Antigos canários é o termo usado para designar genericamente os diversos povos de origem berbere que habitavam as ilhas Canárias antes da conquista e colonização castelhanas, ocorrida entre 1402 e 1496. São muitas vezes identificados na literatura científica como "aborígenes canários", termo considerado por alguns académicos como incorreto e de caráter pejorativo e colonialista. São conhecidos popularmente sobretudo como guanches, embora este termo originalmente designe especificamente o povo aborígene de etnia berbere da ilha de Tenerife. Também é usada a designação indígenas canários, considerada por alguns autores mais apropriada, embora de uso minoritário.

Recentes pesquisas genéticas comprovam a hipótese de que os guanches eram originários de populações berberes do Norte da África.Demographic history of Canary Islands male gene-pool: replacement of native lineages by European.

A cultura guanche e as suas línguas foram totalmente erradicadas pela colonização europeia das ilhas, dela restando apenas algumas palavras e abundantes vestígios arqueológicos. Apesar dos guanches terem sido extintos enquanto povo, os atuais habitantes das Canárias descendem parcialmente deles, segundo estudos genéticos que mostram que houve intensa miscigenação entre mulheres guanches e homens espanhóis.

Os antigos canários foram os únicos povos indígenas que habitaram a região da Macaronésia, uma vez que nos arquipélagos de Açores, Cabo Verde e Madeira não foi comprovada a existência de culturas anteriores à chegada dos europeus.

Designações específicas dos nativos de cada ilha Várias fontes afirmam que os antigos canários usavam autónimos específicos, conforme a ilha em que habitavam. O historiador canário José Farrujia afirma, no entanto, que estes termos são modernos ou «modismos», sem carácter histórico.

El Hierro - Bimbaches ou bimbapes. La Palma - Benahoaritas ou auaritas. La Gomera - Gomeritas ou gomeros. Tenerife - Guanches. Gran Canaria - Canários. Fuerteventura e Lanzarote - Majos.

Antropologia e história O isolamento das ilhas, a falta de elementos escritos e de testemunhos coevos críveis torna muito difícil a caracterização do povo guanche. Não existe certeza quanto à existência de uma identidade cultural única nas ilhas Canárias no período anterior à colonização europeia, pelo que a designação povo guanche provavelmente é incorrecta, sendo na realidade o nome dado pelos europeus a um conjunto de povos, que embora partilhando um fundo cultural comum, diferiam nas suas línguas, práticas religiosas e outros traços culturais.

Sem meios conhecidos de navegação, a insularidade levava a que os povos das ilhas se mantivessem isolados dos povos da costa africana vizinha e, num duplo insulamento, estivessem separados entre si, permitindo que em cada ilha evoluísse uma cultura distinta.thumb|350px|Reconstituição de uma povoação guanche (La Orotava, Tenerife).Assim, em vez de se falar em povo guanche melhor será que se fale em povos guanches, reconhecendo a sua diversidade e a especificidade de cada ilha, e mesmo dentro desta, de cada comunidade.

Origem do termo guanche A origem da designação dada pelos invasores castelhanos aos aborígenes canários também não é clara: segundo a teoria dominante, assente sobre os estudos de Juan Núñez de la Peña, a palavra guanche seria uma apropriação pelos castelhanos do termo guanchinet, a designação que os habitantes de Tenerife davam a si mesmos, na qual guan significaria simplesmente pessoa e Chinet seria o nome aborígene da ilha (guachinet seria simplesmente pessoa de Tenerife). O nome foi depois generalizado, passando a designar todos os povos aborígenes canários.

A admitirmos a origem berbere dos guanches, o que hoje parece quase certo, a etimologia atrás apontada é congruente com a generalidade das línguas daqueles povos: assim, o termo guanche proviria da construção berbere (tamazight) Wa n Chinet, que significaria o (homem) que é de Chinet, sendo Chinet a designação de Tenerife.

