Antônio Vicente Mendes Maciel (Nova Vila de Campo Maior, – Canudos, ), mais conhecido como Antônio Conselheiro, também se autodenominando "O Peregrino",NOGUEIRA, Ataliba, António Conselheiro e Canudos. São Paulo, Editora Atlas S.A., 1997 foi um líder religioso brasileiro.

Figura carismática, adquiriu uma dimensão messiânica ao liderar o arraial de Canudos, um pequeno vilarejo no sertão da Bahia que atraiu milhares de sertanejos, entre camponeses, indígenas e escravos recém-libertos, e que foi destruído pelo Exército da República, na chamada Guerra de Canudos, em 1897.

A imprensa dos primeiros anos da República e muitos historiadores retrataram-no como um louco, fanático religioso e contrarrevolucionário monarquista perigoso. No dia 14 de maio de 2019, a Lei 13.829/19 incluiu Antônio Conselheiro no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.

Biografia Infância e vida no Ceará 288x288px|miniaturadaimagem|direita|Igreja do Bom Jesus, em Crisópolis, Bahia, construída por Antônio Conselheiro. Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu a 13 de março de 1830, na cidade de Quixeramobim. Era filho do comerciante Vicente Mendes Maciel e de Maria Joaquina de Jesus. Sua mãe faleceu quando Maciel tinha seis anos. Quando da morte de seu pai, aos 27, assumiu o comércio da família e o sustento de suas quatro irmãs. Por ter tido acesso a educação na juventude, Maciel também deu aulas em uma escola de fazenda, e atuou como escrivão de cartório e rábula.

thumb|288x288px|A Revista Ilustrada, de Angelo Agostini, veículo de propaganda republicana durante o Império, retratava Conselheiro de forma caricatural, com séquito de bufões armados com velhos bacamartes, tentando "barrar" a República. Maciel casou-se com Brasilina Laurentina de Lima, que mais tarde veio a traí-lo e fugir com o amante. A partir daí, passou a perambular pelos sertões do nordeste, sobrevivendo do ofício de pedreiro. Peregrinações Em Sergipe, no ano de 1874, o jornal O Rabudo trouxe a primeira menção pública de Antônio Maciel como penitente conhecido nos sertões:

Há seis meses que por todo o centro desta Província e da Província da Bahia, chegado (diz ele) do Ceará, infesta um aventureiro santarrão que se apelida por Antônio dos Mares. O que, a vista dos aparentes e mentirosos milagres que dizem ter ele feito, tem dado lugar a que o povo o trate por S. Antônio dos Mares. Esse misterioso personagem, trajando uma enorme camisa azul que lhe serve de hábito à forma do de sacerdote, pessimamente suja, cabelos mui espessos e sebosos entre os quais se vê claramente uma espantosa multidão de bichos (piolhos). Distingue-se pelo ar misterioso, olhos baços, tez desbotada e de pés nus; o que tudo concorre para o tornar a figura mais degradante do mundo.

Já famoso como "homem santo" e peregrino, Antônio Conselheiro foi preso em 1876, nos sertões da Bahia, pois corria o boato de que ele teria matado a esposa. Foi levado para o Ceará, onde foi levado a julgamento e absolvido da acusação, e então retornou à Bahia.

Em 1877, o Nordeste do Brasil passou pela Grande Seca, uma das mais calamitosas de sua história; levas de flagelados perambulavam famintos pelas estradas em busca de socorro governamental ou de ajuda divina; bandos armados de criminosos e flagelados promoviam justiça social "com as próprias mãos", assaltando fazendas e pequenos lugarejos, pois pela ética dos desesperados "roubar para matar a fome não é crime". Crescia a notoriedade da figura de Antônio Conselheiro entre os sertanejos pobres. Para eles, o "Bom Jesus", como também passou a ser chamado, seria uma figura santa, um profeta enviado por Deus para socorrê-los.

Arraial de Canudos Em 1893, então sendo um "fora da lei", Maciel decidiu se fixar à margem Norte do Rio Vaza-Barris, num pequeno arraial chamado Canudos.NOVAIS SAMPAIO, Consuelo. Canudos - Cartas para o Barão, páginas 231-232. Nasceu ali uma experiência extraordinária: em Belo Monte (como a rebatizou Antônio Conselheiro, apesar de encontrar-se em um vale cercado de colinas), os desabrigados do sertão e as vítimas da seca eram recebidos de braços abertos pelo peregrino, era uma comunidade onde todos tinham acesso à terra e ao trabalho sem sofrer as agruras dos capatazes das fazendas tradicionais. Um "lugar santo", segundo os seus adeptos. Durante o período em que liderou o povoado de "Belo Monte", escreveu os "Apontamentos dos Preceitos da Divina Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo, para a Salvação dos Homens",Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - OS APONTAMENTOS DA DIVINA LEI DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO SEGUNDO ANTONIO CONSELHEIRO: TRAZENDO À TONA UM MANUSCRITO CENTENÁRIO. Gisele da Silva & Pedro Lima Vasconcellos. Acessado em 13/03/2018.Canudos: subsídios para a sua reavaliação histórica. Fundação Casa de Rui Barbosa, colaborador: José Augusto Vaz Sampaio Neto. 1986, pág.18, Adicionado em 13/03/2018. que consiste de uma coletânea de reflexões sobre temas diversos, de matiz fundamentalmente religioso.

