Bissau, oficialmente denominada Sector Autónomo de Bissau, é um sector autónomo e a capital e maior cidade da Guiné-Bissau, localizada no estuário do rio Geba, na costa atlântica.
Surgida como um aldeamento de povos caçadores e agricultores, sua colonização começou a dar-se a partir do século XVII, quando cumpriu importante papel histórico na região, como centro de comércio e porto fortificado. Embora a Guiné Portuguesa fosse administrativamente dependente de Cabo Verde, a localidade exerceu o papel de sua capital. No século XX torna-se a capital da colónia, até a independência da Guiné-Bissau, quando coube-lhe ser a região mais desenvolvida e segura da nação, enquanto o país ainda mergulhava em conflitos e crises.
Centro econômico da nação, Bissau concentra uma gama diversa de serviços financeiros, turísticos, educacionais e de saúde, factor possível graças à sua centralidade e à sua infraestrutura, que conta um grande porto (o maior guineense), além das ligações aeroportuárias e rodoviárias, constituído-se também como o centro político-administrativo e militar do país.
É em Bissau também que encontra-se a miscelânea étnica da nação, sendo considerada uma cidade cosmopolita, onde há interação cultural entre as diversas matizes da Guiné-Bissau.
Etimologia O termo Bissau viria do nome Itchassu (depois N'nssassu e Bôssassum), que significa "bravo como a onça", possivelmente numa referência ao perfil guerreiro dos habitantes da ilha de Bissau, mimetizando o leopardo-africano, um grande felino predador, conhecido no país como "onça-africana". Com o passar do tempo Bôssassum passou a ser escrito como Bissão (ou "São José de Bissão"), Bissao e por fim "Bissau".
Bôssassu (ou Itchassu) foi o nome dado ao sobrinho do rei Mecau — primeiro soberano da ilha de Bissau —, filho da sua irmã Pungenhum. Bôssassu formou o clã principal dos povos papéis e do Reino de Bissau, o principal dos Estados pré-coloniais da ilha de Bissau. Os bôssassum eram os reis e fidalgos (djagras) do Reino de Bissau.
História A região de Bissau esteve sob constante contacto com humanos desde tempos imemoriais, porém sem registro de povoação até antes do século XIII, quando um grupo de indivíduos caçadores-coletores, com conhecimento também em práticas agrícolas, habitantes da margem oposta do rio Geba, decidiu ali fixar-se.
A partir de então as populações organizaram-se em reinos e régulos até a vinda do elemento colonizador, que fortificou e ordenou o povoamento da cidade até meados do século XX, quando coube-lhe ser a capital nacional da Guiné-Bissau independente.
Povoamento A ocupação e povoação da região começou entre os séculos XIII e XIV por inciativa de um homem chamado Mecau (ou M'nkau), príncipe do reino Quinara. Em busca de locais de caça, o príncipe Mecau descobriu a ilha de Bissau, território que o agradou muito por parecer uma área fértil e propícia à caça. Mecau voltou ao seu reino, despediu-se de seu pai, e partiu com suas seis esposas para a ilha. Posteriormente Mecau foi convidando outros sujeitos de Quinara para a ilha, inclusive trazendo sua irmã grávida, formando tanto o grupo étnico papel, como o Reino de Bissau.
Da irmã de Mecau, a princesa Pungenhum, nasceu Itchassu, descendente que formou o clã dos bôssassum (ou bissassu-nanque-ié), que eram os reis, fidalgos e nobres entre os povos papéis. Outras três esposas de Mecau deram-lhe descendentes que viriam formar a estrutura populacional dos primeiros séculos do actual Sector Autónomo, a saber: a esposa Intsoma foi mãe do clã dos bijocomos (ou bidjokumó), que formaram o aldeamento do Alto Crim (actualmente bairro de Bissau); a esposa Kliker foi mãe do clã dos boígas (ou iga), que formaram o aldeamento de Calequir (actualmente bairro de Bissau), e; a esposa Intende foi mãe do clã dos bôssuẑus (ou bitsutu), que formaram o aldeamento de Mindara (actualmente bairro de Bissau). O clã dos bôssós (ou bitsó), filhos da esposa Malá, chegaram a fundar o aldeamento e actual bairro de Bandim, mas depois rumaram para as terras da região de Biombo.
Reino de Bissau Mecau foi o primeiro soberano do reino de Bissau, passando sua autoridade real a Itchassu (ou Bôssassu), o seu sobrinho. Nos primeiros anos o reino pareceu ter forte contacto político, econômico e religioso com os beafadas, a etnia do reino Quinara. Havia também contactos da mesma natureza com os manjacos e brames-mancanhas, povos que inclusive têm afinidade linguística com os papéis.
A princípio todos os aldeamentos estavam sob a autoridade do reino de Bissau, contudo as diversas lutas pela sucessão do trono fizeram com que surgissem vários pequenos reinos na ilha de Bissau, todos estados vassalos do reino de Bissau, sendo: Reino de Antula, Reino de Prábis, Reino de Safim, Reino de Bigimita, Reino de Tôr e Reino de Biombo.
Contactos e colonização portuguesa miniatura|200px|esquerda|Ilustração da visita a Bissau, como parte da expedição francesa capitaneada por Gaspard Théodore Mollien, realizada em 1818; a expedição demonstrava um claro interesse francês pela Guiné-Bissau. O contacto dos europeus com as povoações de Bissau iniciou-se ainda em 1687, quando o rei (ou régulo) de Bissau Bacampolo-Có concordou com as propostas do Império Português em construir ali uma fortificação (1ª vez), a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, estrutura que serviria de suporte ao entreposto comercial dos portugueses. Em 1690 já eram inaugurados o Hospício de Bissau (actual Hospital Nacional Simão Mendes) e a capela de Bissau./
O organismo colonial de jure, a capitania de Bissau (predecessora legal do Sector Autónomo; ainda subordinada a Cacheu e Cabo Verde), só foi criado em 15 de março de 1692; porém a colonização de facto só foi iniciar-se em 1696, quando começou a ser edificada a fortaleza (2ª vez) pela Companhia de Cacheu e Cabo Verde, sob o comando do capitão-mor José Pinheiro da Câmara.
