A tartaruga-das-galápagos ou tartaruga-gigante-de-galápagos (Chelonoidis nigra) (Quoy & Gaimard, 1824), é uma espécie de tartaruga da família Testudinidae, endêmica do arquipélago de Galápagos, no Equador. Pertence ao gênero Chelonoidis, o mesmo ao qual pertencem os jabutis encontrados no Brasil como o jabuti-argentino.

É a maior espécie de tartaruga terrestre existente e o 10º réptil mais pesado do mundo, podendo chegar aos 400 kg, com um comprimento de mais de 1,8 m. É também um dos vertebrados de vida mais longa. Um exemplar mantido em um zoológico australiano, chamado Harriet, atingiu a idade de 170 anos. São conhecidas várias subespécies, embora sua classificação seja polêmica. São herbívoros que se alimentam de frutas, líquens, folhas e cactos.

Desde o descobrimento do arquipélago no século XVI elas foram caçadas intensamente para alimentação, especialmente de marinheiros, e seu número original, que se calcula em torno de 250 mil indivíduos, decaiu para pouco mais de 3 mil na década de 1970. Outros fatores também contribuíram para o declínio acentuado, como a introdução de novos predadores pelo homem e a destruição de seu habitat. Em breve começaram a ser realizados projetos de recuperação das populações, e hoje o total de indivíduos chega a quase 20 mil. Mesmo assim ainda é considerada uma espécie vulnerável pela IUCN. Pelo menos duas subespécies já foram extintas - C. n. abingdoni e C. n. nigra - e somente dez das cerca de quinze originais ainda existem em liberdade.

As características morfológicas da carapaça óssea das tartarugas-das-galápagos variam de acordo com o ambiente de cada ilha. Esta variabilidade permite subdividir a espécie em vários subtipos, cada um característico de uma ilha, ou de uma parte dela. Esta diversidade morfológica foi reconhecida por Charles Darwin, durante a sua visita ao arquipélago em 1835, e foi um dos argumentos para a sua teoria da evolução das espécies.

Taxonomia As Ilhas Galápagos foram descobertas em 1535, mas só foram incluídas nos mapas em torno de 1570.Stewart, P. D. Galápagos: the islands that changed the world. Yale University Press, 2006, p.43 Foram desde logo denominadas Insulae de los Galopegos (Ilhas das tartarugas) por causa da presença desses animais. Jackson, Michael Hume. Galápagos, a natural history. University of Calgary Press, 1993, p. 1 Inicialmente as tartarugas gigantes do oceano Índico e das Galápagos foram consideradas pertencer à mesma espécie, e pensava-se que os marinheiros haviam causado a sua dispersão.Chambers, Paul. "The origin of Harriet". In: New Scientist, nº 2464, p. 27 Em 1783 Johann Gottlob Schneider classificou todas as tartarugas gigantes como Testudo indica,Schneider, Johann Gottlob. Allgemeine Naturgeschischte der Schildkröten nebs einem systematischen Verzeichnisse der einzelnen Arten und zwey Kupfen. Leipzig, 1783, pp. 355–356 mas no século XIX outros cientistas propuseram outros nomes, como Testudo gigantea (Schweigger, 1812),Schweigger, August Friedrich. "Prodromi monographiae chelonorum sectio prima". In: Archivfur Naturwissenschaft und Mathematik, volume 1, 1812, pp. 271–368; 406–462 Testudo nigra (Quoy & Gaimard, 1824)Quoy, J. R. C.; Gaimard, J. P. "Sous-genre tortue de terre – testudo. brongn. tortue noire – testudo nigra". In: De Freycinet, M. L. Voyage autour du Monde ... exécuté sur les corvettes de L. M. "L'Uranie" et "La Physicienne," pendant les années 1817, 1818, 1819 et 1820. Paris, 1824,pp. 174–175 Testudo californiana (Quoy & Gaimard, 1824) e Testudo elephantopus (Harlan, 1827).Harlan, Richard. "Description of a land tortoise, from the Galápagos Islands, commonly known as the Elephant Tortoise". In: Journal of the Academy of Natural Sciences of Philadelphia, volume 5, 1827, pp. 284–292 A identificação da tartaruga-das-galápagos como espécie distinta foi feita em 1834 por André Marie Constant Duméril e Gabriel Bibron, que lhe atribuíram o nome Testudo nigrita.Duméril, André Marie Constant & Bibron, Gabriel. Erpétologie générale; ou, histoire naturelle complète des reptiles. Librarie Encyclopédique de Roret, 1834 Ao longo do tempo outros nomes foram propostos: Testudo planiceps (Gray, 1853); Testudo clivosa (Garman, 1917); Testudo typica (Garman, 1917); Testudo (Chelonoidis) elephantopus (Williams, 1952); Geochelone (Chelonoidis) elephantopus (Pritchard, 1967); Chelonoidis elephantopus (Bour, 1980)

