A crise timorense de 2006 iniciou como um conflito entre elementos do exército de Timor-Leste contra discriminações no seio militar, e se expandiu para uma violência geral por todo o país centrada na capital Díli. A crise desencadeou uma intervenção militar de outros países e levou à renúncia do primeiro-ministro Mari Alkatiri.

Antecedentes A crise surgiu de uma disputa dentro do Exército de Timor-Leste (FDTL), quando soldados do oeste do país reclamaram de que estavam sendo discriminados em favor de soldados do leste. Os do leste (em tétum, Lorosae) compunham a maior parte da Falintil, o movimento de guerrilha que resistiu à autoridade indonésia, e que, em troca, após a independência em 2002, passou a formar a maioria da FDTL. Em contraste, os “Loromonu” (palavra em tétum que significa “ocidentais”) tiveram menos destaque na resistência, e foram menos favorecidos estrutura militar. Também houve tensões entre as forças militares e a polícia, composta principalmente de “Loromonu” e até mesmo por ex-membros do exército indonésio. thumb|left|300px|Localização de Timor-Leste. Em 8 de fevereiro de 2006, 404 soldados, de um contingente regular de cerca de 1500, saíram de seus acampamentos, acompanhados por outros 177 a 25 de fevereiro. Os soldados receberam ordens de retornar em março, porém a recusaram, e ficaram sem receber pagamento. Os soldados posteriormente receberam a adesão de alguns membros da força policial, e foram inicialmente liderados pelo tenente Gastão Salsinha.

O ministro das Relações Exteriores do país, José Ramos-Horta, anunciou no início de abril que um painel seria estabelecido para ouvir as queixas dos ex-soldados, porém acrescentou que "eles não vão ser todos reincorporados ao exército, exceto com uma verificação caso a caso na qual estabeleceremos as responsabilidades de cada indivíduo em todo este incidente".

Violência thumb|right|300px|Mapa de Díli e cercanias.

A 24 de abril os ex-soldados e seus apoiantes civis, principalmente jovens desempregados, marcharam pelas ruas da capital Díli em protesto. A marcha inicialmente pacífica tornou-se violenta quando os soldados atacaram um mercado administrado por pessoas originárias do leste do país. Os protestos continuaram por vários dias, até que a 28 de abril os ex-soldados confrontaram-se com as forças da FDTL, que atiraram na multidão. A violência resultante deixou 5 mortos, mais de 100 prédios destruídos, e cerca de 21.000 moradores de Díli deixaram a cidade.

A 4 de maio, o major Alfredo Reinado, junto com 20 policiais militares de um pelotão sob seu comando, assim como 4 integrantes da polícia antimotim desertaram e se juntaram às forças rebeldes, levando com eles dois caminhões cheios de armas e de munição. Após se juntar aos soldados, Reinado instalou sua base na cidade de Aileu nas montanhas ao sudoeste de Díli. Ali ele e a polícia do exército guardavam a estrada que levava às montanhas.

Na noite de 5 de maio, os ex-soldados sob a liderança de Salsinha escreveram uma declaração pedindo ao presidente Xanana Gusmão para demitir o primeiro-ministro Mari Alkatiri e abolir as FDTL em 48 horas. Quando Gusmão contatou Salsinha na manhã daquele dia numa tentativa de evitar a divulgação da declaração, Salsinha disse-lhe que era "tarde demais".

Os soldados rebeldes permaneceram nas montanhas próximo à capital, onde eles travaram combates esporádicos contra as Forças de Defesa de Timor-Leste (FDTL) durante várias semanas seguidas. Gangues violentas também atacavam nas ruas de Díli, queimando casas e carros. Os civis que fugiram de Díli abrigaram-se em barracas próximas à cidade ou em igrejas na periferia da capital. Um único convento católico fornecia ajuda da Cruz Vermelha a cerca de 7000 pessoas.

