Ricardo Espírito Santo Silva Salgado (Cascais, 25 de junho de 1944) é um economista e antigo administrador bancário português.
Foi presidente do Banco Espírito Santo e era, à data de 24 de julho de 2014, o banqueiro há mais tempo no ativo em Portugal.
Era conhecido geralmente como "O Dono Disto Tudo".
No dia 06 de janeiro de 2026, o Tribunal Constitucional confirmou a aplicação de pena de prisão de oito anos a Ricardo Salgado, relacionado a abuso de confiança. Aguarda avaliação psiquiátrica para potencial integração em estabelecimento prisional, que se afigura como pouquíssimo provável, dado o estado avançado de doença em que se encontra.
Início de vida Da família Espírito Santo — bisneto de José Maria do Espírito Santo Silva e neto de Ricardo Ribeiro do Espírito Santo Silva — Ricardo Salgado passou os primeiros anos da sua vida no bairro lisboeta da Lapa.
Fez todo o seu percurso escolar em escolas públicas, frequentando uma escola primária na Lapa e, mais tarde, o Liceu Pedro Nunes.
Em 1969 completou a licenciatura em Economia do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (actual ISEG), pertencente à Universidade Técnica de Lisboa.
Presou serviço militar na Marinha Portuguesa, onde realizou o Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval.
A seguir, no ano de 1972, ingressava no então Banco Espírito Santo & Comercial de Lisboa.
Carreira empresarial Em 1972, no Banco Espírito Santo & Comercial de Lisboa, Ricardo Salgado começou por exercer funções de direção do Gabinete de Estudos Económicos, de onde passou, posteriormente, para a Direção de Crédito.
Em 1975, porém, na sequência da Revolução de 25 de Abril de 1974 e do 11 de Março de 1975, a banca é estatizada , e a família Espírito Santo, como várias outras, da grande burguesia portuguesa da época, vê-se afastada do seu banco.
Ricardo Salgado deixava então Portugal vivendo, sucessivamente, no Brasil (1976-1982) e na Suíça (1982-1991).
A partir desses países ajudaria a família no processo de reconstrução do Grupo Espírito Santo.
Foi da Suíça que regressou a Portugal, para se lançar como empresário e banqueiro.
Começou pela criação do Banco Internacional de Crédito em 1986, quando a Constituição da República Portuguesa ainda não permitia reprivatizações, entidade que, mais tarde, seria absorvida pelo Banco Espírito Santo.
Em 1991, com o processo de devolução do BES à economia privada, Ricardo Salgado assumia a presidência executiva do Banco Espírito Santo, sucedendo ao tio Manuel Espírito Santo Silva. Na sua liderança consegue um aumento significativo da quota de mercado, de 8% para 20%.
Arrancava também com a internacionalização do BES, apostando no triângulo estratégico África, Brasil e Espanha - a área internacional chegaria a valer metade dos lucros do banco.
Determinante para o crescimento do BES, como dos seus congéneres no mesmo período, foi a prosperidade trazida ao país pela entrada na União Europeia, que fez desaguar em Portugal muitos milhões para desenvolver infraestruturas e propiciou a melhoria das condições de vida de muitas famílias da classe média.
Em 2002 foi nomeado para o Supervisory Board da Euronext NV (Amesterdão) e em 2006 participa na fusão da Euronext com o New York Stock Exchange (NYSE), tendo feito parte do seu Conselho como membro não Executivo até 2011. Foi administrador não executivo do Banco Bradesco (Brasil) de 2003 a 2012.
Paralalemnte ao Banco, Ricardo Salgado foi também membro do conselho superior do Grupo Espírito Santo; presidente do Conselho de Administração do Espírito Santo Financial Group (sociedade sedeada no Luxemburgo) e do Banco Espírito Santo de Investimento (BESI).
Foi ainda administrador do Espírito Santo Bank of Florida (EUA), da E.S. International Holding (Luxemburgo), da Espírito Santo Resources (Bahamas), do Banque Privée Espírito Santo (Suiça) e do Banque Espírito Santo et de la Vénétie (França).
