thumb|upright|Arco do Repouso nas Muralhas de Faro, onde terá repousado (de acordo com uma lenda) no "fim" da Reconquista O Reino do Algarve, ou, após 1471, Reino dos Algarves, foi um reino nominal anexo ao Reino de Portugal, localizado na região mais meridional do território continental português, que existiu formalmente até o final da Monarquia Portuguesa em 1910. Apesar de formalmente distinto do Reino de Portugal, foi sempre administrado na prática como parte integrante dele, sendo o conjunto dos dois ocasionalmente referido como "Reino de Portugal e Algarves".
Em 1471, foram nele integrados os territórios portugueses no Norte de África, passando então a existir o Algarve de aquém-mar (compreendendo a parcela europeia original do reino, que corresponde à atual região portuguesa do Algarve) e o Algarve de além-mar em África (compreendendo Ceuta e outros territórios atualmente pertencentes a Marrocos).
Em 1815, tornou-se um dos três reinos integrantes do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, que durou até 1822 de facto e até 1825 de jure. Após esse período, continuou a integrar o Reino de Portugal e Algarves.
História Entre 1249 e a implantação da República Portuguesa em 5 de outubro de 1910, o Algarve constituiu o segundo reino da Coroa Portuguesa.
Durante toda a sua existência histórica, constituiu um reino de direito separado do Reino de Portugal, ainda que de facto não dispusesse de instituições, foros, privilégios próprios ou algum tipo de autonomia. Na prática, correspondia apenas a um dos títulos honoríficos dos monarcas portugueses, associado a uma determinada região, a qual em nada se diferenciava do resto de Portugal.
Como tal, nunca nenhum monarca português foi aclamado ou tratado como sendo apenas "Rei do Algarve". No momento da sagração, era sempre aclamado como "Rei de Portugal e do Algarve" (até 1471), e mais tarde como "Rei de Portugal e dos Algarves" (a partir de 1471).Nos Censos do tempo da Monarquia há apenas a referência a «Portugal» (1864 e 1878) ou ao «Reino de Portugal» (1890 e 1900), sem qualquer referência à existência ou ao estatuto especial de qualquer Reino do Algarve, que surge simplesmente como mais um distrito de Portugal (distrito de Faro).
O Algarve islâmico
Em 711, no contexto da expansão islâmica, as tropas muçulmanas atravessaram o estreito de Gibraltar e deram início à conquista da Península Ibérica, à qual chamaram "Alandalus" (). Toda a península acabou por ficar sob o domínio islâmico, exceto um pequeno núcleo de habitantes cristãos que conseguiram resistir nas montanhas das Astúrias.COELHO, António Borges, Portugal na Espanha Árabe: História, Lisboa: Editorial Caminho, 1989
Os árabes referiam-se genericamente ao extremo ocidental do seu império (aproximadamente correspondente ao atual território de Marrocos, Portugal e Galiza) como al-Garbe (الغرب, [al-Gharb]), significando literalmente "o Ocidente". O Gharb al-Andalus ou Garbe do Andaluz (غرب الأندلس [Gharb al-’Andalus]) correspondia especificamente à região do Ocidente do Alandalus.[https://journals.openedition.org/medievalista/929 REI, António, Medievalista, "O Gharb al-Andalus em dois geógrafos árabes do século VII / XIII: Yâqût al-Hamâwî e Ibn Sa‘îd al-Maghribî", 2005]
A Reconquista da Península Ibérica, lançada a partir do núcleo de resistência cristã nas Astúrias, fez com que, progressivamente, o limite norte do território do Gharb al-Andalus em poder islâmico fosse recuando para sul. No século XII, o território remanescente do Gharb al-Andalus corresponderia já aproximadamente ao do moderno Algarve.
