miniaturadaimagem|''Fiddler and a Gypsy Woman (Consolation)'', de Louis Gallait. Musicoterapia é uma prática clínica centrada na música, aplicada em contexto de tratamento, reabilitação ou prevenção de saúde. É uma terapia que decorre ao longo do tempo, na relação entre um musicoterapeuta e uma pessoa ou um grupo. A musicoterapia tem etapas de avaliação e de acompanhamento que seguem protocolos com base em evidências científicas.
A musicoterapia trabalha o desenvolvimento de capacidades e de funções inerentes à musicalidade, em qualquer etapa do ciclo de vida, atendendo a necessidades físicas, emocionais, mentais, comunicativas e sociais. As sessões de musicoterapia podem envolver exercícios como escutar músicas, vocalizar ou cantar, tocar um instrumento, improvisar, escrever ou compor músicas. Para receber acompanhamento em musicoterapia não é necessária formação ou treino musical.Bruscia, Defining Music Therapy, 2014 Barcelona Publishers, p.40
A atividade em musicoterapia é regulamentada no âmbito das profissões da saúde, no Brasil, na Argentina, nos EUA e em vários estados da Europa. A investigação, a prática clínica, educação e formação clínica em musicoterapia estão definidas por standards de entidades profissionais: Federação Mundial de Musicoterapia; Associação Americana de Musicoterapia; União Brasileira das Associações de Musicoterapia; Confederação Europeia de Musicoterapia.
Contextos de Intervenção Saúde Mental A musicoterapia de nível primário abrange processos de desenvolvimento pessoal, promoção de bem-estar e intervenção em dificuldades emocionais ligeiras a moderadas. Neste contexto, está orientada para o autoconhecimento e para o desenvolvimento da identidade sonoro-musical, da criatividade e da expressão pessoal. Pode incluir processos de mudança e transição de vida, desenvolvimento da consciência emocional, bem como situações de ansiedade e stress, gravidez e parentalidade, dificuldades relacionais, bloqueios criativos, perfecionismo e autocobrança, e sofrimento emocional não necessariamente associado a diagnóstico clínico.
A musicoterapia utiliza a experiência musical, entendida como o conjunto de processos de perceção, organização e produção de som e música. A imagética musical refere-se aos processos internos de representação, evocação e organização simbólica desencadeados pela experiência musical, frequentemente associados a respostas emocionais e cognitivas à música.
A escuta musical em musicoterapia permite o acesso a processos de memória e significado, favorecendo a tomada de consciência da experiência subjetiva e a emergência de estados de integração emocional.
A voz em musicoterapia funciona como uma extensão do corpo, constituindo um meio direto de expressão sonora da experiência emocional e relacional. Pode facilitar a expressão de afetos e a construção de formas de presença e de relação através do som e da música.
A prática de instrumento em musicoterapia consiste num processo de exploração progressiva de instrumentos musicais e objetos sonoros como meio de expressão e organização da experiência interna e da interação musical. Permite a experimentação da ação sonora, facilitando a expressão emocional, a consciência de estados internos e o desenvolvimento dos padrões de relação consigo e com o outro.
Psiquiatria A musicoterapia em psiquiatria decorre em unidades especializadas de psiquiatria, com enquadramento no modelo biopsicossocial. O musicoterapeuta integra equipas clínicas multidisciplinares, em que a musicoterapia funciona como intervenção complementar no tratamento de perturbações mentais. Dirige-se a pessoas com diagnóstico formal e necessidade de acompanhamento especializado. A prática é orientada para a compreensão e gestão de quadros psicopatológicos, incluindo perturbações psicóticas, perturbações depressivas e bipolares, perturbações da personalidade.
Neste contexto, pode haver um maior foco na redução de sintomas, na estabilização clínica, na adesão ao tratamento e na prevenção de recaídas. A musicoterapia contribui para a organização da experiência subjetiva associada ao tratamento farmacológico e ao processo terapêutico global. Em alguns contextos clínicos emergentes, a musicoterapia é integrada na terapia psicofarmacológica assistida, com foco na estruturação e integração da experiência terapêutica.
Na reabilitação psiquiátrica, a musicoterapia é integrada em programas de reabilitação psicossocial, realizada por uma equipa multidisciplinar orientada para a recuperação funcional, social e emocional da pessoa com doença mental. A musicoterapia na reabilitação psiquiátrica foca-se no desenvolvimento da interação social, da comunicação, da autonomia e da participação comunitária.
Neurologia A musicoterapia em neurologia e em neuroreabilitação centra-se na recuperação, compensação e manutenção de funções neurológicas afetadas por perturbação neurológica funcional, por doença ou por lesão do sistema nervoso. O musicoterapeuta integra programas multidisciplinares de reabilitação, através de uma ativação cerebral ampla e sinérgica direcionada para facilitar processos de neuroplasticidade e recuperação funcional. Cada elemento da música (ritmo, melodia, harmonia) ativa áreas diferentes do cérebro, o que possibilita uma metodologia direcionada à estimulação motora, cognitiva e da linguagem, integrada no suporte emocional associado à adaptação à condição neurológica, à motivação e envolvimento ativo no tratamento.
