thumb|right|265px|Brasão dos Condes de Paraty. Miguel António do Carmo de Noronha de Paiva Couceiro (Cascais, Cascais, — Lisboa, ) foi um militar e administrador colonial português que, entre outras funções, foi governador de Diu. Na vida civil foi industrial (fabricação de açúcar de cana), dirigiu a Companhia Colonial do Búzi em Moçambique e fundou a Açucareira de Moçambique. É também autor de obras de carácter histórico, heráldico e genealógico.
Biografia Nasceu em Cascais em 27 de Agosto de 1909, faleceu em Lisboa em 24 de Junho de 1979, filho de Henrique Mitchell de Paiva Couceiro e de D. Júlia Maria do Carmo de Noronha, filha de D. Miguel Aleixo António do Carmo de Noronha, 3.º Conde de Paraty e de D.Isabel de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos, filha dos segundos condes de Vila Real. Foi o 4.º Conde de Parati, sucedendo a sua mãe.
Após a implantação da República, em 5 de Outubro de 1910, partiu para o exílio com seu pai Henrique Mitchell de Paiva Couceiro e família. Esteve primeiro em Espanha, frequentando a partir de 1919 e até 1923 o Colégio dos Maristas - Collegio del Sagrado Corazón - sendo premiado em todos os anos com "Matrículas de Honor". O exílio de seu Pai levou-o depois para França. Voltando à pátria, com 14 anos, tirou o curso dos liceus em 4 anos e entrou na Escola Militar, sendo promovido a Alferes da Arma de Cavalaria a 1 de Novembro de 1932.
Prestou serviço em Cavalaria 7 e em Lanceiros 2, em Lisboa, sendo promovido a Tenente a 1 de Dezembro de 1936. De 15 de Setembro de 1936 a Dezembro de 1938 desempenhou as funções de Chefe da Repartição Militar das Forças Militares da extinta Companhia de Moçambique, com sede na Beira. Deixou este posto a 19 de Novembro de 1938 devido a um desastre de viação que o forçou a quase 1 ano de estadia em Paris aonde foi submetido a delicadas operações cirúrgicas. Foi reintegrado em Cavalaria 2 a 30 de Setembro de 1939, passando para Cavalaria 1 a 31 de Março de 1943. A 20 de Março de 1943 foi promovido a capitão e voltou a passar por Cavalaria 2 e 5 até ser colocado ao serviço do Ministério das Colónias a 1 de Outubro de 1948.Arquivo Geral do Exército, Ministério da Defesa Nacional
Foi nomeado Governador de Diu por Portaria Ministerial de 9 de Agosto de 1948. Desentendido com o então Governador do Estado da Índia, Almirante Quintanilha, deixou o Governo de Diu a 31 de Julho de 1950. Foi nomeado Curador Interino dos Indígenas em Johanesburgo a 19 de Outubro de 1950. A seu pedido foi colocado na situação de reserva por Portaria de 30 de Outubro de 1953.
Tendo então passado à vida civil, foi nomeado Director da Companhia Colonial do Búzi em Sofala, Moçambique, que deixou em 1959.
Casou em Lisboa em 8 de Agosto de 1936 com Maria Teresa de Jesus de Gusmão Corrêa Arouca, filha de Simão de Gusmão Corrêa Arouca, ajudante do Procurador Geral da Coroa, e de sua mulher D. Maria Luísa Ulrich, de quem teve 4 filhos.
Uniu-se, segundo o rito protestante, em 21 de Janeiro de 1959, na Igreja Escocesa de Santo André, em Colombo (Ceilão), à Senhora D. Carol Talib-ud-din, nascida em 9 de Fevereiro de 1908, no Panjabe, Estado islâmico da península Hindustânica, formada em Letras pela Universidade de Lahore, capital daquele Estado. De ascendência muçulmana, é neta do mulah da aldeia de Gigrão. Seu pai, Talib-ud-din, que em urdu significa “o que procura a fé”, abandonou a crença islamita e converteu-se ao cristianismo; foi o primeiro moderador eleito da Igreja Presbiteriana Americana da Índia. (In Separata de “A Arte do Ex-Libris”, Braga – 1970). Não houve filhos desta união.
