A língua lakota, (em lakota: lakȟótiyapi, AFI: [laˈko.ti.ya.pi]) também conhecido como lakhota, teton ou teton sioux, é uma língua indígena americana dos Estados Unidos e Canadá falada pelo povo lakota ou teton. Pertence ao contínuo dialético dakotano da família siouana, que é composto pelas línguas dos grupos nakoda e sioux, sendo lakota parte do grupo sioux.
É falada principalmente na Dakota do Sul, onde é reconhecida como língua indígena oficial. Conta com cerca de 2100 usuários, um número o qual está em decadência e representa apenas 1% do povo lakota. O Atlas Mundial das Línguas em Perigo da UNESCO classifica sioux como uma língua vulnerável; porém, o Ethnologue classifica a língua lakota como "em perigo". Ainda sim, a revitalização é ativa, com muitos jovens aprendendo a língua.
Como a maioria das línguas indígenas americanas, lakota não era tradicionalmente escrita. As análises linguísticas de lakota, além da tentativa de criação de uma ortografia, começaram com missionários cristãos no século XVIII.
A língua possui uma marcação de núcleo e morfologia parcialmente sintética, com afixos pronominais indicando os sujeito e objetos da oração. Ela possui um alinhamento ativo-estativo, que está presente tanto nos verbos, quanto nos pronomes.
Etimologia O termo lakota é um endônimo usado pelos falantes da língua, cujo significado original é "amigo" ou "aliado", sendo derivado da palavra lakota kȟolá, de mesmo significado. Há outras teorias para a origem do termo, como a proposta por linguista e especialista em línguas siuanas John E. Koontz. Ele diz que la- é um pré-verbo que significa "por calor", sendo então lakota "ser amigo por meio do calor". Essa expressão provavelmente é uma referencia à aliança histórica de tribos Očhéthi Šakówiŋ, ou "Sete Fogueiras do Conselho". As palavras dakota e nakoda são variações de lakota e tem o mesmo significado, porém a pronúncia das consoantes muda entre as línguas.
A primeira aparição do termo em escritas europeias foi no livro Scenes in the Rocky Mountains..., escrito por jornalista estadunidense Rufus Sage em 1846. Na obra, o escritor erroneamente diz que o significado de lakota é "degoladores". A palavra dakota, todavia, foi registrada antes, sendo sua primeira aparição nos Diários de Lewis e Clark em 1804.
Historicamente, os lakota eram chamados pelo exônimo sioux, termo atualmente usado para o grupo linguístico à qual sua língua pertence. Sioux é uma truncação da palavra francesa nadouessioux, a qual é uma adaptação da palavra ojíbua naadwesi, que já era usada para se referir ao povo. Naadwesi é uma forma diminutiva-pejorativa de naadwe, significando "falante de uma língua estrangeira" ou "pequeno bárbaro". Por causa de sua etimologia, a palavra sioux encontra-se em desuso.
Outro termo usado para se referir à língua é o endônimo teton. Ele é derivado da palavra lakota thítȟuŋwaŋ, que significa "habitantes da pradaria" e originou-se da junção das palavras thíŋta (pradaria) e tȟuŋwaŋ (vila/habitantes). Ambos os termos sioux e teton tiveram aparições em escritas europeias antes de lakota, sendo o anterior registrado primordialmente por Jean Nicolet em 1640 e, o segundo, por Louis Hennepin em 1697, em seu livro A New Discovery of a Vast Country in America. A expressão "teton sioux" e também é usada para se referir a língua.
Distribuição miniaturadaimagem|Hospital da reserva Pine Ridge A língua lakota é falada majoritariamente nos Estados Unidos e Canadá pelo povo lakota no oeste do rio Missouri, principalmente nas Dakota do Sul e Dakota do Norte. Nesses estados, a língua tem usuários nas reservas indígenas Cheyenne River, Lower Brule, Pine Ridge, Rosebud, Sisseton e Standing Rock. Além disso, há falantes nos estados de Montana (reserva Fort Peck) e Nebraska, bem como na província de Sascachevão (reserva Wood Mountain). A língua também tem comunidades de usuários em centros urbanos, como Denver, Minneapolis, Chicago, Los Angeles e Seattle.
Desde 2019, "a língua da (...) Grande Nação Sioux, composta de três dialetos, Lakota, Dakota, e Nakota" é a língua indígena oficial dda Dakota do Sul. Lakota também é a reconhecida como a língua das tribos sioux Cheyenne River, Lower Brule, Rosebud, Standing Rock, Wood Mountain e Oglala, assim como das tribos sioux e assiniboine da reserva Fort Peck.
