A queixada (nome científico: Tayassu pecari), também chamado de queixada-ruiva, queixo-ruivo, canela-ruiva, sabucu, tacuité, taiaçu, tajaçu, tanhaçu, tanhocati, taguicati, tiririca, porco-do-mato e pecari, é uma mamífero artiodáctilo (artiodactyla) da família dos taiaçuídeos (Tayassuidae) e gênero Tayassu. Outrora, tal gênero também incluía o caititu (Pecari tajacu).
Etimologia
Queixada refere-se ao seu costume de bater fortemente o queixo, quando acuado. Porco deriva do termo latino porcus. Sabacu, savacu ou sabucu, segundo Antenor Nascentes, vêm do tupi sawa'cu. Taguicati, tanhocati, tanhaçu, tajaçu e taiaçu advêm do tupi, mas a etimologia é confusa. Segundo o Dicionário Histórico das Palavras Portuguesas de Origem Tupi (DHPT), originaram-se em taya'su, que tem o sentido duplo de "porco do mato" e "variedade de mandioca". Antenor Nascentes, por sua vez, derivou o termo de tãi wa'su ("dente grande", de ãya, "dente", e gwa'su, "grande"). Taiaçu, por sua vez, é uma forma aferética de arataiaçu. Foi registrada a primeira vez como teygasu dattu num livro alemão de 1557 de Hans Staden, depois como teasu em 1618, taiassú e taititu em 1777. Tacuité tem provável origem indígena, mas sua etimologia é desconhecida. Pecari advém do espanhol pécari ou pecarí (1681), que por sua vez é um empréstimo de um dialeto do Panamá para referir a uma espécie de cedro silvestre.
Taxonomia e evolução
A queixada foi descrita pela primeira vez como Sus pecari por Johann Heinrich Friedrich Link, em 1795. Johann Fischer von Waldheim, em 1814, descreveu o gênero Tayassu, que também incluía o caititu (Pecari tajacu), e atualmente só compreende a queixada. Estudos morfológicos dividiram a queixada em cinco subespécies, entretanto, tal divisão não é corroborada por estudos genéticos:
T. p. pecari - Colômbia, Venezuela, Guianas e Brasil (ao norte do rio Amazonas). T. p. aequatoris - sudoeste da Colômbia e Equador. T. p. albirostris - sul do Brasil, leste do Peru, Bolívia, Paraguai e norte da Argentina. T. p. ringens - do sudeste do México à Nicarágua. T. p. spiradens - da Costa Rica ao norte da Colômbia.
Descrição
A queixada vive até os 13 anos e pode dar à luz dois filhotes de cada vez. O comprimento da cabeça e do corpo varia de 90–139 centímetros, a altura do ombro está entre 40 e 60 centímetros, o comprimento da cauda é de três a seis centímetros, e o peso adulto é de 25–40 quilos. Sua cor é geralmente marrom ou preta. A pelagem é eriçada e tem pelos que correm ao longo da coluna vertebral, crescendo mais longos do que os que correm pelo corpo, formando uma crista, que sobe quando a queixada fica excitada. Tem corpo redondo com focinho comprido que termina em disco circular onde começa a cavidade nasal. Possui manchas brancas que começam abaixo do focinho e vão até a área da bochecha, logo abaixo dos olhos. O filhote apresenta o seu pelo em um tom avermelhado, com uma listra escura na região dorsal.
Distribuição e habitat
A distribuição geográfica da queixada é ampla e ocorre desde Veracruz e Oaxaca, no México, até a província de Entre Rios, na Argentina, ocorrendo também na costa do Equador em Esmeraldas e Pichincha. No Brasil, sua distribuição abrange diversos estados, como Acre, Amapá, Amazonas, Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Pará, Piauí, Rio de Janeiro, Rondônia, Roraima, Santa Catarina, São Paulo e Tocantins, nos biomas da Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal. Em termos hidrográficos, está presente nas sub-bacias do Araguaia, do Doce, da foz do Amazonas, do Grande, do Gurupi, do Iguaçu, do Jequitinhonha, do litoral do Amapá, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina, do Madeira, do Mearim, do Negro, do Paraguai 01, 02 e 03, do Paranapanema, do Paranaíba, do Paraná RH1, do Paraíba do Sul, do Médio e Alto Parnaíba, do Paru, do Purus, do Solimões, do Alto e Médio São Francisco, do Tapajós, do Tietê, do Alto e Baixo Tocantins, do Trombetas, do Alto Uruguai e do Xingu. Por ser uma espécie que exige amplos territórios e é muito sensível à caça, provavelmente já está extinta nos estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Também está extinto em El Salvador, e apesar de ter sido introduzido em Cuba, em 1930, também não se tem registro da espécie na ilha há muito tempo.