Em 2012 o banco liderado por Ricardo Salgado foi o único dos três maiores bancos privados portugueses a aumentar capital recorrendo apenas aos acionistas e ao mercado de capitais, e sem recorrer ao dinheiro dos contribuintes.
Em janeiro de 2013 o BES foi igualmente o único banco português a gerir a operação que marcava o regresso de Portugal aos mercados desde que o país foi alvo de intervenção da troika.
Operação de aumento de capital do BES Em junho de 2014, o banco liderado por Salgado levou a cabo uma operação de aumento de capital, considerada pelo banqueiro como a de maior sucesso desde a privatização em 1992.
O aumento de capital do BES foi totalmente subscrito, tendo a procura superado 178% da oferta disponível.Jornal de Negócios, Ricardo Salgado: "Foi o aumento de capital com mais sucesso desde 1992"Jornal de Negócios, Procura no aumento de capital do BES supera oferta em 79%
O prospeto de informação aos investidores não tinha, porém, toda a informação devida. Foi com ela que os acionistas e investidores aplicaram mais de mil milhões de euros no BES que, pouco mais de um mês e meio, foi alvo de uma medida de resolução aplicada pelo Banco de Portugal, perdendo esse investimento.
Por exemplo, no prospeto não havia os dados verdadeiros e completos sobre a exposição dos clientes do BES a sociedades do Grupo Espírito Santo, bem como o que se passava na exposição ao BES Angola (havia nota sobre a garantia estatal angolana, mas não sobre a situação em que se encontrava o próprio BESA).
Ao longo da operação de aumento de capital, ocorreram várias transações que deviam ter sido comunicadas ao mercado, o que não aconteceu. Aqui estão as operações financeiras com dívida do BES, como também as cartas-conforto a entidades venezuelanas.
Em janeiro de 2021, Ricardo Salgado foi alvo de uma nova condenação, aplicada pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários. A coima é de um milhão de euros. Em causa está o processo relativo ao aumento de capital do banco, em que a instituição recebeu mais de mil milhões de euros de acionistas e investidores.
Afastamento da liderança do BES No entanto, no mês seguinte Salgado foi afastado da liderança do Banco e substituído por Vitor Bento, devido à revelação de prejuízos e irregularidades de contas, mais tarde confirmados como consequências de "gestão ruinosa" praticada por Salgado.
Em dezembro de 2014, Salgado era dado como o pior presidente executivo de um banco do mundo no ano de 2014, pela estação britânica BBC - escolha baseada no facto de Salgado ser o principal agente na queda do segundo maior banco português.
Acusação e condenação Em julho de 2020 o Ministério Público acusou Ricardo Salgado de liderar uma associação criminosa enquanto esteve à frente do Grupo Espírito Santo. Em causa está uma estrutura fraudulenta criado pelo antigo banqueiro, uma organização montada sem conhecimento da maioria da equipa de gestão e das entidades de fiscalização do banco, nomeadamente, do Banco de Portugal. Ricardo Salgado foi o cérebro e o líder de uma rede criminosa, por si estruturada dentro Grupo Espírito Santo e do Banco Espírito Santo, com a finalidade de cometer delitos de forma organizada. Através desta estrutura faz pagamentos ocultos, cometeu fraudes no comércio internacional e desviou fundos de centenas de milhões de euros para corrupção, tendo desnatado o BES em mais de mil milhões de euros.
Este caso é a mais grave acusação alguma vez feita até hoje a um banqueiro em Portugal e o maior escândalo financeiro da história do país.
Em 14 outubro de 2021, a defesa do antigo banqueiro pediu a suspensão do processo fundamentando-o com um atestado médico a comprovar o diagnóstico de doença de Alzheimer. O tribunal recusou suspender o julgamento.