Em 2016, a língua foi classificada como "em perigo" pelo Ethnologue, tendo cerca de 2.200 falantes nativos de lakota, dos quais, aproximadamente, 2.100 eram dos EUA e 100 eram do Canadá. O número absoluto de usuários da língua está diminuindo, tanto que havia por volta de 6.390 falantes nativos em 2009, e estima-se que esse número está mais próximo de 1000. Além disso, apenas em torno de 1% dos 170.000 lakota falam a língua, visto que a maioria fala inglês, e acredita-se que não há mais falantes monolíngues. A maior parte dos usuários da língua lakota são adultos mais velhos. Ademais, idade média do falante da língua sendo 50 anos em 1993, 65 anos em 2009 e 70 anos em 2021. Ainda sim, a revitalização é ativa, e há um aumento de jovens que aprendem lakota como uma segunda língua.
Línguas relacionadas A língua lakota faz parte da família linguística siouana-catawbana, especificamente do ramo do vale do Mississippi. Ela é um membro de um contínuo dialetal falado na parte norte das Grandes Planices dos Estados Unidos e Canadá. Esse contínuo é correspondente ao grupo dakotano, composto pelas línguas lakota, dakota — a qual tem dois dialetos, dakota ocidental (yanktonai-yankton) e dakota oriental (santee-sisseton) —, assiniboine e stoney, as quais são fortemente relacionadas. Assim, há documentos que referem a lakota tanto como uma língua, quanto como um dialeto. Lakota é mutuamente inteligível com dakota — tanto que esses constituem o subgrupo sioux —, mas não com assiniboine e stoney.
Tradicionalmente, as línguas do grupo dakotano eram classificadas pelo uso das consoantes /d/, /n/ e /l/, que variam consistentemente entre elas em certas palavras. Haveria então, de acordo com essa classificação, três línguas que comporiam o grupo: lakota, dakota e nakoda. Entretanto, esse sistema foi considerado inadequado, visto que havia bastantes exceções à regra e inconsistências na classificação do dialeto yanktonai-yankton. Assim, em 1992, antropólogos Douglas R. Parks e Raymond J. DeMallie desenvolveram uma nova classificação, que manteve lakota, porém distinguiu dakota ocidental de oriental, bem como assiniboine de stoney, que antes formavam a língua nakoda. +Quadro comparativo entre as línguas do grupo dakotanoPortuguêsLakotaSantee-SissetonYanktonai-YanktonAssiniboineStoneyamigokȟolákhodákhodákhoná—isto (demonstrativo proximal)lededenenegordurososlasdasdasnasnaoitošaglóǧaŋšahdóǧaŋšahdóǧaŋšaknóǧaŋšaħnóʕaŋmuitolílanínanína, dínanínanína -inho/a (sufixo diminutivo) -la -da, -daŋ, -na -na -na -n, -naŋpequenocíscilacístinacíscinacúsinacúsin História miniaturadaimagem|Distribuição do povo lakota antes do contato europeu Todas as línguas da família siouano-catawbano originaram do proto-siouano-catawbano, a qual provavelmente era falada a 5000 anos atrás, no vale do rio Ohio. Aproximadamente mil anos depois, o ramo catawbano diferenciou-se, enquanto os outros divergiram por volta de 3000 anos atrás. O grupo sioux, ao qual pertence a língua lakota, separou-se do nakoda em torno de 1235 EC.
Antes do contato europeu, é acreditado que os lakota e dakota viviam numa região próxima ao lago Superior, correspondente ao atuais estados de Minnesota e Wisconsin. Eles teriam surgido à partir de alianças entre tribos nos séculos XIII e XIV EC. Nessa época, foram estabelecidas vilas nas margens de rios e lagos, as quais se sustentavam por meio da caça, pesca, coleta e agricultura. miniaturadaimagem|Exemplar de contagens de inverno A língua não era originalmente escrita, com a maioria de sua história sendo transmitida oralmente por meio de cerimônias e contos. No entanto, os lakota produziam calendários pictográficos que registravam eventos de sua história, chamados waníyetu wówapi, ou contagens de inverno. Nesses registros, cada ano é representado por uma figura simbolizando um acontecimento natural ou evento seu, com um exemplar tendo registros datando de 900 EC.
