O Clube do Remo, ou simplesmente Remo, é um clube esportivo brasileiro de Belém, capital do estado do Pará, fundado em 5 de fevereiro de 1905 como Grupo do Remo por dissidentes do Sport Club do Pará. Interrompeu as suas atividades em 1908 até ser reorganizado em 15 de agosto de 1911. Em 1914, foi rebatizado para o seu nome atual.
O Remo é chamado popularmente de Leão Azul, apelido que faz referência ao mascote e à cor oficial da agremiação, o azul-marinho. É proprietário do Baenão e também manda seus jogos no Mangueirão. Seu maior adversário é o Paysandu, cujo clássico Re-Pa é tido como uma das maiores rivalidades do futebol brasileiro e o clássico mais jogado do futebol mundial, disputando também o Clássico Re-Tu, contra a Tuna Luso. Em ambos, o Remo possui a vantagem em número de vitórias, gols marcados e decisões de títulos, bem como a maioria dos torcedores. Entre as equipes do norte brasileiro é uma das mais populares, apresentando uma das maiores torcidas da região. Em 2005, foi recordista de público entre todas as séries do Campeonato Brasileiro com uma média de 30 869 torcedores por jogo. O Remo frequentemente aparece entre as maiores médias de público do Brasil. No futebol profissional, o Remo possui inúmeras conquistas oficiais, evidenciando 48 títulos estaduais, uma Copa Verde (em 2021) e uma Série C do Campeonato Brasileiro (em 2005). O clube ainda destaca entre suas principais conquistas outros títulos de cunho regional, como um Campeonato Norte-Nordeste (em 1971) e três Taças Norte (em 1968, 1969 e 1971). Dentro do estado, o Leão detém feitos únicos como o heptacampeonato de 1913 a 1919, a histórica hegemonia na década de 1990 (oito títulos em dez anos, incluindo-se um penta) e o título profissional com 100% de aproveitamento em 2004.
Em participações na primeira divisão do Brasileiro, o Remo esteve em dezessete edições da Série A (dois na época da Taça Brasil e quinze a partir de 1971, incluindo participação na fase final da Copa João Havelange de 2000). Também disputou vinte e uma vezes a Série B do Campeonato Brasileiro. Na Copa do Brasil, foram vinte e nove aparições. Suas campanhas mais destacadas foram a 8° colocação no Campeonato Brasileiro de 1993 e a semifinal na Copa do Brasil de 1991 — estes resultados representam o melhor desempenho de um time nortista na história de ambas competições. Seu retrospecto em competições oficiais inclui ainda dois vice-campeonatos do Campeonato Brasileiro Série B, dois do Torneio Norte-Nordeste, dois da Copa Verde e um da Copa Norte.
Nas demais modalidades esportivas, o Leão detém resultados expressivos. No remo, seu esporte de origem, é o maior campeão náutico do Pará; na natação, já contou com diversos atletas campeões brasileiros, sul-americanos e até mundiais; no basquete, conquistou a Copa Brasil Norte de 2002 e está entre os maiores vencedores do estado, além de ser único heptacampeão paraense; no vôlei, detém as melhores participações de uma equipe paraense na Liga Nacional; e no futsal, suas categorias de base destacam-se por possuírem o maior número de títulos estaduais no geral e por terem vencido edições da Taça Brasil de Futsal.
História Fundação thumb|direita|Placa dos fundadores do Clube do Remo exposta na sede social. Belém, no início do século XX, vivia um momento próspero. A Amazônia como um todo estava em evidência devido ao ciclo da borracha e a capital paraense era o símbolo maior da riqueza e transformações socioculturais ocorridas na região, caracterizando a sua Belle Époque, refletidas nas diversas reformas de modernização instauradas pelo prefeito Antônio Lemos. Belém chegou a ficar conhecida como a “Paris n’América” ou “Paris Tropical”.
Foi nesse contexto que o esporte começou a se desenvolver, com destaque para o remo, cuja disputa atraía um acentuado número de adeptos às margens da baía do Guajará. Era o início do surgimento de diversas equipes, dentre elas estava o Sport Club do Pará, uma das potências esportivas da época. A partir de então começaria uma grande história.
