A Mina-S () foi uma arma antipessoal desenvolvida na Alemanha durante a década de 1930, usada extensivamente pelas forças alemãs durante a Segunda Guerra Mundial contra tropas de infantaria. Também conhecida como Bouncing Betty (Betty saltitona, em português) pelas tropas norte-americanas, Debollockers (literalmente, removedores de testículos) pelas tropas britânicas, Jumping Jack (Jack saltador, em português) pelas tropas australianas e neozelandesas, e мина-лягушка (mina-sapo, em português), é a mais famosa de um tipo de minas antipessoais conhecidas como minas saltadoras. Quando ativadas, estas minas são lançadas no ar por uma pequena carga propulsora antes de explodir à altura da cintura ou do tronco, projetando estilhaços horizontalmente em todas as direções a velocidades letais.
A mina-S demonstrou ser extremamente eficaz e fiável, ganhando uma reputação temível no decorrer do conflito. Uma única mina-S frequentemente causava múltiplas baixas e o seu alcance efetivo era muito superior ao de qualquer outra mina antipessoal da época.
História thumb|esquerda|upright=1.14|Um paraquedista norte-americano desarmando uma S.Mi.35. A mina-S foi distribuída às tropas alemãs a partir de agosto de 1938, tendo ao seu dispor unidades quando deflagrou a Segunda Guerra Mundial. No decurso de pequenas incursões na região do Sarre entre 7 e 11 de setembro de 1939, durante o período conhecido como Guerra de Mentira, os soldados franceses tornaram-se nas primeiras vítimas aliadas da mina-S. O desempenho da mina no Sarre contribuiu para o fim das incursões por parte dos franceses,Sloan, Mine Warfare on Land que a alcunharam de "O soldado silencioso".Thompson, Engineers in Battle, pp. 64-71 Este grande sucesso afirmou a eficácia da mina-S aos olhos da liderança alemã, e levou os Estados Unidos e outros países a copiar o seu projeto.
Os alemães usaram a mina-S em larga escala durante as invasões aliadas da Europa e do norte de África. O 10º Exército Alemão, por exemplo, plantou destas minas em preparação para a invasão aliada da Itália.Huebner, Long Walk Through War: A Combat Doctor's Diary As minas-S foram também plantadas nas praias da costa setentrional da Europa, ao abrigo de um programa de minagem e fortificação da Muralha do Atlântico, em preparação para a esperada invasão aliada. Em Îles Saint-Marcouf, ao largo da Praia de Utah, onde os aliados receavam que os alemães tivessem instalado pesadas baterias costeiras, Rommel havia ordenado que as minas-S fossem "semeadas como semente de capim".Ryan, The Longest Day, pp. 162-3 Estas minas foram consequentemente usadas para defender posições alemãs durante a Batalha da Normandia e na defesa do norte da França e das fronteiras do território alemão. Tipicamente, as minas-S eram usadas em conjunto com minas antitanque, por forma a resistir simultaneamente ao avanço da infantaria e dos veículos blindados, pelo que se um veículo era desativado por uma mina, os soldados ficavam presos no seu interior até alguém vir em seu auxilio.Kershaw, The Longest Winter, pp. 21, 47
Foi durante as ações aliadas na Europa que as tropas de infantaria norte-americanas deram à mina-S a sua alcunha cínica, Bouncing Betty.Ambrose, D-Day, June 6, 1944, p. 281 A mina-S tinha um grande efeito psicológico sobre as tropas aliadas devido à sua tendência a ferir gravemente os membros e os órgãos genitais dos soldados em vez de os matar. Uma tática alemã muito eficaz consistia em esperar até o inimigo penetrar profundamente num campo minado antes de abrir fogo. Alguns soldados escolhiam ficar de pé debaixo de fogo em vez de arriscar deitar-se em cima de uma mina.Croll, The History of Landmines, p. 41 O Tenente-coronel Sloan descreveu a mina-S como sendo "provavelmente a arma mais temida encontrada pelas tropas aliadas durante a guerra", e a expressão "campo minado" foi introduzida na linguagem corrente pelos soldados desmobilizados depois da guerra, referindo-se a uma situação recheada de problemas.Croll, The History of Landmines, p. 53