A queixada habita uma ampla variedade de ambientes, que abrangem desde o nível do mar até altitudes de cerca de dois mil metros, incluindo as encostas orientais dos Andes. As tendências de uso do habitat demonstram uma forte ligação dos queixadas com áreas florestais, especialmente florestas ripárias, onde a oferta de frutos costuma ser maior. Estudos realizados na Mata Atlântica indicam que os queixadas conseguem sobreviver em fragmentos florestais com menos de dois mil hectares, desde que exista uma diversidade equilibrada de habitats, presença de cursos d’água e recursos essenciais, como manchas de palmito içara (Euterpe edulis). Na Amazônia, o tamanho das áreas utilizadas tende a crescer proporcionalmente ao tamanho do grupo. Em toda a sua distribuição, os queixadas concentram sua atividade em áreas florestais, formando bandos numerosos que demandam extensas áreas de vida. Por isso, a espécie depende fortemente de grandes áreas contínuas de habitat não perturbado para garantir a viabilidade de suas populações.
Ecologia
Movimentação
miniaturadaimagem|upright=1.1|esquerda|Esqueleto de queixada do Museu de Anatomia Veterinária da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo
Os queixadas percorrem longas distâncias, e estudos de longo prazo indicam que seus movimentos sazonais não são aleatórios. A movimentação e a área de vida da espécie são determinadas principalmente por variáveis ambientais como disponibilidade de alimento, diversidade de habitats e recursos, cobertura vegetal e presença de fontes de água. São animais diurnos, com maior atividade no início da manhã e no fim da tarde, embora possam forragear e se alimentar durante a noite em períodos de lua cheia. No Pantanal, o horário de atividade varia ao longo do ano, influenciado pela disponibilidade de água e pelas altas temperaturas: durante o período de cheia, mantêm-se diurnos, mas passam a ter hábitos mais crepusculares ou noturnos no auge da estação seca. Dependendo do bioma e do tamanho do grupo, a área de uso pode variar entre 19 e 200 quilômetros quadrados.
Embora não haja evidências de movimentos migratórios ou nômades em alguns grupos estudados, observou-se que a movimentação e o uso do espaço estão associados à estrutura em mosaico da vegetação. Um bando pode caminhar até 10 km em um único dia, gastando dois ou três dias se deslocando ou forrageando. No Pantanal da Nhecolândia, um estudo com radiotelemetria registrou variações na área de vida dos queixadas entre e hectares (com base no polígono convexo mínimo de 95%). Bandos que utilizavam áreas com maior degradação ambiental apresentavam áreas de vida 51% mais amplas do que aqueles em habitats mais preservados. Em outro estudo realizado no Cerrado, em planaltos na borda sul do Pantanal, o movimento e o uso de área de longo prazo pelos bandos de queixada se correlacionaram positivamente com a diversidade de frutos disponíveis, sugerindo que percorrem distâncias maiores durante os meses com maior oferta de frutos. No entanto, esse mesmo efeito não foi observado ao comparar os períodos de cheia e seca.
Alimentação
upright=1.1|miniaturadaimagem|esquerda|Desenho de 1879-82
Os queixadas desempenham um papel ecológico essencial como predadores e dispersores de sementes. São classificados como frugívoros, com frutas e sementes compondo a maior parte de sua dieta, embora também consumam raízes, plantas aquáticas, larvas de insetos e minhocas. Em regiões como a Caatinga, a dieta pode ser composta majoritariamente por raízes, tubérculos, sementes e cipós suculentos. Em diferentes biomas, há variações no uso de recursos e separação de nicho entre queixadas e outras espécies, como os catetos. Palmeiras, como Syagrus romanzoffiana, içara e Mauritia flexuosa, são recursos alimentares-chave à espécie, principalmente por produzirem frutos durante o ano inteiro e sustentarem populações em períodos de escassez, como a estação seca na Amazônia.
