O Hamas (; lit. "zelo", "força" ou "bravura"), oficialmente conhecido como Movimento de Resistência Islâmica () é uma organização política e militar palestina de orientação sunita islâmica, O grupo islâmico sunita radical de maior sucesso foi o Hamas, que começou como um ramo da Irmandade Muçulmana na Palestina no início da década de 1980. Utilizou ataques terroristas contra civis – especialmente atentados suicidas – para ajudar a construir um movimento maior, chegando ao ponto de emergir como o governo reconhecido da Faixa de Gaza na Autoridade Palestina que governa a Faixa de Gaza (parte dos territórios palestinos atualmente submetida a bloqueio aéreo, terrestre e marítimo por Israel e Egito). Com sede na Cidade de Gaza, o Hamas também tem presença na Cisjordânia, o maior dos dois territórios palestinos, onde seu rival secular, o Fatah, exerce controle.

Em 1987, após o início da Primeira Intifada contra Israel, o Hamas foi fundado pelo imã e ativista palestino Ahmed Yassin. Ele surgiu a partir de um grupo chamado Mujama al-Islamiya (Centro Islâmico), estabelecido em Gaza em 1973 como uma instituição de caridade islâmica associada à Irmandade Muçulmana baseada no Egito. Ao longo dos anos, o Hamas se envolveu cada vez mais no conflito israelense-palestino; no final da década de 1990, foi contra as Cartas de Reconhecimento mútuo Israel-Palestina da Organização para a Libertação da Palestina, bem como os Acordos de paz de Oslo, nos quais o Fatah renunciou "ao uso de terrorismo e outros atos de violência" e reconheceu Israel em busca de uma solução de dois estados. O Hamas continuou a advogar pela resistência armada palestina. Em 2006, venceu as eleições legislativas palestinas, obtendo maioria no Conselho Legislativo Palestino. Posteriormente assumiu o controle da Faixa de Gaza após uma guerra civil com o Fatah em 2007. Desde então, tem governado Gaza como um estado autocrático de fato e de partido único. O cisma entre Hamas e a Autoridade Palestina (controlada pelo Fatah) tem contribuído para a confusão legal e repetidos adiamentos das eleições. "O governo conjunto Hamas-Fatah não durou muito. Em poucos meses, os dois lados já se enfrentavam novamente, o que afinal levou a uma divisão política do território ocupado, com o Fatah controlando a Cisjordânia, e o Hamas estabelecendo um estado virtual de partido único em Gaza." Apesar de tudo, o Hamas desfruta de crescente popularidade na sociedade palestina, por suas posições decididamente antissionistas e anti-israelenses.

Embora historicamente buscasse criar um estado único em todo o mandato da Palestina, o Hamas passou a concordar com as fronteiras de 1967 nos acordos assinados com o Fatah em 2005, 2006 e 2007. Em 2017, o Hamas lançou seu Documento Geral de Princípios e Políticas, onde declara apoiar um estado palestino transitório dentro das fronteiras de 1967, mas sem reconhecer Israel. Muitos autores acreditam que as repetidas ofertas de trégua do Hamas, com duração de 10 a 100 anos e baseadas nas fronteiras de 1967, indicam que o grupo estaria de acordo com a ideia de uma solução de dois estados, citação: Asher Susser, diretor do Centro Dayan na Universidade de Tel Aviv, transmitiu em uma entrevista que "a 'hudna' do Hamas não é significativamente diferente do 'acordo intermediário de longo prazo' de Sharon". Da mesma forma, Daniel Levy, um alto funcionário israelense para a Iniciativa de Genebra (GI), me informou que certos funcionários do Hamas consideram a GI aceitável, mas, devido às preocupações com sua base islâmica e sua própria identidade islâmica, eles "teriam que expressar o resultado final em termos de 'hudna', ou cessar-fogo 'indefinido', em vez de um acordo de paz formal." "O Hamas também sinalizaria disposição para aceitar uma 'hudna' de longo prazo (cessação das hostilidades, trégua) ao longo das linhas de armistício de 1948 (uma aceitação efetiva da fórmula de dois estados)." enquanto outros afirmam que o Hamas mantém um objetivo de longo prazo de estabelecer um estado único no antigo mandato da Palestina. Embora a Carta do Hamas de 1988 tenha sido amplamente descrita como antissemita, o Documento Geral, de 2017, removeu a linguagem antissemita e afirmou que a luta do Hamas era contra os sionistas, não contra os judeus.