Conflitos com os ojíbua levaram os lakota e dakota a migrarem para o sul em meados do século XVII. Os lakota também começaram a deslocar-se para o oeste em direção às pradarias norte-americanas, cruzando o rio Vermelho do Norte entre 1700 e 1725, e posteriormente o rio Missouri. Essa migração foi provavelmente influenciada pela caça grossa que havia na área e pelos cavalos, que outros povos de lá já tinham obtido. Assim, após adquirirem a nova montaria, os lakota adotaram um estilo de vida mais nomádico, baseado na caça de bisões. Eles também tomaram controle dos Black Hills, ou Colinas Negras.
Fonologia Consoantes A língua lakota é composta por 33 fonemas consonantais, dos quais a maioria são obstruentes, com alguns soantes e um lateral. Outras classificações usam diferentes seleções de fonemas. Estas são as consoantes de lakota, de acordo com a classificação de Ullrich de 2011:
+ Inventário consonantal lakota Bilabial Dental Alveolar Pós-alveolar Velar Uvular Glotal Nasal Plosiva surda aspirada uvularizada pᵡ tᵡ kᵡ ejetiva sonora Africada surda aspirada ejetiva Fricativa surda ejetiva ʃʼ sonora Aproximante Aproximante lateral
Vogais
A língua tem um total de 8 fonemas vocálicos, sendo 5 vogais orais e 3 vogais nasais, as quais são as mesmas que eram usadas em proto-siouano. Há discordância acerca desses fonemas, principalmente sobre a pronúncia de /e/ e /o/, que alguns autores dizem ser [ɛ] e [ɔ], respectivamente. A pronúncia de /ĩ/ e /ũ/ também é discutida, com certos autores dizendo ser [ɪ̃] e [ʊ̃], na mesma ordem. As vogais são parcialmente desvozeadas em sílabas tônicas e no final das frases. + Inventário vocálico lakota Anterior Quase anterior Central Quase posterior Posterior Fechada Quase fechada Média oral nasal Aberta
Nasalização Em lakota, as vogais /i/, /a/ e /u/ são sempre nasalizadas quando ocorrem após as consoantes nasais /m/ ou /n/. Alguns falantes distinguem as vogais nasais das orais nasalizadas, reservando uma nasalização mais forte para as primeiras, e uma mais fraca para as últimas. De fato, essa distinção existe entre certas palavras, por exemplo, em:
mãká [mə̃ka] (sento), cuja vogal é nasal, e maká [mə̃ka] (gambá), cuja vogal é oral, mas foi nasalizada pelo /m/.
Em algumas palavras, há vogais que certos usuários da língua pronunciam como nasais, e outros, como orais. Nesses casos, ambas as pronúncias estão corretas, como em:
naži [naʒi] ou nažĩ [naʒɪ̃] (ficar de pé). Transformações fonológicas As plosivas /k/, /kʰ/ e /kʼ/, quando precedidas da vogal /i/, sofrem anteriorização velar, passando a serem pronunciadas como /tʃ/, /tʃʰ/ e /tʃʼ/, na devida ordem. Esse processo ocorre em:
nicʼupi [nitʃʼupi] (eles te dão), no qual o radical kʼu (dar) sofre anteriorização devido ao prefixo ni- (você).
Quando os fonemas /p/ e /k/ aparecem seguidos de /l/, /m/, /n/, /w/ ou /y/, eles são pronunciados como /b/ e /g/, na mesma ordem, como acontece em:
bló [blo] (batata); gló [glo] (grunhir).
Se uma plosiva aspirada /pʰ/, /tʰ/ e /kʰ/ precede uma das vogais /a/, /ã/, /ũ/, /o/ e, as vezes, /e/, a consoante torna-se uvularizada, como em:
kho (também), cuja pronúncia esperada é [kʰo], mas é pronunciado [kᵡo]; pheží (grama), que pode ser pronunciado tanto como [pʰeʒi], quanto como [pᵡeʒi]. Fonotática A estrutura silábica da língua segue o padrão (C)(C)V(C), sendo que a maioria das sílabas é composta por uma ou duas consoantes e uma vogal. Ainda sim, há algumas palavras que começam com uma vogal, bem como outras que terminam com uma consoante, por meio da truncação do radical. As consoantes que resultam da truncação, logo podem aparecer no fim de uma palavra, são /s/, /ʃ/, /χ/, /l/, /b/ e /g/.