Em março de 2022 foi condenado a seis anos de prisão efetiva por ter desviado 10,7 milhões de euros do Grupo Espírito Santo, em 2011. A defesa apresentou um recurso no Tribunal da Relação de Lisboa, onde pediu a absolvição de Salgado, alegando acessoriamente que, em caso de condenação, a pena terá, independentemente da sua duração, de ser suspensa, devido à doença de que o arguido padece. Já o Ministério Público solicitou que a pena fosse agravada para dez anos - ou, no mínimo, seis anos e oito meses - de cadeia. Em 24 de maio de 2023, o Tribunal da Relação de Lisboa agravou a pena de Ricardo Salgado para oito anos de prisão efetiva. Depois disto, Ricardo Salgado recorreu para o Supremo Tribunal de Justiça. Em 29 de fevereiro de 2024, o Supremo Tribunal de Justiça confirmou a pena, mas não a aplicou de imediato, pedindo que fosse feita uma perícia médica para confirmar o diagnóstico de doença de Alzheimer. Após a perícia será avaliada a possibilidade de suspender a pena. Em Maio de 2025 perdeu o último recurso no Tribunal Constitucional.
Em julho de 2023, de acordo com a decisão instrutória lida no Tribunal Central de Instrução Criminal (Lisboa), o ex-banqueiro vai a julgamento por 65 crimes, entre os quais associação criminosa, corrupção ativa, falsificação de documento, burla qualificada e branqueamento. Esta decisão acontece nove anos após a derrocada do Grupo Espírito Santo, que terá causado prejuízos superiores a 11,8 mil milhões de euros.
Em outubro de 2023, foi acusado de mais 20 crimes de corrupção ativa com prejuízo do comércio internacional e 21 de branqueamento, sendo que só não responde por associação criminosa neste processo, uma vez que já foi acusado desse crime no processo principal do Universo Espírito Santo.
Condecorações oficiais e outras distinções e prémios Recebeu as seguintes condecorações oficiais: Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito de França (? de ? de 1994) Grande-Oficial da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul do Brasil (? de ? de 1998) 20px Medalha de Mérito Empresarial da Câmara Municipal de Cascais (? de ? de 1999) Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra de França (? de ? de 2005) Grã-Cruz da Ordem do Mérito da República da Hungria (27 de Novembro de 2012) Foi distinguido na categoria Lifetime achivement em Mercados Financeiros nos Investor Relations and Governance Awards 2012, iniciativa da Deloitte que distingue as melhores práticas no sector empresarial.
Foi nomeado Economista do Ano, pela Associação Portuguesa de Economistas (1992) e Personalidade do Ano, pela Câmara Portuguesa de Comércio do Brasil (2001).
Doutoramentos honoris causa Em julho de 2013 foi-lhe atribuído o doutouramento Honoris Causa pela Universidade Técnica de Lisboa, tendo sido distinguido por serviços prestados à Economia, Cultura, Ciência e à Universidade.
Outros cargos Ricardo Salgado foi membro do Instituto Internacional de Estudos Bancários desde 2003 e seu presidente entre outubro 2005 e dezembro 2006. Foi também membro do Board of Directors, do Human Resources e Compensation Committee da NYSE Euronext.
Operação Monte Branco
Em 2012, Salgado rectificou por três vezes a sua declaração de IRS de 2011, tendo no total das rectificações pago mais de 4,3 milhões de euros de IRS face à colecta inicial. Em 2003, em entrevista ao jornal Expresso tinha afirmado: "As pessoas têm de aprender que devem pagar impostos".
Em 24 de julho de 2014, no Estoril, Salgado foi detido em sua casa, por alegado envolvimento na Operação Monte Branco, "que investiga a maior rede de branqueamento de capitais alguma vez detetada em Portugal". Depois de prestar declarações no Tribunal Central de Instrução Criminal foi posteriormente libertado e sujeito à prestação de uma caução de três milhões de euros. Segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), Salgado está indiciado por crimes de burla, abuso de confiança, falsificação e branqueamento de capitais. De acordo com o que foi defendido pelo procurador do Ministério Público após o interrogatório e ordenado pelo juiz Carlos Alexandre, o banqueiro ficou ainda proibido de se ausentar do território nacional e de efectuar contactos com determinadas pessoas que estão relacionadas com o processo.