Filhos D. Henrique António do Carmo de Noronha de Paiva Couceiro, 5.º Conde de Paraty (1939 -1999) D. Pedro António do Carmo de Noronha de Paiva Couceiro (1941-1990) D. Miguel Luíz António do Carmo de Noronha de Paiva Couceiro (1944 - 2023) D. Nuno Álvares António do Carmo de Noronha de Paiva Couceiro (1945)
Governador de Diu Nessa praça do Império Português, Miguel António do Carmo de Noronha de Paiva Couceiro veio a reatar as relações com a Índia, que acabava de tornar-se independente da Coroa Britânica.
thumb|left|250px|Visita de Samaldas Gandhi – Diu.
Em 1949, após uma das visitas a Diu do Ministro Indiano Samaldas Gandhi, sobrinho do Mahatma, a imprensa local - Comércio de Vieira de 10 de Julho de 1949, transcrição de uma notícia publicada no Diário de Notícias – dizia, citando esse Ministro, « os Portugueses, que vivem na Índia como bons amigos e irmãos dos Indianos, há centenas de anos, continuarão na Península Hindustânica outras tantas centenas de anos, desde que os seus governantes na Índia sejam como o actual governador de Diu, Sr. Capitão D. Miguel de Paiva Couceiro, acerca de cuja acção traçou o mais rasgado elogio ».
O mesmo Diário de Notícias citava, a 10 de Outubro de 1949, um artigo publicado no Blitz Newsmagazine da União Indiana em que se dizia que D. Miguel de Paiva Couceiro aí era « já hoje conhecido, quer em Diu, quer em Junagadh, capital do Estado de Saurashtra, vizinho de Diu, pelo MountbattenLord Mountbatten Português ou Mountbatten de Diu, em virtude da sua popularidade e da boa vontade que demonstra nos seus contactos com os Indianos ».
thumb|250px|Diário de Lisboa.
Durante o seu curto Governo, D. Miguel – como alguém disse – ressuscitou Diu, negociou com a vizinha União Indiana, procedeu a uma série de acções e tomou decisões que melhoraram muito significativamente a vida na Província, como por exemplo:
thumb|left|250px|O novo Edifício dos Correios - Diu.
thumb|left|200px|Visita da imagem de Nossa Senhora de Fátima a Diu.
Reduziu os impostos que a população pagava sobre as importações da Índia Melhorou as condições sanitárias locais Fundou a primeira estação de rádio na Índia Portuguesa Mandou construir um Novo Hospital (in "O Heraldo" 20/1/1950) Promoveu a instalação, em Diu, duma delegação da Obra de Protecção à Mulher (in "O Heraldo" 24/1/1950) Construiu um centro médico Desenvolveu a horticultura Incrementou o combate à malária e conseguiu erradicar a cólera Fundou a Biblioteca Norotom Mulgi e Revam Bai Coordenou a recuperação e restauração de numerosas obras de arte que estavam esquecidas, muitas das quais nas ruínas do Palácio Fundou uma High School dirigida por Jesuítas Espanhóis no edifício « São Paulo » Renovou completamente a infra-estrutura de fornecimento de energia eléctrica Mandou construir uma estrada asfaltada entre Gogola e a Índia Criou bolsas de estudo para os estudantes de Diu Restabeleceu o transporte marítimo entre Diu e Bombaim Construiu novas instalações para os Correios Restabeleceu a circulação de viaturas entre Una e Diu Restabeleceu o aprovisionamento de carne de vaca, que estava interrompido havia 2 anos Restabeleceu o aprovisionamento em água potável, abandonado há 40 anos
thumb|350px|Palácio do Governador - Diu - 1949.
D. Miguel fez também proceder à restauração do Palácio do Governador, uma pequena maravilha da arquitectura Indo-Portuguesa, considerado como o único palácio da Índia Portuguesa. Dizia o jornal "Anglo-Lusitano" de 24/6/1950: "Com fachada do Século XVII, encimando os brazões dos valorosos heróis de Diu, Nuno da Cunha, António da Silveira, D. João de Mascarenhas e D. João de Castro, todo o mobiliário artistico característico de estilo indo-portugues, os interiores e principalmente a "Sala de Parvati", enriquecidos com pedra e madeira lavrada".
Rua D. Miguel 8 anos depois de D. Miguel ter deixado o Governo de Diu, a Câmara Municipal de Diu, na sessão ordinária de 31 de Julho de 1958, assunto n.º 5, decidiu designar uma rua de Diu "Rua D. Miguel de Noronha de Paiva Couceiro". Trata-se do troço entre a Avenida António de Silveira, que se dirige à Sé Matriz, e a Rua D. João de Castro. Diz essa acta: "A Câmara ... concordou por unanimidade ... designar essa parte da rua com o nome do inesquecível e grande Governador que Diu teve a dita de possuir"Carta da Câmara Municipal de Diu de 16 de Agosto de 1958 contendo parte da Acta da sessão do dia 31 de Julho de 1958.
