Resumo do Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1 realizado em Interlagos em 30 de março de 1972. Prova extracampeonato destinada a homologar o circuito e inserir uma nova etapa no calendário, foi vencido pelo argentino Carlos Reutemann, da Brabham-Ford, teve Ronnie Peterson em segundo pela March-Ford e Wilson Fittipaldi em terceiro pela Brabham-Ford.
Resumo Sem Interlagos nem Fórmula 1 Realizado em 12 de julho de 1936, o Grande Prêmio Cidade de São Paulo atraiu cerca de 100 mil pessoas às ruas do Jardim América. Nele a francesa Hellé Nice disputava a terceira posição com Manuel de Teffé quando perdeu a calota de uma das rodas, deslocando um dos fardos de alfafa que serviam como guard rail na esquina da Avenida Brasil, causando uma freada brusca que a fez ser lançada do carro em rodopios. Ao cair, o veículo atravessou a pista da direita para a esquerda e explodiu o radiador próximo a um grupo de curiosos ali presentes. Salva de uma queda fatal por um guarda civil, Nice recebeu cuidados hospitalares imediatos, mas o caos só não foi maior porque os demais pilotos notaram a movimentação anormal e reduziram a velocidade de seus carros, enquanto as autoridades de trânsito e a Guarda Civil firmaram um perímetro para garantir a chegada das equipes médicas. Ao todo, cinco pessoas morreram e trinta e cinco ficaram feridas.Conforme a Folha da Manhã de 3 de julho de 1936, a Rádio Record transmitiu esta corrida em cadeia com a Rádio Tupi, instalando alto falantes em São Paulo e no Rio de Janeiro. Nos dias seguintes divulgou-se o nome de João Ferreira Fontes como o narrador do evento.
O impacto da tragédia impulsionou a construção de um autódromo entre a Represa Billings e a Represa de Guarapiranga, área visitada por Manuel de Teffé e na qual morreria o piloto Joaquim Simões de Souza, vítima de uma queda num barranco a vinte metros de altura após perder-se numa curva em 1939, quando o traçado da pista não era asfaltado. Inaugurado em 12 de maio de 1940, o Autódromo de Interlagos realizou neste dia sua primeira competição automobilística, no caso mais uma edição do Grande Prêmio Cidade de São Paulo, vencido por Artur Nascimento Júnior, que subiu ao pódio junto a Chico Landi e Geraldo Avelar. Palco das Mil Milhas Brasileiras, 24 Horas de Interlagos e dos Mil Quilômetros de Interlagos, dentre outras competições, o autódromo esteve fechado ou sob reformas na maior parte do tempo entre 1967 e a chegada da Fórmula 1 ao país.
Mesmo com acabamento por fazer, arquibancadas incompletas, serviços funcionando parcialmente e restrições de acesso ao público, o Autódromo de Interlagos foi reaberto em 1º de março de 1970, para a realização de uma prova de Fórmula Ford a partir das 14 horas. Após duas baterias, um público estimado entre 80 e 100 mil pessoas, testemunhou a vitória de Emerson Fittipaldi com seu irmão Wilson Fittipaldi em segundo e o britânico Ian Ashley em terceiro lugar. No início de 1972, reformas complementares permitiram a realização do Grande Prêmio do Brasil, uma etapa homologatória à inserção do país no calendário da Fórmula 1.
Chico Landi abriu o caminho Quando Interlagos foi inaugurado, o automobilismo brasileiro já dispunha de uma corrida renomada, o Grande Prêmio Cidade do Rio de Janeiro, realizado no Circuito da Gávea entre 1933 e 1954 pelo Automóvel Clube do Brasil. Praias, montanhas e florestas compunham o visual nas cercanias do circuito, de 11 km de extensão e muitas curvas em "Z", rendendo-lhe o apelido de "Trampolim do Diabo". Seu primeiro vencedor foi Manuel de Teffé, e no ano seguinte, Irineu Corrêa (primeiro brasileiro a vencer uma corrida no exterior, a Chester Fair em Chester, no estado norte-americano de Connecticut, em 1920). Com a morte de Corrêa, em 1935, a prova foi dominada por estrangeiros até a ascensão de Chico Landi, vencedor em 1941, 1947 e 1948. Parte do calendário da FIA, a corrida foi vencida, em seus últimos anos, por Luigi Villoresi, José Froilán González e Emmanuel de Graffenried, pioneiros da Fórmula 1.
