A história da odontologia dividida em cinco partes.
A odontologia ou medicina dentária é o ramo da área da saúde que se dedica ao estudo, diagnóstico, prevenção e tratamento das doenças que afectam o sistema estomatognático — que engloba os dentes, a cavidade bucal, a face, o pescoço e as estruturas anexas. A história da odontologia é um reflexo directo da evolução da técnica e da ciência humana, tendo transitado de práticas empíricas e rituais religiosos na Antiguidade para uma especialidade de alta precisão tecnológica fundamentada na medicina baseada em evidências.
Ao longo dos séculos, a disciplina evoluiu de uma ocupação exercida por artesãos e "tiradentes" em praças públicas para uma profissão regulamentada, com forte base científica, bioética e um papel central na saúde pública contemporânea.
1º período: da pré-história até o ano 30 O ambiente de trabalho está intimamente ligado aos tempos e ao grau de desenvolvimento da época em que a atividade é exercida. Uma vez que o próprio homem iniciou a sua existência ao livre, e foi aí também que tiveram início as suas primeiras ocupações, seus ofícios, ou melhor, suas profissões, termo que naquele momento, seria demasiadamente pretensioso e até mesmo inexato. Isto ocorreu também na Odontologia.
Quando voltamos ao passado em busca das origens da Odontologia, não encontramos a linguagem direta e efetiva de antigos textos remontando os longínquos séculos; por dedução, quem nos fala são as pedras, as inscrições gravadas, que foram despertas pelas escavações. A escrita inventada pelos Sumérios, no início de estilo pictográfico e depois cuneiforme, feita em tábuas de argila cozida que se conservaram com o passar dos séculos, foi a fase inicial do processo de civilização que aí começava a realizar-se e mediante a qual a humanidade entrava na história. Posteriormente, a escrita cuneiforme foi substituída pela Arameia, cujo alfabeto, tomado dos fenícios, escrevia-se a tinta em pergaminho ou em papiro. Achados arqueológicos dão conta que, em , já se procedera procedimentos cirúrgicos; em uma mandíbula.
A perda de dentes era incomum, nas sociedades do período paleolítico (pré-agrícola): o desenvolvimento da agricultura, há cerca de 10 mil anos, está correlacionado com um aumento na incidência de cavidades (infiltrações bacterianas) nos dentes. Na Itália, foi encontrado um dente infectado que foi parcialmente polido com ferramentas de pederneira. Esse dente tem entre 13.820 e 14.160 anos e representa a mais antiga evidência de prática odontológica já encontrada, embora um estudo de 2017 sugira que há 130 mil anos os neandertais já utilizavam ferramentas odontológicas rudimentares.
Costumes religioso Segundo os antigos, o sol curava todas as enfermidades, inclusive as afecções dentárias. Na Igreja Católica, Santa Apolônia é a santa venerada para as dores dentárias, uma virgem cristã martirizada no (249) em Alexandria de quem se conta foram quebrados todos os dentes com pedras afiadas durante o reinado de Filipe, o Árabe. Conta a tradição cristã que Santa Apolônia, em meio a seu suplício, pediu a Deus que todos os que sofressem de dores dentárias e invocassem seu nome teriam dores intermitentes acalmadas.
2º período: Odontologia da Idade média e os Árabes thumb|right|Um dentista com prata fórceps e um colar de grandes dentes, a extração dos dentes de um homem sentado. (Inglaterra (Londres), 1360-1375 Linguagem: latim.
thumb|right|Um dentista em 1568.
Guy de Chauliac, cirurgião-dentista em Avinhão, introduziu a primeira vez a o termo "dentista", e adotou a ligadura intermaxilar nas fraturas; recomendava que fossem os "dentistas" a remover os dentes. O manuscrito médico inglês mais antigo foi o "Guy de Chauliac's surgery".
A figura dos "tiradentes" continua típica até 1700, trabalhando nas praças dos mercados, uma multidão de curiosos e um público que não é difícil adivinhar, ou seja, do tipo animado, caloroso, e sonoro.