Os soldados aliados também aprenderam rapidamente que a detonação de uma única mina-S podia provocar várias vítimas; em 27 de fevereiro de 1945, durante a operação de desminagem duma estrada nos arredores de Prumzurley, na Alemanha, o soldado Herman C. Wallace, da 76ª Divisão de Infantaria, pertencente ao 3º Exército Americano sob o comando do general George S. Patton, pisou uma mina-S. Wallace conhecia o princípio de funcionamento deste tipo de mina e que a sua única chance de evitar ferimentos graves era deitar-se rapidamente no chão, mas estava ciente de que os soldados em seu redor poderiam igualmente ser mortos ou feridos. Ao invés de lançar-se no chão, Wallace colocou o outro pé sobre a mina, não permitindo desta forma que esta fosse lançada no ar. Wallace foi morto pela detonação da mina, mas nenhum outro soldado sofreu qualquer ferimento. Pelo seu heroísmo, Wallace recebeu postumamente a Medalha de Honra.Prefer, Patton's Ghost Corps, pp. 183-4
thumb|esquerda|upright=1.14|Prisioneiro de guerra alemão desenterrando uma mina antipessoal durante uma operação de desminagem perto de Stavanger, Noruega, 11 de Agosto de 1945. O número exato de vítimas mortais causadas pela mina-S é desconhecido, uma vez que os Aliados não registavam qual o tipo de arma responsável por uma determinada morte, apenas se tinha ocorrido em combate, mas o número de baixas devidas a todos os tipos de minas e armadilhas durante o conflito é estimado em do total de mortos em combate. O número de vítimas civis é ainda mais incerto.
Quando a produção cessou em 1945, com a derrota da Alemanha, tinham sido produzidos mais de milhões de exemplares. Não existe informação relativamente ao destino dos exemplares que não foram utilizados, mas supõe-se que a maioria terá sido destruída durante o desarmamento da Alemanha no pós-guerra. No entanto, é muito provável que alguns tenham sido confiscados pelos Aliados para estudo e engenharia reversa, uma vez que surgiram muitas imitações da mina-S nos anos que se seguiram ao fim da guerra.
Durante a ocupação militar da Alemanha e a reconstrução da Europa do pós-guerra, o Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos (USACE), o governo francês e o Ministério da Defesa britânico conduziram uma das mais prolongadas e bem sucedidas campanhas de desminagem na Europa Ocidental. A França alocou uma grande quantidade de pessoal a esta tarefa, incluindo prisioneiros de guerra alemães. Esta operação conjunta, que eliminou a maioria dos campos de minas ainda existentes na metade ocidental do continente, beneficiou grandemente da política alemã de identificar claramente e registar detalhadamente a localização dos seus campos de minas.
Apesar de a documentação alemã indicar que a vida útil da mina-S após plantada era de dois a sete anos, a sua carga explosiva pode continuar funcional por muitas décadas. Ainda ocorrem incidentes esporádicos envolvendo a explosão acidental de minas terrestres no norte de África, nos países do antigo Pacto de Varsóvia, na França e na Alemanha. O norte de África e a Europa Oriental, em particular, ainda possuem um grande número de campos minados do tempo da Segunda Guerra Mundial, perdidos entre as areias do deserto ou esquecidos pelas autoridades. Na Líbia, por exemplo, a Cruz Vermelha estimou que na década de 1990 mais de das terras cultiváveis permanecia inutilizável devido a campos de minas do tempo da Segunda Guerra Mundial. As minas antipessoais, como a mina-S, foram objeto de numerosos tratados e objeções por parte de organizações de defesa dos direitos humanos, por serem consideradas inumanas. O uso, armazenamento, produção e transferência deste tipo de minas, tal como a maioria das minas terrestres, é proibido pelo Tratado de Ottawa, ratificado por 164 países, porém não por Estados Unidos, Rússia e China.