Vencedor do Grande Prêmio de Bari em 1948 com uma Ferrari 166, Chico Landi inscreveu uma Maserati no Grande Prêmio da Alemanha de 1951 pela Escuderia Bandeirantes, mas tornou-se o primeiro brasileiro a correr na Fórmula 1 quando sua citada equipe inscreveu uma Ferrari no Grande Prêmio da Itália. Coube a Landi ser o primeiro brasileiro a pontuar, com o quarto lugar obtido no Grande Prêmio da Argentina de 1956, ao dividir uma Maserati com o italiano Gerino Gerini.Chico Landi (46 voltas) e Gerino Gerini (46 voltas) revezaram-se na condução do carro 10 e por isso dividiram os três pontos relativos ao quarto lugar. Ao longo da década, Gino Bianco, Hermano da Silva Ramos e Fritz d'Orey também correram na Fórmula 1, mas depois deles o Brasil passou onze anos sem representantes na categoria.
Estreia da Rede Globo O retorno do Brasil ao grid da Fórmula 1 ocorreu no Grande Prêmio da Grã-Bretanha de 1970, transmitido pela Rede de Emissoras Independentes (TV Record de São Paulo via canal 7 e TV Rio do Rio de Janeiro via canal 13), com narração de Wilson Fittipaldi, pai do estreante Emerson Fittipaldi, embora a televisão estivesse ausente na vitória do brasileiro no Grande Prêmio dos Estados Unidos realizado 78 dias depois. A etapa britânica foi a única corrida transmitida para o território brasileiro até a intervenção do jornalista Antônio Carlos Scavone. Fundador da revista AutoEsporte e ex-piloto de Fórmula 3, ele era diretor da Rede Globo e negociou os direitos do Grande Prêmio do Brasil com Bernie Ecclestone, o que permitiu a transmissão em cores do evento, iniciando ali uma conhecida e longeva relação comercial e midiática entre as partes.
Diretor do Autódromo de Interlagos, Wilson Fittipaldi ocupava-se dos aspectos operacionais do evento, enquanto Antônio Carlos Scavone lidava com assuntos variados: emissão de credenciais para a corrida, busca por patrocinadores e o atendimento à imprensa. Embora a presença da Rede Globo fosse importante, a cobertura feita pelos mass media não se limitou aos veículos especializados no esporte a motor, como AutoEsporte e Quatro Rodas, pois Reginaldo Leme trabalhava para O Estado de S. Paulo, enquanto O Globo contava com Janos Lengyel e a Rádio Jovem Pan com Claudio Carsughi, entre outros nomes. Submetido ao calendário, o Grande Prêmio do Brasil foi marcado para 30 de março de 1972, uma Quinta-feira Santa, com 37 voltas previstas e início às 16 horas.
Pole de Emerson Fittipaldi Seis equipes inscreveram dezesseis carros para correr no Brasil, das quais Lotus e Brabham foram as únicas a utilizar dois bólidos: o time de Colin Chapman trouxe Emerson Fittipaldi e Dave Walker, enquanto o de Bernie Ecclestone escalou Carlos Reutemann e Wilson Fittipaldi, assim como a Frank Williams Racing Cars será representada por José Carlos Pace e Henri Pescarolo. Originalmente, a March apresentou a tríade Ronnie Peterson, Luiz Pereira Bueno e Niki Lauda, mas o austríaco não virá a Interlagos. Por outro lado, a BRM apresentou Jean-Pierre Beltoise, Peter Gethin e Howden Ganley, com as inscrições adicionais do austríaco Helmut Marko e do espanhol Alex Soler-Roig. Por fim, a equipe de John Surtees completou a "lista de chamada" com Andrea de Adamich e Reine Wisell.
