thumb|260px|Alfaqui com os seus pupilos numa miniatura abássida. Vários antepassados de Almançor foram alfaquis, uma tradição familiar que ele próprio seguiu

Almançor (; (Turruxe,  – Medinaceli, ), foi um militar e político do Alandalus (Hispânia muçulmana) que, como hájibe (camareiro-mor) do débil califa , foi o governante de facto durante o apogeu do Califado de Córdova.

Nascido numa alcaria (pequena vila) nos arredores de Turruxe, no seio duma família de origem iamanita com alguns antepassados jurisconsultos, na juventude foi para Córdova para se formar como alfaqui. Depois de um começo humilde, ingressou na administração do califado e rapidamente ganhou a confiança de Subh, a favorita do califa e mãe do herdeiro do trono. Graças à proteção de Subh e à sua competência, em pouco tempo acumulou vários cargos.

Durante o reinado de Aláqueme II ocupou vários cargos administrativos importantes, como o de diretor da casa da moeda (967), administrador da favorita do califa e dos seus filhos, das heranças intestadas e do intendente do exército de Galibe ibne Abderramão (973). A morte de Aláqueme II em 976 marcou o começo da época califal dominada por Almançor, que perdurou depois da sua morte, até 1009, com o governo dos seus filhos, primeiro Abedal Maleque Almuzafar e depois Abderramão Sanchuelo. Como hájibe do califado (desde 978), teve um poder extraordinário no Estado andalusino, quer em toda a Península Ibérica como em parte do Magrebe, relegando o califa Hixame II para um papel praticamente apenas figurativo.

Alguns historiadores atribuem a sua impressionante ascensão ao poder a uma insaciável "sede de domínio", mas adverte que «deve entender-se no contexto das complexas lutas internas que se desenvolviam no seio da administração omíada». Profundamente religioso, o seu controlo do poder político teve o apoio pragmático das autoridades religiosas muçulmanas, o que não evitou tensões periódicas entre o caudilho e essas autoridades. Na base do seu poder esteve a sua defesa da jiade que, por não ser califa, proclamava em nome deste. A sua imagem de paladino do islão serviu para justificar a sua autoridade governamental. Ao conquistar o domínio político no califado, realizou profundas reformas na política externa e interna.

Levou a cabo numerosas campanhas militares vitoriosas, tanto na Península Ibérica como no Magrebe. Apesar do sucesso das incursões contra os reinos cristãos peninsulares, conhecidas como aceifas, elas só conseguiram deter provisoriamente o avanço cristão em direção a sul, e apenas recuperou territórios que já tinham sido do califado.

Origens e juventude Não obstante haver muitas dúvidas sobre o ano exato do nascimento de Almançor, tudo parece indicar que este ocorreu em 939, embora também possa ter ocorrido em 938. A sua família (Abu ʿAmir) era árabe, proprietária de terras e de origem iamanita, da tribo Maʿafir, estabelecida desde a invasão muçulmana da Península Ibérica em Turruxe (ou Turrush), uma alcaria pertencente à Cora de al-Yazirat, situada junto à foz do no que é hoje o município andaluz de San Roque. As terras da sua família foram dadas por Tárique ibne Ziade, o comandante da invasão muçulmana, a um antepassado de Almançor de nome Abedal Maleque, como recompensa pela sua atuação na invasão, nomeadamente na conquista de Carteia. A abundância de topónimos derivados do árabe na Andaluzia, principalmente nas províncias de Málaga e Granada, fez com que várias localidades tenham sido erradamente assinaladas como a terra natal de Almançor.

Alguns membros da família desempenharam funções de cádi (juiz) e juristas. A posição social da família melhorou consideravelmente com a nomeação do avô paterno de Almançor como cádi de Sevilha e o seu casamento com uma filha dum vizir, governador de Badajoz e médico do califa . O pai de Almançor, Abedalá, é descrito como um homem piedoso, bondoso e ascético que morreu em Trípoli quando regressava da sua peregrinação a Meca. A mãe, Buraia, também pertencia a uma família árabe. Ainda assim, a família não era de classe alta e, pelo contrário, era relativamente modesta e provinciana.

Ascensão à corte califal Quando ainda era muito jovem, ibne Abi Amir foi viver para Córdova, onde estudou direito e letras sob a tutela dum tio materno. Esta formação devia facilitar-lhe o ingresso na administração estatal, pois as oportunidades de carreira nas forças armadas eram limitadas para os árabes. Como muitos outros jovens de famílias acomodadas, recebeu formação na interpretação do Alcorão, em tradição profética e em aplicação da lei islâmica, completando a sua educação como alfaqui, com o objetivo de se tornar juiz. Da época de estudante conservou o gosto por literatura. Tendo sido aluno de mestres de renome na tradição legal islâmica e nas letras, mostrou talento para essas áreas.

