A Passagem de Humaitá foi uma operação naval durante a Guerra do Paraguai em que uma força de seis monitores encouraçados brasileiros forçaram a passagem sob fogo da artilharia paraguaia da fortaleza de Humaitá. Foi considerado por observadores como um feito admirável.
O objetivo da ação era acabar com o fornecimento de provisões pelo rio até a fortaleza e fornecer ao Império do Brasil e seus aliados a tão necessária vitória que elevasse o moral. A tentativa ocorreu em 19 de fevereiro de 1868 e foi bem sucedida, tendo os brasileiros alcançado o ponto fraco da fortaleza. Tal feito restaurou a reputação da armada imperial, e fez com que os paraguaios evacuassem a capital Assunção. Alguns autores consideram o feito como o ponto de virada ou evento culminante da guerra. A fortaleza, até então totalmente cercada por forças aliadas por terra ou água, foi capturada em 25 de julho de 1868.
Antecedentes
A Fortaleza de Humaitá era um sistema defensivo, por muito tempo considerado quase inexpugnável, localizado perto da foz do rio Paraguai. Impediu o inimigo de subir o rio, e invadir a República do Paraguai. Havia outros caminhos pelos quais o Paraguai poderia ter sido invadido, mas foram consideradas mais difíceis. A Guerra do Paraguai (também conhecida como a Guerra da Tríplice Aliança) de 1864-1870 foi o mais letal conflito na história da América do Sul e, — em termos de sua relativa mortalidade — muito possivelmente o pior da história moderna. O conflito iniciou-se quando o líder paraguaio Francisco Solano López apreendeu o navio brasileiro Marquês de Olinda em rota pelo rio Paraguai para a província brasileira de Mato Grosso (hoje no território do estado de Mato Grosso do Sul), em seguida, enviou tropas para invadir a província. Desenvolveu-se ainda mais quando ele apreendeu embarcações navais argentinas atracadas no porto de Corrientes, nordeste da Argentina.
Posteriormente, López enviou mais dois exércitos, um para invadir a Argentina na província de Corrientes, ao longo do rio Paraná e o outro para invadir a província brasileira do Rio Grande do Sul ao longo do rio Uruguai. Em 1 de maio de 1865, Brasil, Argentina e Uruguai assinaram o Tratado da Tríplice Aliança, pelo qual não negociariam a paz com o Paraguai até que o governo de López fosse deposto. Além disso, o rio era a única possível rota para alcançar a província de Mato Grosso, que havia sido invadido pelas forças de López antes de uma declaração de guerra. Um dos objetivos dos aliados (Brasil, Argentina e Uruguai) explicitamente incluía a captura e destruição de Humaitá, sendo o primeiro objetivo de seu alto comando.
O problema estratégico dos aliados thumb|Área onde os aliados ficaram estagnados por 2,5 anos, nas zonas úmidas do sudoeste do Paraguai. Os aliados tinham capturado a base avançada de Curuzú, em setembro de 1866. Por Schneider, 1872. Levou cerca de um ano para que os aliados expulsassem os invasores da província de São Pedro do Rio Grande do Sul e da Argentina. De acordo com o tratado, tinham de neutralizar Humaitá e depor Francisco Solano López. Em abril de 1866, os aliados atravessaram o rio Paraná para sudoeste do Paraguai, ocupando uma pequena faixa de território.
Resumidamente, a fortaleza de Humaitá foi construída em uma curva côncava afiada no rio e compreendia mais de uma milha de baterias de artilharia pesada no topo de um penhasco baixo. O canal tinha apenas 200 metros de largura e corria a uma curta distância das baterias; uma barreira de correntes pesadas poderia ser levantada para bloquear a navegação e deter o transporte sob fogo das armas. Torpedos (minas navais de contato improvisadas) poderiam ser liberados ou ancorados no córrego. Em seu lado terrestre, a fortaleza era protegida por terrenos intransitáveis e por 13 quilômetros de trincheiras com 120 canhões pesados e uma guarnição de homens. Uma tentativa de capturar uma de suas obras exteriores por ataque frontal fracassou desastrosamente na Batalha de Curupaiti (22 de setembro de 1866); outro ataque frontal estava fora de questão.