Três tipos de fórceps podem ser distinguidos na história da evolução dos mesmos: um remotíssimo, que não se adaptava ao colo do dente pela ausência de adaptação anatômica de suas garras; um intermediário esquecido e suplantado por outros instrumentos; e mais recente, anatômico, coincidindo com o renascimento da Odontologia em seu todo. A verdadeira ressurreição da Odontologia identifica-se em 1700. O segundo tipo evidentemente foi inspirado na tenaz comum: as garras são abertas em anel com as pontas em justaposição, sendo utilizado durante séculos, com poucas modificações, nas obras de Walter Hermann Ryff (Strasburg, 1545), Jacques Guillemeau (França, 1594), Peter Lowe (1597); tipo idêntico ao Guillemeau, Johannes Scultetus (Alemanha, 1646), etc. O terceiro, inicialmente de forma reta, para as raízes e fragmentos dentários, cuja derivação é patente de Abulcasis, repete a comparação deste com o bico da cegonha.
thumb|right|Caravaggio (1571-1610). Em torno de 1700 a exodontia enriqueceu-se de novos instrumentos, pela pouca praticidade dos botições que, desprovidos de garras anatômicas, frequentemente provocavam fratura das coroas dentárias. O "pelicano" foi denominado e descrito por Giovanni d'Arcoli (1450 - 1524). Tal instrumento não correspondia de forma adequada, e enormes eram os perigos da exodontia. Ambroise Paré (1510 - 1590) afirmou que: "verdadeiramente é preciso ser muito hábil no emprego destes pelicanos, porque se não se sabe bem ajeitar-se, fácil é errar chegando a puxar fora ca boca três dentes de uma vez, deixando no lugar o cariado do doente. Segundo Weinberger, em 1542 Ambroise Paré relembrou o antigo método da compressão do tronco do nervo para produzir anestesia local e menciona transplante, obturação e fixação dos dentes com ouro. O "pelicano" foi o primeiro fórceps, definido por Casotti como "o mais formidável, emotivo instrumento da antiga cirurgia dentária, esquisito e fantástico", que por quatro séculos, isto é, até 1800 dominou as extrações dentárias. As características morfológicas do "pelicano" são: constituído por uma haste metálica principal, que de um lado funciona como cabo e no outro extremo termina em uma parte redonda e entalhada, com função de apoio. O instrumento é horizontal, adquirindo a forma de "y" quando aberto. A parte redonda e entalhada era apoiada vestibularmente sobre o maxilar (revestido por uma pele ou tecido), ou dois dentes mesialmente àquele a ser extraído, aplicando-se o gancho neste dente, contra o colo; com o apoio e fulcro na porção redonda aplicava-se um enérgico golpeem direção mesial sobre o cabo, impedindo o gancho para fora, levando o dente consigo.
thumb|left|Agricultor no dentista, Johann Liss, c. 1616-17. Como característica principal do "pelicano" e da técnica de utilização é que o apoio - fulcro não era realizado no mesmo dente a ser extraído e por isso a movimentação do braço o obviamente era horizontal. As primeiras modificações ocorreram na parte redonda, tornando-a semi-lunar convexa, entalhada ou obtusa; posteriormente com: Francisco Martinez (Espanha, 1557) e Woodal (1617) semilunar côncava entalhada, Ferrara (1627) semilunar côncava com três pontas, René J. C. de Garengeor (França, 1725) semilunar lisa, e assim por diante.Bobbio,. A pelicano e levriero: antigos instrumentos exodônticos - incógnitas e elucidações. Rev Assoc. Paul. Cir Dent., v. 16, nº 3 p. 127-46, 1962.
Como tentativa em relação ao aperfeiçoamento do "pelicano" procurava-se simplificá-lo para torná-lo mais prático. Assim, Giovanni Andre Della Croce (1514 - 1575), ilustre cirurgião de Veneza dedicou-se particularmente ao instrumental cirúrgico, deixando-nos em sua obra "Chirugia universalis opus absolutum" (1596), considerada texto clássico, a descrição pormenorizada do instrumental contemporâneo e daquele introdutório por ele; neste tratado surge pela primeira vez um "pelicano" extremamente simplificado. Este instrumento, diretamente derivado do "pelicano" é o protótipo do famoso "levriero" que foi utilizado juntamente com o "pelicano" durante vários séculos, constituindo a forma intermediária da passagem para a "chave inglesa" ou "chave de Garengeot".
