Carlos IV (Portici, – Roma, ) foi o Rei da Espanha de 1788 até sua abdicação em 1808. Era filho do rei Carlos III e de Maria Amália da Saxônia.
Subiu ao trono com grande experiência em assuntos de Estado, mas viu-se superado pela repercussão dos acontecimentos ocorridos em França em 1789 e pela sua falta de energia pessoal, que fizeram com que o governo caísse nas mãos da sua esposa, a princesa Maria Luísa de Parma, e do valido, Manuel de Godoy, que se dizia ser amante da rainha, embora actualmente essas afirmações tenham sido desmentidas por vários historiadores.La Parra López, E. (2002): Manuel Godoy: la aventura del poder; Rúspoli, E. (2004): Godoy: La lealtad de un gobernante ilustrado. Estes acontecimentos acabaram com as expectativas com as quais deu início ao seu reinado. Quando o rei Carlos III faleceu, a queda da economia e a desorganização da administração revelaram os limites do reformismo, ao ponto de colocar a Revolução Francesa como uma alternativa ao Antigo Regime.
Primeiros anos esquerda|miniaturadaimagem|283x283px|Carlos caracterizado como o herói grego Hércules. Obra de Giuseppe Bonito, 1750. Nascido no Palácio Real de Portici, em Nápoles, em 11 de novembro de 1748, foi o sétimo filho dos então reis de Nápoles, Carlos VII (futuro Carlos III de Espanha) e Maria Amália da Saxônia. Carlos não nasceu como príncipe herdeiro, posição inicialmente ocupada por seu irmão mais velho, Filipe. Entretanto, devido à deficiência congênita deste, que o tornou inapto para reinar, foi reconhecido como Príncipe das Astúrias e herdeiro ao trono espanhol. O casal teve ainda mais seis filhos sobreviventes: duas filhas, Maria Josefa e Maria Luísa, e quatro varões, Fernando (futuro Fernando I das Duas Sicílias), Gabriel, Antônio Pascoal e Francisco Xavier.
Com a morte de Fernando VI de Espanha, sem descendência, em agosto de 1759, seu irmão Carlos III foi proclamado rei da Espanha. Em consequência, abdicou da Coroa de Nápoles em favor de seu filho Fernando, sob a regência de Bernardo Tanucci, e partiu para a Espanha com quase toda a família real, à exceção de Filipe, que permaneceu em Nápoles em razão de sua deficiência congênita. Recebido com entusiasmo em Barcelona e Saragoça, fez sua entrada solene em Madrid em 9 de dezembro de 1759. Pouco depois, as Cortes, reunidas na Igreja de São Jerónimo o Real, juraram fidelidade ao infante Carlos como Príncipe das Astúrias, dissipando as dúvidas sobre seus direitos sucessórios decorrentes de seu nascimento em Nápoles, em aparente desacordo com a lei semisálica promulgada por Filipe V de Espanha em 1713.
Casamento miniaturadaimagem|308x308px|Carlos, enquanto Príncipe das Astúrias. Obra de Anton Raphael Mengs, 1765. Pouco após o início de seu reinado na Espanha, Carlos III, viúvo e decidido a não se casar novamente, tratou de providenciar o matrimônio de seu herdeiro. Em 1762, foi acertado o casamento de Carlos com sua prima-irmã Maria Luísa de Parma, filha dos duques de Parma. A cerimônia foi realizada em setembro de 1765, no Palácio Real de La Granja de San Ildefonso.
Como esposa do herdeiro da Coroa espanhola, Maria Luísa adotou um comportamento considerado escandaloso para os rígidos padrões da austera corte espanhola. Embora não fosse considerada uma beldade, não demorou para que rumores acerca da infidelidade da princesa começassem a circular na corte, e diversos amantes lhe fossem atribuídos, a ponto de seu sogro, Carlos III, repreender o filho sobre o comportamento da esposa, dizendo: "Mas, meu filho, que imbecil você é... Princesas também podem ser putas". Entretanto, o casal manteve uma união estável e teve catorze filhos, dos quais sobreviveram Carlota Joaquina, Maria Amália, Maria Luísa, Fernando (futuro Fernando VII de Espanha), Carlos, Maria Isabel e Francisco de Paula, embora se alegasse que nenhum deles fosse filho legítimo de Carlos.