Características thumb|upright=1.25|Corte esquemático de uma S.Mi.35. Foram produzidas duas versões, designadas pelo ano de início da sua produção: S.Mi.35 e S.Mi.44.U.S. War Department, Technical Manual TM-E 30-451: Handbook on German Military Forces (Ch. VIII, Sec. V.5.a-b) Existem apenas pequenas diferenças entre os dois modelos, possivelmente introduzidas devido ao custo elevado e dificuldade de fabrico do modelo original. A S.Mi.35 consistia num cilindro de aço com de diâmetro e de altura, com um tubo de aço montado no topo contendo o rastilho principal e a fixação para o sensor ou dispositivo de ignição. Tinha uma altura total de com o dispositivo de ignição montado e pesava aproximadamente , variando um pouco dependendo do tipo de TNT com que era carregada. A S.Mi.44 era distinguível pelo seu menor diâmetro (), por o dispositivo de ignição estar descentrado do corpo da mina e por possuir apenas um detonador ao invés de três. As minas-S eram normalmente pintadas de verde-azeitona ou cor de areia.
A carga principal da mina usava TNT como explosivo, enquanto que a carga propulsora usava pólvora negra. Todos os dispositivos de ignição da mina eram desenhados para criar uma faísca que incendiava um rastilho inflamável no seu interior. O sensor de pressão padrão usava um percutor com essa finalidade.U.S. War Department, Field Manual FM 5-31: Land Mines and Booby Traps O rastilho principal era desenhado para atrasar a detonação da carga propulsora que lançava a mina no ar durante cerca de quatro segundos e, no caso da S.Mi.35, ativava os três rastilhos de curta duração colocados entre a carga propulsora e os três detonadores, que atrasavam a detonação o tempo suficiente para a mina atingir a altura apropriada antes de explodir (–, dependendo das condições do solo). A S.Mi.44, por seu lado, possuia um arame de aço fixo ao corpo da mina e ligado a uma cavilha pré-armada; quando a carga propulsora lançava a mina no ar o fio puxava a cavilha, ativando o detonador. A carga explosiva estava rodeada por 365 esferas de aço, varetas de aço ou pedaços de metal, que eram projetados horizontalmente em todas as direções.
A mina-S estava equipada com um detetor de pressão padrão com três hastes, mas podia ser modificada para ser usada com fio usando um adaptador especial fornecido pelo Exército Alemão. O tubo de aço contendo o rastilho principal estava preparado para aceitar qualquer dispositivo de ignição padrão alemão, o que permitia que o sensor fosse removido e que a mina pudesse ser deliberadamente ativada manualmente. O sensor de pressão padrão apenas era ativado se pressionado por um peso igual ou superior a aproximadamente , para garantir que a mina não era acidentalmente detonada por animais ou impactos naturais. O adaptador para uso com fio era um aparelho raso em forma de Y, que ativava a mina se o fio fosse puxado.
Na figura ao lado é apresentado um esquema da S.Mi.35: Hastes metálicas para detectar pressão ou movimento; Cavilha de segurança (quando removida ativa a mina); Mola exterior; Mola do percutor; Percutor; Espoleta; Tampão da cavidade dos detonadores; Esfera de aço; Cavidades dos detonadores; Detonador; Rastilho de (atrasa a detonação da carga explosiva até a mina atingir a altura apropriada); Rastilho de (atrasa a detonação da carga propulsora que lança a mina no ar); Carga propulsora; Tampão de enchimento (para encher a mina com a carga explosiva); Selante hidrófobo; Carga explosiva.
Utilização thumb|upright=1.25|Diagrama da detonação de uma mina-S. As minas-S eram transportadas em caixas de madeira ou aço. Algumas continham nove unidades, com os detonadores e as espoletas desmontadas de modo a tornar o seu transporte mais seguro, enquanto outras continham apenas três, geralmente prontas para serem plantadas mas com a cavilha de segurança ainda colocada, de modo a poderem ser rapidamente usadas. A mina-S não podia ser lançada a partir de veículos ou plantada com um lança-minas com arado, mas apenas enterrada à mão.AA. VV., Enciclopedia-atlante delle armi dal 5.000 a.C. ai nostri giorni, pp. 230-1