Gonçalo Mendes I de Sousa o Bom Descendentes de Hermenegildo Guterres que viveu entre 869 e 911 - Egas Moniz, o Aio(Antes de 1109Gonçalo Mendes e o primeiro rei de Portugal eram companheiros inseparáveis, com pequena diferença de idades, sendo Gonçalo o mais velho. Cf. Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, 1935-57, vol.17, pp.887-889 – 5 de outubro de 1179 Gonçalo Mendes de Sousa) foi um militar e Cavaleiro medieval do Reino de Portugal, e um importante membro da nobreza portuguesa, como chefe de uma das principais famílias nobres portuguesas, os Sousas.

Primeiros anos Gonçalo era filho primogénito do poderoso magnate Mem Viegas de Sousa e da sua esposa Teresa Fernandes de Marnel. Gonçalo pertencia assim à prestigiante Casa de Sousa, que com o casamento dos pais, adquirira vários bens da família de Marnel, na região do Vouga, aí criando para a família um novo núcleo de bens. Os seus primeiros anos de vida coincidem com o governo conjunto dos condes de Portucale, Henrique de Borgonha e Teresa de Leão, não havendo documentação sua pelo menos até aos anos finais do governo da condessa.

Da morte de Henrique de Borgonha à Batalha de São Mamede (1112-1128) Os últimos anos do governo da condessa não lhe deviam ser alheios. Após a morte do marido, esta e a irmã, a rainha Urraca de Leão e Castela, alimentaram uma discórdia pelas tentativas que Teresa fazia para duplicar os seus territórios para leste, confirmadas por um tratado entre ambas, em 1123. Alguns nobres partilhavam terras reconhecidas por esse tratado à que desde 1116 se intitulava rainha dos portugalenses.

A ascensão de Afonso VII de Leão e o enfraquecimento de Teresa Porém, por morte de Urraca de Leão em 1126, sucede-lhe no trono Afonso VII, o qual readopta o título de imperador de toda a Hispânia do avô, procurando a vassalagem dos demais reinos, incluindo entre eles também o Condado Portucalense, que há muito demonstrava tendências autonomistas.

Tudo mudaria em Portugal com a entrada de dois magnates galegos, irmãos: Bermudo Peres de Trava e Fernão Peres de Trava. A influência que passaram a exercer na rainha de Portugal foi forte o suficiente para, no caso de Bermudo, desposar uma das infantas, Urraca Henriques, e no caso de Fernão, manter uma proximidade maior com a condessa, de quem terá tido inclusive descendência.

Ambos pareciam ser interventores dos dirigentes galegos Pedro Froilaz de Trava (pai dos dois magnates) e Diego Gelmírez, Arcebispo de Santiago, interessados em travar a marcha da libertação portuguesa pela qual a rainha, que até então se batera ferozmente, se deixava enredar neste ardil. A influência que passaram a exercer na rainha de Portugal foi de facto forte o suficiente para afastar magnates de confiança de então, como Egas Moniz, o Aio, dos seus cargos, afastamento provado pelo facto de Egas Moniz, importante homem de confiança de Teresa e do seu então falecido esposo, o conde Henrique de Borgonha, passar a estar submetido em termos governativos, a Fernão Peres, que o substituíra na tenência de Coimbra, e o mesmo com Bermudo Peres, que assumira as de Viseu e Seia.

É desta forma compreensível que grande parte da aristocracia começasse a não ver com bons olhos os dois galegos e muito menos o mau governo que Teresa começava a protagonizar: Fernão Peres de Trava chegava inclusive a surgir na documentação como príncipe consorte (o que não era). Assim, como um dos principais lesados das más decisões que a rainha começava a tomar, terá sido o responsável pelas primeiras agitações tumultuosas da nobreza.

A educação do herdeiro Afonso e as primeiras revoltas Egas Moniz, o Aio era o magnate que por vontade dos condes, se encarregava da educação do então herdeiro, o infante Afonso. O infante crescia “em idade e boa índole” por educação do seu Aio, que amiúde lhe deve ter pintado a sujeição em que Portugal ia recuando no caminho da libertação quase conseguida, a dependência cada vez maior dos galegos a que Portugal se sujeitava na pessoa da sua rainha. O infante que Egas criara e agora incitava à revolta, apesar da ainda curta idade, era, desta forma, também afetado pela vinda dos magnates galegos, que lhe passaram a ser apresentados como os seus inimigos e os que mais ameaçavam a sua herança.

