thumb|Um típico gaúcho do século XIX. Tradicionalismo gaúcho ou gauchesco é uma corrente cultural regionalista originada no estado brasileiro do Rio Grande do Sul, formada em torno da exaltação da figura e dos costumes do gaúcho, um tipo humano que originalmente floresceu na região campeira entre o Brasil, Uruguai e Argentina.

O tradicionalismo foi inaugurado como um movimento pelos intelectuais ligados ao Partenon Literário, fundado na capital Porto Alegre em 1868, associação que tinha entre seus objetivos prestigiar o folclore e o regionalismo, buscando definir a identidade cultural do estado e desenvolvendo intensa atividade literária onde o gaúcho figurava em relevo. As tradições continuaram sendo prestigiadas ao longo do século XX, com variados enfoques e motivações, especialmente depois da fundação do Centro de Tradições Gaúchas 35 em 1948, que serviu de modelo para o surgimento de um grande número de entidades semelhantes pelo Brasil afora, pelo apoio da oficialidade, e pela organização do Movimento Tradicionalista Gaúcho em 1966, uma instituição que estabeleceu suas diretrizes ideológicas e práticas básicas, regulamentadas por extensa documentação.

Na forma como foi definido na contemporaneidade, o tradicionalismo gaúcho é em boa medida uma recriação artificial e arbitrária de tradições que haviam sido irremediavelmente perdidas. Isso não anulou sua eficiência como um centro agregador da identidade cultural e social dos rio-grandenses, o gauchismo foi de fato instituído pela oficialidade em vários níveis como um elemento fundamental nessa identidade, e em parte por causa da sua flexibilidade na interpretação de conceitos como autenticidade, tradição e cultura, foi capaz de florescer, se expandir e sobreviver até a atualidade. Embora já tenha recebido muitas críticas como um movimento anacrônico, dogmático e reacionário, sua vitalidade é inegável, sendo hoje cultivado por uma vasta população, espontaneamente ou ligada a grupos organizados, com muitos simpatizantes até mesmo no exterior. Enquanto mantém a preocupação de preservar as tradições na medida do possível, suas práticas vem sendo adaptadas à evolução dos costumes, incorporando elementos de outras matrizes culturais e influenciando outras tradições. Em 2022 o IPHAN aprovou a qualificação das lidas campeiras dos campos de Bagé e do Alto Camaquã como Patrimônio Imaterial Brasileiro.

Origens

thumb|Gaúchos juntando cavalos selvagens, pintura de Rugendas, 1846 thumb|Gaúchos descansando, pintura de Rugendas, 1846 thumb|Gaúchos argentinos churrasqueando em 1880, com hábitos e trajes muito semelhantes aos seus irmãos brasileiros. O gaúcho em suas origens históricas foi um personagem típico da vida campeira em uma larga região que abrange o pampa do Rio Grande do Sul (oeste da Depressão Central, Serra do Sudeste, Campanha, Missões e oeste do Planalto Médio), todo o Uruguai e o pampa da Argentina (de Buenos Aires a Corrientes), e que, em virtude de disputas políticas entre as potências coloniais de Portugal e Espanha, foi fortemente militarizada e esteve cronicamente em estado de conflito.César, Guilhermino. "Para Estudo do Conto Gauchesco: II — O espaço físico da gauchesca: a mitização do gaúcho". In: César, Guilhermino [Carvalhal, Tânia Franco (org.)] Notícia do Rio Grande do Sul: Literatura. Instituto Estadual do Livro/Editora da UFRGS, 1994, pp. 27-31

O gaúcho nunca foi um tipo muito homogêneo. Sua população era composta de negros, índios, brancos portugueses e espanhóis, além de mestiços, com origens culturais bastante diversificadas, mas tinham em comum a vida ligada principalmente às estâncias de criação de gado, atuando como tropeiros, carneadores, coureiros e também domadores de cavalos, sendo exímios cavaleiros. Essa ligação não costumava ser permanente. A maioria deles, pelo menos nos séculos XVII, XVIII e início do século XIX, levava uma vida itinerante, ou se incorporava a milícias de mercenários que operavam no contrabando de gado. Também eram requisitados para o exército.Thesing, Neandro Vieira. Fronteira, identidade, essência: a busca das origens do Rio Grande do Sul em "Gaúchos e Beduínos", de Manuelino de Ornellas. Mestrado. Universidade Federal de Santa Maria, 2015, pp. 91-98 Gomes, Carla Renata Antunes de Souza. "A última guerra entre a Província e a Corte é pelo poder de nomear". In: XXIV Simpósio Nacional de História da ANPUH, 2007