Entretanto, somente doze carros foram à pista no treino de terça-feira, com Ronnie Peterson na liderança, com Carlos Reutemann e Peter Gethin entre o sueco e Emerson Fittipaldi, em quarto lugar, com Henri Pescarolo e José Carlos Pace vindo a seguir após duas baterias, para a satisfação de Frank Williams. Os tempos, porém, ficaram acima do esperado graças à areia na pista, embora incidentes tenham acontecido: Pescarolo bateu levemente no guard-rail após rodar na curva da Ferradura e o câmbio de Pace quebrou. Sétimo colocado, Dave Walker ficou na frente de Luiz Pereira Bueno e Wilson Fittipaldi, o irmão mais velho de Emerson, cabendo às últimas posições para Jean-Pierre Beltoise, Helmut Marko e Alex Soler-Roig, pilotos da BRM. No dia seguinte, repetiu-se a ausência de Howden Ganley e a não participação da Surtees, cujos carros não ficaram prontos a tempo. Por conta desses desfalques, doze pilotos terão seis filas a preencher na quarta-feira.
Hábil conhecedor de Interlagos, Emerson Fittipaldi trocou o aro das rodas, regulou o câmbio e ajustou os amortecedores, melhorando a aceleração e reduzindo a trepidação da Lotus, marcando a pole position dois segundos à frente de Carlos Reutemann, enquanto Ronnie Peterson abriu a fila seguinte ao lado de Wilson Fittipaldi, ou seja, a March do piloto sueco ficou espremida entre os carros da Brabham. Dave Walker pôs a outra Lotus em quinto lugar, ao lado da BRM de Jean-Pierre Beltoise, enquanto a Frank Williams Racing Cars capturou a quarta fila, com José Carlos Pace adiante de Henri Pescarolo. Com a March de Luiz Pereira Bueno em décimo lugar, as posições restantes couberam à BRM, com Peter Gethin em nono enquanto Helmut Marko e Alex Soler-Roig ficaram na última fila.
Resultados Treino classificatório Pos. Nº Piloto Construtor Tempo Dif. 1 1 Emerson Fittipaldi Lotus-Ford 2:32.363 — 2 8 Carlos Reutemann Brabham-Ford 2:34.387 + 2.024 3 10 Ronnie Peterson March-Ford 2:34.616 + 2.253 4 9 Wilson Fittipaldi Brabham-Ford 2:36.344 + 3.981 5 2 Dave Walker Lotus-Ford 2:37.686 + 5.323 6 14 Jean-Pierre Beltoise BRM 2:37.793 + 5.430 7 6 José Carlos Pace March-Ford 2:39.376 + 7.013 8 5 Henri Pescarolo March-Ford 2:40.021 + 7.658 9 15 Peter Gethin BRM 2:40.988 + 8.625 10 11 Luiz Bueno March-Ford 2:41.606 + 9.243 11 17 Helmut Marko BRM 2:46.391 + 14.028 12 18 Alex Soler-Roig BRM 2:51.541 + 19.178Fontes:
Corrida Pos. Nº Piloto Construtor Voltas Tempo/Diferença Grid 1 8 Carlos Reutemann Brabham-Ford 37 1:37:16.248 2 2 10 Ronnie Peterson March-Ford 37 + 1:32.656 3 3 9 Wilson Fittipaldi Brabham-Ford 37 + 2:03.379 4 4 17 Helmut Marko BRM 36 + 1 volta 11 5 2 Dave Walker Lotus-Ford 36 + 1 volta 5 6 11 Luiz Bueno March-Ford 35 + 2 voltas 10 Ret 1 Emerson Fittipaldi Lotus-Ford 32 Suspensão 1 Ret 18 Alex Soler-Roig BRM 11 Parte elétrica 12 Ret 6 José Carlos Pace March-Ford 1 Acelerador 7 Ret 5 Henri Pescarolo March-Ford 0 Acelerador 8 Ret 15 Peter Gethin BRM 0 Acelerador 9 DNS 14 Jean-Pierre Beltoise BRM Ignição 6 DNQ 12 Andrea de Adamich Surtees-Ford DNQ 7 Reine Wisell Surtees-Ford WD 3 Jacky Ickx Ferrari WD 4 Clay Regazzoni Ferrari WD 16 Howden Ganley BRMFontes:Voltas na liderança: Wilson Fittipaldi 02 voltas (1–2); Emerson Fittipaldi 30 voltas (3–32); Carlos Reutemann 05 voltas (33–37).
Brasil 1972 Categoria:Esporte no Brasil em 1972 Categoria:1972 em São Paulo