3º período: De Fauchard à descoberta do trépano a pedal - 1728 a 1871 Claude Mouton, em 1746, publicou o primeiro trabalho relacionado à prótese, descrevendo a confecção de faceta em ouro para esmalte em dentes anteriores, e o uso de grampos para próteses parciais
Em 1754, Lecluse idealizou uma alavanca especial para extração dos terceiros molares inferiores.
A profissão evoluiu em vários setores, sendo que em 1756, Philip Pfaff publicou o primeiro livro da Odontologia alemã, onde ensinava o preparo de modelos de gesso, após a moldagem, para confecção da prótese dentária; esse profissional praticou o capeamento pulpar. Próximo ao final do século, surgiu uma inovação, a dos dentes em porcelana.
Em 1788 Nicolas Dubois De Chémant, removendo uma prótese construída com dentes humanos sobre uma base de hipopótamo, observou um cheiro insuportável que contaminou todo o ambiente; assim teve a ideia de confeccionar uma prótese com material inalterável, embora encontrasse dificuldade pela contração da porcelana durante o cozimento.Bobbio, A. Etapas históricas da Odontologia. Ln: LIVRO HORÁRIO DENTAL GAÚCHO, 1976. São Paulo: Marquart, p. 13, 1976. Em 1794, John Greenwood começou a usar a primeira coroa de porcelana, e em 1840 apareceram as primeiras coroas de porcelana a pino, para montar sobre a raiz.
Difundindo-se costume do atendimento na residência do dentista, logo surgiram os primeiros consultórios montados com certa funcionalidade e racionalismo. Bobbio,. A. Evolução histórica do consultório odontológico. In. LIVRO HORÁRIO DENTAL GAÚCHO 1978. São Paulo: Marquart, p. 39-51, 1978.
A definição do consultório coincidiu com as primeiras cadeiras expressamente fabricadas para esta finalidade. A mais antiga, talvez em todo o mundo, foi a utilizada nos Estados Unidos por Josiah Flagg, de 1790 a 1812. Além de fixo e almofadado para a cabeça, possuía duas gavetas para os instrumentos, sob o assento e sob o apoio de braços do lado direito; era inteiramente de nogueira, e a iluminação provinda da janela, em cuja direção estava colocada a cadeira. Esse profissional começou a praticar a Odontologia em Boston, em 1783.
Em 1810, temos poltronas mais confortáveis com uma bandeja acoplada.
As técnicas e métodos de higienização sofreram modificações ao longo do tempo, sendo que podemos encontrar atualmente uma infinidade de escovas, dentifrícios, fios e fitas dentais. além de outros meios auxiliares de higiene bucal, com cada característica e indicações próprias a cada paciente.
4º período: Do trépano a pedal à Alta-rotação - 1871 a 1956 Em 1872 a S. S. White Company colocou no mercado o primeiro motor elétrico, que havia sido inventado por Geoge Green, abrindo caminho para um grande desenvolvimento em todos os países. Apenas no final de 1800 C. Edmund Kells introduziu a eletricidade em seu consultório.
Embora a primeira cadeira odontológica totalmente metálica tenha sido fabricada em 1871, ainda em 1884 a história nos mostra cadeira e armário em madeira.
Após a descoberta de Koller em 1884, da anestesia tópica da cocaína, a anestesia local foi pouco substituída a anestesia geral em Odontologia, dando início à anestesia local contemporânea, utilizando a procaína.
Em 1892 surgiu uma cadeira odontológica completamente inovadora, a de Wilkerson, cujos movimentos antes realizados por manivelas passaram a ser feitos por alavancas.
Devido à necessidade de manter o paciente com a boca aberta por longo períodos de tempo, especialmente nas restaurações com ouro e nos tratamentos endodônticos, devido ao emprego do dique de borracha, idealizou-se um aparelho para sucção de saliva, acionado pela passagem de corrente de água, este tornou possível o moderno sugador de saliva, que foi finalmente introduzido em 1882.
5º período: As especialidades - Prevenção, Implante, Odontologia Social - 1956 a 2000