O nome específico nigra foi ressuscitado em 1984.Pritchard, Peter Charles Howard. "Further thoughts on Lonesome George". In: Noticias de Galápagos, volume 39, 1984, pp. 20–23 Poucos anos depois o subgênero Chelonoidis foi elevado ao status de gênero, a partir da descoberta de evidência filogenética que o colocou em um novo clade.Le, Minh et alii. "A molecular phylogeny of tortoises (Testudines:Testudinidae) based on mitochondrial and nuclear genes". In: Molecular Phylogenetics and Evolution, volume 40, nº 2, 2006, pp. 517–531 Sua taxonomia exata é bastante disputada, especialmente no que tange às subespécies,Pritchard 1996, p. 63Swingland, I.R. (1989). "Geochelone elephantopus. Galapagos giant tortoises". In: Swingland I.R. and Klemens M.W. (eds.) The conservation biology of tortoises. Occasional Papers of the IUCN Species Survival Commission (SSC), No. 5, pp. 24–28. Gland, Switzerland: IUCNFritts, Thomas H. (1984). "Evolutionary divergence of giant tortoises in Galapagos". In: Biological Journal of the Linnean Society 21 (1–2): 165–176De Vries, T. J. The giant tortoises: a natural history disturbed by man. Pergamon Press, 1984, pp. 145–156Caccone, Adalgisa et alii. "Phylogeography and history of the giant Galapagos tortoises". In: Evolution, volume 56, nº 10, 2002, pp. 2052–2066 Além disso ela tem uma extensa sinonímia, há pouco citada, mas o nome científico Chelonoidis nigra (Quoy & Gaimard, 1824), é atualmente aceito por várias autoridades, incluindo a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN) e a Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES).. Tortoise & Freshwater Turtle Specialist Group 1996. Chelonoidis nigra. In: IUCN 2012. IUCN Red List of Threatened Species. Version 2012.1 Fritz, U. & Havaš, P. "Checklist of Chelonians of the World". In: Vertebrate Zoology, volume 57, nº 2, 2007, pp. 149–368CITES Appendices I, II and III 2011. 22 dez 2011 thumb|O último exemplar da subespécie C. n. abingdoni, chamado "Jorge Solitário". Morreu em 2012, extinguindo consigo a subespécie thumb|Exemplar da subespécie G. n. becki thumb|Exemplar da subespécie G. n. porteri thumb|Exemplar da subespécie G. n. chathamensis A primeira pesquisa sistemática sobre esses animais foi realizada em 1875 por Albert Günther, associado ao Museu Britânico. Ele identificou pelo menos cinco populações diferentes nas ilhas Galápagos, e três nas ilhas do oceano Índico. Em 1877 a sua lista foi expandida para cinco populações nas Galápagos, quatro nas ilhas Seicheles e quatro nas ilhas Mascarenhas. Günther imaginava que todas derivavam de uma única população ancestral que havia se dispersado através de pontes de terra mais tarde submersas.Günther, Albert. "Description of the living and extinct races of gigantic land-tortoises. parts I. and II. introduction, and the tortoises of the Galapagos Islands". In: Philosophical Transactions of the Royal Society of London, Biological Sciences, vol. 165, 1875, pp. 251–28 Sua teoria foi refutada quando se compreendeu que as Galápagos, bem como as Seychelles e as Mascarenhas, eram ilhas de formação vulcânica recente, e jamais haviam sido interligadas por pontes de terra. Hoje se acredita que as tartarugas-das-galápagos provêm de um ancestral sulamericano,Caccone, Adalgisa et alii. "Origin and evolutionary relationships of giant Galapagos tortoises". In: Proceedings of the National Academy of Sciences. Volume 96, nº 23, 1999, pp. 13223–13228 enquanto que as do oceano Índico descendem de um ancestral de Madagascar.Austin, Jeremy & Arnold, E. Nicholas. "Ancient mitochondrial DNA and morphology elucidate an extinct island radiation of Indian Ocean giant tortoises (Cylindraspis)". In: Philosophical Transactions of the Royal Society of London, série B, volume 268, nº 1485, 2001, pp. 2515–2523Austin, Jeremy; Arnold, E. Nicholas; Bour, Roger. "Was there a second adaptive radiation of giant tortoises in the Indian Ocean? Using mitochondrial DNA to investigate speciation and biogeography of Aldabrachelys". In: Molecular Ecology, volume 12, nº 6, 2003, pp. 1415–1424 No fim do século XIX Georg Baur e Walter Rothschild reconheceram a existência de mais cinco populações.Baur, G. "The Gigantic Land Tortoises of the Galapagos Islands". In: The American Naturalist, volume 23, nº 276, 1889, pp. 1039–1057Rothschild, Walter. "On a new land-tortoise from the Galapagos Islands". In: Novitates Zoologicae, volume 8, 1901, p. 372 Rothschild, Walter. "Description of a new species of gigantic land tortoise from Indefatigable Island". In: Novitates Zoologicae, volume 10, 1903, p. 119 Rothschild, Walter. "Description of a new species of gigantic land tortoise from the Galápagos Islands". In: Novitates Zoologicae, volume 9, 1902, p. 619 Em 1906 a Academia de Ciências da Califórnia coletou espécimens os confiou a John Van Denburgh para que os estudasse, resultando identificadas quatro populações adicionais e postulando a existência de quinze espécies diferentes.Van Denburgh, J. "The gigantic land tortoises of the Galapagos archipelago". In: Proceedings of the California Academy of Sciences, série 4, volume 2, nº 1, 1914, pp. 203–374 Van Denburgh, John. "Preliminary descriptions of four new races of gigantic land tortoises from the Galapagos Islands". In: Proceedings of the California Academy of Sciences, série 4, volume 1, 1907, pp. 1–6 Sua lista ainda orienta a taxonomia moderna. Rhodin, A. G. J.; van Dijk, P. P. "Turtles of the world, 2010 update: Annotated checklist of taxonomy, synonymy, distribution and conservation status". In: Iverson, J.B.; Shaffer, H.B. Turtle taxonomy working group. Chelonian Research Foundation, 2010, pp. 33–34