Do ponto de vista naval, a pesada artilharia da fortaleza poderia — a princípio — ser contornada pelos novos encouraçados (navios blindados), desde que as correntes de ferro pudessem ser rompidas e quaisquer “torpedos” evitados. No entanto tais navios não poderiam operar muito distantes de suas bases avançadas, porque precisariam ser reabastecidos com combustível, munição e provisões. Além disso, o comando da marinha brasileira alegou que não havia espaço dentro dos encouraçados para o transporte de tropas; os navios de transporte de madeira não poderiam acompanhá-los. Para deixar as tropas de Humaitá sem acesso à suprimentos, foi necessário impedir que os paraguaios os reabastecessem por via fluvial.
Dificuldades enfrentadas pelos aliados Problemas internos thumb|Longas linhas de comunicação: todas as munições tinham de ser transportadas por mar do Rio de Janeiro, Brasil (1), para Montevidéu, Uruguai (2). Posteriormente, em direção à cidade de Corrientes, na Argentina (3); seguindo rumo a base naval sitiada no no rio Paraguai (4) – percurso aproximado de 3,3 mil quilômetros. No final de 1867, os aliados precisavam urgentemente de uma vitória, uma vez que o moral e a reputação da armada brasileira estavam baixos. A guerra havia lhes custado muitos homens e dinheiro; embora ainda tivessem mão de obra maior. No entanto, eles estavam presos na pequena área do sudoeste do Paraguai. O desastre de Curupaiti afetou profundamente o moral e levou a um ano de inatividade. E promoveu uma já forte facção antiguerra na Argentina. Revoltas armadas irromperam naquele país — especialmente nas províncias andinas — exigindo a paz com o Paraguai. Chegara ao ponto de o comandante-em-chefe aliado, general Bartolomé Mitre, ter que deixar temporariamente o Paraguai com soldados argentinos, a fim de sufocar a revolta, deixando o general brasileiro, o Marquês de Caxias, no comando.
O Brasil financiou suas operações bélicas, em parte, tomando empréstimos nos mercados financeiros, especialmente em Londres, e adiantou recursos para a Argentina e para o Uruguai. A falta de progresso na guerra estava afetando o seu crédito financeiro. Em junho de 1867, Caxias escreveu a um colega: "Meu amigo, vamos ver se podemos concluir esta maldita guerra que tem arruinado o nosso país, e cuja duração nos envergonha".
Linhas de comunicação estendidas Longas linhas de comunicação aumentaram muito a dificuldade e o custo da guerra para o Brasil. De acordo com o enviado americano ao Paraguai, Francisco Solano López apoiou-se nisso ao decidir entrar em guerra com o Império do Brasil. Embarcações a vapor eram o único meio prático de comunicação. Assim, no Brasil, a viagem terrestre de São Paulo para o Mato Grosso demorava dois meses e meio em mula rápida; por navio a vapor, embora o desvio para o sul através do rio da Prata e através do rio Paraguai fosse vasto, poderia ser feito em pouco mais de uma quinzena.
A tensão sobre esta rota foi uma das causas da guerra paraguaia. Munições ou outros mantimentos enviadas do Rio de Janeiro, para o arsenal naval da Isla del Cerrito, perto da foz do rio Paraguai, tiveram que percorrer uma extensa rota fluvial. Embarcações que precisavam ser consertadas não podiam ser enviadas para Buenos Aires por falta de instalações, e o Rio de Janeiro estava longe demais. A Isla del Cerrito ("Ilha do Cerrado") era e é uma pequena ilha na confluência dos rios Paraná e Paraguai. Ali a marinha estabeleceu uma oficina mecânica que empregava 20 homens; um estaleiro com 50 carpinteiros, etc; um bunker de carvão; um moinho de pólvora; um hospital naval; e até uma igreja. Boa madeira naval necessária para reparos foi colhida localmente.