Extractos das imprensas Portuguesa e Indiana In "The Atom" de 3/5/1950: "...As and when Salazar starts his direct negotiations for an amicable settlement with India, sweeping changes will take place in Portuguese India administration. The present Governor-General and his associates are expected to be removed, and the Governor of Diu, who now serves under the Governor-General, is said to be the likely successor. Known as the Mountbatten of Diu, young and dashing Captain Dom Miguel de Noronha de Paiva Couceiro has created, according to reliable sources here, a good impression in Indian circles. Like Lord Mountbatten, a cousin of the British King, Captain Dom Miguel is also a wealthy scion of the old Portuguese Royal family".
In "Diário Popular", Lisboa 19/5/1950: "O povo de Diu dispensou calorosa manifestação de simpatia ao sr. Capitão Paiva Couceiro, ao mesmo tempo que lhe pediu que não abandonasse o governo do distrito. Uma comissão enviou ao comandante Quintanilha, governador geral do Estado da Índia, o seguinte telegrama: O povo de Diu, vivendo uma época de paz, de prosperidade e de progresso, graças ao governador Miguel de Paiva Couceiro, recebeu em sobressalto a inesperada notícia de que era sua intenção deixar a chefia do distrito. Muitas pessoas ocorreram hoje ao Palácio pedindo ao governador o sacrifício de continuar e suplicando-lhe que desista do seu intento. Rogamos máximo interesse junto do Governo da Metrópole, no sentido de conseguir que o sr. Capitão Paiva Couceiro continui na Índia, onde tanto prestigia Portugal".
In "Anglo-Lusitano" de 24/6/1950: "Sabe-se que foi promovido a Governador da Província de Moçambique SExa o Governador do Distrito, Capitão Paiva Couceiro".
In "BLITZ", Bombaim 27/7/1950: "...if one day the Portuguese decide to change their present aggressive attitude towards India and desire to come to an amicable settlement, like the French (Pondichery), then Dom Miguel will be a natural choice as the Governor-General of Portuguese India".
África do Sul Em 31/8/1950 é nomeado Curador Inspectores Administrativos que exerciam as funções de Curadores dos Indígenas Portugueses em Joanesburgo e Salisbúria (responsáveis pela protecção aos naturais de Moçambique que trabalhavam nas minas da África do Sul) dos Indígenas em Joanesburgo, África do Sul, posto que ocupa até 1953, ano em que deixa a carreira militar.
Moçambique Em 1953 é nomeado Director da Companhia Colonial do Búzi, em Moçambique, começando aí a sua nova carreira de administrador de empresas de fabricação de açúcar de cana. Aberto às novas técnicas, sempre à procura de sistemas inovadores, introduz em Moçambique, pela primeira vez, o conceito de « plantador – canavieiro ». Neste sistema o canavieiro « recebe » terrenos, equipamento, formação, alojamento, sustento se necessário e suporte técnico e logístico da companhia e vende a cana produzida exclusivamente à mesma, o que lhe permite de reembolsar rapidamente o investimento inicial.
thumb|left|250px|Açucareira de Moçambique - a fábrica em 2009. Em 1970 funda a Açucareira de Moçambique, instalada em Mafambisse, então a maior fábrica de açúcar de cana da África Austral.
Deixa Moçambique em 1975, instala-se em Londres como Administrador da Representação da Açucareira de Moçambique, e volta em 1976 para Lisboa, onde é nomeado Director do departamento de Heráldica Militar do Museu Militar, e aí vem a falecer em 1979.
Cavaleiro, fidalgo e escritor thumb|left|250px|Ex-libris Conde de Parati. thumb|250px|Ex-libris Conde de Parati.
Como dizia Fernando Meirelles Cameira após a sua morte, D. Miguel foi « Cavaleiro, Fidalgo, Escritor, Genealogista, Governador de Diu, Heraldista, criador de ex-líbris, desenhador exímio ».
thumb|left|250px|Brasão de armas – Serviço Cartográfico do Exército. thumb|250px|Brasão de armas – Regimento de Infantaria de Angra do Heroísmo.