Preconceito linguístico ou glotofobia é o julgamento depreciativo contra determinadas variedades linguísticas. Segundo a linguista Marta Scherre, o preconceito é um julgamento depreciativo e humilhante que atinge principalmente variedades linguísticas ligadas a grupos de menor prestígio social, como pessoas de baixa escolaridade, de regiões periféricas ou rurais, ou de determinados grupos étnico-raciais.FREITAG, R. M. K. Linguistic prejudice for humanizing machine. Cadernos de Linguística, Campinas, SP, Brasil, v. 2, n. 4, p. e495, 2021. DOI: 10.25189/2675-4916.2021.v2.n4.id495. Disponível em: https://cadernos.abralin.org/index.php/cadernos/article/view/495. Acesso em: 15 dec. 2025.
O preconceito linguístico é definido como um julgamento àqueles indivíduos que não falam ou escrevem de acordo com a norma padrão da língua portuguesa. Essa forma de discriminação está associada ao preconceito social, uma vez que transforma a língua em instrumento de exclusão, fazendo com que determinadas classes sociais e regiões específicas tenham seu modo de falar considerado inferior por não se adequar à gramática. Essa forma de marginalização da sociedade, faz com que as pessoas que sofrem esse preconceito se sintam inferiorizadas e não considera as variações linguísticas.
O termo preconceito linguístico começou a ser utilizado a partir dos estudos da sociolinguística das décadas de 1960 e 1970, que mostraram que as variações da língua refletem diferenças sociais e não como erros. No Brasil, essa abordagem questiona a ideia de língua certa, apontando seu uso como forma de exclusão social e defendendo o respeito às diferentes formas de falar.BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico: o que é, como se faz. 49ª. ed. São Paulo: Loyola, 2007. 186 p. ISBN: 85-15-01889-6. Disponível em: < https://escrevivencia.wordpress.com/2014/03/06/preconceito-linguistico/ > Acesso em: 02 Jan. 2017.
Como a discriminação se apresenta Quando ouvimos alguém falar, nosso cérebro usa certos traços da fala como sotaques, pronúncias ou gírias, para fazer um julgamento social imediato.Sanmartín Rei, Goretti (17 de maio de 2004). «Recensión: Marcos Bagno, A Língua de Eulália. Novela Sociolingüística / Marcos Bagno, Preconceito lingüístico. O que é, como se faz». Revista Galega de Filoloxía: 201–206. ISSN 2444-9121. doi:10.17979/rgf.2004.5.0.5341. Consultado em 16 de novembro de 2025. Esse julgamento se baseia no status que a sociedade atribui a esse modo de falar, e não se a frase está gramaticalmente correta. A pessoa é julgada pelo que a fala representa, e não pelo que ela é.
Na contemporaneidade, esse conhecimento está sendo usado até mesmo para treinar a inteligência artificial (IA). Pesquisadores estudam como adicionar imperfeições na fala dos chatbots para fazê-los parecerem mais humanos, mostrando que o preconceito é uma parte intrínseca da interação social.Freitag, Raquel Meister Ko. (15 de dezembro de 2021). «Preconceito linguístico para humanizar as máquinas». Cadernos de Linguística (4): e495. ISSN 2675-4916. doi:10.25189/2675-4916.2021.v2.n4.id495. Consultado em 16 de novembro de 2025.
Causas do preconceito linguístico O preconceito linguístico surge da falta de compreensão e da desvalorização das diferentes formas de falar no Brasil. Muitas pessoas ainda têm a ideia de que apenas a norma culta é a correta, gerando discriminação contra quem fala de outro modo. De acordo com os linguistas Marcos Bagno e Dinah Callou, isso acontece por conta do ensino tradicional, que durante bastante tempo tratou a língua como algo único e fixo, ignorando as variações linguísticas.
A língua está em constante mudança e reflete a diversidade social e cultural do país, pois falar diferente não é errar, é apenas expressar essa variedade natural da comunicação humana.VIEIRA, A.; NETO, P. ANÁLISE SISTEMÁTICA DO PRECONCEITO LINGUÍSTICO NA SOCIEDADE BRASILEIRA SYSTEMATIC ANALYSIS OF LINGUISTIC PREJUDICE IN BRAZILIAN SOCIETY. [s.l: s.n.]. Disponível em: <https://excellenceeduc.com/revista_cientifica_excellence-V_14_abril_2022_artigo_06.pdf>. Acesso em: 15 dez. 2025.
