Hispânia (em latim Hispania) foi o nome dado a toda a Península Ibérica (atuais Portugal, Espanha, Andorra, Gibraltar e uma pequena parte a sul da França) durante a Roma Antiga. A conquista romana da Península foi iniciada em em Ampúrias e concluída quase 200 anos depois, com as guerras Cantábricas.

Ao longo de cerca de 700 anos a Hispânia fez parte do Império Romano, proporcionando um enorme caudal de recursos materiais e humanos, ao mesmo tempo que foi uma das regiões mais estáveis do império. Tanto os povos como a organização política do território sofreram profundas mudanças. Inicialmente a Hispânia foi dividida em duas províncias: Hispânia Citerior e Hispânia Ulterior. Durante o Principado, a Hispânia Ulterior foi subdividida em duas novas províncias: a Bética e a Lusitânia, enquanto a Hispânia Citerior foi rebatizada para Tarraconense. Mais tarde, a parte ocidental da Tarraconense foi desanexada, inicialmente como Hispânia Nova, depois rebatizada como Galécia (correspondente à atual Galiza, Norte de Portugal, Astúrias e parte de Leão). Durante a tetrarquia de Diocleciano (284), o sul da Tarraconense foi desanexado para constituir a província cartaginense. O conjunto de todas as províncias hispânicas formavam uma única diocese civil, a Diocese da Hispânia, sob a direcção do vigário de Hispaniae, cujas competências se estendiam também à Mauretânia Tingitana (ao redor de Tânger) que, portanto, eram oficialmente consideradas "hispânicas".

A administração romana manteve-se até 409, quando o império Romano em colapso foi confrontado com as invasões bárbaras da Península Ibérica. O território foi então cedido a alguns destes povos como federados, Suevos e os Visigodos, que mantiveram o nome Hispania.

Etimologia Imagem:Hispânia etimologia.oggO nome "Hispânia" é latino, cunhado pelos romanos (Hispaniae), embora o território já fosse conhecido pelos Gregos como Ibéria. Consequentemente, a historiografia tem algum cuidado na utilização dos termos iber ou hispanus, já que a utilização de cada um, em referência aos povos ibéricos, transporta consigo diferenças temporais e sociais. A literatura romana emprega sempre o nome "Hispânia", citado pela primeira vez pelo poeta Quinto Ênio, em , enquanto que a literatura grega emprega sempre o nome "Ibéria".

Sabe-se que os fenícios e os cartagineses se referiam à Península Ibérica pelo nome de Span ou Spania tendo como significado "oculto" (país escondido e remoto). Existe outra versão de que a origem do nome estará na terminação fenícia I-shphanim, que literalmente significa "de dassies" (shphanim é a forma plural de shaphán, utilizada para designar a família Hírax) que foi o vocábulo com que decidiram os Fenícios, à falta de nome melhor, denominar o coelho Oryctolagus cuniculus, por eles pouco conhecidos e que abundava no extremo da Península. Outra versão desta teoria aponta para a derivação de Hi-shphanim, ou "ilha de coelhos". Por outro lado, os híraxes não eram os únicos animais a despertar a atenção pela sua abundância: os Gregos chamaram à Península Ophioússa, que significa "terra de serpentes", e só mais tarde alteraram o nome para "Ibéria" porque, segundo parece, iber era uma palavra muito utilizada pelos habitantes da Península, que é um vocábulo geográfico, embora não se possa associar concretamente ao rio Ebro pois também era usado em regiões mais distantes, como a atual Andaluzia. Alguns linguistas colocam a hipótese de significar simplesmente "rio", embora na realidade não se possa ter a certeza.

Grande parte do conflito das Guerras Púnicas entre Cartago (Fenícios, portanto) e Roma teve lugar na Península Ibérica, com o triunfo dos Romanos. Durante a subsequente invasão, os Romanos mantiveram o nome usado pelos Cartagineses, Ispânia, ao qual, mais tarde, adicionaram um H, tal como fizeram com "Hibéria". Da mesma forma como fizeram com a Gália (as Gálias), também se referiam à Península por "Hispânias" (Hispaniae). Esta foi a primeira província romana a ser invadida e a última a ser totalmente dominada, já sob Augusto.

