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Comunitarismo é uma filosofia que enfatiza a conexão entre o indivíduo e a comunidade. Sua filosofia central baseia-se na crença de que a identidade social e a personalidade de uma pessoa são amplamente moldadas pelas relações comunitárias, enquanto um grau menor de desenvolvimento é atribuído ao individualismo.
Embora a comunidade possa ser uma família, o comunitarismo geralmente é entendido, em um sentido filosófico mais amplo, como um conjunto de interações entre uma comunidade de pessoas em um determinado lugar (localização geográfica), ou entre uma comunidade que compartilha um interesse ou uma história em comum.Avineri, S.; de-Shalit, Avner (1992). Communitarianism and Individualism (em inglês). Oxford: Oxford University Press.
Como filosofia política, os comunitaristas enfatizam a importância da família e das instituições intermediárias da sociedade civil, como igrejas, instituições de caridade e outras associações voluntárias, entendidas como estruturas sociais não coercitivas que existem separadamente tanto do coletivismo (exercido na forma da autoridade estatal) quanto do individualismo. Na Europa, as ideias comunitaristas são frequentemente associadas às tradições democratas-cristãs, sendo partidos de origem comunitarista notáveis a CDU alemã, o CDA neerlandês e o ÖVP austríaco.
Origens Embora o termo “comunitarista” tenha sido cunhado apenas em meados do século XIX, ideias de natureza comunitarista surgiram muito antes. Elas podem ser encontradas em algumas doutrinas socialistas clássicas (por exemplo, escritos sobre as primeiras comunas e sobre a solidariedade dos trabalhadores), e ainda mais remotamente no Novo Testamento. O comunitarismo também foi associado às primeiras tradições monásticas.
Diversos sociólogos pioneiros apresentaram fortes elementos comunitaristas em seus trabalhos, como Ferdinand Tönnies em sua comparação entre Gemeinschaft (comunidades opressivas, mas acolhedoras) e Gesellschaft (sociedades libertadoras, porém impessoais), e Émile Durkheim em suas preocupações com o papel integrador dos valores sociais e com as relações entre o indivíduo e a sociedade. Ambos alertaram para os perigos da anomia (ausência de normas) e da alienação em sociedades modernas compostas por indivíduos atomizados que conquistaram sua liberdade, mas perderam seus vínculos sociais. Sociólogos modernos observaram o crescimento da sociedade de massas e o enfraquecimento dos laços comunitários e do respeito pelos valores e autoridades tradicionais nos Estados Unidos a partir da década de 1960. Entre aqueles que levantaram essas questões estavam Robert Nisbet (Twilight of Authority),Nisbet, Robert (1975). Twilight of Authority (em inglês). Indianapolis: LibertyFund. Robert N. Bellah (Habits of the Heart)Bellah, Robert N. (1985). Habits of the Heart (em inglês). Berkeley e Los Angeles: University of California Press. e Alan Ehrenhalt (The Lost City: The Forgotten Virtues of Community in America).Ehrenhalt, Alan (1995). The Lost City: The Forgotten Virtues of Community in America (em inglês). Nova Iorque: BasicBooks. Em seu livro Bowling Alone (2000), Robert Putnam documentou o declínio do “capital social” e destacou a importância do “capital social de ligação”, no qual vínculos de conexão são formados entre diferentes grupos sociais.Putnam, Robert D. (2000). Bowling Alone: The Collapse and Revival of American Community (em inglês). Nova Iorque: Simon & Schuster.
No século XX, o comunitarismo também começou a ser formulado como filosofia por Dorothy Day e pelo Movimento dos Trabalhadores Católicos. Em um artigo inicial, o movimento esclareceu o dogma do Corpo Místico de Cristo como base para o comunitarismo do movimento.E. Walker, David. "The Catholic Worker Movement" (em inglês). Mary House Catholic Worker of Austin. Em linha semelhante, o comunitarismo também se relaciona à filosofia personalista de Emmanuel Mounier.
Respondendo às críticas de que o termo “comunidade” é vago demais ou impossível de definir, Amitai Etzioni, um dos líderes do movimento comunitarista estadunidense, argumentou que comunidades podem ser definidas com razoável precisão por possuírem duas características: primeiro, uma rede de relações carregadas de afeto entre um grupo de indivíduos, relações que frequentemente se cruzam e se reforçam mutuamente (em oposição a relações individuais isoladas ou em cadeia); e, segundo, um grau de compromisso com um conjunto de valores, normas e significados compartilhados, além de uma história e identidade comuns — em resumo, uma cultura particular.Beckert, Jen (2006). "Communitarianism" (em inglês). International Encyclopedia of Economic Sociology. Londres: Routledge. 81. Além disso, o autor David E. Pearson argumentou que, “para merecer a denominação de ‘comunidade’, parece-me que grupos devem ser capazes de exercer persuasão moral e exigir certo grau de conformidade de seus membros. Ou seja, comunidades são necessariamente, e de fato, por definição, coercitivas e morais ao mesmo tempo, ameaçando seus membros com sanções caso se desviem, e oferecendo em troca a segurança e a estabilidade caso não o façam”.
O significado específico de “comunidade” no contexto do comunitarismo pode variar bastante entre autores e períodos históricos. Historicamente, as comunidades eram pequenas e localizadas. Contudo, à medida que o alcance das forças econômicas e tecnológicas se expandiu, comunidades mais amplas tornaram-se necessárias para fornecer orientação normativa e política eficaz a essas forças, o que impulsionou o surgimento das comunidades nacionais na Europa no século XVII. Desde o final do século XX, há um reconhecimento crescente de que até mesmo essas comunidades possuem alcance limitado, já que muitos desafios atuais, como a ameaça de guerra nuclear, a degradação ambiental global e as crises econômicas, não podem ser resolvidos em nível nacional. Isso levou à busca por comunidades mais abrangentes, como a União Europeia. Contudo, ainda não está claro se comunidades verdadeiramente supranacionais podem ser desenvolvidas.