Com efeito, Afonso Henriques mostra a sua rebeldia contra a mãe nos inícios de dezembro de 1127, na carta de couto à ermida de S. Vicente de Fragoso; no próprio documento surge como “conde de Neiva” (ou “tenente de S. Martinho”) e surgem a apoiá-lo: o conde Afonso (que seria provavelmente sogro de Egas Moniz), Lourenço (que poderia já ser o seu filho mais velho) e outros. Em maio do ano seguinte, Egas Moniz volta a apoiar novas rebeldias do seu pupilo (como o foral a Constantim de Panoias, e talvez a doação de Dornelas à Ordem do Hospital), tendo anteriormente, por exigência de situações delicadas dos rebeldes, levado o pupilo a reconciliações fingidas com a mãe.

A luta pela independência

A mais flagrante das investidas contra a suserania leonesa dá-se em março (ou inícios de abril) de 1128, forçada pela vinda a Portugal do Imperador Afonso VII em pessoa. Este havia preparado a sua viagem pré-nupcial a Barcelona por mar, para se casar, e desejara uma solução pacífica para o conflito português. Partiu, assim, para o seu destino, do qual não regressaria antes de novembro de 1128, uma vez que entre Barcelona e Leão-Castela se encontrava Aragão, governado pelo padrasto e um dos seus maiores adversários, Afonso O Batalhador.

Os rebeldes aproveitam a ocasião: em maio, estão com Egas Moniz em rebeldia definitiva contra a rainha Teresa. Egas Moniz retirara-se para reunir um exército nas suas terras, com o qual interviria na batalha, que se trava junto ao Castelo de Guimarães, o foco dos revoltosos, no dia de S. João de 1128, batalha que ficaria conhecida como a célebre Batalha de São Mamede. Diz-se que o infante fora batido, e ia fugindo dos campos quando encontra Egas Moniz à testa das suas gentes de armas: ambos vão sobre os “estrangeiros”, que dizem “indignos”, e “esmagam-nos”.

Apesar de lidar com Aragão, nada impediu Afonso VII de combater Portugal: protegendo-se de Aragão, mas pretendendo uma ofensiva na frente ocidental de guerra, trava a “batalha” de Arcos de Valdevez (ou da Veiga da Matança, nome que ainda perdura), provavelmente no final de 1128 ou no início de 1129. Infelizmente, Afonso Henriques e Egas Moniz não conseguiram conter o avanço do Imperador e retiraram-se para Guimarães com a grande nobreza, que se compunha, para além de Gonçalo e do seu irmão Soeiro Mendes de Sousa, de Garcia, Gonçalo, Henrique e Oveco Cendones; Egas Gondesendes II de Baião; Mem Moniz de Riba Douro e Ermígio Moniz de Riba Douro, irmãos de Egas; Afonso Nunes de Celanova; os filhos mais velhos do Aio (Lourenço, Ermígio e Rodrigo Viegas), e outros, como Garcia Soares, Sancho Nunes, Nuno Guterres, Nuno Soares, Mem Fernandes, Paio Pinhões, Pero Gomes, Mem Pais, Romão Romanes, Paio Ramires, Mem Viegas, e Gueda Mendes.

A situação dos sitiados era precária, mas Afonso Henriques atua com os seus nobres: Paio Soares, Soeiro Mendes e Gonçalo Mendes da Maia, além do irmão destes últimos, Paio Mendes, arcebispo de Braga.

Mas contrariamente ao que se costuma relatar, Afonso Henriques nunca foi pressionado para cumprir a palavra dada ao Imperador; aliás essa promessa dos nobres é imediatamente quebrada em 1130 com a invasão da Galiza, travando-se a Batalha de Cerneja (1137), da qual saem vitoriosos os portucalenses. Afonso VII não pôde conter as invasões dadas as querelas com o padrasto em Aragão.

