ou cabúquiPortal da Língua Portuguesa – Dicionário de Estrangeirismos é uma forma de teatro japonês, conhecida pelo drama estilizado e a elaborada maquiagem utilizada pelos atores. O significado individual de cada ideograma é canto (ka) (歌), dança (bu) (舞) e habilidade (ki) (伎), e por isso a palavra kabuki é por vezes traduzida como "a arte de cantar e dançar". Esses ideogramas, entretanto, são o que se chamam de ateji (ideogramas usados apenas com sentido fonético) e não refletem a mesma etimologia da palavra. Acredita-se, de facto, que "kabuki" derive do verbo kabuku, que significa aproximadamente "transgredir" ou "estar fora da norma", donde se depreende o sentido de teatro de "vanguarda" ou teatro "bizarro". A sua origem remonta ao início do e à chegada a Quioto de Izumo no Okuni, a auto-proclamada miko (nome das sacerdotisas e invocadoras de espíritos a serviço dos templos shinto) com o seu corpo de dançarinas, com os seus figurinos provocatórios (em que a indumentária cristã, copiada dos viajantes portugueses se misturava aos atributos tradicionais dos samurais — e isto tudo vestido por mulheres) e os seus números "bizarros" (kabuki) em que antigas danças de cariz religioso eram parodiadas com acentuações de ousada sensualidade. Muito cedo passou esta forma de intervenção artística a figurar como espectáculo de geishas nos lupanares e bordéis de Quioto. Ao longo do século XVII, o Kabuki (cujas formas sofreram uma rápida evolução) foi objecto de sucessivas proibições e reformulações legalmente impostas que tiveram como efeito a interdição, primeiro das mulheres, depois dos jovens rapazes que as substituíram no palco kabuki, por veicularem ambos uma sensualidade desalinhada com o rígido código moral samurai. Até ao século XX, apenas homens puderam pisar o palco kabuki. Contemporaneamente, o kabuki tornou-se um espectáculo popular que combina realismo e formalismo, música e dança, mímica, encenação e figurinos, implicando numa constante integração entre os atores e a plateia.

Desde 2008 que o teatro Kabuki integra a lista representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

História do kabuki 1603-1629: kabuki feminino thumb|left|upright=0.8|Atriz, possivelmente Izumo no Okuni, fundadora do kabuki, caracterizada e atuando como um kabukimono.

A história do kabuki começou em 1603, quando Okuni, uma miko do santuário Izumo Taisha, passou a executar um novo estilo de dança dramática em Kyoto, no leito seco do rio Kamo. Atrizes representavam papéis tanto masculinos quanto femininos em encenações cómicas sobre a vida cotidiana. O estilo conquistou popularidade instantânea; Okuni foi inclusive convidada para se apresentar na Corte Imperial. O Japão estava sob o controlo do Shogunato Tokugawa, liderado por Tokugawa Ieyasu. No despertar de tal sucesso, trupes rivais formaram-se rapidamente e o kabuki nasceu como uma dança dramática de conjunto executada por mulheres, numa composição muito diferente da sua representação moderna. Muito do seu apelo advinha das sensuais e sugestivas performances realizadas; um grande número de atrizes estavam comummente dispostas à prostituição; e os membros masculinos da audiência podiam requerer livremente os serviços destas mulheres. Por esta razão, durante o período Edo, o .

O kabuki tornou-se uma forma comum de entretenimento no estilo de vida Ukiyo, em distritos como Yoshiwara - uma zona de meretrício em Edo. Este tipo de práticas urbanas e todo o mal que dele advinha, especialmente pela variedade de classes sociais que se misturavam em performances de kabuki, não passou despercebido ao shogunato. As mulheres do kabuki, designadas de onna-kabuki, foram proibidas dessas práticas em 1629 por serem demasiado eróticas. Após as onna-kabuki, rapazes executavam performances de Wakashū-kabuki, porém, desde que passaram a ser elegíveis para a prostituição, o governo shogun baniu-os também desse tipo de práticas. O kabuki foi então executado por atores adultos do sexo masculino, chamados Yoro-kabuki, em meados da década de 1600. Os atores masculinos interpretavam papéis tanto masculinos como femininos. O teatro permaneceu popular e manteve um foco do estilo de vida urbana até aos tempos modernos. No entanto, o kabuki foi praticado por todo o ukiyo, assim como noutras partes do país; a Nakamura-za, Ichimura-za e Kawarazaki-za tornaram-se os principais palcos do ukiyo, onde algumas das performances do kabuki mais bem sucedidas foram e ainda são realizadas.

1629-1673: Transição para yarō-kabuki O kabuki moderno masculino, conhecido por yarō-kabuki (jovem kabuki), desenvolveu-se durante estas décadas. Depois das mulheres terem sido proibidas de realizar esta forma de teatro, os atores masculinos praticavam o crossdresser, conhecidos como onnagata (papel de mulher) ou oyama. Os jovens (adolescentes) eram escolhidos para o papel de mulheres, considerada a sua aparência menos masculina e voz não tão grave em comparação com os homens adultos. Além disso, os papéis dos Wakashū (adolescente masculino), desempenhados pelos jovens tornou-se comum entre a sociedade japonesa e muitas vezes eram apresentados inclusive num diferente contexto erótico. Juntamente com a mudança de sexo do ator surgiu também uma alteração na performance original: o aumento do stress foi acrescentado no drama ao invés da dança. As performances eram igualmente obscenas e os atores do sexo masculino também estavam disponíveis para a prostituição (em serviços tanto para o sexo feminino como para clientes do sexo masculino). O público tornou-se frequentemente desordeiro, e conflitos surgiam ocasionalmente, por vezes sobre os favores de um jovem ator particularmente esbelto, levando a que o shogunato proibisse primeiro as representações dos onnagata e posteriormente dos wakashū. Ambas as proibições foram rescindidas no ano 1652.