A morte do seu pai e a má situação familiar levaram-no a abandonar os estudos e a tornar-se escrivão profissional. Depois de ocupar um modesto posto de memorialista no palácio e na Mesquita de Córdova, perto dos gabinetes da administração, para ganhar o seu sustento, o jovem destacou-se rapidamente pelas suas qualidades e ambição, tendo iniciado a sua fulgurante carreira política como escrivão da sala de audiências do cádi chefe da capital, Maomé ibne al-Salim. Este era um importante conselheiro do califa , apesar dos seus cargos serem exclusivamente religiosos e não políticos. Em breve chamou a atenção do vizir Jafar Almuxafi, chefe da administração civil, que o introduziu na corte califal, provavelmente por recomendação de ibne al-Salim. Na altura já se destacava pelos seus conhecimentos e competência profissional, que continuaria a demonstrar nos cargos que rapidamente começou a acumular na administração. Então com menos de 30 anos de idade, Almançor foi um dos jovens funcionários que fizeram parte da mudança geracional da corte no início do reinado de Aláqueme II.

thumb|“No Harém”, do pintor . Pouco depois de ter ingressado na administração califal, Almançor estabeleceu uma aliança duradoura com a mãe do herdeiro do trono, a favorita Subh, que só terminaria em 996

Em finais de fevereiro de 967 foi nomeado intendente do príncipe Abderramão, herdeiro e filho do califa Aláqueme II e da sua favorita, a escrava basca Subh (Aurora nas crónicas cristãs), com quem estabeleceu uma relação privilegiada que foi muito benéfica para a sua carreira. Não obstante o seu papel ser provavelmente secundário, a responsabilidade como gestor dos bens do herdeiro do trono califal e da mãe deste proporcionou-lhe uma grande proximidade com a família reinante e rapidamente começou a acumular cargos importantes. Sete meses depois da sua primeira nomeação, graças à intercessão de Subh, foi nomeado diretor da casa da moeda e em dezembro de 968 foi nomeado tesoureiro das heranças intestadas. No ano seguinte foi promovido a cádi de Sevilha e de Niebla, um dos cargos mais importantes do Estado. Em 970, após a morte do príncipe Abderramão, passou a ser administrador do jovem herdeiro Hixame. Por essa época contraiu matrimónio com a irmã do comandante da guarda califal e protegido do novo herdeiro do trono. Começou então a enriquecer, mandou construir uma casa em al-Rusafa, perto do antigo palácio de , e a oferecer presentes sumptuosos ao harém califal. Após ser destituído do cargo de responsável da casa da moeda, em março de 972 foi acusado de peculato. Foi ajudado financeiramente para cobrir o suposto desfalque, após o que obteve o comando da ("polícia média") e manteve os outros cargos, incluindo o de administrador do herdeiro e das heranças intestadas.

Em 973 foi encarregado dos aspetos logísticos, administrativos e diplomáticos da campanha califal contra os idríssidas no Magrebe, com o posto oficial de grande cádi das possessões omíadas no Magrebe. A importância da frota nessa campanha e a sua dependência de Sevilha, onde Almançor era cádi e por isso responsável das suas instalações, além da confiança do próprio califa e do seu hájibe, contribuíram para a obtenção dessa responsabilidade. O cargo dava-lhe autoridade sobre civis e militares e, na prática, a supervisão da campanha. Uma das suas missões fundamentais era obter a submissão dos notáveis da região mediante a oferta de presentes formais que representavam a lealdade dos presenteados ao califa, o que, juntamente com as vitórias militares, minaram a posição do inimigo.

Após os idríssidas terem sido derrotados, Almançor regressou doente à corte cordovesa em setembro de 974, com a intenção de recuperar e retomar as suas funções. Nunca mais voltaria ao Norte de África. A sua experiência como supervisor das tropas envolvidas na campanha magrebina deu-lhe a oportunidade de apreciar a possível utilidade política dos militares se conseguisse o seu controlo. Além disso, permitiu-lhe também estabelecer relações com os chefes tribais norte-africanos e com o seu futuro e poderoso sogro, o general Galibe ibne Abderramão, que tinha dirigido os aspetos militares da operação. A sua habilidade para gerir os aspetos organizacionais e económicos da campanha, amplamente reconhecida e premiadas meses antes com a sua nomeação para ser novamente responsável da casa da moeda califal, foi crucial para o começo do seu êxito político. Nos últimos meses da doença terminal de Aláqueme II, este nomeou-o inspetor das tropas profissionais, nas quais tinham sido integrada a maior parte dos berberes trazidos do Magrebe pelo califa para formar uma força leal à sua pessoa que garantisse o acesso ao trono de seu jovem filho.

Conquista do poder Eliminação dos pretendentes e triunvirato A morte do califa Aláqueme II a 1 de outubro de 976 e a proclamação do seu filho Hixame marcaram o início dum novo período ascendente na carreira política de Almançor. Foi também um evento crucial na história do califado, que a partir daí foi marcado pela sua figura e pelo afastamento gradual do poder efetivo do terceiro califa andalusino. O Alandalus passou por uma grave crise de sucessão naquela época, pois o sucessor designado, Hixame, nascido em 965, além de ser muito jovem para reinar, tinha muito pouca formação, dado que o pai só o tinha associado ao governo quando tinha oito, nove ou onze anos. Esta era uma situação extraordinária, pois nunca antes o emirado ou o califado tinham estado nas mãos dum menor. Algumas escolas de jurisprudência islâmica rechaçavam a possibilidade de que um menor alcançasse o posto de califa, mas a tradição omíada andalusina garantia a herança de pais a filhos e o caso de , constituía um precedente. Perante esta situação, e apesar dos esforços de Aláqueme durante os seus últimos anos de vida para assegurar a sucessão do seu filho associando-o a tarefas de governo, os altos dignitários do califado dividiram-se em relação à sucessão. Alguns defendiam a nomeação do hájibe Jafar Almuxafi, enquanto outros preferiam dar o título califal a Almuguira, um dos irmãos do defunto, filho mais novo e favorito de Abderramão III, que tinha 27 anos.

thumb|esquerda|upright|Estátua de Aláqueme II em Córdova