+ Tabela 1: Rota simplificada pelo ministro da marinha.RotaRota fluvialMilhas náuticasQuilômetros Rio de Janeiro (Brasil) a Montevidéu (Uruguai)Atlântico Sul10992036Montevidéu (Uruguai) a Corrientes (NE Argentina)Rio da Prata – Paraná delta do rio Paraná6511206Corrientes (NE Argentina) a proximidade de Humaitá (Paraguai)Rio Paraná – Rio Paraguai1426
Dificuldades thumb|Danos causados aos encouraçados: Tamandaré (esquerda) e Brasil (direita) danificados após o ataque anterior a Curuzú, um forte muito menos poderoso do que Curupaiti ou Humaitá. Embora alguns observadores estrangeiros criticassem a falta de progresso da marinha brasileira e insinuavam que ela deveria ter forçado a passagem há muito tempo, esses observadores não tinham experiência naval. Um dos observadores que efetivamente pertencia a marinha foi o comandante Kennedy da Marinha Real Britânica e escreveu que havia dificuldades reais:
A aproximação do rio a Humaitá — que incluía as fortificações preliminares fortemente armadas em Curupaiti — era superficial, estreita e inexplorada. Diversos "torpedos" (minas navais de contato improvisadas) foram empregados. Era muito raso para as embarcações mais pesadas, exceto durante a ascensão sazonal do rio. A diferença sazonal entre o rio cheio e baixo pode chegar a 3 braças (5 ½ metros). Mas se essas embarcações prosseguissem rio acima eles poderiam fica ancorados ou presos (nem capazes de avançar ou recuar), quando as águas diminuíssem novamente.
Além disso, mesmo que os navios não fossem afundados pelas baterias fluviais do tipo possuído pelo Paraguai, eles poderiam ser seriamente danificados. Balas de canhão às vezes penetravam no casco passando por uma vigia ou uma canhoneira. Quando isso acontecia, o tiro poderia fraturar ou ricochetear dentro da casamata, produzindo uma carnificina terrível. E mesmo que a maioria dos disparos não chegasse ao interior do casco, sua força poderia romper os parafusos do revestimento de ferro, e produzir muitos danos estilhaçando o suporte de madeira. Para marinheiros inexperientes o efeito poderia ser aterrorizante. De qualquer forma, teria sido necessário, de alguma modo, cortar ou evitar as barreiras de corrente, ou então ser detido sob a artilharia paraguaia indefinidamente. De acordo com o Buenos Ayres Standard: Oficiais navais americanos, ingleses e franceses experientes, que haviam visto Humaitá, inspecionaram a posição e passaram pelas baterias, concordaram unanimemente com sua extrema força.
Dissensões entre os comandos thumb|esquerda|Joaquim José Inácio: um homem doente, "um fantasma de um almirante". A Argentina e o Brasil eram inimigos tradicionais. A aliança entre eles era como "cão e gato", só aconteceu porque López declarou guerra a ambos; estava repleto de desconfiança e antagonismo velado. Por razões políticas, o general argentino Bartolomé Mitre era nominalmente comandante-em-chefe, mas isso era ruim para o Brasil, cujas forças terrestres eram muito maiores; na realidade, Mitre teve que buscar consenso com os comandos brasileiro e uruguaio. Além disso, o Tratado da Tríplice Aliança estipulava que as forças navais (para todos os efeitos, a marinha brasileira, uma vez que as forças navais argentinas eram pequenas) deveriam estar "sob o comando imediato" do almirante brasileiro; e o governo brasileiro deixou claro que a marinha não receberia ordens de Mitre.
Durante a guerra, a marinha brasileira foi criticada por sua inércia. Foram os navios modernos e robustos da marinha brasileira que ficaram parados e permitiram que o exército paraguaio que estava se retirando escapasse através do rio Paraná em jangadas — junto com 100 mil cabeças de gado — sem fazer nada para detê-los. Essas mesmas embarcações foram desafiadas por duas chatas paraguaias (barcos rebocadas de fundo chato que montavam uma única arma). Embora o comando naval brasileiro tenha protestado alegando que águas rasas do rio exigiram cautela, o exército brasileiro e o imperador Pedro II ficaram enojados. Como resultado, Joaquim Marques Lisboa — o almirante Tamandaré — foi destituído de seu comando e Joaquim José Inácio (1808-1869) assumiu suas funções em 2 de dezembro de 1866.