O lugar atraiu milhares de agricultores pobres, índios e escravos recém-libertos, que começaram a construir uma comunidade igualitária inspirada no exemplo da doutrina Católica. Por meio do trabalho comunitário, conseguiu-se que ninguém passasse fome. Tratava-se de uma comunidade rural, com uma economia autossustentável, baseada na solidariedade. Entretanto, Antônio Conselheiro tinha visões políticas e sociais conservadoras, especialmente no tocante a propriedade privada e ao Direito Divino dos Reis.

A Guerra de Canudos

Em 1896 ocorreu o episódio que desencadeou a Guerra de Canudos: em 24 de novembro foi enviada a primeira expedição militar contra o povoado, sob comando do Tenente Pires Ferreira. Mas a tropa foi surpreendida pelos fiéis de Antônio Conselheiro, durante a madrugada, em Uauá. Após um combate corpo a corpo são contados mais de cento e cinquenta cadáveres de conselheiristas. Do lado do exército morreram oito militares e dois guias. Estas perdas, embora consideradas "insignificantes quanto ao número", nas palavras do comandante, ocasionaram o retiro das tropas.PIRES FERREIRA, Manuel da Silva. Relatório do Tenente Pires Ferreira, comandante da 1a Expedição contra Canudos. Quartel da Palma, 10 de dezembro de 1896. Em 29 de dezembro de 1896 teve início uma segunda expedição militar. Assim como a primeira, esta foi violentamente debelada pelos conselheiristas.

No ano seguinte ocorreu a terceira expedição, comandada pelo coronel Antônio Moreira César, conhecido como "o Corta-Cabeças", por suas façanhas na Revolução Federalista, no Rio Grande do Sul. Mas, acostumado aos combates tradicionais, Moreira César não estava preparado para eliminar Canudos e foi abatido por tiros certeiros de homens leais a Antônio Conselheiro. A tropa fugiu em debandada, deixando para trás armamentos e munição. Para os conselheiristas, tratava-se de uma prova cabal da santidade do beato de Belo Monte. Em 5 de abril de 1897 ocorreu a quarta e última expedição, desta vez o cerco foi implacável; até muitos dos que se renderam foram mortos; eliminar Canudos e seus habitantes tornou-se uma questão de honra para o exército.

Morte miniaturadaimagem|Única fotografia de Antônio Conselheiro, tirada após ser exumado Em 22 de setembro de 1897, morreu Antônio Conselheiro. Não se sabe ao certo qual foi a causa, mas as razões mais citadas são ferimentos causados por uma granada e uma forte disenteria.

Em 5 de outubro de 1897 o exército derrotou os defensores restantes de Canudos.

Nina Rodrigues, uma célebre autoridade sanitária da época, diagnosticou Maciel como portador de uma psicose sistemática progressiva.

Memorial Antônio Conselheiro 200px|miniaturadaimagem|Estátua em madeira representando o Conselheiro no memorial em Quixeramobim.

Há dois centros culturais relacionados a Antônio Conselheiro e à Guerra de Canudos; um está localizado em Quixeramobim, no interior do Ceará, que conta a história de seu filho ilustre e está situado no centro da cidade. O imóvel, tombado pelo Ministério da Cultura em 2006, foi a casa em que Antônio Conselheiro nasceu e viveu até os seus 27 anos de idade. Após o tombamento, foi criada no local a Casa de Cultura e Memorial do Sertão Cearense. O outro centro cultural está situado em Canudos, Bahia, criado pelo Decreto 33 333, de 30 de junho de 1986 (publicado no Diário Oficial de 1º de julho), mantido e administrado em parceria com a UNEB.

Lenda Com o passar do tempo, a casa de Antônio Conselheiro em Quixeramobim foi se tornando palco de contos de assombração. Acredita-se na cultura popular que a casa abriga espíritos e que existem tesouros enterrados em vasos de barro. Essas histórias passaram a fazer parte do folclore local.

Ver também José Lourenço Gomes da Silva Monge João Maria

Bibliografia Cunha, Euclides da. Os Sertões; 1866 – 1909. Os Sertões;- Campanha de Canudos- 17ª ed. Rio de Janeiro. Ediouro, 1995. Paro, Iana Cossoy: Antônio Conselheiro. Ver. Caros Amigos; Rebeldes Brasileiros; fascículo 2. Ed. Casa Amarela, S. P. Sem data de publicação. Fonseca Aleilton. Os Sertões: as prédicas de Antônio Conselheiro e a poesia de Canudos UFBA, Olho da historia nº3 Olavo, Antônio Acervo virtual da história de Canudos Boaventura, Edivaldo. O Parque Estadual de Canudos disponível em html e em E-Book tipo pdf Pordeus, Ismael. Escritos sobre Antônio Conselheiro e a Matriz de Quixeramobim. Coleção Outras Histórias, vol.65, Museu do Ceará, Secretaria de Cultura do Ceará. 2011. A Guerra do Fim do Mundo - Mario Vargas Llosa.

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