1673-1735: A era Genroku

Até então era comum a adaptação de peças de noh e kyōgen, formas consolidadas de teatro, para o kabuki. Incluindo o emprego de figurino muito similar. Tal situação era mal percebida pela sociedade que considerava tais peças, executadas pela classe guerreira, inadequada aos "mendigos do leito de rio", como os atores eram pejorativamente chamados.

Durante a era Genroku o kabuki floresceu. A estrutura das peças kabuki foi formalizada nesse período, assim como muitos elementos de estilização. Os tipos convencionais de personagens foram determinados. O teatro kabuki e o ningyô jôruri – forma elaborada de teatro de bonecos que veio a ser conhecida mais tarde como bunraku – tornaram-se estreitamente associados um com o outro nessa época e desde então têm-se influenciado mutuamente em seus desenvolvimentos. O famoso dramaturgo Chikamatsu Monzaemon, um dos primeiros a escrever profissionalmente textos dramáticos de kabuki, produziu muitos trabalhos influentes, embora a peça tida como mais significativa de sua obra, Sonezaki Shinju (Os suicídios de amor em Sonezaki), tenha sido originalmente escrita para bunraku. Como muitas outras peças de bunraku, entretanto, essa foi adaptada para kabuki e inspirou muitos "imitadores": de fato, conta-se que essa e outras peças similares causaram tantos casos reais de suicídio copiados do drama, que o governo proibiu as shinju mono (peças sobre suicídio duplo de amantes - aliás, curiosa semelhança com Romeu e Julieta) em 1723. Ichikawa Danjuro I também viveu nessa época, a quem se atribui o desenvolvimento das poses mie e da maquilagem kumadori, que simulava máscaras.Kincaid, Zoe (1925).Kabuki: The Popular Stage of Japan. London: MacMillan and Co. pp21–22.

Em meados do o kabuki perdeu temporariamente a preferência do público das classes mais baixas em favor do bunraku. Isso aconteceu em parte por causa da emergência de muitos bons dramaturgos de bunraku na época. Nada digno de nota aconteceu no desenvolvimento do kabuki, até o fim do século, quando a forma voltou a emergir.

Kabuki após a Restauração Meiji

thumb|260x260px|Encenação kabuki, (cerca de 1860)

As grandes mudanças culturais começaram em 1868, com queda do Shogunato Tokugawa. A supressão da classe dos samurais e a abertura do Japão ao ocidente ajudaram a ativar esse reflorescimento. Como a cultura lutava para se adaptar à nova situação de não-isolamento, os atores batalharam para elevar a reputação do kabuki entre as classes mais altas e para adaptar os estilos tradicionais aos novos gostos. Os esforços nesse sentido deram frutos, quando a 21 de abril de 1887, o Imperador Meiji participou de uma das performances. Durante a Segunda Guerra Mundial, muitas casas de kabuki foram destruídas por bombardeamentos e as forças de ocupação baniram as apresentações de kabuki por um breve período depois da guerra. Em 1947, no entanto, a proibição já havia sido revogada e as apresentações recomeçaram.

O Kabuki na atualidade

Após a Segunda Guerra Mundial momentos difíceis sentiram-se no kabuki. Além da devastação material que a guerra causou, muitos rejeitaram os estilos e pensamentos do passado, entre os quais a prática do kabuki. Entretanto, produções populares e inovadoras do kabuki clássico, dirigidas pelo diretor Tetsuji Takechi, são atualmente creditadas por trazer um renascimento do interesse sobre a arte na região de Kansai. Várias estrelas populares renasceram com participações emotivas através das realizações de Takechi entre as quais Nakamura Ganjiro III (nascido em 1931) que se enquadra como uma figura principal desde então. Este era inicialmente conhecido por Nakamura Senjaku, e neste período em Osaka, o kabuki tornou-se conhecido como "A Era de Senjaku" em sua honra.

No Japão moderno, o kabuki continua relativamente em voga, sendo a arte mais popular dos estilos tradicionais de drama japonês - e vários dos seus atores adquirem frequentemente trabalhos tanto na televisão como no cinema. Um exemplo, é o conhecido onnagata Bandō Tamasaburō V que teve aparições em peças de teatro e filmes, às vezes em interpretando papéis femininos. Esta arte surge em várias obras de cultura popular japonesa, como por exemplo em animes. Para além das grandes obras teatrais realizadas em Tóquio e Kyoto, existem outros teatros menores por todo o país, nomeadamente em Osaka. Em Ōshika, província de Nagano, por exemplo, a trupe Ōshika Kabuki possui aí a sua sede. miniaturadaimagem|Ator mirim, com maquiagem kumadori, atua como Shizune em um Kodomo kabuki (kabuki infantil) na peça Yoshitsune Senbon Zakura Algumas trupes de kabuki usam atualmente atrizes nos papéis de onnagata. O Ichikawa Kabuki-za, por exemplo, é uma trupe só de mulheres formada depois da Segunda Guerra que apesar dos seus esforços, não consegue iniciar uma nova tendência.Edelson, Loren. Playing for the Majors and the Minors: Ichikawa Girls’ Kabuki on the Postwar Stage. In: Leiter, Samuel (ed). Rising from the Flames: The Rebirth of Theater in Occupied Japan, 1945-1952. Rowman & Littlefield, 2009. páginas 75–85.