Naqueles primeiros tempos essa população era frequentemente fonte de preocupação para as autoridades, devido ao seu caráter rebelde e independente, desencadeando conflitos repetitivos. Seu controle era difícil, pois muitas vezes os contrabandistas eram protegidos pelos estancieiros, as forças oficiais eram insuficientes e o trânsito de um país a outro não podia ser fiscalizado. Permaneciam, portanto, à margem da sociedade e da cultura oficial.

Em meados do século XIX o gaúcho em sua feição primitiva já começava a se tornar raro, mas já havia um significativo cancioneiro popular onde figurava em destaque, e ele começou a chamar a atenção de alguns intelectuais rio-grandenses, primeiramente estudando-o sob aspectos históricos e folclóricos. Na mesma época a intelectualidade local estava em busca de definir uma identidade para o povo rio-grandense, uma questão que interessava também aos estancieiros e políticos, que julgavam ter seus interesses prejudicados pelo governo imperial. Para estes, uma identidade local forte auxiliaria na projeção política da província no cenário nacional, e seus ideais de liberdade e autonomia se conjugavam aos da corrente republicana. Suas queixas não eram novas, e a sangrenta Revolução Farroupilha de 1835-1845 eclodira essencialmente em resposta à política do Império.Menez, Alexsandro R. O "Inolvidável Polígrafo": Regionalismo Literário Gaúcho e Nacionalismo Brasileiro em Apolinário Porto Alegre (1869-1879). Mestrado. PUCRS, 2015, pp. 48-49Moreira, Maria Eunice (coord.). Narradores do Partenon Literário. Instituto Estadual do Livro, 2002, pp. 9-11

Na mesma época chegava ao Rio Grande do Sul a influência do Romantismo literário, uma corrente que prestigiava a cor local, as características peculiares de cada povo, os folclores, mas também enfatizava as paixões, a personalidade e o gênio individuais, em oposição à homogeneização e moderação classicista. Entre os pioneiros desta nova tendência estavam Manuel de Araújo Porto-Alegre, em Brasilianas (1844), Ana Eurídice Eufrosina de Barandas, em alguns poemas da coleção O Ramalhete (1854) e no conto Fany ou o Modelo das Donzelas (1847), e sobretudo Caldre e Fião, em seu romance A Divina Pastora (1847).Estima, Vinícius Marques. A história da literatura do Rio Grande do Sul, de Guilhermino Cesar: o inventário do período de formação da literatura sul-rio-grandense. Mestrado. FURG, 2009, pp. 61-97

O tema estava entre os interesses do Instituto Histórico e Geográfico da Província de São Pedro, que procurou, em sua breve existência, organizar a historiografia regional e inseri-la na historiografia nacional, valorizando o elemento local e buscando definir a identidade cultural da região,Boeira, Luciana Fernandes. Entre História e Literatura: a formação do Panteão Rio-Grandense e os primórdios da escrita de história do Rio Grande do Sul no século XIX. Mestrado. UFRGS, 2009, pp. 14-22 mas esse programa só seria assumido concentradamente pelos intelectuais com a fundação do Partenon Literário em 1868, uma sociedade que congregou a elite intelectual da província e desde logo estabeleceu a defesa do passado heroico e guerreiro do homem rio-grandense e articulou o regionalismo como um projeto de trabalho, que seria cultivado literariamente de maneira sistemática.Damasceno, Athos. Imprensa Literária de Porto Alegre no séc XIX. EdUFRGS, 1975, pp. 46-64Fuão, Juarez José Rodrigues. A Construção da Memória: os monumentos a Bento Gonçalves e José Artigas. Doutorado. Unisinos, 2009, p. 27Boeira, pp. 97-98 Destacam-se neste grupo o mesmo Caldre e Fião, mais Bernardo Taveira Júnior, Lobo da Costa e Múcio Teixeira.César, Guilhermino. "Para Estudo do Conto Gauchesco: I — Raízes da tradição gauchesca". In: César, Guilhermino [Carvalhal, Tânia Franco (org.)] Notícia do Rio Grande do Sul: Literatura. Instituto Estadual do Livro/Editora da UFRGS, 1994, pp. 21-25