Nas perturbações neurológicas funcionais (NFD) a musicoterapia centra-se na reorganização funcional do movimento, da atenção e da percepção corporal, aplicando a experiência musical para promover a integração entre processos emocionais, motores e cognitivos, favorecendo a recuperação funcional e a participação nas atividades quotidianas.
Nas doenças neurodegenerativas, a musicoterapia atua principalmente na manutenção das funções cognitivas e motoras, além de promover o bem-estar emocional. No Alzheimer e na generalidade das demências, o uso da melodia e de músicas autobiográficas ativa o hipocampo (envolvido na memória episódica), o córtex pré-frontal (funções executivas e tomada de decisão) e o sistema límbico, promovendo acesso a memórias remotas e reduzindo a ansiedade. Na Doença de Parkinson, o ritmo é central. Estímulos rítmicos ativam o gânglio da base, responsável pelo controle motor, além do cerebelo e do córtex motor suplementar. Técnicas como Rhythmic Auditory Stimulation (RAS) auxiliam na melhora da marcha e da coordenação motora.
Com pessoas que sofrem de doença neurovascular, como Acidente Vascular Cerebral, Aneurisma Cerebral ou Trombose Venosa Cerebral, a musicoterapia é orientada para reabilitar funções comprometidas, como a fala, a cognição e os movimentos. O de entoação melódica (MIT) utiliza a melodia e a entoação para estimular o hemisfério direito, que pode compensar funções de linguagem do hemisfério esquerdo danificado. A prática com instrumentos rítmicos ativa o córtex motor, o cerebelo e as vias auditivo-motoras, promovendo a reorganização neural (neuroplasticidade) para recuperar movimentos finos e grossos.
A musicoterapia em casos de Lesões Cerebrais Traumáticas (LCT), consequentes de Traumatismos Crânio Encefálicos (TCE), atua tanto na estimulação sensorial quanto na reorganização de funções cognitivas e emocionais. A harmonia e a improvisação musical ativam o córtex pré-frontal, promovendo planejamento, atenção e tomada de decisões. A percepção musical (principalmente a escuta ativa) estimula o córtex auditivo, córtex temporal, além de áreas responsáveis pela integração sensorial e emocional, como a amígdala e o córtex cingulado. A música também facilita a regulação emocional, envolvendo o sistema límbico e a conexão com o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, ajudando na redução de stresse e ansiedade.
Desenvolvimento
Bebês prematuros Bebês prematuros são aqueles cujo período gestacional foi de 37 semanas ou menos. Eles estão sujeitos ao risco de numerosos problemas de saúde, como padrões anormais de respiração, baixo índice de gordura e de tecido muscular corporal, além de problemas de alimentação. A coordenação para sugar e respirar não é plenamente desenvolvida, tornando a alimentação um desafio. A melhora dos bebês prematuros quando eles saem da unidade intensiva de cuidado neonatal está diretamente relacionada com os estímulos que eles receberam, como por exemplo a musicoterapia. A musicoterapia nas unidades intensivas de cuidado neonatal utiliza basicamente cinco técnicasːMeadows, Anthony (2011). Developments in Music Therapy Practices: Case Study Perspectives. New Hampshire: Barcelona Publisher. música gravada ou ao vivoː é efetiva em promover a regularidade respiratória e os níveis de saturação de oxigênio, além de diminuir os sinais de angústia neonatal. Como os bebês prematuros têm sentidos ainda imaturos, a música é sempre tocada em um ambiente calmo e controlado, tanto com base em som gravado quanto com base em vocalizações ao vivo (embora esta última modalidade tenha mostrado ser mais efetiva). A música ao vivo também reduz as respostas fisiológicas dos pais. Estudos mostraram que a combinação de música ao vivo, como a de harpa, com o método mãe canguru reduziu os níveis de ansiedade materna. Isso permite aos pais, especialmente as mães, ter mais tempo para se entrosar com os bebês prematuros. O canto de vozes femininas é mais efetivo em acalmar os bebês prematuros do que a música instrumental.Schelz, Ayelet; Litmanovitz, Ita; Bauer, Sophia; Dolfin, Tzipora; Regev, Rivka; Arnon, Shmuel (June 2011). "Combining Kangaroo Care and Live Harp Music Therapy in the Neonatal Intensive Care Unit Setting". Israel Medical Association Journal. 13 (6): 354–357. promoção do saudável reflexo de sucçãoː usando uma chupeta equipada com um circuito integrado que ativa um leitor de CD fora da incubadora neonatal, os musicoterapeutas podem promover um reflexo de sucção mais poderoso, ao mesmo tempo em que aliviam a percepção de dor do bebê. O Gato Box é um pequeno instrumento retangular que estimula o som de batida de coração pré-natal de uma maneira suave e rítmica, e que também é efetivo em auxiliar o comportamento de sucção.The music instinct. Disponível em https://www.pbs.org/wnet/musicinstinct/video/music-and-medicine/music-therapy-for-infants/76/. Acesso em 7 de outubro de 2017. O musicoterapeuta usa seus dedos para bater no tambor, ao invés de usar o martelo. O ritmo estimula o movimento do bebê ao se alimentar, bem como saudáveis padrões de sucção. Isso ajuda o bebê a desenvolver a saudável coordenação entre as ações de sugar e respirar, auxiliando no seu ganho de peso. Quando essa técnica é efetiva, os bebês podem sair mais cedo do hospital.