Em 8 de maio um policial foi morto quando um grupo de 1000 pessoas cercou um complexo governamental, o escritório de uma secretaria regional de estado, numa vila próxima a Díli. A 9 de maio, o primeiro-ministro Mari Alkatiri descreveu a violência que se iniciara no dia 28 de abril como um golpe, “com o objetivo de bloquear as instituições democráticas impedindo-as de funcionar, de modo que a única solução fosse a dissolução do parlamento nacional pelo presidente… o que provocaria a queda do governo." Entretanto a 10 de maio Alkatiri anunciou que autoridades do governo mantiveram negociações com os soldados rebeldes, nas quais foi acertado que os rebeldes receberiam um subsídio igual ao seu salário militar anterior para assistir suas famílias.

As forças de paz da ONU deixaram Timor-Leste em 20 de maio de 2005, e o pessoal administrativo e os policiais lotados no Escritório da ONU em Timor-Leste (UNOTIL) tinham saída marcada para 20 de maio de 2006, mas no dia 11 de maio a data limite de sua retirada foi estendida pelo menos até junho. A decisão veio junto com o pedido do Ministro de Relações Exteriores José Ramos-Horta para que o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos investigasse alegações de violações de direitos humanos pela polícia de Timor-Leste, tal como alegado pela Human Rights Watch e pelo Departamento de Estado dos EUA. A 12 de maio o primeiro-ministro da Austrália John Howard anunciou que, embora não tivesse havido solicitação formal por parte do governo de Timor-Leste, as forças australianas estavam de prontidão para fornecer assistência, com os transportadores anfíbios HMAS Kanimbla e HMAS Manoora já se deslocando para o norte em preparativos.

A escalada de violência aumentou em maio, quando um soldado das FDTL foi morto e 5 outros feridos numa escaramuça no dia 23. O ministro de relações exteriores Ramos-Horta enviou um pedido oficial de ajuda militar a 24 de maio aos governos da Austrália, Nova Zelândia, Malásia e Portugal. A 25 de maio, quando as primeiras tropas internacionais estavam chegando, alguns soldados renegados deslocavam-se para Díli e engajavam-se em combates pesados contra as forças policiais e da FDTL, resultando possivelmente em 20 mortos.

Intervenção Operação Astute é a resposta militar internacional à crise. Liderada pelas Forças de Defesa Australianas e comandada pelo brigadeiro Michael Slater da 3ª Brigada Australiana, a operação envolve forças de quatro países.

Austrália thumb|Forças de Defesa Australianas. O Primeiro-ministro em exercício da Austrália, Peter Costello, anunciou em 24 de maio que as forças australianas seriam dispostas em Timor-Leste, com a composição do efetivo e os termos da participação sendo acertados nos próximos dias. A Austrália inicialmente ofereceu entre 1000 e 1300 soldados de infantaria, três navios de guerra (o HMAS Manoora e o HMAS Kanimbla, que já estavam fundeados próximo ao país, e ainda o HMAS Tobruk) junto com outros equipamentos de apoio.

Na tarde de 25 de maio, 4 helicópteros UH-60 Black Hawk e um avião C-130 Hercules pousaram no aeroporto de Díli com a primeira leva de forças australianas. Em 26 de maio esperava-se que todas as forças australianas tivessem chegado a Timor-Leste até o dia seguinte, um dia antes do prazo inicialmente esperado.

A disposição de tropas em Timor-Leste coincidiu com a retirada de cerca de 260 dos 400 soldados australianos enviados às Ilhas Salomão. Os 140 restantes seriam apoiados por tropas da Nova Zelândia e de Fiji. No entanto, o ministro da defesa Brendan Nelson disse que o envio de tropas em Timor-Leste não significava estender a permanência da Força de Defesa Australiana, declarando "nós temos muito mais cartas na manga".

Malásia A Malásia respondeu enviando tropas, inicialmente 219 paraquedistas e soldados da 10ª Brigada sediada em Terendak, Málaca, e uma unidade das forças especiais de Mersing Camp, em Johor, comandada pelo Coronel Ismeth Nayan Ismail. Este grupo era parte dos 275 militares e 200 policiais que foram postos em alerta de possível mobilização. A Malásia planejara enviar um total de 500 pessoas anteriormente. Por volta de 23 de junho, já havia 333 malaios, tanto da polícia quanto das forças militares estacionados em Díli.