Hoje sobrevivem na natureza apenas cerca de dez subespécies - o número exato também é polêmico. Charles Darwin visitou as ilhas em 1835, a tempo de ver cascos dos últimos representantes da subespécie Chelonoidis nigra nigra, supostamente extinta na década de 1850. Em 24 de junho de 2012 a subespécie Chelonoidis nigra abingdoni foi declarada extinta com a morte do último exemplar conhecido, que era chamado de "Jorge Solitário".Broom, R. "On the extinct Galápagos tortoise that inhabited Charles Island". In: Zoologica, volume 9, nº 8, 1929, pp. 313–320Steadman, David W. "Holocene vertebrate fossils from Isla Floreana, Galápagos". In: Smithsonian Contributions to Zoology, volume 413, nº 413, 1986, pp. 1–103 Sulloway, F. J. (1984). Darwin and the Galápagos. In Berry, R. J. "Evolution in the Galápagos Islands". Biological Journal of the Linnean Society 21 (1–2): 29–60

Entretanto, no início de 2020, pesquisadores encontraram nas proximidades do vulcão Wolf, 30 tartarugas gigantes híbridas, com linhagem parcial das espécies Chelonoidis nigra abingdoni e Chelonoidis nigra nigra, ambas consideradas extintas. Destas tartarugas encontradas, 11 são machos e 19 são fêmeas, e entre estas, está uma jovem fêmea que é descendente direto da espécie do George Solitário. De acordo com a entidade Galapagos Conservancy, essa jovem tartaruga pertence à espécie tartaruga-das-galápagos-de-pinta (Chelonoidis nigra abingdoni), pois foi constatado que ela possui 16% dessa espécie considerada extinta.

Subespécies C. abingdoni - Ilha de Pinta (extinta em 2012. Existe uma subpopulação híbrida em Isabela e, possivelmente, ainda pode existir alguns indivíduos puros.) C. becki - Ilha Isabela C. chatamensis - Ilha de São Cristóvão C. darwini - Ilha de Santiago C. donfaustoi - Ilha de Santa Cruz C. duncanensis - Ilha de Pinzón C. guntheri - Ilha Isabela