Exemplos e manifestações
Preconceito linguístico nas escolas O preconceito linguístico nas escolas se apresentam, principalmente, por meio de práticas pedagógicas que valorizam exclusivamente a gramática normativa e a ideia de uma língua padrão. Expressões como “você está falando errado” ou “precisa aprender a norma culta” contribuem para a desvalorização das variedades linguísticas trazidas pelos estudantes, afetando sua autoestima e seu desempenho escolar.SILVA, L.; SILVA, L. Preconceito linguístico e xenofobia em relação ao uso não padrão da língua portuguesa nas mídias sociais. Revista Gatilho, v. 27, 2024.
O preconceito linguístico nas mídias e redes sociais O português não padrão costuma ser ridicularizado e usuários que escrevem ou falam fora da norma culta são alvos de piadas, ofensas e estigmatização.
Essas atitudes revelam uma visão elitista da linguagem, na qual apenas a forma “certa” e escolarizada é valorizada, enquanto outras variedades são vistas como “erradas” ou “inferiores”. Esse preconceito é, na verdade, reflexo de um preconceito social e regional mais amplo, frequentemente associado à xenofobia — como nos ataques virtuais contra nordestinos, que são retratados como “ignorantes” ou “analfabetos”.
Alguns exemplos de preconceito linguístico que ocorreram nas redes sociais:
Ataques à jornalista sergipana Renata Alves, por causa do sotaque.
Um médico que zombou da fala de um paciente nas redes.
Nenhuma forma de falar português é errada, todas as variedades linguísticas são legítimas e expressam a riqueza cultural do Brasil. É preciso combater a ideia de que existe uma única forma “correta” de falar, promovendo o respeito à diversidade linguística e à inclusão digital.Silva, Luana; Silva, Lucimara (31 de dezembro de 2024). «Preconceito linguístico e xenofobia em relação ao uso não padrão da língua portuguesa nas mídias sociais». Revista Gatilho. ISSN 1808-9461. Consultado em 11 de novembro de 2025.
Consequências sociais e educacionais O preconceito linguístico tem como consequências, a acentuação dos demais preconceitos a ele relacionados, como o preconceito cultural, o racismo e a homofobia. Ao ser constrangido, devido ao fato de sua fala não estar de acordo com a norma culta da língua, o falante pode apresentar características como medo e inferioridade.
No ambiente escolar ocorre como uma forma de discriminação que afeta a autoestima e a dignidade dos estudantes, especialmente daqueles que utilizam variedades populares da língua. Ao desvalorizar essas formas de falar, a escola contribui para processos de exclusão social e para o enfraquecimento do vínculo entre professores e alunos. Essa prática afeta o processo de aprendizagem e pode gerar desmotivação entre os alunos que pertencem às classes populares, provocando a evasão escolar. O reconhecimento da pluralidade linguística é essencial para uma educação mais inclusiva e para a promoção do respeito à diversidade e aos direitos humanos.
Combate e superação do preconceito linguístico O combate ao preconceito linguístico exige reconhecer que todas as formas de falar o português são legítimas expressões culturais e identitárias. A superação desse preconceito passa por uma educação linguística que ensine o valor da diversidade linguística e promova o respeito às variações regionais, sociais e culturais.
Nas escolas, é fundamental incluir debates sobre variação linguística, formação crítica dos alunos e valorização das falas locais. Na mídia, é necessário representar a diversidade da língua brasileira sem ridicularização ou estigmas. Já as políticas públicas devem incentivar campanhas educativas e apoiar projetos que disseminem o conhecimento linguístico, fortalecendo o papel dos linguistas na promoção da inclusão e da cidadania linguística.
Ver também Dialeto Linguicídio Hipótese de Sapir-Whorf Etnocentrismo
Bibliografia
FREITAG, Raquel Meister Ko. Preconceito linguístico para humanizar máquina. Cadernos de Linguística, v. 2, n. 4, p. 1-13, 2021. Disponível em: https://cadernos.abralin.org/index.php/cadernos/article/view/495.
Ligações externas
Entrevista com o linguista José Luiz Fiorin, linguista e professor da USP, sobre variação linguística e preconceito linguístico. Gramática e Política, por Sírio Possenti, linguista e professor na UNICAMP. Novos Estudos Cebrap, ed. n° 7, novembro de 1983. Preconceito linguístico, por Sírio Possenti. Revista Ciência Hoje, 23 de dezembro de 2011. Nada na língua é por acaso por Marcos Bagno. Artigo originalmente publicado na revista Presença Pedagógica em setembro de 2006. Preconceito Lingüístico e não lingüístico, por Fábio Della Paschoa Rodrigues. (pt) Você conhece a discriminação linguística?, video
Categoria:Normativismo linguístico Linguistica