Alfred Dreyfus (AFI ; Mulhouse, 9 de outubro de 1859 — Paris, 12 de julho de 1935) foi um capitão da artilharia do exército francês, de fé e origem judaica. Injustamente acusado e condenado por traição - depois anistiado e reabilitado - foi personagem central de um famoso episódio de conotações sociais e políticas, durante a Terceira República Francesa, que ficou conhecido como o caso Dreyfus.Bredin, Jean-Denis - O Caso Dreyfus - Ed. Scritta - 1995

Origens e formação Nascido em Mulhouse, na Alsácia, em uma família judaica alsaciana, Dreyfus cresceu num contexto marcado pela derrota de 1870. Após a anexação da região pelo Império Alemão (1871), seu pai, Raphaël Dreyfus, optou em 1872 por manter a nacionalidade francesa — decisão que, pelo Tratado de Frankfurt (10 de maio de 1871), exigia que os “optantes” deixassem a terra natal; a família passou então a viver fora da Alsácia e, em 1874, Alfred estabeleceu-se em Paris.

Fiel à França desde jovem, decidiu seguir a carreira militar ainda adolescente, após testemunhar a entrada dos prussianos em Mulhouse aos 11 anos. Ingressou na École polytechnique (1878) e, depois, na École de guerre; em 1892, concluiu esta última com menção très bien, classificado em 9.º lugar, sendo designado oficial estagiário no Estado-Maior do Ministério da Guerra. Apesar do excelente desempenho, as partes subjetivas do processo seletivo — a chamada cote d’amour (nota de aptidão ao serviço de Estado-Maior) — prejudicaram-no por preconceito antissemita de avaliadores, incluindo um “5” atribuído pelo general Bonnefond, que lhe custou pontos no resultado final.

Quando foi acusado de traição, em outubro de 1894, Dreyfus servia como oficial estagiário junto ao Estado-Maior do Ministro da Guerra — função que ajuda a explicar a visibilidade do caso que se seguiria.

O Caso

miniatura|esquerda|Alfred Dreyfus em seu quarto na Ilha do Diabo em 1898, estereoscopia vendido por F. Hamel, Altona-Hamburg...; coleção Fritz LachmundIncriminado por um conjunto de documentos falsos, conhecidos como o le bordereau, seu caso repercutiu por todo o mundo. Inserida no quadro de uma campanha nacionalista e revanchista contra o Império alemão, que acabou por assumir características de antissemitismo, com a condenação dos judeus como não-franceses, essa farsa foi sendo aos poucos esclarecida graças à atuação dos escritores Anatole France (1844-1924) e Émile Zola (1840-1902), além do brasileiro Rui Barbosa, uma das vozes pioneiras no caso. O incidente envolveu toda a sociedade francesa, enfraqueceu os monarquistas e abalou o antissemitismo nacional.BBC Radio 4, 8 October 2009,In Our Time, Melvyn Bragg; Robert Gildea, Professor of Modern History at Oxford University; Ruth Harris, Lecturer in Modern History at Oxford University; Robert Tombs, Professor of French History at Cambridge University. (em inglês) Página visitada em 25 de Maio de 2022

A Prisão Em 1894, o capitão Dreyfus foi acusado por setores monarquistas do Exército de ter vendido segredos militares ao Império Alemão. Preso em 15 de outubro de 1894, foi levado para a prisão do Cherche-Midi, no 6.º arrondissement de Paris. O processo teve início em 19 de dezembro e durou apenas três dias, ao fim dos quais Dreyfus foi condenado por unanimidade.

Em 5 de janeiro de 1895, foi publicamente degradado, tendo seus galões de oficial arrancados em uma cerimônia humilhante no pátio da Escola Militar. Pouco depois, em 17 de janeiro, foi transferido para a Île d'Yeu, e em 21 de fevereiro encaminhado para a Ilha do Diabo, na Guiana Francesa, onde deveria cumprir pena de prisão perpétua.

A revelação

Em 13 de janeiro de 1898, no jornal L'Aurore, Émile Zola publicou a célebre carta aberta ao presidente da França, intitulada J'accuse...! (Eu acuso...!), em que denunciava nominalmente os oficiais e autoridades responsáveis pela condenação de Dreyfus. O texto incendiou a opinião pública francesa e marcou o início de uma das maiores crises políticas da Terceira República.

Zola apoiava-se nas descobertas do chefe do serviço secreto francês (a Seção de Estatística), o coronel Georges Picquart, que desde 1896 havia identificado a caligrafia do “bordereau” como sendo a de Charles-Ferdinand Walsin Esterhazy e não a de Dreyfus. Suas conclusões contrariavam o Alto Comando, e Picquart acabou afastado, preso e transferido para a Tunísia, sob a acusação de violar o segredo militar.

Dias antes, em 11 de janeiro de 1898, Esterhazy havia sido absolvido por um Conselho de Guerra, o que precipitou a publicação do artigo de Zola. O escritor foi julgado poucas semanas depois, em 7 de fevereiro, nas Assises de la Seine, e condenado por difamação a um ano de prisão e ao pagamento de três mil francos. Para escapar à prisão, exilou-se em Londres no mês de julho e só regressou à França em 1899.