O rescaldo da Batalha Logo em 1128, quando Afonso Henriques confirma o foral dado a Guimarães pelos pais, Gonçalo era, na verdade, um dos burgueses que comigo suportaram o mal e o sacrifício em Guimarães, cujos privilégios incluíamː nunca dêem fossadeira das suas herdades e o seu haver onde quer que seja esteja a salvo e quem o tomar por mal pague-me 60 soldos e dê, além disso, o haver em dobro ao seu dono.Foral de Guimarães: O primeiro foral português

Para os que, como Gomes Nunes de Pombeiro, preferiram apoiar o partido de Teresa e Afonso VII de Leão, tiveram os seus bens confiscados. No caso de Gomes Nunes de Pombeiro, que detinha o padroado do Mosteiro de Pombeiro e vários outros bens em redor, Afonso Henriques transferiu os seus bens para Gonçalo, que para além de seu companheiro era primo coirmão do traidor, como prémio pela fidelidade e os grandes serviços deste. O monarca viria a fazer as pazes com o galego em 1140, pois o mesmo readquire bens que doa por essa altura a Pombeiro, onde viria a ser sepultado.

Papel fundiário Em 1130, o pai de Gonçalo, Mem Viegas, falece, e Gonçalo torna-se no novo chefe da família. Será de facto com Gonçalo que a família de Sousa começou a construir uma relação duradoura com a coroa e a corte, com altos e baixos, mas que permaneceria cimentada até à sua extinção na segunda metade do século XIII.

Senhor de várias honras pelo lado paterno, com destaque para as de Carvalhosa, Eiriz, São Pedro de Ferreira e Unhão, Gonçalo terá escolhido esta última para residir e aí fez erguer a igreja local, dedicada no ano de 1165, com o auxílio do Arcebispo de Braga D. João Peculiar.

Da parte da mãe teve os bens herdados dos Marnel, destacando-se Eixo, Requeixo, Lamas e Óis da Ribeira.

Contudo, uma importante parte dos seus bens veio também do seu segundo casamento com a rica-dona Dórdia Viegas de Ribadouro, filha do célebre magnate Egas Moniz, o Aio, de quem herdou sobretudo as honras de Lalim, Várzea da Serra, Ribelas e MósA transmissão de Lalim aos Sousas viria a refletir-se depois na sua posse pelo infante Pedro Afonso, conde de Barcelos, genro de Constança Mendes de Sousa. Cf. Sottomayor-Pizarro, 1997..

Magnate povoador Em 1163, o rei, por carta, deu-lhe, para povoar e fortificar, o sítio de Alcanede, onde, segundo a própria doação, parece que povoação nunca houvera. Gonçalo Mendes dedicou-se então à povoação desta mesma vila, fundando, como lhe fora pedido, vila e castelo. Esta vila terá sido uma das raras propriedades de grandes membros da aristocracia a sul do rio Mondego, limite que os monarcas desde cedo pretenderam impor face à expansão nobiliárquica.

Na corte A primeira presença conhecida de Gonçalo é em maio de 1136, quando confirma o foral de Seia, com Egas Moniz, o Aio e Gonçalo Rodrigues (de Leomil). Gonçalo, a partir daí, tentará, e conseguirá, exercer maior influência na corte, pois, durante pelo menos dez anos (1157-1167) Gonçalo desempenha as mais altas funções do Estadoː Mordomo-mor, cargo com que figurou na doação, pelo rei, do castelo de Idanha à Ordem Templária, em 1165.

Pertencia, simultaneamente, ao serviço particular do rei, pois em fins de 1155 coutava e levava do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra o dinheiro que o soberano lá guardava, uma soma de 27 000 maravedis, provavelmente para depois lhe entregar em mãos.

Esteve ainda presente, nos finais de janeiro de 1160, em Tui, junto do monarca de Portugal, nas conversações entre este e o conde Raimundo Berengário IV de Barcelona, para a negociação do casamento da infanta Mafalda com o futuro Afonso II de Aragão, negociação que não chegou a realizar-se dado ter falecido a infanta, nesse mesmo ano. Em 1162, assiste, na Igreja de Santa Cruz de Coimbra, à dadiva, pelo monarca, de grandes privilégios ao mosteiro.

Relação com Afonso I de Portugal Tal confiança de que Gonçalo era merecedor da parte do monarca torna evidente que o que os unia era um grande companheirismo e amizade. Gonçalo fora, desde muito cedo, um grande partidário da causa do infante Afonso, participando, como se viu, ativamente na causa que o levou a combater a mãe na Batalha de São Mamede. De idades próximas, Gonçalo e o rei terão sido mesmo amigos pessoais.

Em contraste, esta confiança evidencia também a pouca coerência dos episódios dos Livros de Linhagens, nos quais, de certa maneira, Gonçalo acaba prejudicado por Afonso Henriques.