Ray Harryhausen (Los Angeles, 29 de junho de 1920 - 7 de maio de 2013 ) nascido como Raymond Frederick Harryhausen foi um profissional da área de animação stop motion, técnica de animação onde os modelos são fotografados quadro a quadro. Tornou-se em meados do século XX o principal técnico da área na indústria do cinema estadunidense.
Biografia Harryhausen, como diria anos mais tarde, teve a felicidade de ser criado por pais que apreciavam estimular sua imaginação. Tanto, que o levaram com cinco anos de idade, para assistir a primeira versão cinematográfica de O Mundo Perdido, o filme do diretor Harry Hoyt onde ele pôde ver pela primeira vez o trabalho do homem que o inspiraria para sempre, Willys o'Brien. A fita, adaptação do livro homônimo de Sir Arthur Conan Doyle, foi o primeiro longa a ter dinossauros animados com a técnica de stop-motion. As plateias admiradas, acompanhavam o alvorecer das superproduções amparadas pela técnica de efeitos visuais, como um espetáculo por si só, e não meros acessórios na condução da trama. O que gera uma discussão bem interessante, considerando-se que esta arte nasceu essencialmente da técnica de trucagens e efeitos, a começar pela própria essência, uma sucessão de imagens para dar a impressão de movimento, tão logo cooptada para mesmerizar a audiência, com os efeitos primordiais de Georges Méliès e dos irmãos Lumière, fantasia e ficção-científica, corporificada desde sempre como o espetáculo máximo das telas, para sempre irmanados com os truques visuais que a tornavam credível. Claro, para Harryhausen, assim como os livros de fantasia e mitologia e os magazines de ficção-científica, devorados pelo garoto, foram as fontes de fascinação, que sedimentaram o interesse determinante pelo gênero fantástico, numa evolução que teve a catarse mesmo aos treze anos de Ray, quando ele entrou no célebre cinema Grauman Chinese, para assistir a King Kong, em 1933, a obra prima do mestre O'Brien. Absolutamente inovador, técnica e artisticamente, criador da moderna linguagem cinematográfica, mais de uma década antes de Orson Welles filmar Citizen Kane, e ter essa glória inadequadamente vertida para si. King Kong assombrou as audiências ao mostrar dúzias de sequências visuais espetaculares, e que jamais seriam obtidas por outros meios, que não através da trucagem óptica, o termo que generaliza, o uso de efeitos visuais.
Harryhausen saiu do cinema embasbacado, porém decidido quanto ao que fazer, para o resto da vida. Pesquisou o quanto pode. Estudou desenho, teatro, pintura, escultura, etc, e tudo o mais que ele acreditava poder ser útil, no ramo de efeitos especiais. Transformou a garagem da família em estúdio, e dedicou-se a aprender a arte de manipular objetos quadro-a-quadro. A essência da animação stop-motion. Com a ajuda dos pais, montou cenários para tentar de verdade a profissão, produzindo curta-metragens onde filmava contos de fada clássicos, como Capuchinho Vermelho e Rapunzel. George Pal, outro profissional da fantasia cinematográfica, viu os trabalhos de Ray, e o convidou para trabalhar com ele no George Pal's Puppetoons. Uma espécie de show de marionetes animados em stop motion. Mais tarde, Harryhausen teve o apadrinhamento do próprio mestre inspirador, Willys O`Brien, para fazer uma espécie de versão humorística de King Kong, reunindo a equipe original do primeiro filme, mas isso depois de Ray ter prestado serviço no exército, durante a Segunda Grande Guerra, e auxiliado, como técnico de filmagem, nos documentários de guerra de Frank Capra. Mighty Joe Young foi lançado em 1949, e as inúmeras sequências de animação foram realizadas quase que totalmente pelo estreante (em longas metragens) animador. A maior recompensa, foi ter trabalhado