacífico descodificavam a comunicação japonesa ao quartel-general em Tóquio: “Falta água potável no ponto AF”. O pretenso ataque surpresa a Midway tinha sido descoberto antes mesmo de começar.Cartier, Raymond, A Segunda Guerra Mundial, Vol.1, pag. 326
As forças envolvidas Estados Unidos 150px|direita|thumb|Almirante Ray Spruance, comandante norte-americano na Batalha de Midway. Para combater uma esquadra inimiga que se sabia antecipadamente ser formada por quatro ou cinco porta-aviões, o Almirante Chester W. Nimitz, comandante-em-chefe da Marinha dos Estados Unidos na área do Pacífico, precisava de todo e qualquer convés disponível. Ele ainda possuía os dois porta-aviões da força tarefa do almirante William Halsey, mas este havia baixado ao hospital vítima de uma infecção e teve que ser substituído pelo contra-almirante Raymond Spruance, um comandante de navios de linha, inexperiente em táticas de combate aeronavais.Prange, Miracle at Midway, pp. 80–81; Cressman et al., A Glorious Page in Our History, p. 37. Por causa disso, Nimitz foi obrigado a convocar com urgência o almirante Frank Fletcher e sua frota que haviam participado da Batalha do Mar de Coral no sudoeste do Pacífico, que chegou a Pearl Harbor em tempo apenas de reabastecer, carregar provisões e partir imediatamente em seguida para Midway.
O USS Saratoga se encontrava em reparos na costa oeste enquanto o USS Yorktown continuava fora de operação em Pearl Harbor com um período previsto de dois meses para voltar à ativa. Entretanto, um grande esforço de operários civis e marinheiros trabalhando 24 horas por dia em turnos, fez com que o porta-aviões atravessasse a barra do porto apenas três dias após ali ter entrado severamente danificado, em condições razoáveis de batalha e com centenas de homens ainda trabalhando em seu interior e no seu convés.Cressman et al., A Glorious Page in Our History, pp. 37–45; Lord, Incredible Victory, pp. 37–39. Os japoneses avançavam contra um inimigo que já sabia exatamente onde e quando seria atacado e não os esperava com dois porta-aviões, mas três.
Japão miniatura|esquerda|150px|Almirante Chūichi Nagumo, comandante japonês na Batalha de Midway. Por seu lado, a esquadra do almirante Nagumo se dirigia a Midway com quatro porta-aviões, Kaga, Akagi, Hiryū e Sōryū, enquanto os dois veteranos de Pearl Harbor, Zuikaku e Shōkaku, ficavam no Japão em reparos, após os danos sofridos na Batalha do Mar de Coral, sem que o comando naval fizesse qualquer esforço suplementar para recuperar ao menos um deles e colocá-lo em condições de integrar a frota de ataque a Midway, devido inclusive ao desgaste de sua tripulação, em combate desde o ataque a Pearl Harbor em dezembro de 1941.Parshall & Tully, Shattered Sword, pp. 65–67.
Nagumo também seguia rumo a seu destino completamente no escuro sobre as forças que enfrentaria. Os preparativos estratégicos anteriores à batalha foram comprometidos em diversos pontos, como a demora dos submarinos de vigilância da linha do Pacífico em chegar a seu postos demarcados de observação, sem conseguir detectar a passagem da frota inimiga em direção ao nordeste de MidwayWillmott, Barrier and the Javelin, p. 351; Parshall & Tully, Shattered Sword, pp. 98–99. e o fracasso na missão destinada aos botes camuflados de alta velocidade e quatro motores, enviados para observação à distância em Pearl Harbor, para observar se a esquadra norte-americana estava ou não ancorada lá, devido a graves problemas no reabastecimento destes barcos, pois o local marcado com os submarinos para o reabastecimento estava vigiado pelos norte-americanos.Lord, Incredible Victory, pp. 37–39; Parshall & Tully, Shattered Sword, p. 99; Holmes, Double-Edged Secrets.
Batalha 200px|direita|thumb|Tanques de óleo explodem em Midway após ataque dos aviões japoneses O Almirante Nagumo lançou seu ataque inicial às 4:30 da manhã de 4 de junho de 1942, num total de 108 aeronaves contra Midway. Ao mesmo tempo, lançou seis aviões de reconhecimento para procurar a esquadra inimiga, além de caças Zero para patrulhar o espaço aéreo em volta da frota. As missões de reconhecimento japonesas eram muito débeis, com poucas aeronaves cobrindo as vastas áreas de busca, varrendo sob tempo ruim uma enorme imensidão do oceano ao nordeste e a leste da força tarefa.Parshall & Tully, Shattered Sword, pp. 107–112; 132–133.