miniaturadaimagem|Símbolo do Museu do Vaticano. Os Museus Vaticanos (Musei Vaticani) constituem um conglomerado de renomadas instituições culturais da Santa Sé, que abrigam extensas e valiosas coleções de arte e antiguidades colecionadas ao longo dos séculos pelos diversos pontífices romanos. Além destas instituições relativamente independentes entre si, das quais algumas possuem também subse(c)ções mais ou menos autônomas, os Museus Vaticanos supervisionam uma série de outros espaços dentro dos palácios da cidade do Vaticano, como galerias e capelas, que por si mesmos guardam alto interesse arquitetônico, histórico e artístico.
A maior parte de suas coleções estão abrigadas no Palácio dos Museus Vaticanos e na Pinacoteca Vaticana.
Histórico
Desde a Idade Média o papado foi acumulando um significativo acervo de obras de arte, algumas remontando ao Império Romano, que eram mantidas no Patriarcado de Latrão, a antiga residência papal. Entre as peças mais importantes estavam a Loba capitolina, a Estátua equestre de Marco Aurélio e fragmentos de duas estátuas colossais representando Constantino I (veja Colosso de Constantino), mas nesse período não havia uma consciência museológica, a coleção não era sistematizada e não havia um programa de aquisições. Somente ao longo do Renascimento, quando surgiu um renovado interesse pela arte e cultura clássicas da Antiguidade, e os grandes aristocratas começaram a formar importantes coleções privadas de relíquias arqueológicas e objetos de arte antigos, é que a ideia moderna de museu começou a se formar.Claridge, Amanda. Rome: an Oxford archaeological guide. Oxford University Press, 1998. pp. 386-400 thumb|esquerda|Planta dos Museus Vaticanos thumb|left|O Apolo Belvedere, a primeira obra incorporada aos Museus Vaticanos Acompanhando essa tendência, em 1503 o papa Júlio II transferiu para o Vaticano o Apolo Belvedere, instalando-o num pequeno palácio de repouso projetado por Pollaiuolo para Inocêncio VIII, o Palazzetto. A fim de aproveitar melhor o espaço, Júlio II incumbiu Bramante da construção de uma galeria para conectá-lo aos seus aposentos privados (hoje conhecidos como as Salas de Rafael) no Palácio do Vaticano. As obras incluíam a criação de um pátio, onde seria plantado um pomar de laranjeiras adornado com fontes, o antecessor do atual Pátio do Belvedere. Os muros do pátio teriam nichos, onde seriam instaladas esculturas e outras peças, entre elas o Apolo, treze grandes máscaras de mármore e a estátua da Vênus Félix. Em 1506 a incipiente coleção foi enriquecida com o Grupo de Laocoonte, descoberto neste ano nas Termas de Trajano. Pouco depois o pátio recebeu uma obra de Ulisse Aldovrandi representando Hércules com o pequeno Télefo.O'Neil, John P. (ed.). The Vatican Collections: The Papacy and Art. The Metropolitan Museum of Art, 1982, pp. 14-
Em 1512 a fonte foi embelezada com duas grandes estátuas jacentes de deuses fluviais, representando os rios Tibre e Nilo, descobertas no Campo de Marte. Foi comprada a Ariadne adormecida da coleção do cardeal Maffei, e uma outra estátua de um deus fluvial foi transformada em uma fonte por Michelangelo. Este pátio se tornou conhecido na época como Antiquário das Estátuas, e foi mantido como um espaço privado, onde somente eram recebidos convidados especiais. Artistas de renome também tinham acesso à coleção, como Michelangelo, Rafael, Francisco de Holanda, Baccio Bandinelli e Leonardo da Vinci, que estudaram e fizeram desenhos das obras expostas. No pontificado de Clemente VII (1523-1534) as aquisições continuaram, destacando-se um torso de Hércules, o chamado Torso do Belvedere, muito louvado na época, e uma cópia romana da Afrodite de Cnido de Praxíteles. Em 1543 foi incorporada uma estátua de Hermes encontrada nas vizinhanças do Castelo de Sant'Angelo, que preencheu o último nicho ainda vazio.