Outra teoria, etimologicamente bem menos fundada, faz derivar o termo guanche do francês arcaico através do verbo guenchir / guanchir e do substantivo guenche/guanche. A palavra teria sido aplicada aos aborígenes canários a partir dos tempos da conquista de algumas das ilhas pelo cavaleiro normando Jean de Bettencourt, o rei das Canárias.

Qualquer que seja a origem, com o passar do tempo o gentílico guanche seria generalizado a todos os aborígenes das Canárias, ainda que os habitantes de cada ilha tivessem (e, nalguns casos, mantenham sob formas acastelhanadas) nomes próprios, não existindo nenhum termo conhecido que se referisse a todo o conjunto dos povos canários, salvo as designações depreciativas de origem castelhana de magos ou mauros.

Origem dos povos guanches thumb|250px|Pintura rupestre guanche Os fragmentos hoje conhecidos do relato da viagem do navegador cartaginês Hanno, realizada no século VI a.C., são mudos quanto aos habitantes das Canárias, mas Plínio, o Velho afirma que segundo o rei Juba II, os cartagineses teriam visitado as ilhas e não encontraram aí habitantes. Uma expedição enviada por aquele rei, no século I, para além dos cães que deram o nome às ilhas, apenas terá encontrado ruínas de grandes dimensões, aparentemente desabitadas. De qualquer forma, a evidência arqueológica confirma que o troço da costa de África onde se situam as ilhas, e mesmo estas, foram visitadas regularmente na antiguidade. Túmulos e outras marcas da presença dos cartagineses são abundantes na costa atlântica do actual Marrocos, comprovando o conhecimento pleno daqueles territórios. Em Tenerife, especificamente, a Caverna dos Guanches em Icod de los Vinos, forneceu as mais antigas cronologias das Ilhas Canárias, datando do terceiro século. C.Protohistoria de Tenerife

A partir daqueles relatos, e do facto de os povos guanches não estarem islamizados, muitos autores têm concluído que sua migração para as ilhas teria ocorrido no período entre o século I e o século VIII, época da chegada do Islão aos povos do norte de África. Contudo, estudos arqueológicos e datação de restos orgânicos apontam para um povoamento humano das ilhas que se estende, pelo menos, a 500 anos antes de Cristo, o que é incompatível com essa teoria.

As características físicas dos guanches, com a sua tez e olhos claros, cabelos por vezes loiros e elevada estatura, levaram alguns investigadores a atribuir-lhe uma origem germânica ou celta, ligando a sua presença às migrações dos vândalos e visigodos no norte de África. Contudo, evidência mais recente aponta no sentido de incluir os guanches no conjunto dos povos proto-berberes que colonizaram o norte de África, desde o Egipto à actual Mauritânia, em tempos muito mais remotos (13 000 a 15 000 anos atrás). Essa teoria tem como vantagem o permitir a explicação das semelhanças entre as línguas guanches (das quais hoje apenas poucos vocábulos são conhecidos) e as línguas dravidianas, a proximidade antropomórfica com os povos Cro-Magnon e a presença em ilhas oceânicas de povos que, aparentemente, não tinham tecnologias náuticas que lhes permitissem atingi-las. De facto, se o povoamento das ilhas tivesse ocorrido durante o último período glaciar, a descida do nível do mar que então ocorreu, quase ligando as ilhas Canárias à costa continental fronteira, teria permitido aos humanos, e aos seus animais domésticos, ocupar as ilhas sem recurso à navegação oceânica.

Outro argumento de peso a favor da teoria proto-berbere são as semelhanças da simbologia guanche utilizada nas pinturas rupestres (como as de Garafía, em La Palma, ou Julán, em El Hierro), com a encontrada em rochedos e cavernas na Líbia e Argélia. Face a essa semelhança, as pinturas rupestres existentes nas ilhas são congruentes com a tese da colonização durante a fase final da última glaciação, permitindo inserir as culturas guanches no conjunto daquelas que então ocuparam o actual Saara, na altura área fértil e verdejante, e o sudoeste europeu. Nesse contexto, os guanches seriam o último povo sobrevivente das grandes culturas que ocuparam essa vasta região do planeta na época da glaciação laurenciana. O seu genocídio no século XV constitui, portanto, perda irreparável para o conhecimento dessas populações.