Sob os princípios ideológicos do islamismo, o Hamas promove o nacionalismo palestino em um contexto islâmico; seguindo uma política de jihad (luta armada) contra Israel. "O Hamas é uma organização fundamentalista islâmica radical que declarou que a sua maior prioridade é uma Jihad (guerra santa) pela libertação da Palestina." A organização possui uma ala de serviços sociais, Dawah e uma ala militar, as Brigadas Izz ad-Din al-Qassam. "Na política tudo é possível. O Iraque, por exemplo, tem a Brigada Badr, que é um braço militar do Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque e que se juntou ao processo político no país. Membros da Brigada Badr juntaram-se ao serviço de segurança no Iraque. No Iraque, os EUA têm tentado enfrentar a questão dos insurgentes através de negações. O Hezbollah no Líbano é um partido político e também tem as suas organizações militantes. Os Mujahideen, que eram os principais militantes no Afeganistão, juntaram-se ao processo político no seu país após mais de 20 anos de guerra. Ser militante e aderir à plataforma política não é pecado. Se deixarmos o Médio Oriente e olharmos para o Sinn Fein, por exemplo, na Irlanda do Norte, este grupo estava a lutar contra o governo britânico e depois, através do envolvimento e da negociação directa, a influência extremista foi marginalizada e o Sinn Fein encontrou uma oportunidade para se moderar." "A ideia de um movimento militante como o Hamas possuir personalidades políticas e militares simultaneamente não é especialmente nova, sendo o IRA/Sinn Féin e o movimento libanês Hezbollah dois exemplos frequentemente citados. No entanto, este estudo argumenta que, dado o papel que a resistência desempenha na narrativa palestiniana, a dupla resistência do Hamas é uma estratégia mais abrangente e integrada do que aquela adotada por outros movimentos chamados híbridos ou de duplo estatuto. Isto porque o Hamas conseguiu sinergizar os seus esforços de resistência política e armada para promover a sua agenda de autodeterminação." Desde meados da década de 1990, o Hamas ganhou ampla popularidade dentro da sociedade palestina por sua posição anti-israelense. Por diversas vezes, atacou civis em Israel, inclusive mediante atentados suicidas e lançamentos indiscriminados de foguetes. Estes atos levaram muitos países a designar o Hamas como uma organização terrorista. Em 2018, os Estados Unidos tentaram passar, sem êxito, na Assembleia Geral da ONU, uma moção de condenação do Hamas por "repetidamente disparar foguetes em direção a Israel e por incitar violência, colocando civis em risco", bem como por construir infraestrutura militar em Gaza, "incluindo túneis para infiltrar-se em Israel e equipamento para lançar foguetes contra áreas civis".US resolution to condemn activities of Hamas voted down in General Assembly. UN News, 6 de dezembro de 2018.

Atualmente, a Faixa de Gaza é governada pelo Hamas e encontra-se sob bloqueio por terra, mar e ar, imposto por Israel e pelo Egito. Ao longo do tempo, Israel empreendeu uma série de guerras contra Gaza, em 2008-09, 2012, 2014 e 2021, além de vários bombardeios aéreos israelenses de menor duração, em resposta ao lançamento de foguetes contra Israel. Na guerra de 2023, o Hamas lançou a Operação Al-Aqsa Flood, na qual seus combatentes romperam a barreira de Gaza, atacaram povoações e bases militares israelenses e levaram civis e militares como reféns para Gaza. O ataque foi descrito como o maior revés dos militares israelenses desde a guerra de 1973. Em resposta, Israel bombardeou a área densamente povoada de Gaza (13 000/km2), atingindo inúmeros alvos civis,Bombardeios de Israel atingem abrigos para civis e até escolas em Gaza, diz ONU. O Globo, 11 de outubro de 2023. com a intenção declarada de eliminar o Hamas da face da Terra". O Parlamento Europeu aprovou uma resolução afirmando a necessidade de eliminar o Hamas; o presidente dos EUA, Joe Biden, expressou a mesma opinião.

