Definição
Frênulo lingual é uma estrutura anatômica formada por uma prega de mucosa situada na face ventral da língua, conectando-a ao assoalho da boca. Sua função está relacionada à estabilização dos movimentos da língua, e suas características anatômicas variam entre os indivíduos. Alterações em sua inserção ou conformação podem limitar a mobilidade lingual e repercutir em diferentes funções orais.
Classificação Frênulo lingual mínimo ou a ausência dele caracteriza a anquiloglossia, que seria a fusão total ou parcial da língua ao assoalho da boca. Anquiloglossia, também conhecido como "língua presa", é uma anomalia oral congênita caracterizada por frênulo lingual curto, grosso resultando em limitações dos movimentos da língua. Observa-se ainda que os frênulos curtos sejam mais espessos que os demais.
A avaliação anatômica do frênulo lingual em bebês pode ser realizada por meio do protocolo proposto por Martinelli e colaboradores, que considera a visualização do frênulo, sua espessura e os locais de fixação na face ventral da língua e no assoalho da boca. Embora o protocolo original descreva diferentes combinações anatômicas desses parâmetros, na prática clínica e em estudos posteriores é comum a categorização dos achados em cinco padrões principais: normal, curto, anteriorizado, curto e anteriorizado e submucoso. Essa classificação deriva da interpretação clínica dos critérios anatômicos descritos pelos autores e auxilia na padronização da avaliação do frênulo lingual
O frênulo é considerado normal quando apresenta inserção e extensão compatíveis com a adequada mobilidade da língua. O frênulo curto caracteriza-se pela redução de seu comprimento; o anteriorizado apresenta inserção mais próxima ao ápice lingual; o curto e anteriorizado reúne ambas as características, podendo ocasionar maior restrição dos movimentos linguais; e o frênulo submucoso encontra-se recoberto por tecido mucoso, dificultando sua visualização durante a inspeção clínica. Quando essas alterações anatômicas estão associadas à limitação funcional dos movimentos da língua, o quadro pode ser caracterizado como anquiloglossia, uma condição congênita que pode interferir na sucção, amamentação e demais funções orofaciais.
Nas pessoas com frênulo da língua classificado como normal observa-se que as funções orofaciais, assim como a mobilidade de língua, são mais bem executadas do que quando o frênulo é curto ou com inserção anteriorizada. Em relação ao impacto nas funções orofaciais, as pessoas com frênulo lingual alterado podem apresentar repercussões na sucção, deglutição, que é o ato de engolir o alimento, e na fala, podendo mostrar dificuldade na realização de alguns sons devido à limitação do movimento do ápice da língua, como o consonantal alveolar vibrante /ɾ/.
Diagnóstico O frênulo da língua pode ser diagnosticado como alterado ou normal, pois depende dos critérios de avaliação utilizados pelo avaliador. A avaliação e acompanhamento pós-procedimento cirúrgico é competência do fonoaudiólogo, uma vez que cabe a esse profissional o acompanhamento das funções orofaciais nos diferentes ciclos da vida. O diagnóstico se dá pela observação visual dos aspectos do frênulo, a mobilidade da língua, a sucção não-nutritiva e nutritiva e a deglutição.
Teste da Linguinha No Brasil, a Lei Nº 13.002, de 20 de Junho de 2014, torna obrigatório a realização do Protocolo de Avaliação do Frênulo da Língua em Bebês ou Teste da Linguinha, em todos os hospitais e maternidades de suas respectivas dependências. O objetivo principal do exame é diagnosticar precocemente a anquiloglossia e previnir prejuízos nas funções do Sistema Estomatognático.
O padrão adotado é o Protocolo de Avaliação do Frênulo da Língua em Bebês, desenvolvido pela fonoaudióloga Martinelli. Ele aborda três etapas principais: a anamnese, avaliação anatomofuncional e a avaliação da mamada. Cada item recebe uma pontuação, que pode liberar o bebê, exigir uma reavaliação ou confirmar a anquiloglossia e encaminhar o lactante para o tratamento cirúrgico, como a frenectomia.