As comunidades mais modernas podem assumir formas bastante diversas, mas frequentemente são limitadas em escopo e alcance. Por exemplo, membros de uma comunidade residencial geralmente também pertencem a outras comunidades, como comunidades de trabalho, étnicas ou religiosas. Como resultado, os membros das comunidades modernas possuem múltiplas fontes de pertencimento e, caso uma delas se torne excessivamente dominante, os indivíduos frequentemente recuam e buscam outra comunidade para reafirmar seus vínculos. Assim, o comunitarismo representa a reação de alguns intelectuais aos problemas da sociedade ocidental, sendo uma tentativa de encontrar formas flexíveis de equilíbrio entre o indivíduo e a sociedade, entre a autonomia individual e os interesses da comunidade, entre o bem comum e a liberdade, os direitos e os deveres.
Comunitarismo acadêmico Enquanto o liberalismo clássico do iluminismo pode ser visto como uma reação a séculos de autoritarismo, governos opressivos, comunidades sufocantes e dogmas rígidos, o comunitarismo moderno pode ser considerado uma reação ao individualismo excessivo, entendido como uma ênfase desmedida nos direitos individuais, levando as pessoas a se tornarem egoístas ou egocêntricas.
A estreita relação entre o indivíduo e a comunidade foi discutida em nível teórico por Michael Sandel e Charles Taylor, entre outros comunitaristas acadêmicos, em suas críticas ao liberalismo filosófico, especialmente à obra do teórico liberal estadunidense John Rawls e do filósofo iluminista alemão Immanuel Kant. Eles argumentavam que o liberalismo contemporâneo falhava em levar em conta o complexo conjunto de relações sociais das quais todos os indivíduos do mundo moderno fazem parte. O liberalismo estaria fundamentado em uma ontologia insustentável que pressupõe a existência de indivíduos genéricos e não considera o enraizamento social das pessoas. Pelo contrário, afirmavam que não existem indivíduos genéricos, mas apenas alemães ou russos, berlinenses ou moscovitas, ou membros de alguma outra comunidade particular. Como a identidade individual é parcialmente construída pela cultura e pelas relações sociais, não haveria uma maneira coerente de formular direitos ou interesses individuais abstraindo-os de seus contextos sociais. Assim, segundo esses comunitaristas, não faria sentido tentar fundamentar uma teoria da justiça em princípios decididos por trás do “véu da ignorância” de Rawls, porque os indivíduos não podem existir em um estado tão abstrato, nem mesmo em princípio.
Os comunitaristas acadêmicos também sustentam que a natureza da comunidade política é mal compreendida pelo liberalismo. Enquanto os filósofos liberais descrevem a ordem política como uma estrutura neutra de regras dentro da qual múltiplos compromissos com valores morais podem coexistir, os comunitaristas acadêmicos argumentam que essa concepção “minimalista” de comunidade política era tanto empiricamente enganosa quanto normativamente perigosa. Boas sociedades, acreditam esses autores, dependem de muito mais do que regras e procedimentos neutros — elas se apoiam em uma cultura moral compartilhada. Alguns comunitaristas acadêmicos defenderam de forma ainda mais contundente esses valores particularistas, sugerindo que seriam os únicos valores realmente importantes e que seria um erro filosófico pressupor a existência de valores morais verdadeiramente universais.
Além de Charles Taylor e Michael Sandel, outros pensadores frequentemente associados ao comunitarismo acadêmico incluem Michael Walzer, Alasdair MacIntyre, Seyla Benhabib, Shlomo Avineri e Patrick J. Deneen.
Capital social A partir do final do século XX, muitos autores passaram a observar uma deterioração das redes sociais nos Estados Unidos. No livro Bowling Alone, Robert Putnam observou que praticamente todas as formas de organização cívica sofreram quedas no número de membros, exemplificadas pelo fato de que, embora mais pessoas pratiquem boliche do que na década de 1950, existem menos ligas de boliche.
Isso resulta em um declínio do chamado “capital social”, descrito por Putnam como “o valor coletivo de todas as redes sociais e das inclinações que surgem dessas redes para que as pessoas façam coisas umas pelas outras”. Segundo Putnam e seus seguidores, o capital social é um componente fundamental para construir e manter a democracia.
Os comunitaristas procuram fortalecer o capital social e as instituições da sociedade civil. A Responsive Communitarian Platform descreveu essa visão da seguinte forma:Muitos objetivos sociais exigem parcerias entre grupos públicos e privados. Embora o governo não deva procurar substituir as comunidades locais, pode ser necessário fortalecê-las por meio de estratégias de apoio, incluindo compartilhamento de receitas e assistência técnica. Há uma grande necessidade de estudos e experimentação com o uso criativo das estruturas da sociedade civil e da cooperação entre os setores público e privado, especialmente no que diz respeito à prestação de serviços de saúde, educação e assistência social.
Direitos positivos Importante para alguns defensores da filosofia comunitarista é o conceito de direitos positivos, isto é, direitos ou garantias a determinados bens e serviços. Esses direitos podem incluir educação subsidiada pelo Estado, moradia subsidiada pelo Estado, um meio ambiente seguro e limpo, assistência médica universal e até mesmo o direito a um emprego, acompanhado da obrigação correspondente de o governo ou a sociedade providenciá-lo. Por essa razão, os comunitaristas geralmente apoiam programas de seguridade social, programas de obras públicas e leis que limitem práticas como a poluição.