Henry David Thoreau (Concord, 12 de julho de 1817 — Concord, 6 de maio de 1862Biography of Henry David Thoreau, American Poems (2000-2007 Gunnar Bengtsson).) foi um autor estadunidense, poeta, naturalista, pesquisador, historiador, filósofo e transcendentalista. Ele é mais conhecido por seu livro Walden, uma reflexão sobre a vida simples cercada pela natureza, e por seu ensaio A Desobediência Civil.

Os livros, ensaios, artigos, jornais e poesias de Thoreau chegam a mais de 20 volumes. Entre suas contribuições mais influentes encontravam-se seus escritos sobre história natural e filosofia, onde ele antecipou os métodos e preocupações da ecologia e do ambientalismo. Seu estilo de escrita literária intercala observações naturais, experiência pessoal, retórica pontuada sentidos simbolistas, e dados históricos; ao mesmo tempo em que evidencia grande sensibilidade poética, austeridade filosófica, e uma paixão "yankee" pelo detalhe prático.Henry David Thoreau : A Week on the Concord and Merrimack Rivers / Walden / The Maine Woods / Cape Cod, by Henry David Thoreau, Library of America, ISBN 0-940450-27-5 Ele também era profundamente interessado na ideia de sobrevivência face a contextos hostis, mudança histórica, e decadência natural; ao mesmo tempo em que buscava abandonar o desperdício e a ilusão de forma a descobrir as verdadeiras necessidades essenciais da vida.

Foi também um notório abolicionista, realizando leituras públicas nas quais atacava as leis contra as fugas de escravos evocando os escritos de Wendell Phillips e defendendo o abolicionista John Brown. Thoreau criou o princípio da desobediência civil, que influenciou o pensamento político e ações de personalidades notáveis que vieram depois dele, filósofos e ativistas como Liev Tolstói, Mohandas Karamchand Gandhi, e Martin Luther King, Jr.

Thoreau é por vezes citado como um anarquista individualista.Encyclopaedia of the Social Sciences, edited by Edwin Robert Anderson Seligman, Alvin Saunders Johnson, 1937, p. 12. Ainda que por vezes sua desobediência civil ambicione por melhorias no governo, mais do que sua abolição – "Não peço, imediatamente por nenhum governo, mas imediatamente desejo um governo melhor"Thoreau, H. D. Resistance to Civil Government – a direção desta melhoria é que ambiciona o anarquismo: "'O melhor governo é o que não governa. Quando os homens estiverem devidamente preparados, terão esse governo”.

Biografia O pai de Thoreau era um pequeno fabricante de lápis, sua mãe, uma dama que contratava pensionistas.Dizionario Letterario Bompiani degli Autori di tutti i tempi e di tutte le letterature, Milano, 1957, vol. III, p. 680 Formou-se na Universidade de Harvard em 1837. Tornou-se discípulo de Ralph Waldo Emerson, com quem manteve uma amizade profunda, como também o fez com outros pensadores transcendentais. Próximo a essa concepção, seu reformismo partia do indivíduo, e não da coletividade, e defendia um estilo de vida em contato profundo com a natureza.

A morte de seu irmão John, ocorrida em 1842, foi uma grande dor para ele. Escrever o livro de diário A Week on the Concord and Merrimack Rivers (1839-1849) o ajudou em sua tentativa de superar a perda de seu irmão e manter sua memória viva. Forte crença no princípio da reencarnação, que perpassa toda a obra por digressões precisas sobre as filosofias orientais e o interessante uso simbólico do rio como elemento de renascimento e continuidade, presente tanto nas filosofias oriental quanto ocidental. Em 1845, para vivenciar uma vida simples e como forma de protesto contra o sistema (desejo de se libertar das obrigações e constrangimentos da sociedade, de não se deixar contaminar pelos resíduos que o trabalho inevitavelmente produz), instalou-se em uma pequena cabana construído por ele mesmo perto do lago Walden, perto de Concord (Massachusetts). Aqui ele pôde se dedicar em tempo integral a escrever e observar a natureza. Após dois anos, em 1847, ele deixou lago Walden para viver com seu amigo e mentor Ralph Waldo Emerson e sua família em Concord (Massachusetts).

Em 1846, Thoreau recusou-se a pagar um imposto (poll tax) que o governo impôs para financiar a guerra no México, que ele considerou moralmente injusto e contrário aos princípios de liberdade, dignidade e igualdade dos Estados Unidos. Por isso, ele foi preso por uma noite e solto no dia seguinte quando, em meio a seus violentos protestos, sua tia pagou o imposto por ele. “Faz seis anos que não pago o poll tax. Uma vez por isso fui preso, por uma noite; e, enquanto eu estava ali examinando as maciças paredes de pedra, com sessenta ou três metros de espessura, a porta de madeira e ferro com trinta centímetros de espessura e as grades de ferro através das quais a luz se filtrava, não pude deixar de ficar impressionado com o absurdo daquela instituição que tratou-me como se eu fosse apenas carne, sangue e ossos, para ser trancado. Fiquei surpreso por finalmente ter concluído que esse era o melhor uso que poderia fazer de mim, e que nunca havia pensado em fazer uso de meus serviços de forma alguma. Percebi que, se houvesse uma parede de pedra entre mim e meus concidadãos, haveria uma ainda mais difícil de escalar ou quebrar antes que eles pudessem ser tão livres quanto eu. Não me senti segregado nem por um momento, e aquela parede parecia-me apenas um grande desperdício de pedra e argamassa. Sentia que só eu, de todos os meus concidadãos, tinha pago o meu imposto. Eles claramente não sabiam como me tratar, mas se comportavam como pessoas rudes. Em cada ameaça e em cada lisonja havia grosseria, pois estavam convencidos de que meu maior desejo era me encontrar do outro lado daquele muro de pedra. Não pude deixar de sorrir ao ver com que diligência eles fechavam a porta diante das minhas reflexões, que os acompanhavam sem impedimento, porém, e que constituíam o único perigo real. Como eles não podiam me alcançar, eles decidiram punir meu corpo; eles se comportaram como certas crianças que, quando não conseguem chegar a alguém de quem se ressentem, acabam maltratando o cachorro. Eu também entendi que o estado era um idiota, um temeroso como uma mulher solteira no meio de talheres, incapaz de distinguir seus amigos de seus inimigos, e assim acabei perdendo todo o respeito que havia deixado por ela., E eu teve pena dele. O Estado, portanto, nunca se mede diretamente com a sensibilidade de um homem, intelectual ou moral, mas apenas com seu corpo, com seus sentidos. Não é dotado de inteligência superior ou honestidade, mas apenas com força física superior."(Retirado da Desobediência Civil) Em 1849 ele escreveu o ensaio Desobediência Civil. Em 1854, ele publicou Walden, ou Life in the Woods, no qual descreveu sua experiência de vida no Lago Walden.

