miniaturadaimagem|A Trindade é a crença de que Deus é um Deus em três pessoas: o Pai, o Filho (Jesus) e o Espírito Santo. Na imagem, o Escudo da Trindade. Trindade (do trinitas "tríade", de trinus "tripla") é uma doutrina cristã desenvolvida entre o final do século I até o século IV d.C. com os Concílios de Niceia (325 d.C) e Constantinopla (381 d.C), que define Deus como três pessoas consubstanciaisThe Family Bible Encyclopedia, 1972. p. 3790. ou hipóstases:Ver discussão em o Pai (YHWH), o Filho (Jesus Cristo) e o Espírito Santo; "um Deus em três pessoas". As três pessoas são distintas, mas são uma "substância, essência ou natureza".Definição do Quarto Concílio de Latrão citada no Catechism of the Catholic Church, 253 Neste contexto, a "natureza" é o que se é, enquanto a "pessoa" é quem se é, ou seja, modos reais(ou relações substanciais) distintas coeternas, co-adoradas, coiguais e consubstanciais.
De acordo com a doutrina central da vasta maioria dos cristãos, existe apenas um Deus em três pessoas. Apesar de distintas uma da outra nas suas relações de origem (como o Quarto Concílio de Latrão declarou, "é o Pai quem gera, o Filho quem é gerado e o Espírito Santo quem realiza"), nas suas relações uns com os outros são considerados como um todo, coiguais, coeternos e consubstanciais, e "cada um é Deus, completo e inteiro". Assim, toda a obra da criação e da graça é vista como uma única operação comum de todas as três pessoas divinas, em que cada uma delas manifesta o que lhe é próprio na Trindade, de modo que todas as coisas são "a partir do Pai", "através do Filho" e "no Espírito Santo".
Após controvérsias quanto a oposição ao conceito da divindade de Jesus, como entre o presbítero Ário e o bispo Alexandre de Alexandria, a doutrina passou a ser discutida entre a Igreja e Roma durante o Primeiro Concílio de Niceia em 325 d.C., solicitado pelo imperador romano Constantino. O concílio declarou que o Filho era verdadeiro Deus, coeterno com o Pai e gerado de sua mesma substância, argumentando que tal doutrina codificava melhor a apresentação bíblica do Filho, assim como a crença cristã tradicional sobre ele transmitida pelos apóstolos. Essa crença foi expressa pelos bispos no Credo de Niceia, que formou a base do que é conhecido atualmente como Credo Niceno-Constantinopolitano. Em Niceia, questões relativas ao Espírito Santo foram deixadas, em grande parte, sem solução e assim permaneceram pelo menos até que o relacionamento entre o Pai e o Filho ter sido resolvido por volta do ano 362. Assim, a doutrina em uma forma mais completa foi formulada no Sínodo regional de Constantinopla em 360, e uma forma final foi formulada em 381 no Concílio de Constantinopla, primariamente trabalhada por Gregório de Nissa.Gregory of Nyssa, The Great Catechism ch. 3 in Schaff, Ante-Nicene, supra, 477 A doutrina não atingiu sua forma definitiva até o final do quarto século.McGrath, Alister E. Christian Theology: An Introduction Blackwell, Oxford (2001) p.324. Durante o período várias soluções tentativas foram propostas, algumas mais e outras menos satisfatórias.Kelly, J.N.D. Early Christian Doctrines A & G Black (1965) p. 88.
Embora aceita pela maioria dos cristãs, a doutrina da Trindade é foi alvo de rejeições através das eras por grupos antitrinitários, que incluem o binitarianismo (uma deidade em duas pessoas), com o unitarismo (uma deidade em uma pessoa, análogo à interpretação judia da Shema e à crença muçulmana no Tawhid) e com o sabelianismo (uma deidade manifestada em três aspectos separados).