O facto de os povos guanches, pelo menos alguns, mumificarem parte dos seus mortos, permitirá, face aos avanços da biotecnologia, o esclarecimento de algumas dessas questões. Talvez assim sejam eliminados os preconceitos de carácter nacionalista que em muito têm entravado o estudo sério dos aborígenes canários.

Sociedade e cultura thumb|250px|Estatueta religiosa guanche (Gran Canária) thumb|250px|Estatueta religiosa guanche chamada Guatimac (Tenerife). thumb|250px|Altar guanche em Garajonay, La Gomera (ao fundo o vulcão do Teide. Não existem elementos seguros que permitam traçar uma história dos povos guanches no período anterior à conquista europeia. Observações feitas aquando da colonização castelhana das ilhas, afirmam que nelas coexistiam pelo menos duas culturas, uma vivendo num estádio pastoril, com características semelhantes às culturas europeias do neolítico, que tem sido descrito como "vivendo na idade da pedra" e servido para relacionar os guanches com a cultura Cro-Magnon, e outra agrícola, com construções relativamente elaboradas, em povoações organizadas. Essa diferenciação tem sido apontada como resultado de colonização humana por distintas fases migratórias, que teriam trazido às ilhas povos com um adquirido cultural distinto.

Mas, mesmo admitindo como verdadeira a existência de sociedades diferentes, e não de meros estratos sociais distintos, a teoria das múltiplas migrações esquece a possibilidade de evolução distinta nas ilhas, com cada grupo a assumir, face à sua insularidade, formas diferentes de aproveitamento dos recursos naturais. Por outro lado, o mesmo isolamento insular que gera a diferenciação de cada sociedade insular, face às ilhas e continentes vizinhos, é também um poderoso factor de miscigenação, não permitindo a sobrevivência por longos períodos de culturas diferentes no espaço limitado da ilha.

Todas as sociedades guanches domesticavam animais, possuindo, para além de cães, rebanhos de cabras, ovelhas e porcos.

A principal actividade económica era o pastoreio, mas também assumia importância a agricultura, a actividade recolectora, a pesca costeira, a apanha de mariscos e o artesanato. Na ilha de Gran Canária a agricultura tinha grande desenvolvimento, existindo regadio. Os cereais eram cultivados (trigo, cevada e aveia), constituindo a base do gofio, o seu principal alimento.

Não existe qualquer evidência histórica ou arqueológica da existência de embarcações, pelo que as populações canárias viviam virtualmente prisioneiras nas suas ilhas.

No que respeita ao seu desenvolvimento tecnológico, os povos guanches apresentavam fortes semelhanças com os povos do neolítico europeu, se bem que essa integração não possa ser aceite de forma acrítica, dada a diversidade de enquadramentos históricos e ambientais.

Em geral, os guanches viviam em grutas naturais ou escavadas, fazendo uso dos tubos vulcânicos, recorrendo apenas à construção de cabanas rudimentares naqueles lugares onde a orografia não fornecia abrigos naturais. As cabanas eram circulares, construídas em pedra solta e recobertas com material vegetal.

Contudo, parece que existiram construções bem mais elaboradas em alguns lugares e é certa a existência de povoados organizados de dimensão assinalável.

O vestuário era reduzido a uma tanga de pele de cabra ou de fibras vegetais, colorida através do uso de corantes naturais, com predomínio para o vermelhão (do dragoeiro) e o ocre. Utilizavam colares e pulseiras de pedras polidas, conchas ou peças cerâmicas.

A cerâmica conhecia algum desenvolvimento, existindo vasilhas muito elaboradas e de formas harmoniosas. A cerâmica guanche parece também confirmar a ligação proto-berbere.