Júlio III fez algumas reformas do Antiquário, mas seus dois sucessores, Paulo IV e Pio IV, preferiram investir na decoração do Teatro do Belvedere e na Casina, adornando-os com estátuas antigas. No período da Contra-Reforma a presença de estátuas pagãs no Vaticano passou a ser considerada inadequada. O papa Pio V removeu muitas obras, algumas doadas ao Antiquário do Capitólio, que mais tarde deu origem aos Museus Capitolinos, e outras para o duque de Florença, o cardeal de Augsburgo e o arquiduque Maximiliano II. Pio V chegou a pensar em desfazer-se de toda a coleção, e isso só não aconteceu por intervenção de alguns cardeais. Assim, o papa selecionou algumas peças que julgou aceitáveis, mas impôs que permanecessem fora das vistas do público, ordenando que os nichos fossem fechados com portas de madeira.
O interesse pelo colecionismo só voltou a aparecer quando Clemente XI subiu ao trono papal em 1700. Aconselhado pelo antiquário Francesco Bianchini, o papa organizou o Museu Eclesiástico no Belvedere, composto principalmente por baixos-relevos e inscrições, reunidos para documentar a história primitiva da Igreja. O Museu Eclesiástico teve vida curta, dissolvido antes do fim do seu pontificado, mas a ideia de um museu papal foi mantida viva pelos responsáveis pela Biblioteca Vaticana, e sob Clemente XII (1730-1740) foi montada na Galeria Clementina uma exposição de moedas com a aquisição da coleção do cardeal Alessandro Albani e de vasos etruscos com a coleção do cardeal Filippo Antonio Gualterio. O papa seguinte, Bento XIV, era um erudito e amante da arte, e adquiriu várias coleções importantes: a do cardeal Gaspare Carpegna, com vasos de porcelana, pinturas e relíquias das catacumbas; a de Francesco Ficoroni, a do padre Gori e a de Saverio Scilla, com grande número de moedas pontifícias, e as de vasos de ouro reunidas pelo senador Buonarroti e pelo cardeal Flavio Chigi. Para abrigar a rica coleção doada por Francesco Vettori, o papa decidiu criar o Museu Cristão. Clemente XIII (1758-1789) reorganizou a coleção profana num espaço especialmente construído no fim da Galeria Clementina, nomeando-o Museu Profano, com um acervo de moedas, relevos, marfins e bronzes. Nesta época as coleções começam a ser conhecidas pelo nome de Museu Vaticano. thumb|Entrada dos Museus Vaticanos thumbnail|O complexo do Palácio dos Museus Vaticanos visto a partir da cúpula da Basílica de São Pedro
O estudo da Antiguidade continuava em alta e a ciência da Arqueologia estava se consolidando. Muitas escavações eram realizadas na Itália, e Roma se tornou o maior centro europeu de comércio de antiguidades. A Igreja detinha o privilégio de adquirir, à sua escolha, antes de outros colecionadores, um terço de todos os achados das escavações no Lácio e em muitos casos adquiria uma proporção muito maior, ao mesmo tempo em que o papado buscava entre os nobres a aquisição de peças suplementares. Clemente XIV (1769-1774) teve grande preocupação em impedir que peças importantes encontradas nas escavações não saíssem de Roma, preservando obras de grande relevo como a Coleção Mattei, os chamados Candelabros Barberini e a estátua de Meleagro de Escopas. O contínuo afluxo de novas peças exigia mais espaços para guarda, e Clemente incumbiu o arquiteto Alessandro Dori de remodelar o Palazzetto do Belvedere, criando a Galeria de Estátuas, a Sala dos Bustos e a Sala dos Animais. O Pátio também foi reformado, as portas de madeira dos nichos foram removidas e foi construído um pórtico monumental. As obras de reorganização se estenderam à Biblioteca Vaticana, com a sistematização das coleções de epígrafes e papiros e redecoração dos seus espaços.
Pio IX (1775-1799) deu continuidade às obras em uma escala ainda mais vasta, consolidando o que se chamou Museu Pio-Clementino, que pode ser considerado o núcleo inicial dos Museus Vaticanos em sua forma moderna. Construiu duas novas alas e um complexo de grandes galerias, incluindo uma nova Sala dos Animais, a Sala das Musas, a Sala Redonda e a Sala da Cruz Grega, além de interligar os edifícios e incrementar a decoração com mármores, afrescos e estuques. Entre as aquisições mais preciosas de seu pontificado estão os grupos das Musas e dos Filósofos encontrados na Villa de Cássio, o Apolo Sauróctono de Praxíteles, o colossal Gênio de Augusto, a Juno Sóspita achada na antiga Lanúvio, a Afrodite de Doidalsas, uma cópia do Discóbolo de Míron e o Mosaico das Máscaras.