Ele morreu de tuberculose em 1862 em Concord, sua cidade natal.

Ideais Thoreau ecologista Thoreau era um amante da natureza. É considerado, junto com os povos indígenas, um dos avós do movimento ecológico que ganharia forma nos anos 1960. Seus textos e discursos falam sempre sobre as vantagens da vida natural e livre. Sendo assim, Thoreau buscava impedir o massacre e extinção de indígenas e de animais selvagens, defendendo a ideia que a natureza selvagem (wilderness) servia como reservatório de nutrição intelectual aos humanos e por isso protegê-la estaria intimamente ligado à própria preservação da civilização humana. Ele sempre associava natureza e liberdade e, neste aspecto, sofreu forte influência de Jean-Jacques Rousseau e de textos orientais.

Seu ambientalismo se expressa na frase: "Quero dizer uma palavra em defesa do ambiente natural e da liberdade absoluta. Uma declaração extrema pois já há muitos defensores da civilização".

Amava os animais, gostando de observá-los. "Tornei-me vizinho dos pássaros, não por ter aprisionado um, mas por ter me engaiolado perto deles", disse em "Walden". Até o final de sua vida, fez longos passeios pela natureza e dava preferência aos recantos mais selvagens e, em sua concepção, mais livres. Dizia preferir o pântano mais lamacento ao mais belo jardim.

Thoreau era também cético com relação ao progresso tecnológico, especialmente por ser contrário ao embrião de sociedade de consumo que já era a sociedade americana da época.

Thoreau e a guerra México-Americana Parte do imaginário coletivo norte-americano acreditava que era destino dos EUA realizar sua expansão territorial, tinha-se a crença de que a Providência Divina demandava dos norte-americanos uma postura civilizatória, em oposição às forças europeias que supostamente desejavam frear o crescimento da América. Pouco a pouco, essa crença se transmutava num nacionalismo norte-americano, numa visão exaltada de si próprio como povo e Nação. Em Massachusetts, o sentimento para com a guerra se desenvolveu de forma a se afastar desse nacionalismo, parte dessa população não apoiava o embate com os mexicanos. O estado de Massachusetts caracterizou a empreitada americana como uma “guerra de conquista” que dizia interesse para os fazendeiros escravistas. Dentre as pessoas que desaprovavam a guerra México-americana, a oposição mais conhecida é a de Henry David Thoreau, pois “não foi apenas um crítico a guerra como agressão ao México, mas também se negou a pagar impostos como protesto (...)”. Nesse cenário, Thoreau escreveu se escrito mais popular “A Desobediência Civil”, um ensaio no qual criticava os maus governos e propunha um modelo de combate à tirania.

Perante a guerra contra o México, a pergunta que Thoreau se fez, basicamente, foi “como lidar com esse mal?”. Basicamente, a resposta fora “não compactuar com esse mesmo mal”. Henry Thoreau diz em seu ensaio: “Todos os homens reconhecem o direito de revolução; isto é, o direito de recusar obediência ao governo, e de resistir a ele, quando sua tirania ou sua ineficiência são grandes e intoleráveis”. O naturalista se recusou a pagar impostos para o governo americano, a recusa de Thoreau a pagar imposto foi um ato simbólico de protesto contra um governo escravista e que deflagra guerra contra outros indivíduos. O escritor não podia, aos seus próprios olhos, reconhecer um governo que propaga a violência e o mal. E, justamente por isso, aceitou ir para a prisão, afirmando que num governo que prega o aprisionamento moral, o verdadeiro lugar de um homem honesto seria a prisão.

A “resistência”, para esse autor, era a capacidade de se autodefender. Henry Thoreau enxergava o Estado como um todo sob a ótica de que o mesmo está sujeito ao fracasso, afirmando em sua obra: “O governo em si, que é apenas o modo que o povo escolheu para executar sua vontade, está igualmente sujeito ao abuso e à perversão antes que o povo possa agir por meio dele. Prova disso é a atual guerra mexicana, obra de relativamente poucos indivíduos que usam o governo permanente como seu instrumento, pois, desde o princípio, o povo não teria consentido semelhante iniciativa”. A oposição que existia, era não necessariamente entre Governo x Cidadão, mas sim entre Governo x Consciência. A “teoria” thoreauviana tem base no princípio dos indivíduos exercer seu próprio julgamento e não servir ao Estado como uma máquina, que não questiona, ou como um boneco de madeira que pode ser modelado da forma que o escultor (o Estado) desejar.