Etimologia Hamas é um acrônimo da frase árabe حركة المقاومة الإسلامية ou Ḥarakah al-Muqāwamah al-ʾIslāmiyyah, que significa "Movimento de Resistência Islâmica". Este acrônimo, HMS, foi posteriormente alterado no Pacto do Hamas pela palavra árabe ḥamās (حماس), que literalmente significa "zelo", "força" ou "bravura". A consoante inicial não é o /h/ comum em palavras em inglês (como house), mas um som ligeiramente mais áspero, a fricativa faríngea surda /ħ/.

História

Origens Quando Israel ocupou os territórios palestinos em 1967, os membros da Irmandade Muçulmana não participaram ativamente da resistência, preferindo concentrar-se em reformas sociais, religiosas e na restauração dos valores islâmicos. Essa perspectiva mudou no início da década de 1980, quando as organizações islâmicas tornaram-se mais envolvidas nas questões políticas palestinas. A força motriz por trás dessa transformação foi o xeique Ahmed Yassin, um refugiado palestino de Al-Jura. De origens humildes e tetraplégico, ele se empenhou para se tornar um dos líderes da Irmandade Muçulmana em Gaza. Seu carisma e convicção lhe trouxeram um grupo leal de seguidores, dos quais ele, como tetraplégico, dependia para tudo, desde alimentá-lo até transportá-lo para eventos, para comunicar sua estratégia ao público. Em 1973, Yassin fundou a organização de caridade social-religiosa al-Mujama al-Islamiya ("Centro Islâmico"), em Gaza, como um desdobramento da Irmandade Muçulmana.

Ao longo das décadas de 1970 e 1980, as autoridades israelenses mostraram indiferença em relação a al-Mujama al-Islamiya, que consideravam ser movido por uma causa religiosa e menos politicamente militante contra Israel do que o Fatah e a Organização para a Libertação da Palestina. Muitos também acreditavam que os conflitos entre organizações islâmicas e a OLP, laica, levariam ao enfraquecimento desta última, o que favoreceria Israel. Assim, o governo israelense não interveio em conflitos entre a OLP e forças islâmicas.

Membros do governo israelense discordam sobre o quanto a indiferença governamental (ou até mesmo apoio) a essas disputas contribuiu para o aumento do islamismo na Palestina. Alguns, como Arieh Spitzen, argumentam que "mesmo que Israel tivesse tentado deter os islamistas mais cedo, é duvidoso que pudesse ter feito muito para conter o Islã político, um movimento que se espalhava pelo mundo muçulmano". Outros atribuem o crescimento do grupo a patrocinadores estatais, incluindo o Irã. Mas há também aqueles, como o encarregado de assuntos religiosos de Israel em Gaza, Avner Cohen, que ainda lamentam o "enorme, estúpido erro" cometido por Israel no final dos anos 1970, e acreditam que a indiferença à situação alimentou o aumento do islamismo e concluem: "Hamas, para meu grande desgosto, é uma criação de Israel".

Em 1984, Yassin foi preso depois que os israelenses descobriram que seu grupo estava reunindo armas, mas foi libertado em maio de 1985 como parte de uma troca de prisioneiros. Ele continuou a expandir o alcance de sua organização de caridade em Gaza. Após sua libertação, ele estabeleceu o al-Majd (um acrônimo para Munazamat al-Jihad wa al-Da'wa), liderado pelo ex-líder estudantil Yahya Sinwar e Rawhi Mushtaha, encarregado de lidar com a segurança interna e caçar informantes locais dos serviços de inteligência israelenses. Ao mesmo tempo, Yassin ordenou ao ex-líder estudantil Salah Shehade que estabelecesse o al-Mujahidun al-Filastiniun (Lutadores Palestinos), mas seus militantes foram rapidamente detidos pelas autoridades israelenses e tiveram suas armas confiscadas.Não está claro se esses grupos foram estabelecidos em 1985 ou 1986.