A exclusão social é entendida como o processo pelo qual indivíduos ou grupos são impedidos de participar plenamente da vida em sociedade, em suas dimensões econômica, política, cultural. Trata-se de um conceito multidimensional, que envolve desde a privação material até a negação de direitos, oportunidades e recursos fundamentais para a inclusão social. Embora frequentemente associada à pobreza, a exclusão social é mais ampla, podendo decorrer de discriminação, estigmatização ou barreiras institucionais.

O termo ganhou destaque na Europa, especialmente na França, a partir do final do século XX, e foi incorporado pela Comissão Europeia, que a define como “uma situação em que uma pessoa é impedida de contribuir para e de se beneficiar do progresso econômico e social”. Desde então, passou a ser utilizado em diversas áreas do conhecimento, como sociologia, psicologia, educação, saúde, ciência política e economia.

Etimologia esquerda|miniaturadaimagem|333x333px|Descaso quanto a indigentes nas ruas de São Paulo (exclusão social). O conceito foi inicialmente usado para descrever processos de desintegração social, isto é, a fragmentação dos laços entre indivíduo, sociedade e Estado. Essa interpretação tem origem na sociologia francesa, em especial nos trabalhos de Émile Durkheim, sobre a coesão social, e de Robert Castel, que relaciona a exclusão à perda dos vínculos de trabalho e solidariedade.

O termo exclusão social ganhou notoriedade a partir de René Lenoir, que, em 1974, o empregou para designar grupos “excluídos” dos sistemas de proteção social na França. Desde então, o conceito passou a ser frequentemente utilizado em contraposição ao de inclusão social, relacionado às políticas e práticas voltadas à ampliação do acesso a direitos, oportunidades e à participação cidadã.

O sociólogo Jock Young (2002) descreve a passagem de uma sociedade inclusiva para uma sociedade excludente. A primeira corresponde ao período do pós-guerra, marcado pela empregabilidade, pela incorporação gradual da classe trabalhadora, pela maior participação das mulheres na vida pública e pelos avanços nos direitos civis. Nesse contexto, trabalho e família eram os pilares da integração social, e mesmo os indivíduos considerados “desviantes” eram vistos como passíveis de reabilitação.

A partir dos anos 1980, entretanto, esse modelo entrou em declínio: o avanço da economia de mercado, a redução dos empregos estáveis e a expansão do trabalho precário criaram uma subclasse de desempregados estruturais. Essa transição resultou em uma sociedade excludente, caracterizada pela precariedade, pelo aumento da desigualdade e pela criminalização do “outro”.

No Brasil, o termo começou a ganhar espaço nos anos 1990, em estudos acadêmicos e políticas públicas voltadas à redução da pobreza e da desigualdade.

Abordagens teóricas A exclusão social é interpretada por diferentes perspectivas teóricas. Autores vinculados à teoria da justiça social (como Amartya Sen e John Rawls) relacionam a exclusão à desigualdade de capacidades e oportunidades. Já perspectivas sociológicas críticas, como a de Pierre Bourdieu, destacam as dimensões simbólicas e culturais da exclusão, enquanto abordagens marxistas enfatizam sua relação com a estrutura de classes e com o capitalismo contemporâneo.

Na ciência política e nas ciências sociais brasileiras, autores como Marta Arretche, Nadya Guimarães e Vera Telles discutem a exclusão social em diálogo com essas tradições teóricas. Suas pesquisas abordam desde a desigualdade de acesso a direitos e políticas públicas até os efeitos da precarização do trabalho e da marginalização urbanaMarta Arretche (ed.). Trajetórias da desigualdade: como o Brasil mudou nos últimos 50 anos. 1. ed. São Paulo, Editora da Unesp, 2015. 489 páginas..

A exclusão pode ocorrer em diferentes dimensões:

Econômica: desemprego, pobreza, trabalho informal, falta de acesso a bens e serviços. Educacional: ausência de escolaridade ou ensino de baixa qualidade. Cultural e identitária: discriminação por etnia, religião, gênero, orientação sexual ou origem social. Etária: marginalização de crianças, jovens ou idosos. Física e estética: exclusão de pessoas com deficiência, obesos, negros ou outros grupos estigmatizados. Digital: falta de acesso a tecnologias e internet.

A exclusão social também pode ser entendida como um processo que emerge nos níveis individual ou coletivo a partir de quatro dimensões correlacionadas: acesso insuficiente a direitos sociais, privação material, participação social limitada, falta de integração normativa.

Esse processo resulta da combinação de diferentes fatores: pessoais (idade, gênero, raça), macroestruturais (mudanças demográficas, econômicas e no mercado de trabalho, inovações tecnológicas, transformações nas normas sociais), institucionais (legislação e políticas públicas), comportamentais (ações de empresas, organizações administrativas e cidadãos comuns).

No Brasil Entre 1980 e 2000, a exclusão social persistiu no Brasil, marcada pelo aumento da violência e do desemprego, como mostra o Atlas da Exclusão Social e pesquisas do IPEA. A edição de 2014 apontou avanços em gasto social, expansão econômica e redução da extrema pobreza, mas também revelou desigualdades persistentes, sobretudo no Nordeste, onde 77,2% dos municípios não conseguiram melhorar o índice de renda domiciliar.

A partir da redemocratização, no entanto, políticas de inclusão social buscaram mitigar esse quadro. Entre 1985 e 2015, houve um processo de incorporação de grupos historicamente marginalizados (outsiders) à titularidade de direitos sociais, como saúde, educação e previdência.

Contudo os avanços conviveram com limitações estruturais, como o sistema tributário regressivo e desigualdades regionais persistentes. Com a crise econômica de 2014 e, posteriormente, com a pandemia de COVID-19, a exclusão social voltou a crescer, afetando especialmente trabalhadores informais, mulheres, negros e populações periféricas.

Ver também

Inclusão social Declaração de Bolonha Declaração de Salamanca Declaração Universal dos Direitos da Criança Deficiência Racismo Xenofobia Homofobia SexismoReferências

Bibliografia

TAP, Pierre, A Sociedade Pigmalião – Integração Social e Realização da Pessoa, Instituto Piaget, Lisboa; COSTA, Alfredo Bruto da, Exclusões sociais, Gradiva Publicações, Ltd.

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