No entanto, é importante ressaltar que o diagnóstico de um frênulo lingual curto não indica necessariamente uma cirurgia. Ou seja, muitos bebês apresentam variações anatômicas que são compensadas naturalmente durante a amamentação, sem acarretar prejuízo nas funções. Não há literatura teórica que confirme a real interferência da anquiloglossia na amamentação e a necessidade de uma frenectomia em todos os casos.Venancio, Sonia & Toma, Tereza & Buccini, Gabriela & Sanches, Maria & Araujo, Clarice & Figueiro, Mabel. (2015). Anquiloglossia e aleitamento materno: evidências sobre a magnitude do problema, protocolos de avaliação, segurança e eficácia da frenotomia. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/313164229_Anquiloglossia_e_aleitamento_materno_evidencias_sobre_a_magnitude_do_problema_protocolos_de_avaliacao_seguranca_e_eficacia_da_frenotomia
O resultado do Teste da Linguinha deve ser registrado na Caderneta da Criança e no prontuário de saúde, juntamente com as demais triagens neonatais, de modo a favorecer o acompanhamento longitudinal do desenvolvimento infantil e a identificação precoce de possíveis repercussões da anquiloglossia sobre a amamentação e as funções orofaciais. O registro sistemático dos achados contribui para a continuidade do cuidado e para a comunicação entre os diferentes profissionais envolvidos na assistência à criança.
Tratamento O tratamento das alterações do frênulo lingual deve ser definido a partir de uma avaliação clínica criteriosa, considerando não apenas os aspectos anatômicos, mas também os impactos funcionais observados na sucção, alimentação, mastigação, deglutição, mobilidade lingual e produção da fala. A identificação da necessidade de intervenção deve resultar da correlação entre os achados anatômicos do frênulo e os prejuízos funcionais apresentados pelo indivíduo, evitando decisões baseadas exclusivamente na aparência anatômica da estrutura.
A atuação interdisciplinar entre Fonoaudiologia, Odontologia e Otorrinolaringologia é fundamental para a avaliação diagnóstica, definição da conduta terapêutica e acompanhamento dos pacientes com alterações do frênulo lingual. A terapia fonoaudiológica pode ser indicada antes e após a intervenção cirúrgica, contribuindo para a adequação das funções orofaciais e para a potencialização dos resultados funcionais obtidos.
Quando indicada, a intervenção cirúrgica pode ser realizada por meio da frenotomia ou da frenectomia. A frenotomia consiste em uma incisão simples do frênulo lingual com o objetivo de liberar a mobilidade da língua, enquanto a frenectomia envolve a remoção parcial ou total do tecido do frênulo. A escolha do procedimento deve ser individualizada, considerando a idade do paciente, as características anatômicas observadas e as repercussões funcionais identificadas. A realização desses procedimentos pode ser conduzida por cirurgiões-dentistas habilitados ou médicos otorrinolaringologistas, conforme o contexto clínico e assistencial.
Em alguns animais também está presente uma "língua de baixo", chamada de Sublingua, e devido à aparência muito variável do tecido sublingual nos primatas, o termo "sublíngua" é frequentemente confundido com o frênulo da língua, a lamela frenal, e outros tecidos sublinguais.
Atuação fonoaudiológica na reabilitação pós-cirúrgica do frênulo lingual
A atuação fonoaudiológica após a frenectomia lingual tem como objetivo favorecer a adaptação funcional da língua à sua nova condição anatômica, promovendo o aprimoramento da mobilidade, da coordenação motora e das funções estomatognáticas, incluindo a fala.
Em um relato de caso publicado em 2025, foi investigada a evolução de uma paciente submetida à frenectomia lingual por meio de avaliação clínica, análise fonético-acústica da fala e ultrassonografia dos movimentos da língua. As reavaliações, realizadas aos sete e quatorze dias após o procedimento cirúrgico, demonstraram melhora na elevação da língua, no formato do ápice lingual e no contato com as comissuras labiais, além de maior anteriorização e verticalização da língua durante a produção dos fonemas [ɾ] e [l]. Também foram observadas modificações nas características acústicas da fala, evidenciando adaptações funcionais após a cirurgia.
Os autores destacam que a utilização de avaliações instrumentais, como a análise acústica da fala e a ultrassonografia da língua, complementa a avaliação clínica fonoaudiológica e permite acompanhar objetivamente a evolução funcional após a frenectomia. Por se tratar de um relato de caso, os resultados não podem ser generalizados para toda a população, sendo necessários estudos com amostras maiores para confirmar os benefícios observados.
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