Bacampolo-Có era um rei muito amigável aos europeus, tendo sido o primeiro a converter-se ao cristianismo. Porém, sua morte, em fevereiro de 1696, acendeu uma disputa entre Incinha Té e Torô Có, dois pretendentes à sucessão do trono do reino de Bissau, sendo que o primeiro torna-se régulo em dezembro do mesmo ano.
Entre dezembro de 1697 e fevereiro de 1698 explode a primeira grande revolta dos povos papéis contra os portugueses, por considerar ingerente sua regulação do comércio. As forças de Incinha Té cercam a fortaleza de Bissau, prendem e matam o capitão-mor português. Os papéis, além disso, destroem o hospício e a capela, que viram ser reconstruído somente muitos anos depois.
Além da hostilidade crescente dos povos papéis contra portugueses, franceses e ingleses, em 1703 a companhia responsável pela construção da fortaleza não teve seu contrato de exploração de escravos renovado pela coroa portuguesa, o que conduziu ao acumular de prejuízos e ao abandono (e extinção) da Capitania de Bissau, em dezembro de 1707; os alicerces da fortaleza são destruídos pelo reino de Bissau e ficam em ruínas.
O reino de Bissau permaneceu hostil aos portugueses até a morte de Incinha Té, em 1746, com a administração lusitana ficando em Cacheu entre 1707 e 1753. Após a morte de Incinha Té, ordenou-se um expedição portuguesa para reocupar o entreposto e reerguer a fortaleza, aportando em Bissau em 9 de fevereiro de 1753. O rei de Bissau Palan Cá conduziu a batalha de Bissau, contra os portugueses, tendo perdido o conflito já no dia 17 de fevereiro, sendo obrigado a assinar um acordo de paz que permitia a reconstrução da fortaleza da Amura (3ª vez). Em novembro Portugal ordenava a restauração legal da capitania de Bissau.
Em 1761 um relatório acusava que a fortaleza da Amura estava muito degradada, expondo a guarnição local ao risco de ataques bélicos. Assim, em 1765, José I de Portugal ordena que navios da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão sigam rumo a Bissau para reformar a fortaleza. A obra seria concluída em 26 de dezembro de 1766, data geralmente aceita como a inauguração definitiva da fortaleza da Amura (4ª vez; na época chamada de "Praça de São José" em homenagem ao rei que a concluiu), marcando o início da evolução de Bissau na condição de vilarejo, quando ganha um novo hospício (que também passa a servir como Casa de Saúde e Convalescênça), uma missão-convento e uma capela.
Período das rebeliões Após a conclusão da fortaleza da Amura (1766), os portugueses defrontaram-se com muitas rebeliões nativas e sublevações de soldados, algumas das quais teve rápido êxito ao controlar, enquanto que outras somente após negociações diplomáticas conseguiu debelar o conflito.
A primeira das grandes rebeliões se deu entre 29 de novembro de 1794 e 18 de julho de 1795, com os reinos papéis mantendo, durante oito meses, um cerco à fortaleza da Amura; neste mesmo ano os soldados portugueses sublevam-se pela primeira vez, alegando cansaço do cerco, obrigando o capitão-mor de Bissau a fugir. Os soldados solicitam paz aos papéis. Outra sublevação viria a ocorrer em 1803, quando o capitão-mor de Bissau morre depois de ser envenenado pelos soldados.
Em 1811 três aquartelamentos ocorrem, sendo: o primeiro devido ao atraso dos soldos (abril); o segundo pelo mesmo motivo (junho), e; o terceiro (possivelmente julho), onde o capitão-mor de Bissau foi preso por se recusar a permitir a escravatura e o contrabando. Formou-se um triunvirato para o substituir.
Já em 1825 mais uma vez os soldados impõem uma sublevação em Bissau, onde o capitão-mor necessitou do auxílio a uma fragata britânica e de reforços da guarnição de Geba (actual Bafatá). Em dezembro de 1835 ocorre uma nova sublevação dos soldados, obrigando o governador de Bissau pedir auxílio aos rivais franceses, por temer um ataque dos papéis.
Capital da capitania e da Guiné Em 30 de março de 1834 pela primeira vez Bissau passa a ser a sede do governo colonial, recebendo o nome de "São José de Bissau", embora ainda subordinado ao governo-geral de Cabo Verde. O ato de instalação viria ocorrer somente em 13 de março de 1837, quando Honório Barreto assume a governadoria interina da Guiné (em 23 de maio torna-se governador efetivo).
Barreto consegue costurar um tratado de paz com o régulo Ondoto, do reino de de Bissau, em 25 de dezembro de 1837, e; em 21 de novembro de 1838 Barreto celebra com Ondoto a aquisição do ilhéu do Rei, que serviria como um refúgio aos portugueses em caso de sublevação ou revoltas.
Entre 1839 e 1840 ocorre uma enorme sublevação dos soldados da fortaleza da Amura, com a edificação ficando fortemente danificada após uma explosão ocorrida em 18 de outubro de 1840.
Esse conflito reduz o poder de influência de Bissau, que perderia a condição de capital da Guiné para Cacheu em 1842, embora continuasse sede da capitania de Bissau; nesse ano coincidiria o início das revoltas dos grumetes, com a primeira ocorrendo entre novembro de 1842 e janeiro de 1843.