A criação de um mito

Aos partenonistas se deve a fundação do tradicionalismo gauchesco como uma corrente cultural definida, um movimento,Konflanz, Celso. A Moderna Tradição Gaúcha: Um estudo sociológico sobre o Tradicionalismo Gaúcho. Mestrado. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2013, p. 38 e segundo Guilhermino César, dentre todos os seus primeiros cultivadores, Taveira Júnior teria sido o mais denso e autêntico, abordando uma ampla gama de tópicos e abandonando o linguajar culto usado pela maioria para adotar uma fala mais próxima do gaúcho real, estabelecendo um exemplo de longa e fértil descendência: "Daí por diante seria fácil seguir os trilhos que levam à sanga, ao umbu, ao rodeio, à chinoca, à valentia, aos entreveros de arma branca". Ver nota: Sanga: canal, riacho, bebedouro. Umbu: árvore típica da região. Chinoca: moça solteira. thumb|left|200px|Dom Pedro II em trajes típicos do gaúcho.

No fim do século XIX, devido a profundas mudanças no sistema produtivo e econômico, do antigo gaúcho dos tempos iniciais do povoamento — nômade, independente e turbulento — restara apenas uma sombra, tendo sido maciçamente disciplinado e fixado nas estâncias como um peão e um "pau para toda obra", enquanto muitos outros, expulsos do campo, se tornavam párias urbanos.Menasche, Renata. "Gauchismo: tradição inventada". In: Estudos Sociedade e Agricultura, 1993 (1):22-30 Oliven, Ruben George. "Em Busca do Tempo Perdido: o movimento tradicionalista gaúcho". In: Revista Brasileira de Ciências Sociais, 1991; 6 (15):40-52 Mas se antes fora estigmatizada, neste processo de resgate a figura do gaúcho seria purificada de suas imperfeições reais e inteiramente mitificada como uma síntese de valores ideais de independência, bravura, honestidade e honradez, e cuja virilidade exemplar estava sempre disponível para as paixões amorosas. César continua:

"Os primeiros regionalistas foram impressionados principalmente pelo gaúcho solitário, marginalizado, entregue a uma atividade aventurosa, numa fronteira agitada pelas rivalidades entre Espanha e Portugal. A poesia e o romance, o conto e o teatro, desde o Romantismo, viram nele a sua Matéria da Bretanha, isto é, um fio interminável de ações guerreiras, de heroicidades e de feitos generosos. Tomaram-no como representante de uma 'raça', equívoco evidente, logo depois revigorado pelos devaneios cientificistas do Naturalismo. Recusaram-se, teimosamente, a aceitar a realidade: o gaúcho como tipo condicionado por uma atividade econômica primária, niveladora, sem maiores horizontes culturais, como é o pastoreio".

Na análise de Luis Fernando Beneduzi, "o enaltecimento dos feitos dos revolucionários [farroupilhas] caminhará em pari passu com o reforço de uma imagem positiva do gaúcho enquanto tipo humano base da identidade regional do Rio Grande do Sul", e nisso o gaúcho se tornaria "uma espécie de super-homem, invencível, indomável e que estava sempre pronto para lutar até a última gota de sangue pelas causas justas". Desde então se consagraram no tradicionalismo gauchesco expressões grandiosas para caracterizar o tipo, como "o monarca das coxilhas", o "centauro dos pampas", e outras nesta linha.Beneduzi, Luis Fernando. "Fragmentos Identitários: A Literatura como Narrativa Sensível do Sul Profundo". In: Fênix – Revista de História e Estudos Culturais, 2009; 6 (2) thumb|Capa de O Vaqueano (1872) de Apolinário Porto-Alegre, em edição de 1927