O uso do habitat pelos queixadas reflete diretamente a disponibilidade de recursos. No Pantanal, consomem mais plantas de habitats não inundáveis, tanto na estação seca quanto na chuvosa. Durante a seca, quando os frutos tornam-se escassos, aumenta o consumo de raízes e fibras vegetais, geralmente mais abundantes em áreas abertas. Isso demonstra a importância da heterogeneidade ambiental para a sobrevivência da espécie. O uso do espaço também varia conforme a abundância de frutas: em regiões do planalto ao redor do Pantanal, por exemplo, os queixadas utilizam áreas maiores durante a estação chuvosa, acompanhando a maior diversidade e distribuição de árvores frutíferas.
Estudos com isótopos estáveis de carbono e nitrogênio demonstram que os queixadas consomem predominantemente plantas do tipo C3, mesmo em biomas afetados por atividades agrícolas. Em regiões mais impactadas da Mata Atlântica, há indícios de leve inclusão de plantas C4 na dieta, possivelmente associada ao consumo de culturas agrícolas, mas esses itens ainda não representam a base alimentar da espécie. Além de frutos e sementes, a dieta dos queixadas inclui folhas, tubérculos, rizomas, invertebrados, ovos e pequenos vertebrados, como peixes e mamíferos. No Pantanal, sua alimentação é mais diversificada do que na Mata Atlântica, apesar da menor abundância total de frutos, evidenciando sua capacidade de adaptação e a importância da diversidade de habitats para sua conservação.
Reprodução
miniaturadaimagem|upright=1.1|Fêmea com seus filhotes
Em cativeiro, a gestação das queixadas dura entre 156 e 162 dias. As fêmeas produzem ninhadas anuais, com uma média de 1,64 a 1,67 filhotes, e cerca de 40% das fêmeas estão grávidas a cada ano. A maturidade sexual das fêmeas ocorre por volta de 1,5 ano, enquanto a reprodução pode se estender até mais de 12 anos de idade. Estudos na Mata Atlântica e no Cerrado mostram que não há diferenças significativas no peso e comprimento corporal entre machos e fêmeas, e a razão sexual permanece equilibrada, variando entre 1,36 e 1,88 fêmeas para cada macho em diferentes regiões, sendo a proporção ao nascimento próxima de 1:1. Na Mata Atlântica, o peso médio das queixadas é cerca de 30,8 quilos, com comprimento corporal em torno de 104 centímetros, enquanto no Pantanal adultos apresentam peso médio de 32,3 quilos e comprimento de 111 centímetros.
O sistema de acasalamento da queixada, investigado por estudos genéticos, é caracterizado como promíscuo, permitindo que machos e fêmeas tenham filhotes com múltiplos parceiros. A reprodução pode ocorrer ao longo de todo o ano, especialmente em regiões com disponibilidade alimentar relativamente constante. Contudo, variações sazonais foram observadas em algumas áreas: na Costa Rica, há picos de acasalamento e nascimento relacionados ao aumento na oferta de frutos; no México, a reprodução ocorre principalmente entre abril e novembro. Dados preliminares indicam que, no Pantanal e em áreas próximas do Cerrado, a maioria dos nascimentos acontece durante o período chuvoso, refletindo a sazonalidade climática e a disponibilidade de recursos. De modo geral, os filhotes mamam por cerca de seis meses e atingem a maturidade sexual entre um e dois anos de idade. Estudos mostram que, embora a razão sexual ao nascimento seja equilibrada, em populações selvagens a proporção tende a ser maior para as fêmeas, observação consistente em diversos biomas, como Pantanal, Mata Atlântica e Cerrado. Esse predomínio de fêmeas na população adulta pode influenciar a dinâmica reprodutiva e a estrutura social dos grupos.
Territorialismo