No ano de 1905, sete remadores ligados ao Sport Club do Pará resolveu se desligar da instituição para criar um clube exclusivo para a prática de suas atividades. Um desses remadores era José Henrique Danin. Segundo o seu relato, também faziam parte do grupo dissidente Victor e Raul Engelhard, Vasco Abreu, Eugênio Soares, Narciso Borges e mais um, que seria Eduardo Cruz ou Jean Marechal (ambos seriam declarados fundadores do Remo posteriormente).
Aos poucos, o pequeno grupo contou com o apoio de outros desportistas para alcançar o seu objetivo. No dia 5 de fevereiro de 1905 fundou-se o Grupo do Remo. O nome havia sido sugerido por Raul Engelhard, que foi inicialmente contrariado. Sobre o fato, explica o Sr. Danin:
thumb|300px|esquerda|Primeiros atletas de regatas do Clube do Remo, em 1905 A nova agremiação teve a sua existência legal consolidada com a publicação de seu estatuto social no Diário Oficial do Estado, ano XV, nº 4.049, de 9 de junho de 1905 (sexta-feira). No documento, também estavam inseridos os nomes dos 20 fundadores: José Henrique Danin, Raul Engelhard, Roberto Figueiredo, Antonio La Roque Andrade, Victor Engelhard, Raimundo Oliveira da Paz, Antonio Borges, Arnaldo R. de Andrade, Manoel C. Pereira de Souza, Ernestino Almeida, Alfredo Vale, José D. Gomes de Castro, José Maria Pinheiro, Luiz Rebelo de Andrade, Manoel José Tavares, Basílio Paes, Palmério Pinto, Eurico Pacheco Borges, Narciso F. Borges (primeiro presidente do clube) e Heliodoro de Brito.
A data de 15 de agosto marcou a inauguração oficial do novo clube, como forma de prestar homenagem à adesão do Pará à Independência do Brasil. No dia 1 de outubro, o Grupo do Remo inaugurou a sua sede, localizada à Rua Siqueira Mendes, com fundos para a baía do Guajará. A sede fora alugada junto à Intendência Municipal. Na mesma ocasião foi efetuado o batismo e o lançamento ao mar da primeira embarcação, uma baleeira denominada “Tibiriçá”.
Em 1907, a garagem náutica azulina passou a funcionar na atual Boulevard Castilhos França. Nesse momento, o clube já possuía nove embarcações, entre elas um out-riggers a 4 remos e um out-riggers a 2 remos importados da Alemanha.
Extinção e reorganização thumb|300px|esquerda|Sede Náutica do Clube do Remo, localizada no Largo da Sé em Belém, Cidade Velha (Belém). No ano de 1908, o Grupo do Remo não conseguiu renovar o contrato de aluguel de sua sede junto à Intendência Municipal. A situação forçou alguns de seus associados a realizarem um acordo secreto com integrantes do Sport Club do Pará, abrindo procedentes para um recurso.DA COSTA, Ferreira (2006). 1908. Leão Azul Centenário. Belém: Walmik Câmara, pp. 10-11
Diante de uma severa crise, a Assembleia Geral se reuniu em 14 de fevereiro e o desembargador Alfredo Barradas decretou a extinção do Grupo do Remo. Uma pequena parcela não concordou com a decisão, tomando como medida o sequestro dos barcos pertencentes à agremiação para que não caíssem em “mãos erradas”. As embarcações foram levadas a um galpão no terminal de inflamáveis de Miramar, cujo proprietário era Francisco Xavier Pinto, onde ficaram escondidas.DA COSTA, Ferreira (2006). 1908. Leão Azul Centenário. Belém: Walmik Câmara, pp. 10-11
Os rapazes passaram então a se encontrar frequentemente no Café Manduca, um tradicional ponto de bate-papo de Belém, a fim de tratar dos assuntos referentes à reestruturação do Grupo do Remo.DA COSTA, Ferreira (2006). 1909. Leão Azul Centenário. Belém: Walmik Câmara, pp. 11 No mês de julho de 1910, tiveram conhecimento de que o contrato de aluguel da antiga sede com um estabelecimento comercial havia terminando e de que, finalmente, poderiam readquirí-la.DA COSTA, Ferreira (2006). 1910. Leão Azul Centenário. Belém: Walmik Câmara, pp. 11
thumb|300px|direita|Cordão dos Onze, reorganizadores do Grupo do Remo em 1911. No dia 15 de agosto de 1911, os onze azulinos navegaram em três embarcações – duas cedidas pela Liga Marítima Brasileira e uma da Mr. Kup, chefe do tráfego da extinta Port of Pará – à Miramar para rebocar todo o material que estava ali depositado, chegando ao destino em torno das 8h da manhã. Às 7h da noite partiram com todo o patrimônio para a sede. Esse ato concretizou a famosa reorganização do Grupo do Remo.