Já na década de 1770, a corte dos príncipes das Astúrias tornou-se um centro de intrigas políticas. O Conde de Aranda, que havia acabado de deixar a embaixada em Versalhes, buscou apoio junto ao casal principesco devido à sua rivalidade com o principal ministro de Carlos III, o Conde de Floridablanca. Nesse círculo de convivência dos príncipes, destacou-se rapidamente o jovem oficial Manuel Godoy, que logo se tornou homem de confiança do casal. Eles acreditavam ter encontrado nele um conselheiro inteligente, leal e independente das duas facções políticas, os arandistas e os golillas, que disputavam a influência e o poder na corte.Berrueta, Julen (2019). María Luisa de Parma, la Reina que pudo acabar con los Borbones . El Español. Consultado em 24 de julho de 2026
Reinado esquerda|miniaturadaimagem|336x336px|Carlos IV em trajes da Ordem de Carlos III. Obra de Mariano Salvador Maella, 1792. O reinado de Carlos IV de Espanha foi marcado pelo impacto que a Revolução Francesa de Julho de 1789 teve em Espanha, assim como o seu desenvolvimento posterior, principalmente depois de 1799, quando Napoleão Bonaparte assumiu o poder.
A resposta inicial da corte de Madrid foi o chamado "pânico de Floridablanca" e o confronto com o novo poder revolucionário, após a destituição, prisão e execução do rei Luís XVI, chefe da Casa de Bourbon, que também reinava em Espanha, o que levou à Guerra da Convenção (1793-1795) que foi desastrosa para as forças espanholas. Em 1796, Carlos IV e o seu poderoso "primeiro-ministro" Manuel de Godoy mudaram completamente de política em relação à República Francesa e aliaram-se a ela, o que provocou a primeira guerra com a Grã-Bretanha (1796-1802), que acabaria por provocar a Guerra da Segunda Coligação e que marcou outra reviravolta difícil na Monarquia de Carlos IV, além de provocar uma dura crise na Tesouraria Real que se tentou resolver com a chamada "desamortização de Godoy" - o "favorito" foi afastado do poder durante dois anos (1798-1800). Após a efémera Paz de Amiens em 1802, rebentou a segunda guerra com a Grã-Bretanha, no seguimento da Guerra da Terceira Coligação, na qual a frota franco-espanhola foi derrotada pela frota britânica comandada pelo almirante Nelson, na Batalha de Trafalgar (1805). Este acontecimento foi a crise fatal para o reinado de Carlos IV que culminou com a conspiração do El Escorial, de novembro de 1807 e com o motim de Aranjuez de Março de 1808, no qual o rei perdeu o poder e se viu forçada a abdicar do trono a favor do seu filho Fernando. No entanto, dois meses depois, pai e filho estariam a assinar as abdicações de Bayona, nas quais entregaram os seus direitos de sucessão a Napoleão Bonaparte que, por sua vez, os entregou ao seu irmão José Bonaparte.
Muitos espanhóis "patriotas" não reconheceram as abdicações e continuaram a considerar Fernando VII como rei, iniciando, em seu nome, a Guerra da Independência Espanhola. No entanto, outros espanhóis, chamados desdenhosamente de "afrancesados", apoiaram uma Espanha napoleónica e o novo rei, José I Bonaparte, pelo que se considera que esta tenha sido a primeira guerra civil da História contemporânea de Espanha.