Ocasionalmente era chamada de Hespéria, "a terra do oeste", pelos autores romanos, ou Hesperia ultima. Outra teoria deriva o nome de uma palavra basca, Ezpanna, que significa "fronteira" ou "ponta".Anthon, Charles. A System of Ancient and Mediæval Geography for the Use of Schools and Colleges, pg.14

Os Romanos inicialmente dividiram as Hispânias em duas províncias (), regidas por dois pretores: a Citerior, a norte do Ebro, e a Ulterior, a sul. As longas guerras da conquista duraram dois séculos, e incluem-se historiograficamente no processo designado como romanização. Com a conquista, cortou-se a evolução natural da civilização indígena, substituindo-a pela heleno-latina. Durante este processo, verificaram-se vários conflitos: As guerras de independência, em que os iberos e outros povos foram gradualmente vencidos e dominados, apesar das resistências levadas a cabo em Numância e por Viriato, entre outros; A guerra dirigida por Sertório, pretor da Hispânia Citerior, de onde desafiou o poder de Roma, com algum êxito; A guerra civil entre Júlio César e Pompeu, que se desenrolou em grande parte no território ibérico; As campanhas de César e Augusto para submeter os galaicos, os ástures e os cântabros.

E, finalmente, no , consegue-se a Pax Augusta: a Hispânia é dividida em três províncias. É neste período que surgem dois escritores cuja obra é uma referência actual para os historiadores: o geógrafo Estrabão, e o historiador universal Trogo Pompeu. Ambos dedicam alguns capítulos nas suas obras à Hispânia:

Estrabão refere a Iberia no seu terceiro livro de Geografia: "Alguns dizem que as designações de Iberia e Hispânia são sinónimas, que os romanos designaram a região inteira [a Península], indiferentemente, com os nomes Iberia e Hispânia, e às suas partes chamaram Ulterior e Citerior".

Trogo construiu a imagem dos seus habitantes: "Os hispanos [de Hispânia] têm o corpo preparado para a abstinência e fadiga, e ânimo para a morte: uma dura e austera sobriedade para todos."dura omnibus et adstricta parsimonia" [...] Em tantos séculos de guerra com Roma, não tiveram nenhum outro capitão a não ser Viriato, um homem de tal virtude e continência que, depois de vencer os exércitos consulares durante 10 anos, nunca quis distinguir-se no seu modo de vida de qualquer soldado raso".

Outro historiador romano, Tito Lívio, escreve também sobre o carácter do homem hispânico, segundo a sua perspectiva: "Ágil, belicoso, inquieto. A Hispânia é distinta da Itália, mais disposta para a guerra por causa do agreste terreno e do génio dos homens".

Lúcio Aneu Floro (entre os séculos I e II), um historiador amigo do imperador Adriano, também teceu algumas considerações: "A nação hispânica, ou a Hispânia Universa, não soube unir-se contra Roma. Defendida pelos Pirenéus e pelo mar, podia ter-se tornado inacessível. O seu povo foi sempre valoroso, mas muito mal hierarquizado" (i.e., apesar de cada tribo ou povoação dispor de um líder, não existia nenhuma forma de coordenação).

Valério Máximo referiu-se à fidelidade hispânica como "fides celtibérica". Segundo esta fides, o ibero consagrava a alma ao seu líder e não considerava correto sobreviver-lhe em combate. Esta era a fidelidade ibérica, que se tornou conhecida durante a formação do Império Romano como devotio (já na Idade Média, esta fidelidade dos Celtiberos foi tida em conta, à qual designaram de Lealdade Hispânica).

Mais tarde, no , surge outro escritor, um retórico gálico chamado Drepânio Pacato, que dedica parte da sua obra a descrever a geografia, clima, habitantes, soldados e afins da Península Ibérica, mostrando em todo o texto grande admiração: "Esta Hispânia produz duríssimos soldados, hábeis capitães, prolíficos oradores, iluminados artistas. É mãe de juízes e príncipes; Deu Trajano, Adriano e Teodósio ao Império".