com o ídolo de infância, mais os realizadores originais de King Kong. Contudo materialmente, Ray levou parte do equipamento como soldo, o que auxiliou grandemente a carreira solo. Já no filme seguinte, O Monstro do Mar, um quase feliz acidente, o fez participar do projeto, ao saber que um conto do amigo, o escritor Ray Bradbury, seria adaptado pela Warner Brothers, ele mostrou a técnica para os produtores, que aceitaram de pronto. Existem versões de que o próprio Ray teria ajudado a convencer Bradbury a permitir a filmagem, bem sabido que sempre foi, a reticência do autor em versões cinematográficas da obra. Já nessa época, Harryhausen começou as experimentações que iriam permitir a feitura de truques mais convincentes. Primeiro, pintou telas de vidro, que mascaravam as mesas de animação, depois, naquilo que seria a grande inovação da técnica, ele refotografava o filme, para fazer com que os objetos animados tivessem uma interação melhor com as filmagens dos elementos reais. Funcionava assim: Uma primeira película de filme servia como base, nela eram inseridos os elementos, animados ou não, que deveriam figurar em primeiro plano, contra o fundo natural. Depois outra camada de filme, com novos elementos fotografados, finalizando o filme a ser utilizado. Uma verdadeira colagem manual de películas cinematográficas, cujos resultados eram ilusões convincentes de perspectiva simples, ou seja, era o truque que possibilitava que a criatura gigante, saísse detrás de esquinas, ou se pudesse ver pessoas reais correndo atrás ou na frente do monstro. Não recebeu quase nada pelo filme, hoje um clássico da fantasia e ficção. Mas serviu eficazmente para auxiliá-lo de outra maneira. Um jovem produtor chamado Charles S. Schneer, estava com um problema interessante naquele momento. Pretendia fazer um filme sobre um polvo gigante que destruía a ponte Golden Gate. Porém não tinha ideia de como realizá-lo, tecnicamente falando. Ao assistir a Monstro do Mar, lógico que teve a luz diante dos olhos, e procurou Harryhausen. Desnecessário dizer que a reação do animador foi de pronto, positiva. Eis aí algo em que eu gostaria de trabalhar - disse. A partir daí, começou uma parceria que duraria para o resto de suas vidas, adicionando uma muito relevante coleção de filmes fantásticos, para o imaginário pop do século XX.
O Monstro do Mar Revolto - e - A Invasão dos Discos Voadores Filmaram O Monstro do Mar Revolto onde Schneer pode realizar o desejo de ver a Golden Gate ir abaixo, pelos tentáculos de um polvo gigantesco. Em seguida A Invasão dos Discos Voadores, inevitável versão dos dois para um tema sacrossanto da ficção científica. Foi aqui que Ray fez a cena mais famosa concebida para o gênero, parodiada, citada e enaltecida à exaustão: A colisão de um disco voador no obelisco George Washington, além de um outro truque de impressionar até hoje, a sombra dos discos, no chão de imagens reais.
A Vinte Milhões de Milhas da Terra Logo em seguida, A Vinte Milhões de Milhas da Terra, onde um alienígena reptílico, Ymir, era trazido a terra, para destruir Roma. O melhor filme da fase preto e branco de Harryhausen. De todos os primeiros trabalhos com longas, A Vinte Milhões... é o mais delicado e com roteiro e produção mais elaborada. A criatura, trazida para terra ainda como uma espécie de embrião, vai crescendo rapidamente, até se tornar ameaçadora, e provocar a esperada reação do cinema-catástrofe de horror e ficção científica, característica da década de 1950. O próximo filme da dupla, poria fim ao tema catástrofe, e indicaria a paixão de Ray pelo que tinha de mais caro, a fantasia clássica. Ao fazer um croquis de um esqueleto lutando contra um homem, convenceu Schneer a avançar com a produção.