Com a invasão de Roma em 1798 por Napoleão Bonaparte muitas obras foram confiscadas e levadas a Paris, entre elas o Apolo Belvedere e o Grupo de Laocoonte, desfalcando seriamente o acervo papal. Pio VII (1800-1823) procurou compensar as perdas adquirindo grande quantidade de outras peças, proibiu a saída de antiguidades dos Estados Pontifícios, fundou o Museu Chiaramonti e expandiu-o com o Braço Novo, construiu a Galeria Lapidária para lápides e epígrafes antigas, e indicou o escultor Antonio Canova como Inspetor-Geral de Antiguidades e Belas Artes, que conseguiu em 1816 trazer de volta para Roma a maior parte do espólio tomado por Napoleão, mas as coleções de moedas e gemas havia sido em sua maior parte dispersa. Também criou a Pinacoteca Vaticana, reunindo obras do Palácio Vaticano e dos Museus Capitolinos, afrescos antigos e pinturas dispersas pelas igrejas e mosteiros dos Estados Pontifícios. Leão XII (1823-1829) adquiriu várias obras importantes, entre elas estátuas da antiga Villa de Adriano, relevos do Fórum de Trajano, o Mársias de Míron, um grupo de retratos da família imperial Júlio-Claudiana e o Mosaico dos Atletas encontrando nas Termas de Caracala, além de enriquecer a Pinacoteca e criar a Galeria dos Candelabros.
Gregório XVI (1831-1846) continuou a obra de seus antecessores, fundando o Museu Etrusco (1828) e o Museu Egípcio (1839) com achados em escavações e com peças espalhadas em várias coleções públicas e estatais, e o Museu Gregoriano Profano de Latrão (1844), com uma seleta de peças greco-romanas de caráter pagão que não foram consideradas adequadas para permanecer em exposição nos recintos do Vaticano. Foi ampliado em 1854 sob Pio IX (1846-1878) com a ramificação do Museu Pio-Cristão, com esculturas, sarcófagos e outras obras de caráter cristão. Importantes descobertas arqueológicas foram feitas durante seu pontificado, sendo incorporadas às coleções, como o Augusto de Prima Porta, o Apoxiômenos de Lísipo e um grande Hércules de bronze. Mas quando a capital do Reino de Itália foi transferida de Florença a Roma em 1870, o papado perdeu seu privilégio sobre as aquisições arqueológicas, e a entrada de novos itens foi muito reduzida.Noticias históricas. Museos Vaticanos. Página oficial
No , o interesse aquisitivo se diversificou, foram criados museus etnológicos, históricos e de arte moderna, e as coleções começaram a ser reorganizadas de acordo com critérios museológicos mais aprimorados. Pio X estabeleceu em 1910 o Lapidário Hebreu, com inscrições de antigos cemitérios judeuss de Roma doadas pelos marqueses de Pellegrini-Quarantotti. A Pinacoteca foi instalada pelo Pio XI em um edifício especialmente construído para ela, e em 1926 foi fundado o Museu Missionário-Etnológico. João XXIII reorganizou as coleções do Museo Gregoriano Profano, do Museo Pío-Cristão e do Lapidário Hebreu e as transferiu do Palácio de Latrão para o atual edifício dentro do Vaticano, inaugurado em 1970. Em 1973 foi criada a Coleção de Arte Religiosa Moderna e Contemporânea, sendo instalada nos Apartamentos Borgia. No mesmo ano foi organizado o Museu Histórico do Vaticano, com uma série de retratos papais expostos nos apartamentos papais de Latrão e uma se(c)ção de carruagens e automóveis. Em 2000 foi inaugurada uma nova entrada para o complexo de museus, com instalações para vários serviços e onde são expostas obras de arte especialmente criadas para o ambiente. No itinerário dos Museus Vaticanos estão incluídos os Palácios Vaticanos, onde se encontram outros espaços e coleções de grande importância como a Capela Sistina, as Salas de Rafael, a Galeria dos Mapas, a Galeria das Tapeçarias e os Apartamentos Borgia.