Revolução Francesa Pânico de Floridablanca miniaturadaimagem|293x293px|O Conde de Floridablanca. Obra de Pompeo Batoni, c. 1776. Uma vez que temia o contágio da Revolução Francesa em Espanha, José Moñino, Conde de Floridablanca, enquanto primeiro secretário de Estado, tomou medidas para o impedir, uma vez que, naquela altura, a monarquia carecia de um dispositivo de segurança e ordem pública que pudesse fazer frente a possíveis golpes revolucionários. Assim, Floridablanca tomou imediatamente uma ´série de medidas para evitar o "contágio", impedindo que se soubesse o que estava a acontecer em França e travando a propagação das "ideias perigosas" dos revolucionários franceses. Assim, por exemplo, ordenou, segundo as suas próprias palavras que "se formasse um cordão de tropas em toda a fronteira, de mar a mar, como se faz com a peste para que não nos comuniquem o contágio".Giménez López, Enrique (1996). pp. 18–26 Por isso, encerrou precipitadamente as Cortes de Madrid de 1789 que, desde 19 de Setembro, se encontravam reunidas para prestar juramento ao herdeiro do trono, devido aos últimos acontecimentos de França, uma vez que, a 6 de Outubro, tinha ocorrido o assalto ao Palácio de Versalhes que tinha forçado os "patriotas" de Paris e o rei Luís XVI a mudarem-se para Paris, para a Assembleia Nacional Constituinte, que desde 14 de Julho, após a tomada da Bastilha, se tinha tornado no novo poder soberano de França.Giménez López, Enrique (1996). pp. 16–18
Floridablanca decidiu também suspender todos os jornais, à excepção dos oficiais (Gazeta de Madrid, Mercurio, Diario de Madrid), nos quais tinha sido proibido mencionar os acontecimentos franceses. Foi reforçado o controlo ideológico da Inquisição, que voltou à sua função inicial de ser um órgão repressivo ao serviço da monarquia, em 1791 foi criada a chamada Comissão Reservada para perseguir aqueles que defendiam "ideias revolucionárias". Os membros da Comissão tinham como função introduzir-se em tertúlias de indivíduos influentes e informar os seus superiores em relação aos temas de conversa e às pessoas que neles participavam. Foi criada a censura a estrangeiros para controlar os seus movimentos, principalmente os franceses, e apenas se permitia a entrada em Espanha de pessoas que jurassem fidelidade à religião católica e ao rei e todos os corregedores foram forçados a retirar qualquer campanha considerada subversiva, entre outras medidas.Giménez López, Enrique (1996). pp. 18–26.
Os acontecimentos em França também tiveram o seu impacto no Império das Índias, uma vez que Espanha deixou de poder contar com o auxílio da monarquia francesa, vinculada à espanhola pelos pactos de família, assim chamados por ser a Casa de Bourbon a reinante em ambos os países, como tinha acontecido durante a disputa com a Grã-Bretanha pelo território de Nutka. O conflito ocorreu em 1789, quando alguns exploradores e militares espanhóis que se dirigiam para norte a partir da Califórnia, que na altura fazia parte do Vice-Reino da Nova Espanha, chegaram à ilha de Nutka, que pertencia à colónia britânica do Canadá e encontraram-se aí com militares e exploradores britânicos que vinham de este. No final, a monarquia espanhola teve de renunciar aqueles territórios nas Convenções de Nutka, assinadas nos anos seguintes.Capel Martínez, Rosa Mª; Cepeda Gómez, José (2006). p. 297. Também afectaram a política mediterrânica, uma vez que, quando as praças do norte de África de Orã e Mazalquivir foram atacadas por piratas berberes, o governo de Madrid optou por abandoná-las, apesar do esforço dos que tinham resistido aos ataques, por desejar concentrar-se por completo no que estava a acontecer em França.Capel Martínez, Rosa Mª; Cepeda Gómez, José (2006). p. 298.
Os acontecimentos em França obrigaram finalmente a monarquia espanhola a deixar os "pactos de família" em suspenso com a monarquia francesa. A detenção de Luís XVI em Varennes, após a sua tentativa de fuga de Paris em Junho de 1791, levaram Floridablanca a intervir em defesa do rei francês e a enviar uma nota diplomática à Assembleia Nacional francesa, na qual pedia aos franceses que respeitassem "a dignidade eminente da sua pessoa sagrada [Luís XVI], a sua liberdade, a sua imunidade e da sua família real". A nota foi considerada uma interferência inadmissível nos assuntos internos de França e piorou as relações entre os dois países. Um deputado da Assembleia afirmou que "as potências europeias devem saber que morreremos, se tal for necessário, mas não permitiremos que intervenham nos nossos assuntos". Pouco depois, Floridablanca recusou-se a aceitar a Constituição Francesa de 1791, "por ser contrária à Soberania", nem a reconhecer o juramento que Luís XVI fez à mesma a 14 de Setembro de 1791.Giménez López, Enrique (1996). pp. 26–30.