Bernardo de Claraval (; castelo de Fontaine-lès-Dijon, 1090 — Ville-sous-la-Ferté, 20 de agosto de 1153) foi um abade francês, canonizado em 1174 e proclamado Doutor da Igreja. Foi o principal responsável por reformar a Ordem de Cister, na qual entrou logo depois da morte de sua mãe. Foi o fundador da Abadia de Claraval (Clairvaux), na Diocese de Langres.

Em 1128 Bernardo participou do Concílio de Troyes, que delineou a regra monástica que guiaria os Cavaleiros Templários e que rapidamente tornou-se o ideal de nobreza utilizado no mundo cristão. Depois da morte do Papa Honório II em 1130, Bernardo foi instrumental para reconciliar a Igreja durante o chamado "cisma papal de 1130", que só terminaria definitivamente com a morte do antipapa Anacleto II em 1138.

No ano seguinte, Bernardo ajudou a organizar o Segundo Concílio de Latrão. Em 1141, Inocêncio convocou o Concílio de Sens para tratar da denúncia de Bernardo contra Pedro Abelardo. Com bastante experiência em curar cismas na Igreja, Bernardo foi em seguida recrutado para ajudar no combate às heresias que grassavam no sul da França.

No Oriente Médio, depois da derrota cristã no cerco de Edessa, o Papa encarregou Bernardo de pregar a Segunda Cruzada, cujo fracasso seria depois considerado parcialmente culpa sua.

Bernardo morreu aos 63 anos, depois de passar quarenta anos enclausurado. Foi o primeiro cisterciense no calendário de santos, tendo sido canonizado por Alexandre III em 18 de janeiro de 1174. Em 1830, Pio VIII proclamou-o Doutor da Igreja.

Entre suas obras estão a regra monástica da Ordem dos Templários, o "Tratado do Amor de Deus" e o "Comentário ao Cântico dos Cânticos". É também o compositor ou redator do hino "Ave Maris Stella" e da invocação " Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria" da oração "Salve Rainha".

Biografia Primeiros anos (1090—1113) Os pais de Bernardo eram Tescelin, senhor de Fontaines, e Aleth de Montbard, ambos oriundos da mais alta nobreza da Borgonha. Ele foi o terceiro de sete filhos, seis dos quais homens. Aos nove, foi enviado para uma escola em Châtillon-sur-Seine dirigida pelos clérigos seculares de Saint-Vorles. Em sua educação, demonstrou grande apreciação pela literatura - principalmente para poder estudar a Bíblia - e dedicou-se por algum tempo à poesia. Bernardo era especialmente devoto da Virgem Maria e escreveu depois muitas obras sobre a "Rainha do Céu", como ele a chamava. Suas conquistas acadêmicas lhe valeram grande admiração de seus professores.

Bernardo tinha apenas dezenove anos quando sua mãe morreu, um evento que o fez pensar em se retirar do mundo para viver uma vida de solidão e oração.Bunson (1998) p.129. Em 1098, São Roberto de Molesme fundou a Abadia de Cister, perto de Dijon, com o objetivo de restaurar à "Regra de São Bento" o seu rigor original. Depois de voltar para sua terra natal, Roberto deixou sua nova abadia aos cuidados de Santo Alberico, que morreu em 1109. Em 1113, Santo Estêvão Harding havia acabado de sucedê-lo como abade quando Bernardo e trinta outros jovens da nobreza foram admitidos na Ordem de Cister.McManners (1990) p.204.

Abade de Claraval (1115—1128) 300px|direita|thumb|Abadia de Claraval, na região de Champanha-Ardenas (França). Fundada por Bernardo, foi sua residência por mais de 40 anos. Ali foi abade e escreveu a maior parte de suas obras. A pequena comunidade de beneditinos reformados de Cîteaux, que teria uma profunda influência sobre o monasticismo ocidental, cresceu rapidamente. Três anos depois, Bernardo foi enviado à frente de um grupo de doze monges para fundar uma nova casa no Vallée d'Absinthe, na Diocese de Langres, uma região que ele batizou de "Claire Vallée" (que evoluiu depois para "Clairvaux" e tornou-se "Claraval" em português). A nova abadia, fundada em 25 de junho de 1115, ligou seu nome, Abadia de Claraval, ao de Bernardo daí em diante. Durante uma ausência do bispo de Langres, Bernardo foi abençoado como abade por Guilherme de Champeaux, bispo de Châlons-sur-Marne e, a partir daí, uma forte amizade nasceu entre os dois. Guilherme era também professor de teologia em Notre-Dame de Paris e fora o fundador da Abadia de São Vítor na mesma cidade.