A Sétima Viagem de Sinbad Mais refinada do que as anteriores, A Sétima Viagem de Sinbad, era o passeio onírico que o animador ansiava de fato realizar. Ou, como dizia o trailer, uma viagem de volta a um tempo mágico, Harryhausen dizia que o passado guardava mais romantismo, e que por isso, casava melhor com o gênero fantástico. Escapismo absoluto dentro de fantasia desbragada, muito mais do que já havia sido feito até então. Lá estavam o ciclope devorador de homens, o dragão cuspidor de fogo, e a sequência arrebatadora do esqueleto esgrimindo com o herói, no castelo do vilão. Tudo encantado também com o score musical impecável de Bernard Herrmann. O compositor favorito de Alfred Hitchcock, acompanhou o impacto das imagens, dando a elas um acompanhamento adequado e original. Por exemplo, na cena com o esqueleto animado, tocou um fundo de castanholas e xilofone. Quem assistiu a sequência ao menos uma vez, nunca se esquecerá da música. O filme lotou as salas dos cinemas, e a geração intermediária de cineastas que o assistiu ainda bem jovem, gente como James Cameron, George Lucas, John Landis e Steven Spielberg, anotou cada passo das criaturas fantasiosas que desfilaram pela tela, para basear os seus futuros trabalhos.
Os três Mundos de Gulliver Animados com o sucesso, Schneer e Harryhausen passaram a produzir os filmes seguintes na Inglaterra, para aproveitar os custos mais baratos de produção. Fizeram Os três Mundos de Gulliver, versão infanto-juvenil do livro de Jonathan Swift, e que guarda o privilégio de ter sido o filme mais rentável produzido por eles, e A Ilha Misteriosa. Produzido depois de Schneer descobrir que o livro de Julio Verne era o mais lido nas bibliotecas da época. Sempre musicados por Bernard Herrmann, então fiel colaborador, eram matinês irresistíveis para a garotada da época. Em 1963, disposto a mergulhar na fonte primeira da inspiração, Harryhausen passou a trabalhar naquele que é talvez o mais assombroso, visualmente falando, é claro, de seus filmes.
Jasão e os Argonautas Demorou três anos para ser finalizado, por causa unicamente das trabalhosas sequências de animação. A Hidra de sete cabeças, fez parte de uma delas. Talo, a estátua colossal de bronze, caçando os Argonautas pelos penhascos de uma praia, é outra cena de encher os olhos. Mas o momento maior do filme, e do stop motion enquanto história, precisamente falando, foi o combate entre três Argonautas e sete esqueletos espadachins. Uma imagem fabulosa, que ainda guarda poder de impressionar, pela fluidez realista dos movimentos live-action combinados com a animação, e a óbvia fantasia do tema. Harryhausen nunca escondeu a predileção por este filme, talvez não apenas pelos resultados, mas pela dedicação envolvida. O filme, fez um sucesso apenas relativo. E só depois de muitos anos do lançamento, foi aclamado como um clássico do gênero.
Os Primeiros Homens na Lua - e - Mil Séculos Antes de Cristo Seguindo a carreira, Ray e Schneer voltaram a ficção-científica, realizando Os Primeiros Homens na Lua, uma das produções com tom mais humorístico, da dupla. Após o que, o animador fez o único filme sem a parceria do amigo, desde a década de 1950, Mil Séculos Antes de Cristo, uma fábula pré-histórica bancada pelos Estúdios Hammer, a casa do Drácula, Inglesa. Como chamavam os fãs da produtora especializada em filmes de terror, dos atores Peter Cushing, e Christopher Lee, seus dois maiores astros e ícones pop autênticos. No filme, Ray anima os dinossauros que atormentam Rachel Welch, e que ganharia uma sequência, com efeitos a cargo de um admirador de Harryhausen, Jim Danforth.
O Vale de Gwangy De volta ao amigo produtor, Ray decidiu tocar um velho projeto do seu mestre O`Brien, jamais realizado por ele. Seria O Vale de Gwangy, mistura de faroeste e aventura com dinossauros. Mais uma nota de criatividade na filmografia dos dois. A cena dos cowboys, laçando um Tiranosauro Rex, não é só incomum por si só, mas uma realização pertinho do perfeito, apenas superada hoje, pela massiva utilização de software avançado disponível atualmente.
Década de 1970