Primeira reconquista cristã Como sequência da Reconquista cristã, vários estados viriam a surgir na Península Ibérica, um dos quais o de Portugal. Criado inicialmente como um condado vassalo do Reino de Leão, Portugal tornar-se-ia num reino independente sob D. Afonso Henriques, reconhecido como tal pelo Tratado de Zamora, firmado a 5 de outubro de 1143. Os condes e depois Reis de Portugal prosseguiram o avanço para Sul, gradualmente recuperando o território em poder árabe e aproximando-se do que é hoje o moderno Algarve.
Em 1189, o rei D. Sancho I de Portugal - com o auxílio de cruzados dinamarqueses e frísios - conquista Silves, pela primeira vez. Silves era a mais importante cidade do Gharb al-Andalus e havia chegado a ser a capital da Taifa de Silves (antigo emirado que ocupava o ocidente algarvio), mas pertencia então ao Califado Almóada, posto que todo o Andaluz se achava unificado sob o seu domínio. A importância da reconquista de Silves, fez com que D. Sancho I assumisse, pela primeira vez, o título de "Rei do Algarve". Passou assim a usar, nos seus diplomas, a fórmula "Rei de Portugal e do Algarve" ou alternativamente "Rei de Portugal e de Silves". Em casos pontuais, aparece ainda a conjugação dos três títulos, sob a forma de "Rei de Portugal, de Silves e do Algarve".
A justificação desta nova titulação régia prende-se, provavelmente, com a tradição peninsular dos monarcas irem agregando, aos seus aos títulos, os das principais conquistas efetuadas. Assim, como exemplo, os reis de Leão e Castela assumiram igualmente os títulos de "reis de Toledo", "reis de Sevilha", etc..
Contudo, o uso daquele título por parte de D. Sancho I de Portugal cessou, pouco depois, na sequência da reconquista de Silves pelas tropas do Califado Almóada, em 1191.
Reconquista definitiva
O Califado Almóada viria a ver desagregados seus os domínios no Alandalus, que se dividiram em vários emirados independentes, conhecidos por "taifas". Uma delas, foi a Taifa de Niebla, com capital na homónima atual cidade andaluz, ressurgida em 1234, quando Ibne Mafuz se proclamou seu emir. O emir Ibne Mafuz acabou por integrar o território ainda islâmico do Gharb al-Andalus no seu Estado e, como tal, proclamou-se "Rei" ou "Emir do Algarve" (أمير الغرب ['amir al-Gharb]).<ref name="Coelho">HENRIQUES, António Castro, A conquista do Algarve, Carnaxide: Tribuna da História, 2010
Ao mesmo tempo, as conquistas portuguesas e castelhanas para o Sul prosseguiam. No reinado de D. Sancho II conquistaram-se as derradeiras praças alentejanas e ainda a maior parte do Algarve moderno, na margem direita do rio Guadiana; à data da sua deposição e posterior abdicação, restavam do Algarve muçulmano apenas pequenos enclaves em Aljezur, Faro, Loulé e Albufeira, os quais, devido à descontinuidade territorial e à distância que os separava de Niebla, se tornaram independentes do seu domínio.
Assim sendo, de facto, Sancho II de Portugal afigurar-se-ia como o segundo rei português a poder usar o título de Rei do Algarve, na esteira de seu avô — o que provavelmente só não fez devido às suas outras preocupações internas, designadamente a guerra civil que o opôs ao seu irmão, o conde de Bolonha e infante Afonso.
Com efeito, foi este que, subido ao trono em 1248, se encarregou da conquista dos derradeiros enclaves mouriscos no Algarve, assumindo em 1249 o título de "Rei de Portugal e do Algarve", que não mais deixaria de ser utilizado pelos seus sucessores até ao fim da monarquia em Portugal.
O rei de Niebla e emir do Algarve, para obstar às conquistas perpetradas pelos Portugueses nos seus territórios, fez-se vassalo de Afonso X de Castela (o qual passou por isso também a usar o título de Rei do Algarve entre as suas múltiplas conquistas), cedendo-lhe o domínio do Algarve português. Assim, muito provavelmente, a intitulação de Afonso III de Portugal serviria como reacção a esta tomada de posição pelo vizinho castelhano, destinando-se a fortalecer os direitos do monarca português sobre a região em causa (pois que, como já foi dito, à intitulação e ao estatuto de reino não correspondia nem foros nem privilégios nem autonomia própria).