Os primeiros anos da nova abadia foram muito difíceis. O regime era tão austero que Bernardo ficou doente e, somente depois da intervenção de seu amigo Guilherme e por imposição do capítulo geral da ordem que o regime seria relaxado. Apesar disso, o mosteiro progrediu rapidamente. Discípulos chegavam de todas as partes para servirem sob a direção espiritual de Bernardo, incluindo seu pai e todos os seus irmãos. Humbelina, sua irmã, permaneceu no mundo secular, mas, com o consentimento do marido, ela também se tornou freira no convento beneditino de Jully-les-Nonnains. Futuramente, Geraldo de Claraval (Gerard de Clairvaux), irmão mais velho de Bernardo, tornar-se-ia um obedientiarius em Cîteaux. Contudo, a abadia logo ficou pequena demais e novos grupos de monges foram enviados para fundar novas casas. Em 1118, a Abadia de Trois-Fontaines foi fundada na Diocese de Châlons; em 1119, a Abadia de Fontenay na Diocese de Autun; em 1121, a Abadia de Foigny, perto de Vervins, na Diocese de Laon. Porém, não foram só vitórias para Bernardo neste período. Durante uma ausência de Claraval, o grão-prior da Abadia de Cluny foi à Claraval e atraiu o sobrinho de Bernardo, Roberto de Châtillon, para sua abadia, o que deu causa à mais longa e emocional de todas as cartas de Bernardo.

Em 1119, Bernardo esteve presente no primeiro capítulo geral da ordem, convocado por Santo Estêvão de Cîteaux. Apesar de não estar ainda com trinta anos de idade, Bernardo foi ouvido com grande atenção e respeito, especialmente quando discursou sobre suas ideias a respeito de uma retomada do espírito primitivo de cumprimento das regras e maior fervor em todas as ordens monásticas. Foi este capítulo que decidiu a versão definitiva da constituição da ordem e dos regulamentos da "Carta de Caridade" que o papa Calisto II confirmou em 23 de dezembro de 1119. No ano seguinte, Bernardo escreveu sua primeira obra, "De Gradibus Superbiae et Humilitatis", e botou por escrito suas homilias em "De Laudibus Mariae". Os monges negros de Cluny, porém, estavam descontentes com o papel de liderança que Cîteaux vinha assumindo entre as demais ordens e, por isso, tentaram fazer com que estas regras parecessem ser impraticáveis. A pedido de Guilherme de São Teodorico, Bernardo defendeu-as em sua "Apologia", dividida em duas partes. Na primeira, provou ser ele próprio inocente das acusações de Cluny e, na segunda, contra-atacou as acusações. Demonstrou sua profunda estima pelos beneditinos de Cluny e afirmou amá-los tanto quanto os seus demais irmãos nas outras ordens. Pedro, o Venerável, abade de Cluny, respondeu a Bernardo e assegurou-o de sua grande admiração e sincera amizade. Neste ínterim, Cluny também iniciou suas reformas e o abade Suger, ministro de Luís VI da França, convertido pela "Apologia" de Bernardo, renunciou à vida secular e voltou para seu antigo mosteiro para restaurar a disciplina. O zelo de Bernardo se estendeu além disso aos bispos, demais clérigos e à população laica. Sua carta ao arcebispo de Sens, desta época, é considerada como sendo um tratado sobre a vida episcopal ("De Officiis Episcoporum"). Do mesmo período é também sua obra "Graça e Livre Arbítrio".

Doutor da Igreja (1128—1146) thumb|direita|300px|Aparição da Virgem Maria a São Bernardo no estilo Lactatio Bernardi. Um dos pilares da fé de Bernardo era sua crença na mediação da Virgem nos assuntos da fé.1655. Por Murillo, atualmente no Museu do Prado, Madrid. Em 1128, Bernardo participou do Concílio de Troyes, convocado pelo papa Honório II e presidido pelo cardeal Mateus, bispo de Albano, com o objetivo de resolver definitivamente a disputa entre os bispos de Paris e de propor algumas regulamentações para a Igreja da França. Os bispos reunidos elegeram Bernardo como secretário do concílio e o encarregaram de escrever os estatutos sinodais. Como resultado do concílio, o bispo de Verdun foi deposto. Foi ali também que Bernardo delineou a regra monástica que seria seguida pelos Cavaleiros Templários e que tornar-se-ia o ideal de nobreza cristão. Por volta da mesma época, Bernardo escreveu sua eulogia aos templários, a "Liber ad milites templi de laude novae militiae".Durant (1950) p.593.