Em agosto de 1898, o tenente-coronel Hubert-Joseph Henry confessou ter forjado uma das principais provas usadas contra Dreyfus — o documento que ficou conhecido como “faux Henry”. Poucos dias depois, suicidou-se na prisão do Mont-Valérien. O episódio revelou a profundidade da manipulação dentro do exército e acelerou o processo de revisão do caso.

O processo foi então reaberto. Em 1899, um tribunal militar reunido em Rennes voltou a julgar Dreyfus e o condenou novamente, desta vez a dez anos de detenção, por “traição com circunstâncias atenuantes”. O presidente Émile Loubet concedeu-lhe indulto em 19 de setembro do mesmo ano, e o governo aprovou uma lei de anistia, promulgada em 27 de dezembro de 1900, que extinguiu todos os processos relacionados à Affaire Dreyfus. A decisão dividiu os defensores de Dreyfus, muitos dos quais queriam sua plena absolvição judicial.

O caso provocou uma profunda divisão na sociedade francesa, separando dreyfusards e antidreyfusards, e inspirou a fundação da Liga dos Direitos do Homem (LDH), em 4 de junho de 1898, criada para defender Dreyfus e promover a proteção dos direitos e liberdades individuais.

Anos depois, em 12 de julho de 1906, a Corte de Cassação anulou definitivamente a condenação e reconheceu a inocência de Dreyfus. Ele foi reintegrado ao exército e retomou sua carreira militar. Em 15 de outubro do mesmo ano, recebeu o comando de uma unidade de artilharia em Saint-Denis.

Em 4 de junho de 1908, durante a cerimónia de transferência das cinzas de Zola para o Panteão de Paris, Dreyfus foi atingido por um disparo e ferido no braço. O autor do atentado, o jornalista Louis Grégori, foi posteriormente absolvido da acusação de tentativa de homicídio. Terramagazine – Zola, Dreyfus e o Panteão. Acessado em 25 de maio de 2022.

Dreyfus na Primeira Guerra Mundial Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, Dreyfus foi mobilizado como oficial de reserva (chef d’escadron, equivalente a major) de artilharia. Inicialmente serviu no estado-maior da artilharia da zona fortificada de proteção de Paris. A partir de 1917, foi destacado para o parque de artilharia da 168.ª Divisão de Infantaria e atuou no front, notadamente em Verdun e no Chemin des Dames. Em setembro de 1918, foi promovido a tenente-coronel, e, em 9 de julho de 1919, recebeu a roseta de oficial da Legião de Honra.

Morte e posteridade Alfred Dreyfus morreu em Paris em 12 de julho de 1935 e foi sepultado no Cemitério do Montparnasse. Deixou a viúva Lucie Eugénie Hadamard (1869–1945), com quem se casara em 1890, e dois filhos: Pierre Léon Dreyfus (1891–1946) e Jeanne Dreyfus Lévy (1893–1981).

Durante a ocupação alemã da França, Lucie Dreyfus viveu escondida num convento em Valence, auxiliada por amigos e membros da Resistência Francesa. A neta do casal, Madeleine Lévy (1918–1943), filha de Jeanne, atuou na Resistência, colaborando com a Union générale des israélites de France e no abrigo de crianças judias. Foi presa pela Gestapo em 1943, deportada do Campo de Drancy para Auschwitz e morreu no campo, provavelmente de tifo. O nome de Madeleine figura na lápide de Alfred e Lucie no Cemitério do Montparnasse.

Filmes Relacionados L'Affaire Dreyfus, Georges Méliès, Stumm, França, 1899 Trial of Captain Dreyfus, Stumm, Estados Unidos, 1899 Dreyfus, Richard Oswald, Alemanha, 1930 O Caso Dreyfus, Kraemer FW, Rosmer Milton, Estados Unidos, 1931 A Vida de Emile Zola, Estados Unidos, 1937 I Accuse!, José Ferrer, Inglaterra, 1958 Prisoner of Honor, Ken Russell, Estados Unidos, 1991 (centra-se nos esforços do coronel Picquart a fim de anular a sentença de Alfred Dreyfus; o coronel Picquart foi interpretado pelo ator americano Richard Dreyfuss, que cresceu pensando que Alfred Dreyfus e [ele] eram da mesma família) L'Affaire, Dreyfus, Yves Boisset, França, 1995 (lançado na Alemanha sob o título Die Affäre de Dreyfus) J'accuse, Roman Polanski, França, 2019

Galeria

Ver também Antijudaísmo Antissemitismo Charles-Ferdinand Walsin Esterhazy - O verdadeiro culpado L'Affair Dreyfus

Bibliografia Begley, Louis — O Caso Dreyfus: Ilha do Diabo, Guantánamo e o pesadelo da história — São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Dreyfus, Alfred — Diários completos do capitão Dreyfus — Org. e apresentação: Alberto Dines. Imago. 1995. Pagès, Alain — O Caso Dreyfus: Verdades e Lendas — Campinas: Editora Unicamp, 2021. Reinach, Joseph — Histoire de l’Affaire Dreyfus — Paris: Fasquelle, 1901–1911.

Ligações externas

Dreyfus Reabilitado Referências a Alfred Dreyfus nos jornais europeus da época - Manuscritos e cartas pessoais de Alfred Dreyfus Plataforma online no site Musée d'art et d'histoire du judaïsme

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