Fundamentos bíblicos A doutrina trinitária professa que o conceito da existência de um só Deus, onipotente, onisciente e onipresente, revelado em três pessoas distintas, pode ser observado através de muitos trechos da Bíblia. Um dos exemplos mais referidos é o relato sobre o batismo de Jesus, em que as chamadas "três pessoas da Trindade" se fazem presentes, com a descida do Espírito Santo sobre Jesus, sob a forma de uma pomba, e com a voz do Pai Celeste dizendo:
Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo Lucas 3:22 e Mateus 3:17 E na fórmula tardia de Mateus:Mateus 28:19 «Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». No relato em que a Trindade se revelaria por três anjos que apareceram a Abraão próximo ao Carvalho de Mambré (Gn 18,ss) Na criação do homem se apresenta um criador plural": «Façamos o homem a nossa imagem e semelhança»" (Gn 1,26) No episódio da torre de Babel o Senhor Deus fala no plural: "«Vamos: Desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro.»” (Gn 11,7) No inicio do Evangelho segundo João em que Jesus é chamado de "Verbo" ou "Palavra" e de que seria Deus. (João 1,1) Ainda segundo os defensores da doutrina trinitária, ao longo da Bíblia há várias passagens que revelam a natureza divina da Trindade, e até a personalidade de cada uma das três pessoas divinas:
No que concerne à divindade de Deus-Filho, referem-se, por exemplo, a sua onisciência,Colossenses 2:3 a sua onipotência,Mateus 28:18 a sua onipresença,Mateus 28:20 ao fato de perdoar os pecadosMarcos 2:5-7; conferir a afirmação de Isaías 1:18 e ser doador da vidaJoão 10:28 em íntima unidade, porém diferenciando as pessoas: «Eu e o Pai somos um».João 17:21-22 Contudo, mais do que estas simples passagens isoladas, a afirmação da plena divindade de Jesus é o resultado da reflexão, na fé, sobre a sua missão redentora contida nas escrituras - pois a sua personalidade divina e humana nunca foi seriamente posta em descrédito pela igreja cristã seja ela católica ou protestante. No que concerne à divindade do Espírito Santo, os trinitários reportam-se, por exemplo, à passagem bíblica que o chama de Deus em Atos,Atos 5:3-4 a sua onisciência,I Coríntios 2:10-11 a sua onipotência,I Coríntios 12:11 a sua onipresençaJoão 14:10 e sobretudo ao fato de ser Espírito "de" verdadeJoão 16:13 e "de" vida,Romanos 8:2 prerrogativas que, tais como as apresentadas para Deus-Filho, segundo a Bíblia são única e exclusivamente divinas. No que concerne à personalidade do Espírito Santo, a terceira pessoa da Trindade, assunto que foi muito debatido ao longo dos primeiros séculos do cristianismo, é comum referirem-se aos atributos deste que, tal como os que no Antigo Testamento são aduzidos para a personalidade do Deus do Antigo Testamento, YHWH - cuja divindade e personalidade nunca foram alvo de críticas substanciadas entre os cristãos -, testemunham o seu carácter pessoal: Ele glorificará Cristo;João 16:14 ensina a comunidade e os fieis,Lucas 12:12 distribui os dons segundo o seu desígnio, fala nas escrituras do Antigo Testamento,Hebreus 3:7 e 1 Pedro 1:11-12 fala para as sete Igrejas na carta do ApocalipseApocalipse 2:7,11,17,29; 3:6,13,22 é enviado pelo Pai em nome de JesusJoão 15:26 e pelo Filho que enviou da parte do Pai aparecendo como distinto de ambos, pois não é Cristo sob outra forma de existência, mas seu representante e testemunha.João 14:26 Mais importante do que as passagens isoladas é o conjunto que o revela como Aquele que tem a missão de recordar, universalizar e realizar em cada pessoa a obra de Jesus, o que não ocorre mecanicamente, mas somente onde houver a liberdade do Espírito, dado que «onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade».II Coríntios 3:17 Para os cristão trinitários, esta liberdade do Espírito exclui que este possa ser um princípio impessoal, um meio ou instrumento, mas antes pressupõe a sua independência relativa.