Contudo, novamente Bernardo se viu criticado e chegou a ser denunciado em Roma, acusado desta vez de ser um monge se metendo em assuntos que não lhe diziam respeito. O cardeal Harmerico, em nome do papa, escreveu a Bernardo uma dura carta de admoestação na qual afirma que "não é adequado que sapos barulhentos e problemáticos deixem seus pântanos para se meter com a Santa Sé e os cardeais". Bernardo respondeu afirmando que, se ele ajudou no concílio, foi por que foi arrastado para lá à força e continuou:

A carta, apesar do tom, foi muito bem recebida por Harmerico e pela Santa Sé.

Cisma A influência de Bernardo logo se faria sentir também nos assuntos provinciais. Ele defendeu os direitos da Igreja contra os avanços de reis e príncipes e lembrou Henrique Sanglier, arcebispo de Sens, e Estêvão de Senlis, bispo de Paris, de seus deveres. Com a morte de Honório II, ocorrida em 14 de fevereiro de 1130, um cisma irrompeu na Igreja depois que dois papas foram eleitos, Inocêncio II e Anacleto II. Inocêncio, depois de ser expulso de Roma por Anacleto, refugiou-se na França. O rei Luís VI convocou um concílio de bispos franceses em Étampes no mesmo ano. Bernardo foi escolhido para decidir entre os rivais pelo posto e escolheu Inocêncio. Depois do concílio, Bernardo viajou para o Reino da Inglaterra para tratar com Henrique I suas dúvidas em relação ao novo papa - a maioria dos bispos ingleses havia apoiado a eleição de Anacleto - e convenceu-o da correção da escolha. O Sacro Império Romano-Germânico já havia se decidido por Inocêncio depois da intervenção de São Norberto de Xanten, amigo de Bernardo. Ainda assim, Inocêncio insistiu que Bernardo o acompanhasse durante sua apresentação ao imperador Lotário III, que tornou-se o seu maior aliado entre os nobres europeus. Depois de diversos concílios, como o de Étampes, Wurzburg, Clermont e Rheims, todos apoiando Inocêncio, havia ainda uma grande divisão no mundo cristão. No final de 1131, os reinos da França, Inglaterra, Castela, Aragão e o Império Germânico apoiavam Inocêncio, ao passo que a maior parte da Itália, o sul da França e a Sicília, juntamente com os patriarcas orientais em Constantinopla, Jerusalém e Antioquia apoiavam Anacleto.St. Bernard of Clairveaux by Msgr. Leon Cristiani c 1970 thumb|esquerda|250px|São Bernardo converte o conde de Poitiers, Guilherme X.1641. Por Wouter Crabeth II. Em 1132, Bernardo acompanhou Inocêncio II numa viagem à Itália e, quando passaram por Cluny, o papa extinguiu todas as taxas que Claraval pagava tradicionalmente aos cluníacos, o que iniciou uma discussão entre os monges brancos (cistercienses) e os monges negros (cluníacos) que perduraria por vinte anos. Em maio do mesmo ano, Inocêncio, apoiado por Lotário III, finalmente entrou em Roma, mas o imperador, sentindo que suas forças seriam insuficientes para resistir à guerra de guerrilha dos aliados de Anacleto na península, recuou para além dos Alpes e obrigou Inocêncio a se refugiar em Pisa em setembro de 1133. Bernardo, que havia retornado para casa em junho para continuar seu trabalho de paz, teve que retornar para a Aquitânia no final de 1134 depois que o conde de Poitiers, Guilherme X novamente passou a apoiar Anacleto, voltando atrás numa promessa feita a Bernardo três anos antes. Ele convidou-o para uma missa na igreja de La Couldre e, durante a Eucaristia, "advertiu o duque a não desprezar Deus como ele despreza Seus servos". Guilherme cedeu novamente e o cisma aparentemente terminou.