Oscar Saltão, Antonico Silva, Rubilar, Jaime Lima, Cândido Jucá, Harley Collet, Nertan Collet, Severino Poggy, Mário Araújo, Palmério Pinto e Elzeman Magalhães foram os heróis que tornaram possível o sonho de renascimento da antiga agremiação, entrando para a história do clube como o célebre Cordão dos Onze. Até hoje, a data de 15 de agosto é festejada tal qual o aniversário de fundação do clube (5 de fevereiro). No dia 16 de novembro, o Grupo do Remo conquistou o título de campeão paraense náutico, o primeiro de muitos que estavam por vir.DA COSTA, Ferreira (2006). 1911. Leão Azul Centenário. Belém: Walmik Câmara, pp. 11
Em uma sessão ordinária, realizada em 29 de dezembro de 1911, o Sr. Oscar Saltão propôs a readaptação do nome para "Club do Remo" – obedecendo à grafia da época –, porém necessitava da aprovação do conselho.DA COSTA, Ferreira (2006). 1908. Leão Azul Centenário. Belém: Walmik Câmara, pp. 11 A proposta só foi aceita em 1914,CRUZ, Ernesto. Sessão ordinária da diretoria em 29 de dezembro de 1911. História do Clube do Remo, pp. 586-587 com os novos estatutos do clube sendo aprovados pela Assembleia Geral em 7 de agosto daquele ano, na gestão do presidente Nilo Pena.CRUZ, Ernesto. Novos Estatutos do Clube do Remo. História do Clube do Remo, pp. 67
Início no futebol No Pará, há indícios de que o futebol começou a ser praticado em fins do século XIX, com relatos de partidas disputadas desde 1892.COSTA, Ferreira da. Parazão Centenário – A História do Campeonato Paraense de Futebol, 2012. Página 11. Entretanto, foi a partir do ano de 1900 que alguns desportistas iniciaram o desenvolvimento do esporte, com a realização de jogos. Em 1906, ocorreu a primeira tentativa de se organizar uma competição futebolística, mas não vingou. No mês de agosto de 1908 funda-se a Liga Paraense de Foot-Ball que pôs em prática o primeiro Campeonato Paraense da história, vencido pelo União Sportiva. Dois anos mais tarde, em 1910, uma segunda edição foi realizada e o União sagrou-se novamente vencedor.
Dessa forma, o futebol começava a ganhar espaço na sociedade paraense, com a adesão de várias equipes. Em 1913, é a vez do Grupo do Remo implantar o futebol no seu quadro esportivo, contando com os concursos de atletas vindos de outros clubes, dentre eles o próprio União Sportiva, até então bicampeão paraense, e o Sport Club do Pará, vice-campeão em 1908. Dessa forma, o Grupo do Remo montava o seu time com os melhores jogadores que havia na época.
A primeira partida foi disputada em 21 de abril de 1913, feriado nacional em homenagem a Tiradentes, e teve como palco o campo da praça Floriano Peixoto, no largo de São Brás – onde já se realizavam jogos há vários anos. O adversário foi o Guarany Futebol Clube. O Remo venceu por 2 a 0. A primeira formação azulina foi assim constituída: Bernardino; Valrreman e Eurico; Dudu, Aimeé e Mamede; Galdino, Mário, Antonico, Dudu 2º e Rubilar.