O desenvolvimento do dogma Igreja Primitiva thumb|upright=1.0|Iluminura medieval com a representação clássica da Santíssima Trindade Kerigma (do Grego κήρυγμα, kérygma) significa mensagem, pregação, proclamação. Desde o acontecimento pascal e sua proclamação catequética - gênese da experiência e da reflexão trinitária - até à formulação conceptual do mistério trinitário, um longo percurso foi trilhado. Na verdade, desde a proclamação primitiva da morte e ressurreição de Jesus,Atos 2:22-36 passando pelas primeiras afirmações do Novo Testamento da plena divindade de Jesus,Romanos 9:5; Tito 2:13 da personalidade do Espírito SantoJoão 14:16 e o surgir das primeiras fórmulas trinitáriasII Coríntios 13:13 até ao Credo niceno-constantinopolitano, um tortuoso caminho foi burilado pelas primeiras gerações de cristãos.
Defensores da doutrina trinitária afirmam que a Igreja primitiva já acatava plenamente essa ideia, com base nos escritos de Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios, 9,1 e 18,2, e na Primeira Carta de Clemente Romano 42 e 46,6. Mas, do ponto de vista histórico, um dos primeiros a utilizar, no ocidente cristão, o termo "trindade", para expressar a ideia de que a unidade divina existiria em três pessoas distintas, foi Tertuliano. No início do , em sua obra "Adversus Praxeas" (2,4; 8,7), ele utilizou o termo latino de trinitas. Antes disso, e no oriente cristão, só há o registo do termo grego "Τριας" nos escritos de Teófilo de Antioquia ("Três Livros a Autólico", 2,15) redigidos por volta do ano 180.
Na realidade, mais do que a partir da especulação teórica e abstrata - que mais tarde viria a ser preponderante -, a afirmação teológica da "trindade" ocorreu sobretudo a partir do uso dos textos bíblicos em ambiente litúrgico eclesial. Esta doutrina, de fato, foi-se apoiando e alicerçando no âmbito da práxis baptismalPhilippe Bobichon, "Filiation divine du Christ et filiation divine des chrétiens dans les écrits de Justin Martyr" in P. de Navascués Benlloch, M. Crespo Losada, A. Sáez Gutiérrez (dir.), Filiación. Cultura pagana, religión de Israel, orígenes del cristianismo, vol. III, Madrid, 2011, pp. 337-378. (veja-se Didaquê 7,1; Justino Mártir, Apologia 1,61, 13) e eucarística (veja-se Justino, Apologia 1,65-67; Hipólito de Roma, Tradição Apostólica 4-13).
Somente depois da pacificação do Império Romano, sob Constantino, é que ocorreu aquela convergência de fatores - a paz, as facilidades de comunicação e diálogo entre as diversas Igrejas e teólogos, entre outros - que permitiu a elaboração de um edifício conceptual - a definição precisa das noções de ousia (natureza), hipostasis (pessoa), homoousios (consubstancialidade), bem como a sua mútua relação e aplicação teológica - apto para a descrição e explanação da divindade revelada em Jesus Cristo.
Concílios thumb|upright=1.0|Ícone oriental que representa Constantino I entre os padres reunidos no Primeiro Concílio de Niceia (ano 325): o dístico por ele suspenso contém o texto do credo de Niceia, mas na forma modificada pelo Primeiro Concílio de Constantinopla (ano 381) A primeira formulação dogmática do pensamento teológico cristão trinitário, no que concerne à relação entre cada uma das três pessoas divinas, foi postulada como um artigo de fé pelo credo de Niceia (proclamado em 325 no Primeiro Concílio de Niceia) - realizado para dirimir as questões levantadas por Ário que negava a divindade plena do Filho, bem como pelo Primeiro Concílio de Constantinopla do ano 381, realizado para, em oposição aos pneumatômacos, afirmar a plena divindade pessoal do Espírito Santo e apresentada no credo de Atanásio (depois de 500).
Estes credos foram progressivamente formulados e ratificados pela Igreja dos séculos III e V, em reação a algumas noções envolvendo a natureza da trindade, a posição de Cristo nela e a divindade do Espírito, tais como as do arianismo, do docetismo, do modalismo e a dos pneumatómacos - nome dado àqueles que negavam a divindade pessoal da terceira pessoa da Trindade -, que foram depois declaradas como heréticas na medida em que atentariam contra o essencial da Revelação. Estes credos foram mantidos não só na Igreja Católica e Ortodoxa, mas também, de algum modo, pela maioria das igrejas protestantes, sendo inclusive citados na liturgia de igrejas luteranas e igrejas reformadas.