Ainda durante este período, surge uma obra designada Expositio totius mundi em que se descreve a Hispânia como "Hispânia, uma longa e vasta terra, de abundantes homens sábios"."Spania, terra lata et máxima, et dives viris doctis" Por esta altura, o nome Hispânia era alternado com a nova forma Espânia.

Paulo Orósio (390-418), um historiador discípulo de Santo Agostinho e autor de Historiae adversus paganus, a primeira obra cristã sobre História Universal, comenta, ao referir-se a uma qualquer atitude reprovável de um pretor: "Para Orósio, Hispânia é uma terra com vida coletiva e com valores próprios"."Universae Hispaniae propter Romanorum perditiam causa maximi tumultus fuit"

Com o tempo, começou-se a utilizar uma forma secundária, Espânia, e daí se derivaria o nome atual, Espanha. Segundo São Isidoro, com a dominação visigótica passou-se a esboçar a ideia da unidade peninsular e, pela primeira vez, refere-se na madre España (mãe Espanha) — até à data, teria sido uso o termo Hispânia para designar todos os territórios da Península. Na sua obra Historia Gothorum, surge Suíntila como o primeiro rei de "totius Spaniae"; o prólogo desta obra é o conhecido De laude Spaniae (sobre o orgulho hispânico) e aí se trata a Hispânia como nação goda. O topónimo Hispânia passou a ser usado para designar o coletivo dos reinos medievais na Península, com a posterior inclusão das Ilhas Baleares.

Com a invasão muçulmana, a utilização do nome Espânia - ou Espanha (اسبانيا, Isbá-nía ) - foi totalmente desvirtuada. Os documentos da Alta Idade Média designam para Espanha todo o território exclusivamente dominado pelos muçulmanos. E é desta forma que Afonso I de Aragão, o Batalhador (1104-1134), que "reina em Pamplona, Aragão, Sobrarbe e Ribagorça", como se refere nos seus documentos, e que, em 1126 procede a uma expedição a Málaga dizendo que ia a "terras de Espanha". No entanto os andaluzes chamavam os reinos cristãos de al-Jalaliqa (Galiza).Grunebaum. Modern Islam: The search for cultural identity, pg. 250.Rivlin, Benjamin; Szyliowicz,Joseph. The Contemporary Middle East: Tradition and Innovation. Pg 142.

Não obstante, a partir de finais do , passou-se a designar, toda a Península, incluindo quer as regiões muçulmanas, quer as regiões cristãs, com o nome Espanha. É assim que surge a expressão dos cinco reinos de Espanha: Granada (muçulmana), Leão e Castela, Navarra, Portugal e o Reino de Aragão, e o condado de Barcelona (cristãos).

História anterior thumb|300px|Mapa etnolinguístico da Península Ibérica, c.

Nativos ibéricos

Além dos povos autóctones, já entre os séculos os Fenícios (e, posteriormente, os cartagineses) se haviam fixado na zona oriental, a sul do rio Ebro. Instalaram-se na faixa costeira mediterrânica, estabelecendo grandes entrepostos comerciais que, além de lhes servir para canalizar para o comércio regional os minerais e outros recursos abundantes na Península, introduziram também na região alguns dos produtos elaborados no outro extremo mediterrânico.

Como potência comercial, Cartago ampliava os seus interesses até à ilha da Sicília e ao sul da península Itálica, o que depressa resultou num conflito de interesses entre esta e o incipiente poder que surgia em Roma, confrontando as duas potências nas célebres Guerras Púnicas. À primeira, que culminou senão num instável armistício, depressa se seguiu a segunda, que terminaria doze anos depois com o domínio efetivo de Roma sobre as regiões cartaginesas no sudeste da Península.

A Ibéria cartaginesa

thumb|300px|esquerda|Cartago e a área de influência cartaginesa antes da Primeira Guerra Púnica ()