A questão acabou por ser dirimida entre os soberanos de Castela e de Portugal, pelo tratado de Badajoz de 1267; o rei Afonso X desistia das suas pretensões sobre o antigo Gharb al-Andalus, fazendo do seu neto D. Dinis o herdeiro do trono do Algarve, o que ditava a sua incorporação a prazo na coroa portuguesa. Reservava, porém, a utilização do título por si e pelos seus descendentes, dado ter adquirido em 1262 os restos do reino de Niebla/ Algarve, situados já além do Odiana – os demais reis de Castela, e depois da Espanha, até à subida ao trono da rainha Isabel II (1833), continuaram a usá-lo entre os seus diversos títulos.
Além-mar Em Portugal, o nome do reino algarvio (e o título régio, por consequência), sofreram algumas pequenas mudanças oficiais com as conquistas norte-africanas, cujo território era considerado o prolongamento natural do Reino do Algarve. Assim, João I de Portugal acrescentou à sua intitulação de "Rei de Portugal e do Algarve", o nome de "Senhor de Ceuta"; seu neto Afonso V, por sua vez, chamou-se sucessivamente "Senhor de Ceuta e de Alcácer-Ceguer em África" (após 1458), e em 1471, com a conquista de Arzila, Tânger e Larache, reuniu as praças norte-africanas no título de "Algarve d’além-mar em África", ficando o Algarve europeu a ser o "Algarve d’aquém-mar".
Assim, foi só em 1471 que o "Reino do Algarve" deu lugar ao "Reino dos Algarves", devido à elevação dos senhorios norte-africanos da coroa portuguesa à condição de reino. Os reis de Portugal adoptaram por conseguinte o título que viriam a usar até à queda da Monarquia: "Reis de Portugal e dos Algarves d’aquém e d’além-mar em África" — isto mesmo depois do abandono da última praça marroquina em mãos portuguesas (Mazagão, em 1769).
Conflitos oitocentistas thumb|right|200px|Caricatura representando D. Pedro IV e D. Miguel I a brigar pela coroa portuguesa, por Honoré Daumier, 1833
No Século XIX, os graves confrontos entre Liberais e Absolutistas, causaram lutas fraticidas. A invasão dos liberais Portugueses deu-se pela costa Algarvia, tendo sido Cacela o sitio escolhido. Após o fim da guerra civil e feita a convenção de Évora Monte, José Joaquim de Sousa Reis (o Remexido), capitão miguelista tentou entregar as armas à nova autoridade liberal, mas foi perseguido assim como a sua família. Revoltado depois de terem queimado a sua casa e terem assassinado seu filho de apenas 10 anos, fugiu para as serras algarvias com centenas de outros perseguidos iniciou um extraordinário movimento de guerrilha, intensificando-se nos anos entre 1834 e 1838. Em 26 de novembro de 1836, D. Miguel no exílio, nomeia Remexido como "Governador do Reino do Algarve" e "Comandante em Chefe Interino de Todas as Tropas Realistas, Regulares e Irregulares do Exército de Operações do Sul". Foi no entanto capturado e, apesar do indulto da rainha, fuzilaram-no em Faro, no dia 2 de Agosto de 1838.
Apesar de tudo o Reino do Algarve foi formalmente dissolvido em 1834 com a extinção do posto do Governador das Armas do Reino do Algarve, tendo com a criação do distrito de Faro em 1835 sido criado o cargo de governador civil do correspondente distrito.
Apesar de tudo, na titulatura régia os reis de Portugal continuaram a usar o título de Rei dos Algarves até à abolição da Monarquia em 1910. Curiosamente, hoje em dia os Reis de Espanha também mantêm o Algarve nos reinos da sua titulatura régia.
Símbolos
miniaturadaimagem|Brasão das Armas do Reino do Algarve (in Atlas Contractus, de 1667)