Dois navios da marinha da Malásia — KD Mahawangsa e KD Inderasakti — transportaram os equipamentos para as tropas malaias, incluindo blindados, para Díli. Os dois navios chegaram em Díli a 3 de junho. As tropas receberam noções básicas da língua tétum, falada pela população do país, para se apresentarem como forças de paz.

Ao chegarem, as forças malaias ficaram encarregadas de proteger embaixadas, o porto, centrais elétricas, depósitos de petróleo e hospitais em Timor-Leste. A segurança das missões diplomáticas recebeu prioridade. Pouco antes, o presidente Xanana Gusmão pediu à Malásia para patrulhar a fronteira entre Timor-Leste e a Indonésia, para impedir que civis deixassem o país. A Malásia entretanto recusou-se a fazê-lo.

Em meados de junho, a Malásia anunciou um plano de envio de 250 policiais para Timor-Leste. A polícia malaia treinara previamente a polícia local durante quatro anos. De acordo com a rádio e televisão malaia, a força policial de 250 homens partiria para Timor-Leste no final de junho.

Nova Zelândia A 25 de maio de 2006, a primeira-ministra neozelandesa Helen Clark pediu mais informações, antes de enviar forças, sobre qual o tipo de apoio que Timor-Leste precisaria da Nova Zelândia. Ela disse que "é muito importante não entrar no que é, em alguns aspectos, uma disputa de facções, para tomar um partido", e que "é também importante ter em mente que o Conselho de Segurança das Nações Unidas também está fazendo consultas."

A 26 de maio a Nova Zelândia enviou 42 soldados, com um segundo contingente de 120 deixando Christchurch a 27 de maio, em direção a Townsville, Queensland antes de seguir para Timor-Leste. A primeira-ministra disse que as forças seriam desembarcadas quando o comando australiano necessitasse.

Portugal O ministro dos negócios estrangeiros (de 'relações exteriores' na designação brasileira) de Portugal, Freitas do Amaral, anunciou a 24 de maio um envio inicial de 120 guardas republicanos. Eles se juntariam a um grupo de 8 altos-oficiais do Grupo Especial de Operações da Polícia Nacional Portuguesa. A Força Aérea Portuguesa iniciara a evacuação de mais 600 cidadãos portugueses residentes em Timor.

O presidente Cavaco Silva, assim como o primeiro-ministro José Sócrates pediram o fim da violência. Num encontro de ministros de relações exteriores da União Europeia, o ministro Freitas do Amaral posteriormente pediu aos outros membros da UE que denunciassem as ações violentas dos rebeldes.

ONU e outros organismos Em 25 de maio a UNOTIL abriu um campo de refugiados fora de Díli que poderia abrigar até 1000 pessoas. Entretanto, a 27 de maio à medida que a violência aumentava, a ONU anunciava que ela pretendia retirar a maioria de seu pessoal do país.

O executivo chefe da World Vision australiana, reverendo Tim Costello, anunciou em 27 de maio que ele viajaria a Díli para tomar conhecimento da situação, de modo a ajudar civis deslocados. Ele também expressou preocupação com a notícia de que um trabalhador da World Vision tinha sido morto.

Violência continuada

Apesar das expectativas de que a presença de tropas internacionais fosse amainar os distúrbios, a violência continuou em toda a cidade de Díli e em outras partes de Timor-Leste.

Em 27 de maio, gangues de diversas partes do país lutaram nas ruas de Díli, destruindo automóveis e casas e lutando com facas, catanas e atiradeiras, deixando pelo menos 3 timorenses mortos. Os moradores de Díli continuavam a deixar a cidade, tendo alguns buscado refúgio na embaixada australiana e outros ido para o aeroporto. Um oficial da ONU demonstrou preocupações pelo fato de o conflito localizado inicialmente no seio militar estar se espalhando e se tornando um conflito regional entre a população civil, dizendo “(atualmente) é um acerto de contas entre grupos diferentes." Da mesma forma, um padre católico descreveu a violência das ruas como "...leste contra oeste, soldados contra soldados, polícia contra soldados, todos contra todos... É uma loucura total."